Ismail Sobre Ford

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    O meio moderno, ao se apropriar do passado recente,projeta-o, mediante o distanciamento pico, dimensoidealizada da lenda ou do mito, mas no pode evitar aebulio dos fatos ainda recentes, que afloram de algummodo no passado reconstrudo. A zona de interseco do

    fato com a lenda o espao privilegiado do faroeste;John Ford o poeta desse espao.Davi Arrigucci Jr.1

    Owestern, como fico literria e gnero do cinema,construiu um imaginrio que transfigura uma experincia histricaem termos de uma pica que trabalha a conquista territorial como umeixo central da formao dos Estados Unidos, no plano da ordem so-

    cial e dos valores fundamentais que prepararam a nao no sentidomoderno. Essa formao, como foi o caso de outros pases emergi-dos de situaes coloniais, envolveu processos migratrios os mais

    variados e a prolongada guerra de extermnio contra as populaes

    [1] Arrigucci Jr., Davi. Entre a len-

    da e a histria, Suplemento MAIS,

    Folha de S.Paulo, 7/5/1995.

    JOHN FORD E OS HERIS DA TRANSIONO IMAGINRIO DO WESTERN

    Ismail Xavier

    RESUMO

    O artigo analisa o percurso do western de John Ford a partir

    deNo tempo das diligncias(1939),Rastros de dio(1956) e O homem que matou o facnora(1962), obras que compem uma

    trilogia voltada para distintas etapas da conquista do Oeste, ensejando a discusso sobre a relao do cineasta com a

    mitologia do gnero; de filme a filme, o estatuto do heri se desloca em consonncia com uma crescente reflexividade

    que interroga os pressupostos da formao nacional.

    PALAVRAS-CHAVE:John Ford; western; estatuto do heri; cinemaamericano.

    ABSTRACT

    This article focuses on John Ford westerns, dealing more

    specifically with Stagecoach(1939), The searchers (1956) and The man who shot Liberty Valance (1962), films that form a

    trilogy engaged in the representation of distinct stages of the conquest of the West, allowing for a discussion on Fords

    relationship with the mythology of the genre; from film to film, the heros status changes in consonance with an increa-

    sing reflexivity that interrogates the premises of the national formation.

    KEYWORDS:John Ford; western; status of the hero; American cinema.

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    [2] Ver Smith, Henry Nash. Virgin

    land: the American West as symbol and

    myth. Nova York: Vintage Books, 1950.

    [3] Sommers, Doris.Fices de funda-

    o: os romances nacionais da Amrica

    Latina. Belo Horizonte, UFMG, 2004.

    nativas que fez dessa expanso um processo representado,grosso modo,do ponto de vista dos vencedores.

    Se a conquista do Oeste marcou a dinmica social e econmicadepois da independncia, o imaginrio que a se constituiu no se

    reduz dimenso blica da conquista, ao domnio da natureza e apropriao de suas riquezas, mas inclui tambm um rebatimentosimblico que deu nova inflexo para um nacionalismo da singula-ridade de carter forjada na construo do novo homem revigora-do por tais desafios, apto a superar as doenas civilizacionais queteriam acometido uma Europa permeada de guerras de religio eperseguies das quais os puritanos fugiram em direo terra pro-metida. A conotao bblica presente nesse imaginrio se traduziu,por exemplo, na noo de Destino Manifesto, que supe o Novo

    Mundo como um territrio destinado aos brancos europeus, seusocupantes legtimos. Posse inelutvel que ganha especial inflexona ideia daquele carter nacional forjado em estreito contato comforas tectnicas que catalisam um novo modo de ser que, no limite,define uma espcie de Ado americano a cumprir a vocao de trans-formar o deserto uma terra virgem supostamente desabitada ouem mos que devem ser excludas em jardim2.

    Estes so temas presentes na histria do westerncomo gnero po-pular de filmes B que no excluiu cineastas de maior talento que assu-

    miram uma forma narrativo-dramtica embebida desse imaginrio,mas trabalharam de modo original, com um senso especial dessa di-nmica cultural presente na experincia dofrontier, o espao mtico deconfrontos que, segundo o mito, regeneram virtudes perdidas; postoavanado, zona liminar de passagem em que se constitui o contatocom a alteridade, o imaginrio das aventuras possveis, a celebraodos valores da guerra e da potncia individual de heris que vivemuma condio anterior constituio de um Estado-nao que vem seconstituir como instncia ordenadora que requer o exerccio do mo-

    noplio da violncia.Nesse sentido, o westernse inscreve no campo das fices de fun-

    dao, usando aqui a noo de Doris Sommer3. Nestas, dramas priva-dos e questes pblicas se entrelaam, Eros e Polis se unem; a paixoamorosa, o desejo heterossexual de um casal protagonista, se fundea uma teia de acontecimentos histricos de modo que o seu destinocondensa, como uma slida figura, o destino nacional, dado o pres-suposto de que esses dois planos de experincia expressam uma basecomum de valores, revelam uma sintonia que alia o percurso dos per-

    sonagens e os conflitos da histria.Sntese do mito da idade heroica dos fundadores, o gnero trouxe

    algo mais do que a expresso de tal mitologia, dando lugar, na sua evo-luo, a obras mais complexas que no s incorporaram os motivos

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    [4] Ver Turner, Freder ick Jackson.

    The frontier in American history. Nova

    York: Holt , Rinehart and Winston,

    1962. Para uma discusso da hiptese

    de Turner e suas implicaes, ver Slo-

    tkin, Richard. Gunfighter nation: the

    myth of the American frontier in twentie-th-century America. Nova York: Harper

    Perennial, 1993, pp. 29-62.

    das fices de fundao como tambm tensionaram seu universo comtramas e personagens que convidam reflexo sobre os valores efe-tivamente presentes, tanto naquele passado de formao quanto nopresente em que se insere a produo dos filmes. Tomo aqui o cinema

    de John Ford como referncia e destaco trs de suas melhores obras,No tempo das diligncias(Stagecoach, 1939),Rastros de dio(The searchers,1956) e O homem que matou o facnora(The man who shot Liberty Valance,1962), para apontar como formam uma trilogia que permite discutira relao entre o cineasta e os pressupostos dessa formao nacional.Ou seja, permite esclarecer o modo como ele lana indagaes que,sem dissolver a feio heroica de seus protagonistas e seus cdigosmarciais, sugerem uma articulao problemtica entre o imaginrioque celebra o indivduo como pilar, instncia fiadora de um ideal de

    sociedade, e as condies concretas de sua ao marcada por uma redede interesses e relaes sociais de poder.A trilogia aqui em pauta compreende filmes realizados em dis-

    tintas dcadas, cada qual apresentando uma forma prpria de tratara etapa vivida pelas personagens no processo geral de conquista e mo-dernizao:Stagecoachfocaliza o momento por excelncia da expansoterritorial entendida como um percurso ininterrupto do ir adiantereativado pela disponibilidade de novos frontiersnos vastos espaosdoFar West(includo o que era territrio mexicano), disponibilidade

    que, segundo a hiptese de Jackson Turner, formulada em 1893, haviasido essencial para a vitalidade desse processo de formao nacional,seja como condio de desenvolvimento econmico, seja como lugarde revigoramento do carter pelo mergulho e isolamento num mundode embates violentos visto como preldio de novos ciclos de avanoda civilizao4. The searchers desloca a nfase para a questo da guerrade extermnio e o papel do dio racial neste processo de crescente do-mnio do territrio e estabilizao de uma ordem social alimentadapela utopia de uma civilizao artesanal agrria de pequenas proprie-

    dades, seguindo a lei de distribuio de terras aprovada em 1862, oHomestead Act, que, mais efetivo por algumas dcadas, no atingiusuas metas, atropelado pela prpria dinmica da modernizao indus-trializante e de concentrao de capitais.The man who shot Liberty Valancetraz o West em seu momento de domnio territorial mais avanado, esua nfase dramtica recai sobre a superao da instabilidade vividapor uma comunidade ainda marcada pelo imperativo da passagem dodomnio absoluto das armas nova ordem de relaes mediadas pordispositivo legal mais estvel.

    Nos trs filmes, ressalvada sua distinta inscrio no tempo, o traocomum a tematizao da passagem da lei do sangue para a lei daPolis; da cadeia da vingana centrada nos assuntos de famlia ou nodespotismo patriarcal de criadores de gado, para a conformao da

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    justia mediada por um quadro institucional apoiado na constituiodo Estado nacional.

    Vale nestes casos um esquema romanesco que uma verso mo-derna (e popular) do que vemos na tragdia grega, em especial na trilo-

    gia de squilo a Oresteia que tematiza essa passagem quando secompleta a travessia de Orestes. Na terceira parte da trilogia (Eumni-des), a deusa Atena instaura no Olimpo o tribunal que faz prevalecer alei da Polis e absolve o heri da condenao pela lei do sangue, ou seja,da perseguio das Frias, as guardis das leis da famlia que tensio-naram a etapa anterior da travessia.

    Os trs filmes, na forma de compor o drama e tramar o seu des-fecho, se posicionam de modo original em face dos paradigmas quese combinam e se sucedem no mito da conquista. Ao mesmo tempo,

    compem dois movimentos que vale antecipar: (1) h um gradativodeslocamento do heri que encarna os valores marciais ogunfighter e seu modo de cumprir um papel que tem enorme relevncia no con-texto em que vive seus combates, mas trao comum ele se destinar auma nova condio que o afasta do convvio com os represe