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UNESP UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” Faculdade de Ciências e Letras Campus de Araraquara – SP FERNANDA MASSI OS ROMANCES POLICIAIS MÍSTICO- RELIGIOSOS MAIS VENDIDOS NO BRASIL DE 1980 A 2009: Questões de narratividade e de actorialização ARARAQUARA SP 2013

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UNESP UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA JLIO DE MESQUITA FILHO

Faculdade de Cincias e Letras Campus de Araraquara SP

FERNANDA MASSI

OS ROMANCES POLICIAIS MSTICO-

RELIGIOSOS MAIS VENDIDOS NO BRASIL DE 1980 A 2009: Questes de narratividade e de

actorializao

ARARAQUARA SP

2013

Fernanda Massi

OS ROMANCES POLICIAIS MSTICO-RELIGIOSOS MAIS VENDIDOS NO BRASIL DE

1980 A 2009: Questes de narratividade e de actorializao

Tese de doutorado apresentada ao Departamento de Lingustica, do Programa de Ps-Graduao em Lingustica e Lngua Portuguesa da Faculdade de Cincias e Letras UNESP/Araraquara, como requisito para obteno do ttulo de Doutor. Linha de pesquisa: Teoria e Anlise Lingustica - Semitica Orientador: Arnaldo Cortina Bolsa: FAPESP

ARARAQUARA SP

2013

Massi, Fernanda

Os romances policiais mstico-religiosos mais vendidos no Brasil de 1980-2009: questes de narrativdade e de actorializao / Fernanda Massi 2013

171 f. ; 30 cm

Tese (Doutorado em Lingustica e Lngua Portuguesa) Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Cincias e Letras, Campus de Araraquara

Orientador: Arnaldo Cortina

l. Romance policial. 2. Religiosidade. 3. Segredo. 4. Best-sellers. I. Ttulo.

FERNANDA MASSI

OS ROMANCES POLICIAIS MSTICO-RELIGIOSOS MAIS

VENDIDOS NO BRASIL DE 1980 A 2009: Questes de narratividade e de actorializao

Tese de doutorado apresentada ao Programa de Ps Graduao em Lingustica e Lngua Portuguesa da Faculdade de Cincias e Letras UNESP/Araraquara, como requisito para obteno do ttulo de Doutor em Lingustica e Lngua Portuguesa. Linha de pesquisa: Teoria e Anlise Lingustica - Semitica Orientador: Arnaldo Cortina Bolsa: FAPESP

Data da defesa: 26/04/2013 M EMBROS COMPONENTES DA BANCA EXAMINADORA : Presidente e Orientador: Prof. Dr. Arnaldo Cortina Faculdade de Cincias e Letras/Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Araraquara Membro Titular: Profa. Dra. Renata Maria Facuri Coelho Marchezan Faculdade de Cincias e Letras/Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Araraquara Membro Titular: Prof. Dr. Jean Cristtus Portela Faculdade de Cincias e Letras/Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Araraquara Membro Titular: Profa. Dra. Norma Discini de Campos Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas/Universidade de So Paulo (USP) Membro Titular: Prof. Dr. Marcelo Machado Martins Unidade Acadmica de Garanhuns/Universidade Federal Rural de Pernambuco ____________________________________________________________________________________ Local: Universidade Estadual Paulista Faculdade de Cincias e Letras UNESP Campus de Araraquara

AGRADECIMENTOS

A meu orientador Arnaldo Cortina, pelo companheirismo e cumplicidade no desenvolvimento desta

e de outras pesquisas (iniciao cientfica e mestrado), pela prontido em me ajudar a qualquer

momento e pela autonomia que me ofereceu no desenvolvimento deste trabalho.

FAPESP, por ter contribudo de forma incisiva em minha formao de pesquisadora, financiando

minhas pesquisas de iniciao cientfica, mestrado e doutorado. Agradeo tambm pelo

financiamento do estgio doutoral no exterior, que foi de grande valia para o desenvolvimento desta

tese.

Ao programa de ps-graduao da Faculdade de Cincias e Letras da UNESP Araraquara, pela

qualidade no ensino e pelas inmeras oportunidades que me proporcionou, dentre elas, a publicao

de um livro.

Ao professor Jacques Fontanille, da Universit de Limoges (UNILIM), responsvel por meu estgio

doutoral na Frana.

Aos membros da banca de qualificao e defesa, que se ocuparam da anlise deste trabalho e

contriburam para sua melhoria.

Ao Maicon, pela motivao e pacincia.

minha famlia, pela parceria que sempre resultou em opinies contundentes.

RESUMO Este trabalho resultado de uma extensa pesquisa sobre o gnero policial que teve incio com o estudo dos romances policiais tradicionais. Desde a insero da figura do detetive Auguste Dupin nos contos de mistrio de Edgar Allan Poe, no sculo XIX, a narrativa policial composta, fundamentalmente, por um crime (geralmente, o assassinato), cuja autoria desconhecida, e uma investigao em busca da identidade do criminoso, realizada por um detetive profissional. Essa estrutura vem sendo reproduzida por diversos autores ao longo de muitas dcadas. Ao estudarmos os romances policiais contemporneos mais vendidos no Brasil no perodo de 2000 a 2007, em outra pesquisa, detectamos que essas narrativas transgrediam algumas regras impostas ao gnero e estabelecemos trs categorias temticas para enquadr-las, quais sejam misticismo e religiosidade, temticas sociais e thrillers . Essa caracterizao nos mostrou que as obras pertencentes temtica misticismo e religiosidade se distanciaram de forma significativa do modelo de romance policial tradicional, incorporando novos elementos ao gnero. Para esta pesquisa, selecionamos os romances policiais mais vendidos no Brasil de 1980 a 2009 que abordam o tema mstico-religioso em seus enredos mostrando que a insero dessa temtica no gnero policial foi responsvel pela criao de um subgnero do romance policial, que intitulamos romance policial mstico-religioso. Partindo da semitica discursiva em busca da anlise e da construo do sentido, destacamos os elementos que configuram os romances policiais mstico-religiosos. Nesse subgnero, o crime vai muito alm do assassinato, pois se relaciona a um segredo ligado a uma questo mstico-religiosa protegida por uma sociedade fechada, que sofre ameaas de um inimigo. A funo da investigao, por sua vez, a busca da verdade, no apenas em relao identidade do criminoso, mas tambm em relao tentativa de revelao ou manuteno do segredo, que causou os crimes. Outro trao marcante do romance policial mstico-religioso a tentativa de desmoralizao da Igreja Catlica, que se manifesta tanto no enunciado quanto na enunciao. Tendo em vista que a narrativa policial tradicional apresenta um enredo fechado em torno do crime, os romances policiais mstico-religiosos expandiram seus limites, permitindo a insero de outras questes alm da busca da identidade do criminoso. Dessa forma, o romance policial mstico-religioso tem feito muito sucesso na sociedade contempornea e vem conquistando o pblico leitor de romances policiais. Palavras-chave: Romance policial. Misticismo. Religiosidade. Segredo. Best-sellers.

RSUM Ce travail est le rsultat dune large recherche sur le genre policier qui a debut avec ltude des romans policiers traditionnels. Depuis linsertion de la figure du dtective Auguste Dupin dans les contes de mystre de Edgar Allan Poe, au XIXme sicle, le rcit policier est compos, essentiellement, par un crime (en gnral, lassassinat), donc lauteur nest pas connu, et une enqute la recherche de lidentit du assassin, qui est ralis par un dtective professionnel. Cette structure a t reproduite par de nombreux auteurs pendant beaucoup de dcennies. Aprs tudier les romans policiers contemporains plus vendus au Brsil au priode de 2000 a 2007, lautre recherche, nous avons detect que ces narratives transgressent quelques regls du genre et nous avons tabli trois catgories thmatiques pour les distinguer, qui sont mysticisme et religion , thmatiques sociaux et thrillers . Cette caractrisation nous a montr que les oeuvres qui appartiennent la thmatique mysticisme et religion divergent considrablement du modle de roman policier traditionnel en intgrant de nouveaux lments au genre. Pour cette recheche, nous avons slectionn les romans policiers plus vendus au Brsil au priode de 1980 a 2009 qui soccupent du mysticisme et de la religion dans leurs histoires pour montrer que linsertion de cette thmatique au genre policier a cr un surgenre du roman policier, que nous avons nomm le roman policier mystique-religieux . partir de la smiotique discursif la recherche de la construction du sens, nous avons analis les lements qui composent les romans policiers mystique-religieux. Le crime va bien au-del de lassassinat, parce qu'il se rapporte un secret reli une affaire mystique-religieuse protge par une socit ferme, qui souffre d'une menace ennemie. Le rle de linvestigation, son tour, est la recherche de la verit, non seulement en ce qui concerne lidentit de lassassin, mais aussi en relation lessaye de rvlation ou de maintenance du secret qui a provoqu les crimes. Lautre trait bien marqu du roman policier mystique-religieuse est lessaye de dmoralisation de lglise Catholique, qui se manifeste tant lennoc quant lenunciation. Etant donn que le rcit policier prsente une intrigue ferm autour dun crime, les romans policiers mystique-religieux ont largi les frontires du genre, ce qui permet linclusion dautres questions au del de la recherche de lidentit du criminel. De cette manire, le roman policier mystique-religieuse fait beaucoup de succs dans la societ contemporain et il a conquist le publique lecteur de romans policiers. Mots-cls : Roman policier contemporain. Mysticisme. Religion. Secret. Best-sellers.

SUMRIO

INTRODUO 7 1 O ROMANCE POLICIAL 15

1.1 Os gneros do discurso 15 1.2 O gnero policial 25

2 OS ROMANCES POLICIAIS MSTICO-RELIGIOSOS MAIS VEN DIDOS NO BRASIL DE 1980 A 2009: anlise do corpus

39

2.1 O nome da Rosa, de Umberto Eco 51 2.2 O ltimo cabalista de Lisboa, de Richard Zimler 61 2.3 O cdigo Da Vinci, de Dan Brown 69 2.4 Os crimes do mosaico, de Giulio Leoni 78 2.5 O ltimo templrio, de Raymond Khoury 83 2.6 Anjos e demnios, de Dan Brown 89 2.7 O smbolo perdido, de Dan Brown 100 2.8 O romance policial mstico-religioso

109

3 OS DETETIVES DOS ROMANCES POLICIAIS MSTICO-REL IGIOSOS MAIS VENDIDOS NO BRASIL DE 1980 A 2009

122

4 MISTICISMO E RELIGIOSIDADE NA SOCIEDADE CONTEMPOR NEA 143 CONCLUSO 155 REFERNCIAS 167 BIBLIOGRAFIA CONSULTADA 170

7

INTRODUO

O estudo dos livros mais vendidos no Brasil vem sendo desenvolvido por Cortina

(2006) desde sua tese de livre-docncia, intitulada Leitor contemporneo: os livros mais

vendidos no Brasil de 1966 a 2004. Nesse trabalho, examinou-se o perfil do leitor brasileiro

a partir das listas dos best-sellers publicadas em dois jornais brasileiros, quais sejam, Leia

(para o perodo de abril de 1978 a setembro de 1991) e Jornal do Brasil (de 1966 at

dezembro de 2004). Apoiando-se na teoria semitica discursiva, Cortina (2006) contraps o

ethos do enunciador-leitor ao pathos do enunciatrio dos discursos de leitura.

O grupo de pesquisa no qual este trabalho se insere, intitulado GPS-UNESP1 (Grupo

de Pesquisas Semiticas da UNESP), vem desenvolvendo trabalhos de iniciao cientfica,

mestrado e doutorado em que se analisam os livros mais vendidos no Brasil partindo das

listas coletadas por Cortina (2006). Por meio do embasamento terico da semitica

discursiva, as pesquisas tm estabelecido diferentes tipologias textuais e cada pesquisador

ocupa-se de um gnero e um perodo especfico.

Em pesquisa de mestrado (MASSI, 2010), constitumos nosso corpus pelos

romances policiais mais vendidos no Brasil no perodo de 2000 a 2007. Nesse perodo no

havia as listas dos livros mais vendidos publicadas pelo jornal Leia, por isso, utilizamos as

listas do Jornal do Brasil. Nosso trabalho buscou estudar a configurao dessas narrativas

policiais, com nfase no nvel narrativo do percurso gerativo de sentido da semitica

discursiva, levando em conta as caractersticas do gnero policial. Verificamos quais foram

as mudanas mais significativas nesse tipo de texto e como eles puderam ser classificados

dentro de suas variantes.

A seleo do corpus de pesquisa foi feita a partir da classificao dos livros mais

vendidos no Brasil de 2000 a 2007 nas categorias biografia, poesia, romance, medicina e

sade, autoajuda, romance policial, etc. Essa separao foi realizada por meio de pesquisa

que inclua o ttulo e o autor dos livros realizada nos sites das livrarias Cultura e Saraiva e

nas lojas virtuais Americanas e Submarino. Tais classificaes eram feitas pelos sites ou

1 O grupo intitulava-se GELE (Grupo de Estudos sobre Leitura), mas teve seu nome modificado em maro de 2013.

8

pelos editores nas sinopses das obras. Dessa forma, encontramos vinte e dois livros

classificados como romances policiais.

Tomando como suporte a semitica discursiva no estudo dos elementos

constitutivos da narrativa policial, com nfase para os percursos narrativos realizados pelos

sujeitos do fazer, o detetive e o criminoso, estabelecemos as principais diferenas entre o

que denominamos romances policiais tradicionais, como as obras de Agatha Christie, e

romances policiais contemporneos, que foram publicados no perodo estabelecido em

nosso trabalho, qual seja, de 2000 a 2007 (MASSI, 2010). Nos romances policiais

contemporneos constatou-se que o fazer do detetive no se centra exclusivamente na

descoberta da identidade do criminoso, j que no esse o nico segredo da narrativa.

Muitas vezes, o assassinato s serve de estmulo para que o detetive realize outras

investigaes a respeito, por exemplo, da motivao do criminoso, das consequncias do

assassinato para a sociedade, etc.

A anlise dos vinte e dois romances policiais desse corpus de pesquisa (MASSI,

2010) permitiu-nos separar as obras em trs grupos de acordo com o distanciamento que

mantinham em relao ao gnero policial, caracterizado essencialmente pela ausncia de

um criminoso profissional, pelo foco do enredo centrado na investigao em busca do autor

do crime, pela presena de um nico detetive, com capacidade extraordinria de raciocnio,

pelo no envolvimento amoroso entre personagens ligados investigao, pela sano

negativa do criminoso pelo detetive, pela sano positiva do detetive pela sociedade, etc.

Alguns autores dos romances policiais contemporneos mantiveram, no enredo, a

presena de um sujeito extraordinrio realizando uma investigao em busca do criminoso.

Phyllis Dorothy James, autora de O farol, Morte no seminrio e O enigma de Sally

estudados em Massi (2010) criou o detetive Adam Dalgliesh para resolver os mistrios

em torno dos assassinatos. Outros autores, por sua vez, instauraram grupos de investigao,

advogados, reprteres e professores para buscar o culpado pelo crime como ocorre em O

colecionador de ossos, de Jeffery Deaver, tambm discutido em Massi (2010) em que um

grupo de especialistas em diversas reas (criminal, medicinal, legal, psicolgica) busca um

assassino em srie. Em alguns romances policiais contemporneos o enredo deixou de

focar a perfrmance do detetive para privilegiar a perfrmance do criminoso, a fim de

amedrontar e aterrorizar o leitor, como ocorre nos thrillers (MASSI, 2010, p.120): O

9

colecionador de ossos; Cdigo explosivo; O vingador; Mosca-Varejeira; Gone, baby, gone

e Brincando com fogo.

A partir dessas e de outras diferenas, que no sero aqui citadas, mas que foram

discutidas a fundo em Massi (2010, p.92), estabelecemos trs grupos, que denominamos

categorias temticas, para enquadrar os vinte e dois romances policiais contemporneos

de acordo com os temas que prevaleciam no enredo. So elas:

(1) misticismo e religiosidade, romances policiais que tm como n um enigma mstico ou religioso a ser desvendado; (2) temticas sociais, romances policiais que se prendem a outros aspectos da narrativa alm do crime, abordando temas da sociedade atual, como a corrupo, a violncia, a disputa pelo poder econmico ou hierrquico; (3) thrillers, romances policiais de suspense que suscitam terror e medo nos leitores. (MASSI, 2010, p.93).

As denominaes misticismo e religiosidade e temticas sociais foram criadas

nesse trabalho (MASSI, 2010) a partir das caractersticas dos romances policiais

contemporneos selecionados para compor esses grupos. J o tipo thriller foi definido

por Fiorin (1990, p.94) como uma narrativa na qual sabe-se quem o criminoso, mas no

se sabe se ele receber ou no a sano pragmtica, isto , o castigo pelo delito que

praticou.

Para esta pesquisa, escolhemos a categoria temtica misticismo e religiosidade

como objeto de estudo por ser a que mais se diferencia do modelo proposto ao gnero

policial. Nesse tipo de romance policial o segredo que prevalece na narrativa no apenas

acerca da identidade do criminoso, mas tambm, e principalmente, sobre alguma

informao religiosa decisiva para a vida das outras personagens (MASSI, 2010, p.104).

Alm dos romances policiais que estudamos em Massi (2010) O cdigo Da Vinci, de Dan

Brown; O ltimo templrio, de Raymond Khoury, e Os crimes do mosaico, de Giulio Leoni

selecionamos para o corpus desta pesquisa os romances policiais mais vendidos no Brasil

no perodo de 1980 a 2009, que apresentavam em seus enredos a temtica misticismo e

religiosidade, a fim de obter uma amostra mais significativa desse tipo de texto que

compreendesse um perodo maior. Com essa expanso do corpus pudemos verificar, por

meio das influncias que um autor exerceu sobre o outro, que os romances policiais

10

contemporneos estavam ganhando corpo e se constituindo como um tipo especfico de

texto.

O critrio de seleo das obras a serem estudadas neste trabalho foi o mesmo

utilizado na pesquisa anterior (MASSI, 2010), qual seja, a busca de romances policiais nas

listas dos livros mais vendidos publicadas no Jornal do Brasil. Para o perodo de 1980 a

2007, contamos com as listas j disponveis no levantamento realizado por Cortina (2006).

Para os anos de 2008 e 2009 realizamos uma nova busca junto aos arquivos do Jornal do

Brasil na cidade do Rio de Janeiro no incio do ano 20102. Em seguida, verificamos quais

dos romances policiais selecionados apresentavam a temtica misticismo e religiosidade,

partindo das caractersticas definidas em Massi (2010). Em virtude da ausncia de

informaes disponibilizadas na internet sobre alguns livros, foi necessrio adquiri-los para

que a leitura indicasse a presena ou a ausncia de elementos prprios da temtica

misticismo e religiosidade e do gnero policial nessas narrativas.

Dessa forma, o corpus de pesquisa elaborado antes da leitura das obras e

inicialmente apresentado no projeto de doutorado enviado FAPESP e ao Programa de

Ps-Graduao em Lingustica e Lngua Portuguesa da UNESP Araraquara em setembro de

2009 sofreu algumas alteraes, no apenas pelo acrscimo de obras (dos anos 2008 e

2009, cujo levantamento ainda no havia sido finalizado em setembro/2009), mas tambm

pela excluso de outras. As obras que haviam sido inicialmente selecionadas, mas que

foram excludas aps o amadurecimento da pesquisa so: O enigma do quatro, de Ian

Caldwell; O herege, de Bernard Cornwell; Sagrado, de Dennis Lehane; O santo graal e a

linhagem sagrada, de Michel Baigent et al; e A ordem negra, de James Rollins.

O enigma do quatro foi estudado em Massi (2010) como um romance policial

pertencente categoria temtica misticismo e religiosidade. Aps debate com o

orientador da pesquisa e releitura da obra, concordamos com a excluso desse romance

policial do grupo misticismo e religiosidade uma vez que o enredo envolve apenas uma

questo mstica e os personagens no esto ligados a uma instituio religiosa, fraternidade

ou qualquer grupo do tipo. Na obra O herege, o equvoco se deu em relao a sua

classificao como romance policial, pois o enredo no apresenta os elementos essenciais

2 A visita aos arquivos foi necessria tendo em vista que o jornal havia sido retirado de circulao. Os novos levantamentos desse perodo (2008 e 2009) tambm foram utilizados por outros pesquisadores do grupo GPS-UNESP.

11

ao gnero que sero discutidos no primeiro captulo desta tese. Aps a leitura da obra,

constatou-se que se trata de um romance de aventura e ao envolvendo questes religiosas.

O livro Sagrado, ao contrrio, um romance policial, mas o crime central no envolve

questes religiosas, apenas cometido por um integrante de uma espcie de Igreja, que

presta servios de auxlio a pessoas depressivas, com o objetivo de roubar o dinheiro das

vtimas. O santo graal e a linhagem sagrada no um romance policial, mas sim um relato

de uma pesquisa cientfica em torno dos mistrios do Santo Graal. Por fim, em A ordem

negra h uma narrativa de suspense em torno de uma Bblia que pertenceu a Charles

Darwin, porm, o que interessa investigao a rvore genealgica desenhada por

Darwin na Bblia e no seu contedo religioso. Trata-se de uma obra de fico cientfica

com traos de romance policial.

Sendo assim, a partir da metodologia de seleo aqui descrita, encontramos sete

romances policiais entre os livros mais vendidos no Brasil no perodo de 1980 a 2009 que

se enquadraram em nossa proposta inicial de trabalho, que apenas relacionava o gnero

policial temtica misticismo e religiosidade. So eles:

Quadro 1 Corpus de pesquisa

ROMANCE AUTOR ANO3 O nome da Rosa Umberto Eco 1984

O ltimo cabalista de Lisboa Richard Zimler 1990 O cdigo Da Vinci Dan Brown 2004

Os crimes do mosaico Giulio Leoni 2005 O ltimo templrio Raymond Khoury 2006 Anjos e demnios Dan Brown 2007 O smbolo perdido Dan Brown 2009

Fonte: Elaborao prpria

Dentro do perodo em que estabelecemos o corpus desta pesquisa, o livro de

Umberto Eco, O nome da Rosa, o primeiro romance policial que explora a temtica

mstico-religiosa ao atribuir a Deus a responsabilidade pelos assassinatos ocorridos em um

mosteiro medieval, num ato de julgamento de prticas herticas cometidas por jovens

monges. O sucesso da obra de Umberto Eco, tanto em forma de livro quanto de filme

(lanado em 1984 com o mesmo ttulo), consolidou o interesse do pblico leitor por

3 Ano em que a obra apareceu nas listas dos livros mais vendidos no Brasil, publicadas no Jornal do Brasil, que no corresponde necessariamente ao ano de publicao.

12

romances policiais que abordam a temtica mstico-religiosa e fez com que outras obras

desse tipo tambm ocupassem as listas dos livros mais vendidos no Brasil.

Nosso corpus mostra que a temtica mstico-religiosa vem ganhando espao no

gnero policial, especialmente no perodo de 2000 a 2009. Desde sua criao, a narrativa

policial faz muito sucesso e agrada diferentes pblicos no mundo todo, os quais buscam o

entretenimento com sua leitura e se excitam com a tentativa de soluo do mistrio

desenvolvida pelo detetive. O aumento das vendas e, consequentemente, dos leitores de

narrativas policiais que tratam do tema mstico-religioso pode ser decorrente da aceitao

dessa temtica pelo leitor do gnero policial, pelo leitor de textos mstico-religiosos que

passou a ler tambm romances policiais ou ainda, por novos leitores, que, at ento, no

eram aficionados nem pelo gnero policial nem pelo tema mstico-religioso, mas aprovaram

a mistura desses dois tipos de texto. Dessas hipteses, cabe-nos a constatao de que esse

tipo de romance policial foi bem aceito pelo leitor brasileiro de best-sellers.

Sabe-se que a temtica mstico-religiosa est presente na sociedade contempornea

de forma contundente, como pode ser observado em vrios best-sellers de autoajuda, nas

inmeras religies que so criadas frequentemente, na expanso de igrejas j existentes

devido ao aumento do nmero de fiis, etc. Ao analisarmos os romances policiais de nosso

corpus de pesquisa, mostraremos de que forma as questes mstico-religiosas se entranham

ao ncleo da narrativa policial e se relacionam ao enigma envolvendo crimes misteriosos

configurando, portanto, uma nova espcie de narrativa policial, um subgnero.

Em Massi (2010) j havamos avanado no sentido de entender os elementos

mstico-religiosos como constituintes do que denominamos categoria temtica. Nesta tese

nos desprendemos da noo de categoria temtica passando para o conceito de

subgnero. O que antes era visto por ns como apenas um tema ganhou fora na narrativa

policial e se tornou um elemento gerador de um subgnero do romance policial que

chamaremos, daqui em diante, de romance policial mstico-religioso.

Embora no tenhamos nos preocupado com o momento exato em que o romance

policial mstico-religioso surgiu, pois trabalhamos com um corpus especfico e restrito a

determinado perodo (1980 a 2009), no encontramos trabalhos que tenham entendido essa

unio do tema mstico-religioso ao gnero policial como um subgnero do romance

policial. H muitos estudos sobre o romance policial O nome da Rosa devido ao sucesso

13

inquestionvel dessa obra e de seu autor e outros sobre alguns dos livros de nosso corpus

de pesquisa principalmente as obras de Dan Brown, que fazem muito sucesso no mundo

todo. Nenhum deles, porm, agrupa esses romances policiais como um todo e os enxerga

como constituintes de um subgnero do romance policial, intitulado romance policial

mstico-religioso. Nosso trabalho descreve esse subgnero apresentando os elementos

responsveis por sua estruturao.

No primeiro captulo desta tese, faremos uma apresentao do gnero policial,

descrevendo suas principais caractersticas, autores e personagens consagrados, que foram

responsveis pela determinao do gnero enquanto tal. Essa caracterizao serviu para

justificar a classificao das obras de nosso corpus de pesquisa como romances policiais,

apesar de todas as diferenas em relao ao romance policial clssico.

No segundo captulo, descreveremos a configurao fundamental, narrativa e

discursiva dos sete romances policiais mstico-religiosos mais vendidos no Brasil de

1980 a 2009 a partir da anlise do percurso gerativo do sentido, proposto pela semitica

discursiva. Esse captulo o mais extenso porque descreve cada um dos romances policiais

estudados, que contriburam para o estabelecimento do romance policial mstico-

religioso, a partir da redefinio da temtica misticismo e religiosidade (MASSI, 2010).

Acreditamos que esse captulo o corao desta tese, pois todos os outros se relacionam

a ele e dele dependem. Nossa proposta foi partir da individualidade de cada obra para

entender o todo de significao que esse conjunto prope.

Tendo em vista que o detetive a figura central no gnero policial, dedicamos o

terceiro captulo exclusivamente a esse personagem. Demonstraremos que os sujeitos que

realizam a investigao no romance policial mstico-religioso no recebem o ttulo de

detetives, mas nem por isso tm menos mrito no enredo do que o detetive do romance

policial tradicional. Sem esquecer que estamos tratando de um subgnero do romance

policial, destacamos a influncia do tema mstico-religioso no personagem central do

gnero, explicitando as justificativas para a mudana de seu perfil.

No quarto e ltimo captulo, exploraremos os conceitos de misticismo e

religio, partindo de autores alheios ao nosso embasamento terico, para mostrar o

significado do misticismo e da religiosidade na sociedade contempornea e o modo como

esses conceitos foram explorados nos romances policiais analisados nesta tese.

14

Assim, a partir da teoria semitica discursiva, analisaremos, ao longo dos captulos

deste trabalho, uma forma semitica os romances policiais mstico-religiosos mais

vendidos no Brasil de 1980 a 2009 e descreveremos a construo do sentido desse corpus,

que ser retomada na concluso desta tese. A partir daqui, deixaremos de usar aspas para

nos referirmos ao romance policial mstico-religioso, pois j explicamos que este trabalho

se dedicou a sua compreenso e descrio.

15

1 O ROMANCE POLICIAL

1.1 Os gneros do discurso

Em Massi (2010), descrevemos as caractersticas do gnero policial na seo

intitulada A configurao dos romances policiais tradicionais com nfase no nvel

narrativo do percurso gerativo de sentido da semitica discursiva. Nesse momento, nossa

preocupao era mostrar como a narrativa policial vinha se desenvolvendo desde seu

surgimento para, nos captulos seguintes, estabelecer uma comparao entre o modelo

cannico desse tipo de texto e os romances policiais contemporneos, a fim de responder

questo que deu ttulo ao trabalho: A configurao dos romances policiais mais vendidos

no Brasil no sculo XXI: cannica ou inovadora?. No nos preocupamos, porm, com as

definies de gnero discursivo nem com a configurao da narrativa policial enquanto

gnero.

Neste primeiro captulo desta tese, aprofundaremos a discusso sobre o gnero

policial. Buscaremos explicitar a configurao de um gnero discursivo, de maneira

genrica, e questionar os tnues limites entre os gneros, que fazem com que determinado

texto pertena a um gnero e no a outro. Ao mesmo tempo, tais limites permitem que o

leitor crie expectativas e que os autores tenham um modelo a seguir. Esses dois parmetros,

leitor e autor, esto diretamente relacionados existncia histrica dos gneros como se

servissem para justificar sua importncia.

Para definir o gnero policial, utilizaremos o conceito de gneros do discurso

desenvolvido por Bakhtin (2010) e por Todorov (1980), de maneiras distintas, e as

abordagens semiticas propostas por Fiorin (2008), em uma releitura do conceito

bakhtiniano, e por Fontanille (1999), que apresenta uma abordagem estritamente semitica

da noo de gnero. A definio de como se constitui um gnero importante para este

trabalho, pois estamos analisando um subgnero do romance policial que transgride muitas

de suas regras.

16

A proposta do terico russo Mikhail Bakhtin, publicada em 19794 (data do livro

original, em russo), entende os gneros do discurso como enunciados (orais e escritos)

relativamente estveis, caracterizados por um contedo temtico, um estilo e uma

construo composicional especfica. Essas categorias variam de acordo com a

especificidade de cada campo da comunicao humana e levam em conta as condies de

produo e o estilo de linguagem, considerando os recursos lexicais, fraseolgicos e

gramaticais da lngua. O repertrio de gneros do discurso se desenvolve e se complexifica

de maneiras inesgotveis em virtude da multiforme atividade humana e das inmeras

possibilidades de uso da linguagem. Mesmo dentro de cada campo de atividade, os gneros

do discurso (orais e escritos) so numerosos e extremamente heterogneos, resultando em

traos gerais [...] demasiadamente abstratos e vazios. (BAKHTIN, 2010, p.266).

Para Bakhtin (2010), todos os tipos de enunciados tm em comum a natureza verbal

(lingustica), mas h uma diferena essencial entre os gneros discursivos primrios,

tratados como simples, e os gneros discursivos secundrios, mais complexos. Os

gneros discursivos secundrios (romances, dramas, pesquisas cientficas, gneros

publicsticos) remetem a um convvio cultural mais complexo e relativamente muito

desenvolvido e organizado (predominantemente o escrito) e carregam consigo uma

ideologia. (BAKHTIN, 2010, p.263). Em sua formao, eles incorporam e reelaboram

diversos gneros primrios, formados em condies de comunicao discursiva imediata.

Ao integrarem os gneros discursivos secundrios, os gneros primrios se desvinculam da

realidade concreta e dos enunciados reais alheios. Essa distino entre gneros primrios e

secundrios se liga fundamentalmente ao complexo problema da relao de reciprocidade

entre linguagem e ideologia. (BAKHTIN, 2010, p.264).

Bakhtin (2010, p.265) tambm discute a estilstica como um aspecto da lingustica

que est diretamente relacionado aos gneros do discurso, uma vez que todo estilo se liga a

formas tpicas de enunciados, ou seja, aos gneros do discurso. Sendo o enunciado um

ato individual, nele est presente um estilo individual, mas nem todos os gneros do

discurso permitem que esse estilo se manifeste da mesma maneira. No mbito da literatura,

4 O captulo Os gneros do discurso, da obra Esttica da criao verbal, foi encontrado em arquivos dos anos 1952-1953 e fazia parte de um estudo mais abrangente, com o ttulo O problema dos gneros do discurso, que foi abandonado pelo autor (FARACO, 2009, p. 124). No Brasil, esse texto foi traduzido somente no ano de 1992.

17

por exemplo, o estilo individual tem bastante espao para se materializar. J nos gneros do

discurso que requerem um padro, como os documentos oficiais, no possvel que o estilo

individual aparea. A cada gnero discursivo, portanto, correspondem determinados estilos

e por conta dessa maleabilidade, Bakhtin (2010) insiste em dizer que os gneros do

discurso so relativamente estveis.

Um gnero discursivo no nasce pronto e no possui um manual de instrues que

indique aos autores, por exemplo, as regras que devem ser seguidas para a elaborao de

um texto que se proponha pertencer a ele. Quando surge, um gnero discursivo delimitado

por uma srie de convenes que vrios textos seguem e ganha corpo aps ser explorado

por diferentes obras e autores, responsveis por constituir a funo e as condies desse

gnero. Vale destacar, para esta tese, a relativizao da estabilidade dos gneros, descrita

por Bakhtin (2010), que leva em conta o estilo individual de cada sujeito quando se

apropria de um gnero discursivo. No item 1.2 deste captulo, descreveremos a composio

do gnero policial partindo de sua criao no sculo XIX at os autores que se

consagraram e que fizeram muito sucesso escrevendo romances policiais nos anos

seguintes com o objetivo de mostrar todos os elementos da narrativa policial enquanto

gnero discursivo.

Em 1978, o filsofo e linguista blgaro Tzvetan Todorov discutiu a noo de gnero

no livro Les genres du discours, publicado em lngua portuguesa no ano de 1980. Ao

discutir A origem dos gneros, Todorov (1980) afirma que quando um gnero discursivo

possui normas claras a respeito de sua configurao, a transgresso existe, mas pode ser

vista como positiva, pois faz com que a norma torne-se ainda mais visvel. A obra

transgressora, por sua vez, pode dar origem a um novo gnero, j que dessa forma que os

gneros discursivos so estabelecidos: por inverso, por deslocamento, por combinao

(TODOROV, 1980, p.46). Os poemas em prosa de Aloysius Bertrand e de Baudelaire, por

exemplo, foram inovadores em seu tempo, mas se tornaram modelos dessa criao de um

novo gnero, afinal, quem ousaria ainda hoje escrever um poema em alexandrinos, em

versos rimados a menos que isso seja uma nova transgresso de uma nova norma?

(TODOROV, 1980, p.45). Isso s vale, porm, para os textos considerados obras-primas, o

que no inclui o gnero policial, que se enquadra na literatura de entretenimento.

18

Para Todorov (1980, p.46), os gneros so classes de textos e o autor prope a

palavra discurso como sinnimo de texto. A seguir, ele destaca que um discurso feito

de enunciados e que a enunciao pressupe um locutor, um alocutrio, um tempo e um

lugar, um discurso anterior e um discurso posterior, ou seja, um contexto de enunciao.

Tal contexto foi trabalhado por Bakhtin (2010) como um campo de atividade, com

condies e finalidades especficas, no qual o sujeito enunciador se insere, como j foi

discutido.

Em relao ao conceito de classes, Todorov (1980, p.48) afirma que os gneros

do discurso podem ser analisados sob dois pontos de vista, quais sejam, o da observao

emprica, segundo a qual os textos individuais so produzidos e percebidos em relao

norma que esta codificao constitui e o da anlise abstrata, composta pela codificao

de propriedades discursivas que tornam obrigatrios alguns aspectos do discurso. Nesse

sentido, destacaremos, no item 1.2, os elementos que podem ser considerados obrigatrios e

essenciais para que determinada narrativa seja reconhecida como pertencente ao gnero

policial. Segundo Todorov (1980), as diferenas entre os gneros ou atos de fala, que

impedem a narrativa de suspense, por exemplo, de ser considerada um romance policial,

podem situar-se nos nveis semntico, sinttico (relao das partes entre si), pragmtico

(relao entre usurios) e verbal (materialidade dos signos) do discurso. Quando exclumos

algumas obras da primeira verso de nosso corpus de pesquisa conforme descrito na

introduo desta tese levamos em considerao esses quatro nveis do discurso para

verificar se os livros previamente selecionados correspondiam s caractersticas do gnero

policial propostas neste trabalho. At esse momento, nosso conceito de gneros do discurso

se restringia ao trabalho de Todorov (1980).

Todorov (1980, p.49) define os gneros do discurso como horizontes de

expectativa para os leitores, como modelos de escritura para os autores e afirma que

essas duas vertentes esto relacionadas existncia histrica dos gneros. Os autores

seguem o sistema genrico existente, aquilo que podem testemunhar no texto e fora dele

ou, at mesmo, de certa forma, entre os dois. Os leitores, por sua vez, conhecem as

definies de cada gnero a partir da crtica, da escola, do sistema de difuso do livro ou

simplesmente por ouvir dizer (TODOROV, 1980), mesmo que nem sempre sejam

19

conscientes desse sistema. Dessa forma, os gneros refletem a sociedade a que pertencem, a

cultura, a ideologia dominante, entre outros elementos.

Embora no seja impossvel propor uma teoria dos gneros do discurso descrevendo

as caractersticas de cada tipo (romance policial, biografia, poesia), Todorov (1980) j

afirmava, na dcada de 1970 (data da primeira edio francesa do livro Les genres du

discours), que talvez sua proposta terico-metodolgica fosse insuficiente. Essa mesma

dificuldade foi encontrada por outros autores, como ser visto ao longo desta seo. Com a

variao dos elementos que constituem os textos, faz-se necessrio considerar o que

fundamental em um gnero discursivo portanto, imutvel e o que pode variar dentro

desse recorte. Nesta tese, notamos que o rigor exigido por Todorov (1980) para que um

texto pertena a determinado gnero no funciona de forma eficiente na anlise de best-

sellers pertencentes literatura de entretenimento. O romance policial mstico-religioso

prova disso, pois transgride algumas normas do gnero policial e reformula as regras que

tenta respeitar, adaptando-as temtica mstico-religiosa (MASSI, 2010). Sendo assim,

esse tipo de texto se configura como um subgnero do romance policial.

Em Introduo ao pensamento de Bakhtin, Fiorin (2008, p.60) inicia a discusso

sobre os gneros do discurso afirmando que cada um l o Bakhtin que serve a seus

propsitos e que, aps a utilizao dos gneros pelos Parmetros Curriculares Nacionais

(PCNs), essa noo passou a ser entendida simplesmente como um conjunto de

propriedades formais a que o texto deve obedecer. Embora os gneros se constituam como

tipos de textos que apresentam traos comuns, Bakhtin (2010) preocupava-se mais com o

processo de produo dos gneros discursivos do que com seu produto, tendo em vista a

relao intrnseca entre a utilizao da linguagem e as atividades humanas. Como no se

produzem enunciados fora das esferas de ao (escola, igreja, trabalho, poltica), so as

condies especficas e as finalidades de cada esfera que determinam os tipos

relativamente estveis de enunciados.

Fiorin (2008) explica que o contedo temtico citado por Bakhtin (2010) como

componente dos gneros do discurso no se refere ao assunto tratado em um texto, mas ao

domnio de sentido que pertence ao gnero. As cartas de amor, por exemplo, abordam o

contedo temtico das relaes amorosas, mas cada uma delas apresenta um assunto

especfico (rompimento, esperana, tristeza, saudade). O modo de organizao de um texto,

20

sua estrutura, o que corresponde construo composicional que faz parte de um gnero

discursivo. Em uma leitura semitica dessa questo, Fiorin (2008) destaca a ancoragem

actancial, temporal e espacial dos textos, ou seja, a referncia feita pelo enunciador a um

tempo, a um espao e a uma relao de interlocuo.

Na mesma linha terico-metodolgica, Fiorin (2008) equipara o estilo presente nos

gneros discursivos com as imagens do interlocutor e do interlocutrio do enunciado.

Entendendo esse ato estilstico como uma seleo de meios lingusticos, o semioticista

destaca os seguintes estilos: oficial, objetivo-neutro, familiar, ntimo. Longe de fazer um

catlogo dos gneros, com a descrio de cada estilo, de cada estrutura composicional, de

cada contedo temtico, Fiorin (2008, p.63) destaca a importncia de se entender por que

determinados enunciados so construdos de uma forma e no de outra e quais os

elementos (condies especficas e finalidades) da esfera da atividade literria que levam ao

surgimento desse tipo de enunciado. Neste trabalho, estamos analisando os romances

policiais mstico-religiosos mais vendidos no Brasil de 1980 a 2009 sob esse vis, ou seja,

entendendo o modo como foram elaborados e quais so os elementos que diferenciam o

gnero policial de outros gneros.

Para Fontanille (1999), que tambm d um tratamento semitico ao assunto, a

definio dos gneros muda conforme a poca e a cultura e os critrios de classificao dos

gneros tambm evoluem. Segundo a tradio literria, um gnero define a forma, o

tamanho e as modalidades (temticas, figuras e registros de lngua) de suas representaes.

A variao histrica e cultural dos critrios de distino entre os gneros no deve impedir,

generalizar ou postular uma coerncia interna de cada gnero, porque se pode reconhec-lo

por meio de suas diversas metamorfoses.

O gnero definido, segundo as pocas e os lugares, por uma ou mais de suas

escolhas de critrios considerados tpicos, efetuadas sobre um conjunto de categorias gerais

e constantes, e est sujeito s mesmas transformaes que os outros fatos culturais porque

circula entre culturas, ares e pocas culturais. A escolha das variveis tpicas de um gnero

oculta parcialmente todos os outros gneros, mas, ao mesmo tempo, solidria a eles. H

um princpio de congruncia interna e um esquema constante em cada gnero, ou seja, uma

combinao de critrios, que acarreta um remanejamento e uma mudana de valor em

funo de seu entorno cultural.

21

A prxis enunciativa, segundo Fontanille (2007), responsvel pela

administrao da presena de grandezas discursivas no campo do discurso, convocando ou

invocando os enunciados. As escolhas observadas nos gneros so atribudas prxis

enunciativa, porque ela participa da formao das classes de texto e de discurso em cada

cultura considerada isoladamente. Na definio dos gneros, a prxis enunciativa

estabelecida a partir de quatro propriedades: a estabilidade de categorias, a esquematizao

do discurso, a mudana cultural e as congruncias locais e provisrias.

Ao determinar os gneros, Fontanille (1999) considera que cada gnero literrio

constitudo pela juno de um tipo discursivo e de um tipo textual. H isotopia na reunio

das seguintes propriedades textuais e discursivas: coerncia (que se relaciona ao discurso),

coeso (ligada ao texto) e congruncia (que comporta, ao mesmo tempo, o discurso e o

texto, ou seja, a coerncia e a coeso). Um tipo discursivo definido por sua coerncia

enquanto um tipo textual, por sua coeso. A congruncia, por sua vez, assegura a

superposio dos elementos da coerncia discursiva e da coeso textual e no considerada

como prpria a uma enunciao individual. De fato, o gnero regula de maneira global e

constante um encontro entre um tipo textual e um tipo discursivo, pois a congruncia

proposta coletiva e reguladora.

Os tipos textuais caracterizam as constantes do plano da expresso e sua coeso

concerne essencialmente organizao das partes no interior de um todo. Uma primeira

forma de classificao dos tipos textuais, proposta por Fontanille (1999), se centra em dois

critrios: longo/breve e aberto/fechado. Os conceitos longo e breve se relacionam

extenso da unidade de leitura, ao tempo da enunciao, durao da histria ou do

acontecimento; aberto e fechado, por sua vez, correspondem relao entre a unidade de

leitura e a unidade de edio quando elas no so ligadas, por exemplo, o tipo textual

aberto, como na poesia. A conjuno desses dois critrios define quatro propriedades

principais dos tipos textuais: recursividade, fragmentao, desdobramento e concentrao,

conforme o quadro a seguir.

Quadro 2 Tipos textuais

Long Bref Ouvert Rcursivit Fragmentation Ferm Dploiement Concentration

Fonte: Fontanille (1999, p.163)

22

O tipo textual recursividade caracteriza os procedimentos que permitem o

renascimento e o encaixe indefinido das estruturas textuais: o roman-fleuve (saga), o roman

tiroirs, o poema pico, etc. A fragmentao caracteriza os gneros que s oferecem

uma viso limitada e lacunar de seu prprio referente, de sua prpria histria, cena ou

pensamento, e que provocam uma impresso de incompletude: o folhetim, as memrias, o

gnero epistolar. Os gneros que fornecem o essencial de seu propsito de maneira

condensada correspondem ao tipo textual concentrao: a novela, o soneto, a mxima. O

tipo textual desdobramento, enfim, explora todas as possibilidades de expanso textual,

mas deixa sobre controle o esquema global respeitado, que procura no texto seu

fechamento, por exemplo, o romance policial, o conto folclrico, a pea de teatro. Seguindo

essa tipologia proposta por Fontanille (1999), o romance policial mstico-religioso reflete

uma das possibilidades de expanso textual do gnero policial, pois se estende ao

transgredir algumas normas do gnero, mas se mantm como narrativa policial ao

reproduzir o ncleo de organizao desse tipo de texto (investigao centrada em um crime

de autoria desconhecida) se configurando, portanto, como um subgnero do romance

policial.

Esses tipos textuais destacados no Quadro 2 compem um princpio de

classificao ligado elasticidade do discurso, ou seja, uma mesma organizao discursiva

comporta vrios tipos de textos, conforme a estratgia adotada seja de fechamento ou de

abertura, de concentrao ou de expanso. A tipologia textual dever levar em conta, de um

lado, as modalidades da enunciao, quais sejam, o contrato de enunciao, tipos de atos de

linguagem requisitados, modalizaes dominantes de um ponto de vista pragmtico e, de

outro lado, as axiologias e as formas de avaliao (os tipos de valores propostos e as

condies de sua atualizao e seu reconhecimento no discurso).

Os tipos discursivos, ao contrrio dos tipos textuais, se interessam pelo plano do

contedo e so caracterizados por uma coerncia, um sistema de valores, de relaes

hierrquicas e diferenciais. Eles se definem a partir de dois critrios principais: o discurso

como enunciao (conjunto de atos e operaes enunciativas) e uma enunciao que decide

os valores e que os manipula. H quatro tipos de discurso, que comportam, cada um, duas

modalizaes: incitativos (querer e dever), persuasivos (assumir e aderir), de habilitao

23

(saber e poder) e de realizao (ser e fazer). A modalidade dominante em cada tipo define

seus subtipos, por exemplo, o dever caracteriza particularmente os discursos prescritivos.

Em relao aos valores, distingue-se quatro grandes categorias: o bom (valores

hedonistas), o bem (valores ticos), o belo (valores estticos) e o verdadeiro (valores

veredictrios), que correspondem a uma classificao temtica do discurso. Adjetivos como

romanesco, trgico, pico, designam unicamente o tipo discursivo independente do

tipo textual em que se realizam e podem contaminar outros gneros se combinando com

outros tipos textuais. O tipo de discurso projeta fora de sua esfera genrica suas formas

enunciativas, seus valores, sua concepo do mundo e a forma de seu imaginrio.

O nome de um gnero comea por designar um tipo textual (o romance, por

exemplo), em seguida, um gnero inteiro e, enfim, o tipo discursivo (autnomo e nmade

romanesco). O gnero dever comportar o rebaixamento de um tipo textual sobre um tipo

discursivo e os outros tipos discursivos que os dois primeiros toleram. Um gnero se

define, portanto, segundo Fontanille (1999, p.168), por cinco aspectos principais:

Un genre se dfinira donc : 1. Par sa longueur relative et le tempo de son nonciation ; 2. Par sa forme ouverte ou ferme, du point de vue de la production, de ldition et de la lecture ; 3. Par les dominantes modales de lnonciation, les actes de langage et les relations intersubjectives quil implique ; 4. Par les valeurs quil accepte et quil met en circulation, et les conditions requises pour ce faire ; 5. Par les types discursifs nomades et complmentaires quil tolre.5

Ao estudarmos esses diferentes tratamentos dados ao conceito de gneros do

discurso, notamos que o enfoque de Bakhtin (2010) est diretamente ligado relao

intrnseca entre linguagem e ideologia. Ao discutir a existncia dos gneros, Bakhtin (2010)

no despreza a individualidade de cada sujeito na produo de enunciados que, junto a

outros enunciados produzidos por sujeitos diferentes faro parte de um gnero. Em virtude

5 Um gnero de definir, portanto: 1) Por seu tamanho relativo e pela durao da enunciao; 2) Por sua forma aberta ou fechada, do ponto de vista da produo, da edio e da leitura; 3) Pelos dominantes modais da enunciao, os atos de linguagem e as relaes intersubjetivas que ele implica; 4) Pelos valores que ele aceita e que coloca em circulao e pelas condies requeridas para isso; 5) Pelos tipos discursivos nmades e complementares que ele tolera. (FONTANILLE, 1999, p.168, traduo nossa).

24

da complexidade dos enunciados, o terico russo distingue os gneros primrios e os

gneros secundrios, no qual se enquadra o romance. A partir dessa perspectiva, torna-se

importante reforar o recorte feito em nosso trabalho, em que so estudados os romances

policiais mstico-religiosos mais vendidos no Brasil de 1980 a 2009. Apesar de no termos

analisado as questes ideolgicas presentes nessas obras, por no ser esse o objetivo desta

tese, discutiremos a tentativa de desmoralizao da Igreja Catlica, que se manifesta nesses

romances policiais, ao longo da anlise do corpus de pesquisa.

Outro aspecto importante da abordagem feita por Bakhtin (2010) sobre os gneros

do discurso, j bastante reforada ao longo da discusso, a relativizao da estabilidade

dos gneros discursivos. Cada obra estudada neste trabalho apresenta caractersticas

particulares e o estilo individual dos autores. Assim, ao definir os livros que compem

nosso corpus de pesquisa consideramos um todo de sentido que se estabelece a partir das

diferenas e semelhanas entre cada romance policial.

Por sua vez, a proposta de Todorov (1980) para os gneros do discurso discute a

manifestao literria desses gneros, embora considere a existncia de enunciados para a

formao de textos, tal como Bakhtin (2010). O autor bastante categrico em suas

definies e incomoda-se com as transgresses das regras do gnero entendendo que elas

tm a pretenso de lanar um novo gnero. Assim como Bakhtin (2010), Todorov (1980)

tambm considera a questo ideolgica presente na formao dos gneros discursivos e

entende que ela regula os produtores (autores) e os receptores (leitores) dos textos

pertencentes a determinado gnero. A proposta de Fiorin (2008), que faz uma leitura

semitica do pensamento de Bakhtin, trabalha as questes ideolgicas dos gneros na

ancoragem actancial, temporal e espacial criada pelo enunciador.

Por fim, a discusso de Fontanille (1999) em torno do gnero se diferencia ao

propor uma juno entre um tipo textual e um tipo discursivo. Alm disso, o autor distingue

quatro possibilidades de tipos textuais e enquadra o romance policial em uma delas. Assim

como os outros autores que trabalham com a noo de gnero discursivo, estudados nesta

primeira seo do trabalho, Fontanille (1999) considera as mudanas sofridas pelos gneros

com o passar do tempo e conforme a cultura em que se insere. Nesta tese, vamos privilegiar

a abordagem terica de Fontanille (1999) e de Fiorin (2008) em virtude de ambos

25

trabalharem com a mesma perspectiva terico-metodolgica de nossa pesquisa, qual seja, a

semitica discursiva.

Ao longo deste trabalho, mostraremos que as obras que compem nosso corpus de

pesquisa podem ser consideradas romances policiais, mesmo transgredindo muitas regras

do gnero policial. O que chamamos neste trabalho de romance policial mstico-religioso

rompe os padres do gnero policial, mas, ao mesmo tempo, comporta elementos que o

identificam com esse gnero. Sendo assim, optamos por classific-lo como um subgnero

do romance policial, como ser analisado e descrito ao longo desta tese.

A partir do que foi discutido at o momento sobre a constituio de um gnero

discursivo, apresentaremos, a seguir, as caractersticas do gnero policial com o intuito de

definir as normas que vem sendo seguidas por aqueles que so considerados autores de

romances policiais. Uma de nossas propostas, neste trabalho, delimitar o gnero policial e

suas inmeras possibilidades de manifestao, entre elas, o que chamamos aqui de romance

policial mstico-religioso.

1.2 O gnero policial

O gnero policial teve sua origem no sculo XIX quando Edgar Allan Poe (1809-

1849) inseriu o detetive Auguste Dupin em seus contos de mistrio Os crimes da rua

Morgue (1841), O mistrio de Marie Roget (1842) e A carta roubada (1845)

caracterizando-os como narrativas de enigma, histrias de detetive (POE, 2010). Nesse

contexto europeu do sculo XIX surgiram os jornais populares de grande tiragem, que

valorizavam a seo fait divers:

[...] dramas individuais, via de regra banais, ou ento crimes raros e aparentemente inexplicveis. O desafio do mistrio aliado a um certo prazer mrbido na desgraa alheia e ao sentimento de justia violada que requer ento reparos, so basicamente os elementos geradores da atrao e do prazer na leitura desse tipo de narrativa. (REIMO, 1983, p.12).

26

Nesse contexto, os textos de Poe satisfaziam os leitores ao narrarem um crime

cometido por um misterioso assassino que a polcia no era capaz de encontrar. Tal como

afirma Todorov (1980, p.50), os gneros do discurso evidenciam os aspectos constitutivos

da sociedade a que pertencem nos sentidos temporal, espacial e cultural. A narrativa

policial, portanto, respondia aos anseios da sociedade na qual surgiu. A polcia, tal qual a

conhecemos hoje, tambm teve origem nesse perodo e era ento formada por ex-

contraventores, o que gerava desconfiana e insatisfao na populao.

Para resolver esse problema na fico, surgiu a figura do detetive Auguste Dupin:

um sujeito dotado de uma capacidade extraordinria de raciocinar e elaborar dedues

lgicas. Dupin foi criado para solucionar os mistrios em torno dos crimes e se

transformou, para aqueles que estudaram o assunto, no verdadeiro pai dos detetives de

fico. [...] Era um criador e analista, segundo Allan Poe. (ALBUQUERQUE, 1973, p.13).

Com as tcnicas desenvolvidas por Dupin, todos os crimes foram resolvidos e os culpados

foram entregues polcia. Assim, a figura do detetive utilizando um mtodo de

investigao o raciocnio lgico e dedutivo na busca da identidade do criminoso tornou-

se central nesse tipo de texto. Ao construir uma narrativa, o autor do gnero policial vai do

problema ao enigma, da idia imagem, nico meio para ele de retroceder da imagem

idia, do enigma ao problema. (BOILEAU; NARCEJAC, 1991, p.22).

Edgar Allan Poe aplicou uma tcnica de raciocnio lgico fico de forma que a

narrativa policial se constituiu como um todo cujas partes a vtima, o crime e a

investigao esto intimamente ligadas: s h vtima se houver criminoso e s h detetive

se houver crime, cujo autor desconhecido. Ao elaborar suas narrativas policiais, Edgar

Allan Poe se preocupava com a construo de um efeito.

Mantendo sempre a originalidade em vista, pois falso a si mesmo quem se arrisca a dispensar uma fonte de interesse to evidente e to facilmente alcanvel, digo-me, em primeiro lugar: Dentre os inmeros efeitos, ou impresses a que so suscetveis o corao, a inteligncia ou, mais geralmente, a alma, qual irei eu, na ocasio atual, escolher?. (POE, 1987, p.109, grifo do autor).

Nos contos policiais de Edgar Allan Poe, a estrutura narrativa centrada na

investigao em busca da identidade de um criminoso pretende provocar medo no leitor,

ligado ao mistrio, ao desconhecido. Ao mesmo tempo, o rigor lgico utilizado por Dupin

27

como mtodo de investigao da verdade tambm usado pelo autor para elaborar suas

narrativas policiais a fim de que todos os incidentes convirjam para o fim desejado.

Segundo Figueiredo (2003, p.57), Os crimes da Rua Morgue, no qual Dupin encontra a

soluo do mistrio a partir das matrias de jornal publicadas sobre o caso, tematiza,

assim, o prprio processo de criao da narrativa policial e, implicitamente, nos leva a

perceber a verdade como construo textual.. Desde ento, a narrativa policial conquista o

pblico leitor por satisfazer seus anseios e lhe proporcionar prazer medida que soluciona

os enigmas, que apresenta respostas para questes aparentemente irresolveis, que

reestabelece a paz social punindo o criminoso por ter desrespeitado as regras de

convivncia, que determina um heri relacionado ao bem que luta contra o mal instaurado

por um assassino e, finalmente, que compartilha com o leitor o mtodo de investigao

utilizado pelo detetive a fim de ressaltar a honestidade desse sujeito, que no precisou de

meios ilcitos ou injustos para condenar um criminoso.

Uma anlise semitica da estrutura do romance policial mostra que, na sintaxe do

nvel narrativo do percurso gerativo de sentido, os sujeitos do fazer criminoso e detetive

realizam, paralelamente, os programas narrativos da manipulao, da competncia, da

perfrmance e da sano, estabelecidos pelo esquema narrativo cannico (GREIMAS,

1973) que ser mais bem explicado na anlise do corpus ao longo do segundo captulo

deste trabalho. A perfrmance do detetive, representada pela resoluo do crime e pela

identificao do culpado, uma sano sobre o fazer do criminoso e nesse momento que

os dois percursos narrativos se encontram. Quando os crimes so realizados, a ordem social

fica abalada e somente a captura do assassino capaz de restabelec-la, restituindo a paz

sociedade. Sendo assim, o culpado deve ser entregue, pelo detetive, a um destinador-

julgador (representado pela polcia ou pela justia) a fim de receber uma punio por ter

desrespeitado as regras do grupo social ao qual pertence.

Nos romances policiais, a investigao realizada pelo detetive, exclusivamente em

busca da identidade do criminoso, o foco do enredo, em torno do qual se desenvolve a

ao de todos os outros personagens. Esses personagens sero a(s) vtima(s), as

testemunhas do crime, os familiares da(s) vtima(s), a polcia, a justia, os auxiliares do

detetive e podero agir como destinadores-manipuladores e destinadores-julgadores do

28

fazer do detetive e do fazer do criminoso, sancionadores do fazer do detetive, sujeitos de

estado que possuem o objeto-valor almejado pelo criminoso, etc.

Em seu enredo, o romance policial estabelece um jogo entre o detetive, que

representa o bem, e o criminoso, autor do mal, um jogo para crebros privilegiados seja

o do criminoso, seja o do detetive (SODR, 1978, p.113). O leitor assiste a essa disputa,

geralmente torcendo para que o bem vena o mal, e tem oportunidade aps ser narrado o

desfecho da histria de saber como o detetive conseguiu chegar verdade e como o

criminoso realizou sua perfrmance. O detetive trabalha sempre em funo do

restabelecimento da ordem, lutando pelos valores da coletividade, agindo como um

delegado da sociedade e impedindo o criminoso de vencer, porque agiu de forma egosta e

desrespeitou as regras sociais de convivncia. Reimo (1983, p.15-16) explica porque o

leitor se posiciona a favor do detetive e porque esse sujeito deve ser mais bem sucedido do

que o assassino:

Se at a Idade Mdia (com exceo, talvez, do Direito Romano), o crime era considerado como um delito entre indivduos, que podia ser negociado e sanado entre as partes lesadas, depois do surgimento do Poder Judicirio, e da figura do procurador, aos poucos vo-se criando, solidificando e divulgando a idia de crime como uma infrao s leis do Estado e a idia de criminosos como um inimigo pblico, que pode prejudicar no s os indivduos diretamente lesados por ele, mas tambm a sociedade como um todo. [...] O criminoso um doente mental. Sua razo , s vezes, quase to perfeita quanto a normal. Sua falha est nos sentimentos ticos e morais que, nele, esto deteriorados. Da encontrarmos, s vezes, na narrativa policial, a idia de gnio do crime, em oposio ao gnio da justia (o detetive), como, por exemplo, Sherlock Holmes versus Moriarty.

Essa frmula da busca da identidade do criminoso na narrativa policial deve ser

infalvel, tanto para que os erros cometidos pelo criminoso sejam reparados e ele seja

punido, quanto para evitar complicaes ao enredo decorrentes do primeiro assassinato. Por

exemplo, enquanto o criminoso no for encontrado e detido pelo detetive pode realizar

outros crimes como matar as possveis testemunhas para continuar mantendo sua

identidade em segredo.

[...] o detetive no pode falhar. Ele infalvel, no porque um super-homem, mas porque seu papel desmontar um imbrglio que foi montado para ele. Se se enganasse, no forneceria a prova de que o

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mistrio o ultrapassa, mas simplesmente de que a histria ruim, e, nesse caso, o romancista renunciaria a escrev-la. Desde que a histria existe, o policial infalvel. (BOILEAU-NARCEJAC, 1991, p.23).

Para ter sucesso na investigao, o detetive no pode temer o assassino e deve ser

dotado de um mtodo rigoroso e lgico para encontr-lo. Mesmo o leitor, que no participa

diretamente da histria, espera que o detetive encontre a resoluo do enigma e acabe de

vez com o mistrio estabelecido pelo narrador. Para facilitar o trabalho, o detetive deve

entender os motivos do crime e a forma de agir do criminoso, que esto diretamente

relacionados. Se, ao final do romance policial, o detetive no conseguir encontrar a

identidade do criminoso para entreg-lo a um destinador-julgador, sua presena no enredo

ter perdido o sentido, j que ele no foi capaz de cumprir sua funo de maneira eficaz.

A partir dessa caracterizao da narrativa policial, embasada no modelo proposto

por Edgar Allan Poe, vrios outros autores escreveram romances policiais nos quais h um

assassinato de autoria desconhecida e o foco da narrativa a busca da identidade do

criminoso por um detetive profissional e metdico. Essas narrativas respeitam a frmula

proposta por Boileau-Narcejac (1991) que descreve os trs elementos essenciais ao

romance policial: a vtima, o criminoso e o detetive. Os principais propagadores do gnero

policial foram mile Gaboriau (1832-1873), Artur Conan Doyle (1859-1930), Raymond

Chandler (1888-1959), Dashiell Hammett (1894-1961), Agatha Christie6 (1890-1976),

entre outros, alm dos autores cujos livros no se consagraram como best-sellers. Para

esses romances policiais foram criados detetives com caractersticas muito semelhantes s

de Dupin, por exemplo, Monsieur Lecoq (de mile Gaboriau), Sherlock Holmes (de Conan

Doyle), Philip Marlowe (de Raymond Chandler), Sam Spade (Dashiell Hammett), Hercule

Poirot e Miss Marple (Agatha Christie), etc.

Segundo Boileau e Narcejac (1991, p.7-8), o romance policial precisamente um

gnero literrio, e um gnero cujos traos so to fortemente marcados que no evoluiu,

desde Edgar Poe, mas simplesmente desenvolveu as virtualidades que trazia em sua

natureza. H autores que, atualmente, continuam a escrever romances policiais seguindo

6 Em pesquisa de iniciao cientfica, financiada pela FAPESP, estudamos os romances policiais mais vendidos no Brasil na dcada de 1970, retirados das listas dos livros mais vendidos publicadas no Jornal do Brasil. Entre as vinte e duas obras selecionadas, vinte eram de autoria de Agatha Christie, o que demonstra o sucesso de vendas da autora no perodo citado. Cf. Massi; Cortina (2008).

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os modelos clssicos. Exemplo disso a britnica Phyllis Dorothy James (nascida em

1920), conhecida como P. D. James, que foi leitora de Agatha Christie e autora de trs best-

sellers estudados em Massi (2010).

Para Reimo (1983), Conan Doyle iniciou a deteriorao da narrativa policial

proposta por Edgar Allan Poe e Agatha Christie levou isso adiante. Isso porque as

narrativas policiais desses dois autores deixaram de apresentar uma disputa entre os

detetives, que eram mais inteligentes, perspicazes e metdicos, e os criminosos, que sempre

eram encontrados e punidos. Alm disso, Sherlock Holmes e Hercule Poirot foram muito

mais humanizados do que Auguste Dupin, considerado por seu prprio autor uma mquina

de raciocinar. Reimo (1983, p.74) acredita que ambos se popularizaram devido s

agregaes, justaposies que receberam.

Holmes morfinmano e cocainmano, adora tocar violino enquanto medita e entendia-se profundamente quando no tem um caso a resolver; Poirot vaidoso e preocupa-se com o vestir, tem profunda amizade por Hastings e, em seus ltimos textos, veremos um velhinho solitrio sofrendo por causa da sade e excepcionalmente emotivo.

Sodr (1978, p.114) tambm destaca a importncia de Conan Doyle como autor de

romances policiais por ter sido leitor de

[...] Poe, Gaboriau e outros autores famosos de deteco e crime. Sherlock Holmes sintetizava todas as conquistas da narrativa policial: o rastreamento de pistas, o cerebralismo de Dupin, os disfarces de Rocambole, a fora fsica e os dotes pugilsticos de Vidocq. A isto acrescentava-se um ethos vitoriano, assinalado pela austeridade de costumes e por uma franca misoginia (Holmes no se interessava por mulheres, mas pela Humanidade). Para completar o personagem, desenvolve-se um resqucio da ambiguidade de Vidocq: Holmes s vezes admite que teria dado um criminoso altamente eficiente.

A criao de Arthur Conan Doyle, Sherlock Holmes, chegou a fazer mais sucesso

do que ele prprio e o local fictcio onde Holmes morava 221B Baker Street

transformou-se no The Sherlock Holmes Museum e recebe, at hoje, inmeras cartas de

leitores reais, que admiram sua inteligncia e perspiccia. Agatha Christie, por sua vez,

criou vrios detetives para os setenta e nove romances policiais que escreveu, mas o que

mais fez sucesso foi o belga Hercule Poirot, que resolveu os crimes em trinta e trs

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romances policiais e dezenas de contos escritos pela dama do crime como ficou

conhecida entre os autores. Holmes suicidou-se na narrativa E no fim a morte, encerrando

sua brilhante carreira de detetive.

Em 1928, outro autor de romances policiais, Willard Huntington Wright, sob o

pseudnimo de S. S. Van Dine, publicou um artigo (Tweenty rules for writing detective

stories) com vinte regras (MASSI, 2010, p.34) que deveriam ser seguidas pelos autores de

romances policiais dignos desse nome. De maneira geral, elas definem a narrativa

policial como um jogo no qual o detetive e o leitor competem em busca da verdade. Ao

mesmo tempo, o criminoso e o detetive tambm jogam, j que o assassino precisa lutar para

esconder sua identidade e o detetive, para encontr-la.

Todorov (2008, p.100-101) resumiu as regras de Van Dine em oito pontos

principais:

1. O romance deve ter no mximo um detetive e um culpado, e no mnimo uma vtima (um cadver). 2. O culpado no deve ser um criminoso profissional; no deve ser o detetive; deve matar por razes pessoais. 3. O amor no tem lugar no romance policial. 4. O culpado deve gozar de certa importncia: a) na vida: no ser um empregado ou uma camareira; b) no livro: ser uma das personagens principais. 5. Tudo deve explicar-se de modo racional; o fantstico no admitido. 6. No h lugar para descries nem para anlises psicolgicas. 7. preciso conformar-se seguinte homologia, quanto s informaes sobre a histria: autor : leitor = culpado : detetive. 8. preciso evitar as situaes e as solues banais (Van Dine enumera dez delas).

As regras de 1 a 4 (item a) segundo a numerao feita por ele se referem ao

romance de enigma e concernem referncia, vida representada ( primeira histria).

As regras 4 (item b) a 7, por sua vez, dizem respeito ao romance negro, pois se referem ao

discurso, ao livro. A regra 8, enfim, genrica e pode servir s duas espcies de romances

policiais, o romance de enigma e o romance negro.

As vinte regras de Van Dine ilustram a preocupao e o cuidado desse autor com a

manuteno de um padro para o gnero policial. Ao dizer o que deve ou no ser feito

nesse tipo de texto, Van Dine traa um perfil adequado s narrativas policiais, considerando

o que o leitor espera quando busca tal gnero e de que forma o autor deve atender s suas

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expectativas conforme a definio de gneros do discurso proposta por Todorov (1980) e

j discutida neste captulo. Esses revestimentos textuais especficos descritos nas vinte

regras no foram seguidos risca por todos os autores de romances policiais. Entretanto, o

que eles procuraram respeitar, ao escrever suas narrativas, foi a honestidade do autor com o

leitor. Isso significa que o leitor nunca ser trapaceado (pelo autor) se tiver as mesmas

condies que o detetive para encontrar o responsvel pelos crimes, mesmo que leve mais

tempo para chegar resposta ou que precise reler o livro para entender o raciocnio

utilizado na investigao.

A dama do crime Agatha Christie infringiu algumas das regras de Van Dine sem,

contudo, descaracterizar o gnero policial. Um exemplo Assassinato no Expresso Oriente

em que h doze assassinos para eliminar apenas uma vtima. A dcima segunda regra

proposta por Van Dine afirma que s deve haver um nico culpado, sem levar em conta o

nmero de assassinatos cometidos. Toda a indignao do leitor deve poder concentrar-se

contra uma s alma negra. (MASSI, 2010, p.33). Nesse romance policial, porm, a vtima

estava sendo punida por um crime que havia cometido contra uma criana esse crime no

narrado na obra em questo, mas contado ao detetive, pelos assassinos, como

justificativa para o crime ocorrido no trem. Sendo assim, o assassinato realizado no

Expresso Oriente representa a sano negativa merecida pelo criminoso, o que mantm essa

obra nos parmetros adequados ao gnero policial. O detetive Hercule Poirot, responsvel

pela investigao, sancionou positivamente os assassinos mantendo suas identidades em

segredo e dizendo polcia que o trem havia sido invadido por um desconhecido. Essa

sano positiva do criminoso pelo detetive tambm no recorrente nos romances policiais,

mas nessa histria ela foi aceita para que outro assassino (causador dessa vingana) fosse

sancionado negativamente.

Em Os elefantes no esquecem o detetive Hercule Poirot definiu o culpado ao

perceber que o cachorro da vtima no havia latido para o assassino durante o crime. Essa

atitude fere a regra 20 de Van Dine, item e, segundo a qual descobrir a identidade do

assassino a partir do co que no late, revelando que o intruso um familiar do local

um dos dispositivos que nenhum autor de estrias de detetive, dotado de amor-prprio, ir

utilizar (...). Us-los confessar a inaptido do autor, sua falta de originalidade. (MASSI,

2010, p.34). Nesse caso, porm, esse no foi o nico indcio utilizado pelo detetive para

33

determinar a identidade do culpado. Poirot j tinha formulado uma srie de hipteses e a

ausncia de latido do cachorro foi apenas mais um elemento que o ajudou a confirmar suas

suposies sobre a identidade do assassino.

Ao escrever as vinte regras para o gnero policial, Van Dine no podia prever os

diversos tipos de transgresso que seriam realizados pelos autores posteriores. Embora

tenha tentado delimitar a estrutura do gnero policial, no podemos dizer que algumas

obras no se enquadram no gnero apenas por terem descumprido o que esse autor props,

mesmo porque suas normas representam o ponto de vista individual de um bom autor de

romances policiais, porm, no o nico. Entendemos que a forma como Agatha Christie

transgrediu algumas regras em Assassinato no Expresso Oriente e Os elefantes no

esquecem, por exemplo, no comprometem a essncia do gnero policial. Isso ocorre

porque a proposta dos gneros discursivos descrever tanto as semelhanas que os livros

devem apresentar para se enquadrar em um tipo de texto quanto as diferenas que so

toleradas dentro desse parmetro.

O romance policial mstico-religioso, mesmo diferenciando-se dos romances

policiais que vinham sendo apresentados, tambm no deixa de fazer parte desse gnero.

como se cada obra que descumprisse determinadas normas sem ferir os princpios

fundamentais do gnero contribusse para sua expanso. Todorov (2008, p.95) afirma que a

literatura de massa, de entretenimento, consegue se adaptar melhor s regras do gnero do

que as obras literrias como j foi mencionado no item 1.1. Para ele, os autores de

romances policiais, por exemplo, no devem tentar escrever literatura, criando textos com

preocupaes estticas exageradas e rebuscamentos, e podem adaptar-se s regras do

gnero policial para diferenciar seus textos. Podemos afirmar, com tranquilidade, que as

narrativas que compem nosso corpus de pesquisa so, em sua essncia, romances

policiais porque esse um gnero que se destaca por possuir caractersticas fortemente

marcadas como as que esto sendo descritas neste captulo.

Dentro dessas possibilidades de manifestao textual, Todorov (2008, p.95)

subdivide os romances policiais em espcies a partir da relao estabelecida entre a ao

realizada pelo criminoso e a investigao do detetive e a forma como essas duas situaes

so narradas. Uma das espcies de gnero policial o romance policial clssico, conhecido

como romance de enigma, sobre o qual Van Dine formulou as vinte regras para uma boa

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escritura do romance policial. George Burton (apud TODOROV, 2008, p.95), em

Lemploi du temps, explica que [...] todo romance policial se constri sobre dois

assassinatos; o primeiro, cometido pelo assassino, apenas a ocasio do segundo no qual

ele vtima do matador puro e impune, do detetive.. Dessa forma [...] a narrativa

superpe duas sries temporais: os dias do inqurito, que comeam com o crime, e os dias

do drama que levam a ele.. evidente que o assassinato cometido pelo detetive no

ocorre em sentido literal; diz-se que o assassino torna-se vtima porque detido pela polcia

ou pela justia no podendo cometer outros crimes. Em alguns romances policiais mstico-

religiosos, como ser discutido no captulo seguinte, o criminoso assassinado pelo sujeito

que realizou a investigao.

Para Todorov (2008, p.96), o romance policial contm a histria do crime e a

histria do inqurito que, em sua forma mais pura, no tm nenhum ponto em comum. A

histria do crime conta o que realmente aconteceu e a histria do inqurito mostra como o

narrador tomou conhecimento dela, que geralmente se d por meio da investigao

realizada pelo detetive. O detetive est imune a qualquer forma de violncia, pois um

personagem da histria do inqurito e sua nica funo descobrir o culpado pelos crimes

essa imunidade tambm foi eliminada no romance policial mstico-religioso. Essas duas

maneiras de se contar uma narrativa policial histria do crime e histria do inqurito j

haviam sido definidas pelos formalistas russos como fbula e trama, e esto presentes em

qualquer narrativa. Na fbula os fatos obedecem a uma ordem cronolgica, a ordem dos

acontecimentos, e dizem respeito ao que realmente aconteceu em uma ordem natural. No

romance policial, a fbula corresponde histria do crime, qual seja, um sujeito escolheu

sua vtima, cometeu um assassinato e passou a se esconder do detetive temendo a punio

que seria recebida caso fosse descoberto. A trama, por sua vez, construda a partir de uma

ordem estabelecida pelo narrador, que pode contar a fbula do fim para o comeo ou na

ordem que preferir. A histria do inqurito corresponde trama, pois a narrao, atravs da

figura do detetive, vai reconstruindo os fatos na ordem que so descobertos, desobedecendo

ordem da fbula.

A outra espcie de romance policial existente, segundo Todorov (2008, p.98), o

romance negro, pertencente srie noire, publicada na Frana. O romance negro um

romance que funde as duas histrias [a do crime e a do inqurito] ou, por outras palavras,

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suprime a primeira e d vida segunda. No mais um crime anterior ao momento da

narrativa que se conta, a narrativa coincide com a ao.. Com isso, o autor explica que

essas duas espcies de romances policiais despertam interesse no leitor: o romance de

enigma atrai pela curiosidade e o romance negro, pelo suspense.

Aps descrever detalhadamente o romance de enigma e o romance negro, Todorov

(2008, p.102) cita uma terceira espcie: o romance de suspense, caracterizado da seguinte

maneira:

Do romance de enigma, ele conserva o mistrio e as duas histrias, a do passado e a do presente; mas recusa-se a reduzir a segunda a uma simples deteco da verdade. Como no romance negro, essa segunda histria que toma aqui o lugar central. O leitor est interessado no s no que aconteceu, mas tambm no que acontecer mais tarde, interroga-se tanto sobre o futuro quanto sobre o passado. Os dois tipos de interesse se acham pois aqui reunidos: existe a curiosidade de saber como se explicam os acontecimentos j passados; e h tambm o suspense: que vai acontecer s personagens principais? Essas personagens gozavam de imunidade, estamos lembrados, no romance de enigma; aqui elas arriscam constantemente a vida. O mistrio tem uma funo diferente daquela que tinha no romance de enigma: antes um ponto de partida, e o interesse principal vem da segunda histria, a que se desenrola no presente.

Essa classificao do romance policial feita por Todorov (2008) delimita suas

principais espcies, mas cada autor aplicou a elas revestimentos textuais especficos.

Embora sigam esquemas fundamentais de organizao narrativa, os romances policiais

procuram evitar a repetio e a previsibilidade a fim de que o enigma sobre o crime se

mantenha ao longo do enredo. Se um autor utilizar em diferentes obras as mesmas

motivaes para os criminosos escolherem suas vtimas ou as mesmas pistas deixadas no

local do crime, por exemplo, bastar ler algumas pginas de um novo livro para encontrar o

culpado pelos assassinatos.

Como j foi dito, Boileau-Narcejac (1991) considera trs elementos indispensveis

narrativa policial: o criminoso, a vtima e o detetive. O encadeamento desses sujeitos deve

causar temor ao leitor, que desconhece a identidade do criminoso e se prende ao texto

justamente para descobrir, por meio da investigao realizada pelo detetive, quem o

culpado. Nem todo texto que contenha esses trs elementos pode ser considerado como

pertencente ao gnero policial, pois preciso uma determinada forma de articular a

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narrativa, de construir a relao do detetive com o crime e com a narrao etc.. (REIMO,

1983, p.8).

A importncia dada ao detetive e ao criminoso no romance policial indiscutvel, j

que sem eles a trama no se desenrola e a ao no acontece. A vtima, por sua vez,

tambm tem um papel importante no enredo, segundo Boileau-Narcejac (1991), porque o

ponto de partida da investigao. Quando h vtima porque houve um criminoso e quando

h um crime, o detetive deve entrar em cena. Nessa encenao,

[...] a vtima vem em primeiro plano. Atrs, permanece um assassino em potencial. E no segundo plano, quase invisvel, trabalha obscuramente o detetive. Bem entendido, a vtima s pode ser inocente. Uma personagem que tivesse alguma culpa na conscincia seria em geral m vtima. A inocncia ser tanto mais tocante quanto mais inofensiva for a vtima. E tremeremos tanto mais por ela quanto mais hediondo for o assassino que a ameaa. (BOILEAU-NARCEJAC, 1991, p.67-68).

Antes mesmo de iniciarmos a discusso sobre o romance policial mstico-religioso,

que ser feita no prximo captulo, cabe-nos destacar que a vtima tinha pouca importncia

no romance policial clssico, mas ganhou o status de culpada em muitos dos romances

policiais de nosso corpus de pesquisa. Nos livros estudados neste trabalho, alguns sujeitos

so assassinados somente por terem provocado o assassino, ameaando revelar um

segredo protegido por uma sociedade fechada da qual ele faz parte, por exemplo. Para que

os livros do corpus fossem classificados como romances policiais, consideramos a

existncia dos trs elementos destacados por Boileau-Narcejac (1991) vtima, criminoso e

detetive sem nos preocuparmos, inicialmente, com a importncia que cada um deles teria

no enredo.

Fiorin (1990), em Sobre a tipologia dos discursos, discute o que diferencia os

textos7 e trata desse problema a partir do embasamento terico da semitica discursiva.

Partindo do percurso gerativo do sentido, o autor prope uma distino de textos segundo a

sintaxe e a semntica de cada um dos nveis: fundamental, narrativo e discursivo. Pensando

na relao entre o romance policial clssico e o romance policial mstico-religioso, objeto

de estudo neste trabalho, faremos a exemplificao da proposta de Fiorin (1990) a partir

desses dois tipos de narrativas policiais.

7 Nesse texto de Fiorin (1990), os conceitos texto e discurso foram utilizados como sinnimos.

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No nvel fundamental, possvel diferenciar textos que apresentem as mesmas

categorias semnticas, mas que sejam investidos de axiologias opostas. O romance policial

clssico e o romance policial mstico-religioso, por exemplo, abordam as oposies

/ocultao/ vs /revelao/. No modelo clssico, a revelao tem valor eufrico, j que a

identidade do criminoso deve ser revelada para a sociedade. J no romance policial mstico-

religioso, como ser mais bem explicado no captulo seguinte, a ocultao que tem valor

eufrico, j que o segredo protegido por uma sociedade fechada deve ser mantido. Esses

dois tipos de texto pertencem ao mesmo gnero, romance policial, mas apresentam

diferenas nos investimentos axiolgicos das categorias do nvel fundamental.

Para tratar do nvel narrativo, Fiorin (1990) destaca as transformaes realizadas

pelos sujeitos do fazer a partir das quatro etapas da sequncia narrativa cannica, quais

sejam, a manipulao, a competncia, a perfrmance e a sano. O destaque que cada tipo

de texto d a uma dessas etapas o que os diferencia. O romance policial clssico se

destaca por privilegiar a fase da sano. Isso significa que a descoberta da identidade do

culpado, que corresponde perfrmance do detetive, uma sano negativa no percurso do

criminoso, que vai ser entregue a um destinador-julgador para que seja punido. Caso o

detetive no consiga realizar a perfrmance de investigao, sua presena no enredo perde

o sentido e o criminoso no recebe a punio merecida. No romance policial mstico-

religioso, por sua vez, o enredo privilegia a fase da perfrmance dos detetives (que no

recebem esse ttulo, mas desempenham o mesmo papel que o detetive clssico como ser

explicado no captulo 3). A preocupao central da investigao no encontrar o culpado

pelo crime, mas sim entender os motivos que o levaram a cometer os assassinatos,

descobrir o segredo protegido por uma sociedade fechada e impedir sua revelao.

No nvel discursivo, tanto o romance policial clssico quanto o romance policial

mstico-religioso so textos figurativos, que tentam simular o mundo natural, embora as

figuras manifestadas em cada um deles recubram temas diferentes. Nos romances policiais

clssicos encontram-se as figuras do assassinato, do criminoso, do detetive, da

investigao, do cadver, que recobrem o tema do crime, do assassinato. No romance

policial mstico-religioso, por sua vez, alm das figuras que recobrem o tema do crime, o

que faz com que esse texto seja considerado um romance policial, h tambm as figuras que

recobrem o tema mstico-religioso, como os cavaleiros templrios, Jesus Cristo, smbolos,

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enigmas, investigadores, Opus Dei, Igreja Catlica, maonaria. Essas diferenas sero mais

bem explicadas ao longo desta tese.

A partir dessa descrio da constituio do gnero policial e dos romances policiais

que fizeram muito sucesso aps Edgar Allan Poe, notam-se diferentes possibilidades de

desenvolvimento da narrativa policial. Os romances policiais mais vendidos no Brasil, no

perodo de 1980 a 2009, que incorporaram a temtica mstica e religiosa em seus enredos,

correspondem a uma das possibilidades de desenvolvimento do gnero policial que tem

feito muito sucesso com o pblico leitor. Acreditamos que o sucesso indiscutvel do gnero

policial, independentemente de sua espcie