O uso de álcool por jovens e suas consequências

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  • 1. 1 O USO DE LCOOL POR JOVENS E SUAS CONSEQUNCIAS1 Heidi Maria Belau da Luz2 Crmen Marilei Gomes3 RESUMO O uso do lcool por jovens est comeando cada vez mais cedo. Atualmente, jovens na faixa etria entre 12 e 20 anos j esto bebendo e, muitas vezes, com o aval dos prprios pais. Ignoram o malefcio que esto causando em seu crebro, em seu crescimento e desenvolvimento. O objetivo deste estudo foi investigar os fatores que precedem a ingesto da bebida alcolica em jovens, assim como as consequncias comportamentais associadas ao consumo do lcool. O presente estudo apoiou-se na pesquisa quantitativa, participando deste estudo 30 adolescentes, divididos em 16 meninas e 14 meninos, com idades entre 14 e 18 anos, escolhidos aleatoriamente, em duas escolas pblicas, do municpio de Sapiranga/RS. O instrumento utilizado para a coleta de dados foi um questionrio, contendo 21 questes pertinentes ao assunto. Depois de realizada a coleta de dados, utilizou-se o programa SPSS para a anlise de frequncia das respostas apresentadas no questionrio. Nos resultados, pode-se constatar que adolescentes do sexo feminino, alm de comearem mais cedo a ingerir bebida alcolica, esto bebendo mais do que os do sexo masculino. Tambm foi observado que os pais permitem que os adolescentes bebam precocemente. Evidenciou-se ainda que os adolescentes concordam com a afirmao de que o lcool modifica o comportamento do indivduo, mas, mesmo assim, continuam a us-lo como artifcio para se sentirem mais alegres e para superarem alguns problemas relativos famlia, ou at para se sentirem mais agitados. Palavras chave: lcool, jovens, consequncias comportamentais . INTRODUO Sendo o Brasil um dos pases onde a violncia mais compromete a vida da populao mais jovem, o uso do lcool na faixa etria dos 12 aos 20 anos tem papel destacado na dinmica destas causas, ora como fator causal, ora como fator coadjuvante (LIMA, 2008). Para este autor, ao se discutir a situao da juventude, em relao ao consumo de bebidas alcolicas, qualquer que seja o tipo e teor alcolico (cerveja, vinho, cachaa e similares), no se pode deixar de destacar a 1 Artigo de pesquisa apresentado ao Curso de Psicologia das Faculdades Integradas de Taquara, como requisito parcial para aprovao na disciplina Trabalho de Concluso II. 2 Acadmica do Curso de Psicologia da FACCAT. Email: belaudaluz@hotmail.com. 3 Biloga (UFRGS), Mestre e Doutora em Neurocincias (UFRGS), Ps-Doutora em Fisiologia (USP), Professora do Curso de Psicologia da FACCAT. E-mail: cmarilei@terra.com.br

2. 2 questo do elevado e crescente consumo de lcool entre os jovens (pr- adolescentes, adolescentes e adultos jovens de ambos os sexos). O lcool a droga mais usada entre os jovens, atingindo mais da metade daqueles entre 14 e 18 anos. Conforme Zagury (2002), o lcool ganha disparado, em primeiro lugar, porque a sociedade como um todo tolera e, de certa forma, at incentiva o seu uso. O maior problema a que a autora se refere que os pais incentivam o jovem a beber, seja por atitudes ou at por simples consentimento, achando que a bebida mais inofensiva do que a droga ilcita. Certamente no s essa atitude que induz o jovem ao alcoolismo, h o prprio exemplo na famlia e na sociedade como um todo, assim como fatores genticos. A convivncia com pessoas que usam lcool com frequncia tende a levar os jovens a ver sua utilizao como uma coisa natural. A facilidade com que eles compram bebida alcolica leva-os a pensar que esto tendo uma atitude correta. Tudo isto aliado ao fato de que alguns estabelecimentos comerciais no esto preocupados em seguir a lei que probe a venda de lcool para menores de 18 anos (ZAGURY, 2002). Sabendo que o lcool prejudicial sade do individuo, por que, ento, barzinhos e lanchonetes e at lojas em Shopping Center vendem bebidas aos jovens? Tais questionamentos levam a pensar que h um descaso com a sade dos adolescentes. O presente artigo tem como objetivo investigar os efeitos do consumo de lcool no comportamento social desses indivduos e os motivos que precedem o uso dessa bebida. 1 O USO PRECOCE DO LCOOL NA ADOLESCNCIA E A PARTICIPAO DA FAMLIA Atualmente, os jovens esto bebendo lcool cada vez mais precocemente. Adolescentes de 12 anos j ingerem a bebida, desconhecendo o perigo desta atitude. Sendo a adolescncia o perodo de transio entre a infncia e a vida adulta, caracterizada pelos impulsos do crescimento corporal, pelas mudanas no desenvolvimento emocional, mental e social, e pelos esforos do indivduo em alcanar os objetivos relacionados s expectativas culturais da sociedade e do grupo familiar, sem dvida tudo isso gera no jovem uma insegurana imensa (MELLO FILHO, 2004). 3. 3 A adolescncia, para Mello Filho (2004), inicia com a puberdade e termina quando ocorre a consolidao do crescimento e da personalidade. Nesta fase, a funo da famlia importantssima. Conforme Ferrarini (1980), a famlia precisa ser compreensiva, dando apoio, carinho e tendo dilogo aberto, mostrando aos adolescentes que eles tm apoio e uma estrutura para enfrentar esta fase de transio, com segurana. Mello Filho (2004) salienta que a adolescncia um estgio do ciclo de vida, que uma fase de transio, tanto para a famlia como para a criana. Nesta fase, os adolescentes usam o referencial da famlia como seu modelo. Porm, muitas vezes, estes modelos no so exatamente como eles gostariam que fossem. Os pais geralmente no conseguem transmitir aos adolescentes o que esto buscando. Sendo assim, os jovens acabam encontrando na bebida alcolica a satisfao para diminuir suas ansiedades. Assumpo Jr. e Kuczynski (2003) relatam que o adolescente que no encontrar regras claras e limites na famlia sentir-se- inseguro e, na tentativa de descobrir as regras do mundo, ir testar os limites, muitas vezes deparando-se com frustraes, buscando no lcool solues mgicas. Segundo Zagury (2002), o meio pode influir positiva ou negativamente sobre as pessoas. A famlia uma das mais fortes influncias do meio, talvez a mais forte de todas. A ao educativa da famlia exerce um poderoso efeito na criana e no adolescente. A prpria famlia, sendo o exemplo para as crianas e para os adolescentes, pode incentiv-los a ingerir bebida alcolica. O grande problema que alguns pais, alm de entenderem que beber sinnimo de masculinidade, acham bonito e se orgulham quando os filhos, principalmente do sexo masculino, tomam uns golinhos de cerveja ou bebem o usque do pai (ZAGURY, 2002). Conforme Serrat (2001), o maior medo da famlia centra-se nas drogas ilcitas como a maconha, porm desconhecem o malefcio que o lcool pode ocasionar no crebro jovem. Segundo este autor, os pais que bebem incentivam os filhos a beberem, no por meio de palavras, mas por meio de atitudes. Para Soares (2006), o comportamento dos adultos fundamental para definir a relao dos filhos com o lcool. Atitudes negativas dos pais podem levar os filhos a atos destrutivos, como o envolvimento com essa bebida. 4. 4 Guimares et.al. (2009) salientam que a famlia de adolescentes, dependentes de lcool, mais disfuncional que a famlia de adolescentes no dependentes desta droga. A tendncia ao vcio est intimamente relacionada ao papel da famlia, ou seja, a qualidade de vida familiar que estabelece o comportamento do jovem frente s substncias psicoativas (PRATTA e SANTOS, 2006). Para estes autores, os pais com menor probabilidade de terem filhos adolescentes envolvidos com drogas lcitas ou ilcitas, ou que desenvolvam condutas antissociais, so aqueles que estabelecem uma boa relao afetiva e de apego com os filhos. Tambm se salienta o no consumo de nenhum tipo de droga, seja lcita ou ilcita, e que no possuam atitudes convencionais ou de conformidade com as normas sociais estabelecidas, entre elas a intolerncia com as drogas. O uso de drogas lcitas ou ilcitas, pelos pais, irmos ou parentes prximos, um dos maiores fatores de risco, haja vista que os jovens geralmente usam essas pessoas como referencial (PRATTA e SANTOS, 2006). O ambiente familiar e as maneiras como os membros interagem podem contribuir para o risco dos problemas, em geral o alcoolismo parental associado variedade de resultados negativos para o adolescente. Filhos de pais que bebem exibem elevada probabilidade de desenvolver problemas com abuso do lcool (JERONYMO e CARVALHO, 2005). 1.1 Os efeitos do lcool no crebro jovem Durante a adolescncia, l pelos 12 anos, o crebro passa por uma srie de mudanas. H reduo de substncia cinzenta. medida que as conexes neuronais so refinadas; aos 16 anos, o crebro ainda est em desenvolvimento, sendo mais sensvel s drogas como o lcool; aos 20 anos, as mudanas causadas pelo uso de algumas substncias tm probabilidade maior de serem retidas e ficarem registradas como drogadio ou alcoolismo at a idade adulta (NIEL, JULIO e SILVEIRA, 2007). O principal neurotransmissor com funes inibitrias no crebro o GABA. O etanol (lcool) acentua efeitos do GABA sobre seus receptores celulares, em diversas reas do crebro. Alguns efeitos do lcool, como a falta de coordenao e o efeito ansioltico so mediados por esta interao entre o etanol e os receptores do GABA. O etanol um potente inibidor do receptor NMDA (N-metil-D-aspartato) ao aminocido excitatrio Glutamato. A interao entre o glutamato e seu receptor 5. 5 NMDA so importantes em diversos mecanismos celulares, sendo responsveis pela formao da memria e pelo desenvolvimento neuronal. Efeitos amnsicos e ansiolticos do etanol so fortemente explicados pela interferncia desta droga sobre essa interao (JABER FILHO e ANDR, 2002). A administrao do etanol ativa fortemente o sistema dopaminrgico de neurotransmisso que parte de certas reas do tronco cerebral para outras regies do crebro como lobos frontais, nucleus accumbens e outras reas lmbicas (JABER FILHO e ANDR, 2002). O nucleus accumbens faz parte do sistema de recompensa do crebro; e os maestros desse sistema so os neurotransmissores GABA e a dopamina, sendo a ltima responsvel pela sensao de prazer e o GABA como inibidor, evitando que os neurn