Rulian B. Maftum - Caixinha de Surpresas

Embed Size (px)

DESCRIPTION

investigação

Text of Rulian B. Maftum - Caixinha de Surpresas

  • [Escolha a data]

    C A I X I N H A D E S U R P R E S A S

    RULIAN B MAFTUM

  • CAIXINHA DE

    SURPRESAS

    E se muito do que voc sabe sobre

    futebol fosse uma grande mentira?

    1. EDIO - 2014

    R U L I A N B M A F T U M 1

  • Sobre o autor:

    Rulian B Maftum

    Rulian Belinski Maftum nasceu em

    Guaratuba, Paran, em 03/01/1980.

  • Jornalista, j atuou nas mais

    diversas mdias como jornal, TV,

    internet e rdio. Nestes veculos

    sempre teve alguma ligao com

    esportes, uma paixo cultivada

    desde cedo. Hoje diretor-geral da

    Lumen Comunicao, em Curitiba,

    sendo responsvel pela gesto de

    duas rdios FM, TV e revistas.

    colunista da rdio Lumen FM,

    Mestre em Tecnologia e professor

    de graduao e ps-graduao na

    PUC-PR.

  • C A I X I N H A D E S U R P R E S A S

    PREFACIO

    FIFA teme que mfias de apostas manipulem

    resultados da Copa de 2014

  • Chefe de segurana da Fifa no descarta que

    se

    possa

    suspender

    jogos

    com

    pouca

    antecedncia se houver suspeitas de fraude

    12/01/2014 - AGNCIA EFE

    O chefe de segurana da FIFA, Ralf Mutschke,

    alertou para o risco de mfias de apostas

    tentarem manipular o resultado de partidas

    da Copa do Mundo de 2014.

    Em

    uma

    entrevista

    ao

    jornal

    alemo

    "Frankfurter Allgemeinen" publicada neste

    domingo (12/01), Mutschke no descartou que

    inclusive se possa suspender jogos com pouca

    antecedncia se houver suspeitas de fraude.

  • "Temos que dar como garantido que o crime

    organizado tentar manipular partidas tambm

    na Copa. a competio na qual se registra

    o maior volume de apostas e na qual se

    conseguem os maiores lucros", declarou.

    A FIFA, explicou, tem um pacote de medidas

    pronto para combater esta mfia, e nos 12

    estdios nos quais sero disputadas as

    partidas da Copa no Brasil h encarregados

    de segurana.

    Para evitar fraudes, funcionrios da FIFA

    esto em contato com as casas de apostas e

    monitoram redes sociais em busca de pistas.

    R U L I A N B M A F T U M 1

    C A I X I N H A D E S U R P R E S A S

    CAPITULO 1

  • 9 km em 36 minutos!

    Vou ter que forar um pouco mais para chegar. 10 quilmetros em

    40 minutos. Isso o mnimo! Menos do que isso melhor largar tudo.

    Vrias pessoas conseguem isso dando risada.

    A dor no peito repentina. Uma dor muito forte e profunda. A

    sensao de que o corao est sendo espremido violentamente.

    9 km e 100! Agora tudo ou nada. Minhas pernas doem. Onde j se

    viu, uma corridinha e j est com tudo doendo. Tenho que pegar mais

    firme nos pesos para a panturrilha.

    A dor intensa comea a se espalhar rapidamente, primeiro para o

    brao esquerdo.

    9 km e 200! Agora sim. Essa msica o que eu precisava. Que bom

    que sempre a deixo programada para os minutos finais. Tenho que chegar

    antes que ela acabe.

    Uma pontada forte no pescoo joga-o para trs. J no sabe mais se

    aquilo o mal que continua se espalhando ou se resultado do esforo

    para conter a dor.

    9 km e 300! Quem esse cara que acenou pra mim? Ele j acenou

    pra mim antes e eu nem fao ideia de quem seja. E o que aquele short

    dele? Deve achar que est super sexy usando aquilo. Duvido que eu

    conhea algum que corra com um shortinho daquele. Deve ser algum

    que acha que me conhece s porque nos cruzamos correndo uma ou duas

    vezes.

  • R U L I A N B M A F T U M 2

    C A I X I N H A D E S U R P R E S A S

    Ele est paralisado. Olha em volta e o raciocnio no vem. A nica coisa

    que existe ali agora a dor. No consegue se manter mais em p. Deixa o

    corpo cair sentado no cho.

    9 km 500! Merda! Aquele man me fez perder a concentrao!

    Fiquei prestando ateno naquele short ridculo e quase perdi o tempo.

    S faltam 500 metros. 500 metros!

    Precisa gritar por socorro, mas o ar comea a faltar rapidamente. O

    barulho que sai de sua boca nem ele mesmo consegue ouvir.

    9 km 600! Acho que vai dar! Tem que dar! Concentra! Concentra!

    Em trs meses eu nunca fiz abaixo dos 40 minutos. No vai ser hoje! Logo

    hoje!

    Um calafrio brota dos ps e percorre o corpo todo. Est gelado ali,

    mas ele continua suando como se estivesse ao lado de uma fogueira.

    9 km 700! Logo hoje que eu acordei to bem. Estava me sentindo

    tima. Achei que ia arrebentar na corrida. Como eu estava errada. isso

    que d ficar achando que j est bem.

    A dor j nem incomoda tanto, pois como se j fizesse parte dele. A

    vista embaralha de vez. O corpo no aguenta mais aquilo e ordena para

    que ele se deite no cho.

    9 km 800! Essa fisgada normal. Voc j assentiu antes. E no foi

    nada demais. No uma dorzinha assim que vai te fazer parar agora. So

  • s duzentos metros.

    Os olhos veem um borro da luz acesa no teto antes de se fecharem

    por completo. Ele ainda tenta murmurar alguma coisa, sem sucesso.

    9 km 900! Aquele sprint final. Sem diminuir! Sem diminuir! logo

    ali! Cem metros pra voc provar que presta pra alguma coisa. Que esse

    esforo todo d algum resultado. Corre! Corre!

    R U L I A N B M A F T U M 3

    C A I X I N H A D E S U R P R E S A S

    A quietude absoluta. No v mais nada, no ouve mais nada, no

    sente mais nada. Est feliz porque agora a dor foi embora. a ltima

    sensao que aquele corpo sentiu.

    Cheguei! 39min47seg. Deu certo. Consegui! Consegui! Calma, agora

    caminha um pouco para voltar o batimento. Consegui! Ufa! 39 e 47. Foi em

    cima, em cima da hora, mas deu.

    * * *

    Morto.

    Xavier Delabona no conseguia acreditar.

    A palavra ecoava em sua cabea. Parecia at outro idioma, pois foi

    preciso repeti-la vrias vezes para que ele pudesse identific-la. Um

    carro cruzou pelo lado esquerdo em alta velocidade o que tirou Xavier de

    seu quase transe. Olhou no relgio digital do painel, 23h55min, e

    percebeu que tinha passado vrios minutos com aquela reflexo curta e

    recorrente. Ainda bem que ele no precisava pensar para acertar o

  • trajeto, de tantas vezes que j o tinha feito. Estava no piloto automtico de

    sua memria e de seu corpo. Custava a acreditar que aquele caminho

    estava agora levando-o para uma das maiores tristezas de sua vida.

    Morto.

    Ela ressoou novamente. No era a palavra que incomodava, afinal

    ela estava sempre presente no dia-a-dia de Xavier. Aquela palavra

    praticamente definia boa parte da rotina de trabalho dele. O que estava

    fora de propsito era a construo da frase, com a palavra morte

    aparecendo junto ao nome de Martino Andreatto.

    Quando o telefone tocou, perto das 23h, Xavier Delabona logo

    pensou que fosse mais uma das inmeras ligaes que recebia no meio

    da noite para informar algum crime. quela hora, com certeza, um crime

    que envolvia morte. Xavier estava certo, em parte. A ligao era

    realmente sobre um cadver. Mas a voz que deu a notcia no era uma

    das usuais, apesar de ser muito conhecida dele.

    Colocou o telefone no gancho e permaneceu sentado. Ele j estava

    acostumado com aquelas situaes. At suas companhias femininas mais

    R U L I A N B M A F T U M 4

    C A I X I N H A D E S U R P R E S A S

    frequentes j sabiam como funcionava. Horas antes tinha dispensado

    uma delas pois imaginava que naquela noite poderia dormir tranquilo.

    Mas, agora era diferente. O que fazer?

    Xavier Delabona decidiu pegar o caminho mais fcil. Levantou-se e

  • seguiu a rotina que acontecia de 2 a 3 vezes por semana. O casaco estava

    no mesmo lugar, sempre com um bloquinho, um gravador e duas canetas

    nos bolsos. Pegou as chaves e a carteira que ficavam estrategicamente na

    mesinha ao lado.

    Antes de sair parou em frente a porta e recordou a quantidade de

    vezes que j havia praguejado ouvindo aquelas ligaes. Lembrou da

    frase que seu primeiro chefe na redao repetia para justificar a

    relevncia do trabalho que faziam: Algum sempre vai morrer. S agora

    Xavier percebeu a verdade arrepiante que havia por trs daquelas

    palavras. Pois naquela noite o algum era seu amigo Martino Andreatto.

    Enquanto estacionava o carro na rua, Xavier Delabona olhou a

    janela do 401. A luz estava acesa. Ficou alguns minutos parado no carro

    olhando para cima. Lembrou do nmero de discusses que teve com

    Martino, estando o amigo debruado ali no parapeito, fumando um cigarro

    atrs do outro. E o assunto acabava sempre caindo no tema que

    significava a vida para Martino, futebol. O maldito futebol. Por causa

    disto tinham parado de se falar nos ltimos meses, depois de uma

    discusso muito agressiva. De dentro de sua cabea, provavelmente do

    mesmo lugar onde a palavra morte vinha sendo repetida

    constantemente durante o trajeto todo, pode ouvir a voz do amigo: Como

    pode algum no gostar de futebol? Pior, ignorar o futebol?! Se eu no te

    conhecesse diria que isso coisa de bicha. Pelamordedeus Xis!. O

    sorriso que veio com a lembrana trouxe junto uma tristeza profunda e

  • um vazio na boca do estmago como se tivesse ficado horas sem comer.

    A luz da sirene da ambulncia trouxe a realidade a tona. Olhou no

    relgio do painel do carro: 00h07min. Havia um homem de branco,

    encostado no furgo fumando. Devia ser o motorista espera da maca

    com o cadver do morto.

    Martino Andreatto, morto.

    R U L I A N B M A F T U M 5

    C A I X I N H A D E S U R P R E S A S

    * * *

    A fisgada muscular duran