Toda poesia - Paulo Leminski

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Este volume percorre, pela primeira vez, a trajetória poética completa do autor curitibano, mestre do verso lapidar e da astúcia. Livros hoje clássicos como Distraídos venceremos e La vie en close, além de raridades como Quarenta clics em Curitiba e versos já fora de catálogo estão agora novamente à disposição dos leitores, com inédito apuro editorial.

Text of Toda poesia - Paulo Leminski

  • sumrioapresentao alice ruiz s

    quarenta clics em curitiba [1 97 6]caprichos & relaxos [1 98 3]caprichos & relaxos (saques, piques, toques & baques)polonaisesno fosse isso e era menos no fosse tanto e era quaseideolgrimassol-tecontos semiticosinvenes

    distrados venceremos [1 98 7 ]distrados venceremosais ou menoskawa cauim desarranjos florais

    la vie en close [1 991 ]o ex-estranho [1 996]o ex-estranhoparte de am/or

    winterverno [2 001 ]poemas esparsosnota sobre leminski cancionista jos miguel wisnikapndice

  • apresentaoAlice Ruiz SEste livro antes de tudo uma vida inteira de poesia. Uma vida totalmente dedicadaao fazer potico. Curta, verdade, mas intensa, profcua e original.

    A anlise crtica, melhor deix-la aos especialistas; aqui, me compete lembrar ahistria/vida dos livros que enfim compem este livro nico.

    Um dos primeiros poemas do Paulo, talvez mesmo o primeiro, foi escrito em latim,na segunda infncia, nos tempos em que ele estudou no Internato Paranaense. Aconvivncia precoce com o clero lhe deu mpetos de clausura, mais pelo facilitadorecolhimento que to propcio ao estudo dos movimentos da alma e das riquezas dapalavra do que propriamente pela f religiosa. No que ela no estivesse presente,mas havia tambm uma energia viril, aquela que nos faz querer conquistar o mundo eabsorver o que ele tem para ensinar. Assim, a clausura durou pouco, como qualquerarroubo da adolescncia, mas foi suciente para deixar razes, pois o amor peloconhecimento, uma vez despertado, no se apaga facilmente.

    A primeira vez que vi o Paulo foi na entrega dos prmios de um concurso de poesiaem Curitiba. Todos os poemas premiados eram lidos por seus autores e o dele foi onico que me disse algo de inovador e contundente. Uma dico to original deve terultrapassado a capacidade de apreciao do jri, na poca, mas aquele poema deconstruo impecvel no poderia passar em branco. Assim, aquele que merecia oprimeiro lugar levou apenas uma meno honrosa. O tempo haveria de corrigir esseequvoco, j que os primeiros lugares daquele concurso no esto em nenhum lugarespecial hoje, bem diferente dele.

    Quatro anos depois, fui levada por amigas ao seu aniversrio de 24 anos.Nosso primeiro assunto foi poesia. O ltimo tambm.Passamos a maior parte da festa em seu escritrio e quase fui soterrada por uma

    profuso de palavras, ideias e projetos (o Catatau, por exemplo, tinha apenas oitopginas e ainda se chamava Descartes com lentes). Falamos de autores que ns dois jadmirvamos, e ele me apresentou os haikaistas e os poetas concretos, que eudesconhecia. Enquanto isso, eu, recm-chegada do Rio de Janeiro, onde vivera pordois anos, lhe apresentei o que a msica popular brasileira estava produzindo demais novo (em todos os sentidos), particularmente o Tropicalismo, que ainda no otinha tocado.

    Assim como o amor, a poesia e a msica foram crescendo em nossa vida emcomum.

    Em 1976, quando o fotgrafo Jack Pires chegou com a proposta de fazer um livroem conjunto com Paulo, espalhamos as fotos dele pelo cho e fomos procurando,entre os poemas curtos, quais conversavam ou rimavam com aquelas imagens. Foiassim que nasceu a primeira publicao de uma pequena parte de sua poesia, oQuarenta clics, editado em Curitiba.

    Em 1980 foi a vez de No fosse isso e era menos no fosse tanto e era quase, umaedio primorosa, iniciativa e presente dos amigos Dico Kremer, Mrcio Santos e

  • Nego Miranda, donos do estdio fotogrco zap, que zeram um trabalho fotogrcode ampliao da tipologia de sua Remington anos 40. A impresso foi obtida por meiode uma troca de servios com grficas parceiras.

    A ideia de permuta, Paulo a absorveu e utilizou para fazer, no mesmo ano, seuterceiro livro independente de poemas: Polonaises. Uma homenagem s suas razes,na tipologia do Solidarno (Solidariedade), movimento revolucionrio/operrioliderado por Lech Valesa, que estava acontecendo na Polnia naquela poca.

    Um dos problemas das edies independentes era decidir o que fazer com astiragens inteiras, que cavam com os autores. Em 1983, com a casa tomada por maisde mil exemplares de cada um desses trs livros, mais a edio do Catatau (tambmindependente), mais as edies de dois livros meus, e restritos ao mercado curitibanono vendamos, presentevamos amigos , soubemos que a editora Brasiliensetinha tambm uma livraria em So Paulo, onde era possvel colocar venda algunslivros feitos fora do eixo.

    Enviamos um exemplar de cada livro para Luiz Schwarcz, na poca brao direito doCaio Graco Prado e responsvel por inovadoras colees como Encanto Radical ePrimeiros Passos, entre outras. Luiz nos ligou, agradecendo e perguntando setnhamos inditos, pois um material novo daria mais vida reunio dos j existentes.Assim nasceu a primeira edio nacional de cada um.

    Caprichos & relaxos foi o nome que o Paulo encontrou para reunir esses primeirospoemas, em que est presente um vis ldico, mas sem abrir mo do rigor. Um nomedenncia e receita, ao mesmo tempo. O livro saiu em 1983.

    Em seguida veio Distrados venceremos, em 1987. O nome remete, de certa forma, aolivro anterior, aparentemente com uma pitada de esperana, embora o teor dospoemas aponte para um maior ceticismo.

    Paulo comeou a selecionar a produo seguinte baseado em um novo critrio, oumelhor, destacando um estilo novo que comeava a se esboar. O que ele chamava deparnasiano chique iria para o La vie en close e os demais, meio sem um lugardenido ainda, foram para uma pasta que ele batizou de Ex-estranho, um livro queseria pensado mais tarde. Mas no havia mais tarde, e isso j estava anunciado nosttulos escolhidos por ele. O estranho, que como o poeta se sente dentro domundo prtico, em breve ser ex. E a vida que se fecha/encerra parece enm entrarem foco, destacar apenas o que essencial: La vie en close.

    Terminada a seleo, que acompanhei de perto, ele me pediu para cuidar dos seusinditos, e me encarregou de encaminh-los para o Caio e/ou ao Luiz, caso o Paulono tivesse tempo suciente. Caio editou La vie en close. Samuel Leon, da editoraIluminuras, alm das prosas, editou O ex-estranho e Winterverno, livro com poemascurtos do Paulo e imagens de Joo Virmond Suplicy Neto. E agora toda a poesia voltas mos do Luiz Schwarcz, atravs da Companhia das Letras.

    Esses livros so diferentes entre si, mas tm a mesma marca de sua escrita potica.Razes na poesia concreta e na sntese, na experimentao e no coloquial. O mesmocompromisso com duas coisas aparentemente excludentes: a inovao e o af de

  • comunicar, de dizer. Um dizer repleto da conscincia da necessidade do silncio.Talvez por essas e outras razes sua poesia continue to atual e ainda converse com ofuturo.

    E agora, enm reunida, pode oferecer uma viso total do que foi a poesia paraLeminski e do que Leminski para a poesia.*

    * Aqui, a totalidade dos versos j publicados em livro. (N. E.)

  • quarentaclics emcuritiba[1976]

  • nota do editorPublicado em 1976 pela editora Etecetera em forma de portflio, Quarenta clics em Curitiba combinava fotos de

    Jack Pires e poemas de Paulo Leminski. Conforme diz Leminski na introduo da obra, Nenhum texto foi

    escrito para uma foto. Foi buscada a relao/contradio texto/foto. Os poemas estavam prontos j. Dado que

    os poemas so anteriores s fotos, optamos por reproduzir aqui apenas os textos, sem as imagens.

    Alguns poemas de Quarenta clics constam de Caprichos & relaxos e La vie en close, com pequenas modicaes.

    Nesses casos, optamos por mant-los apenas nos livros posteriores, mais representativos da obra de

    Leminski, em sua verso definitiva.

  • Compra a briga das coisasGigante em voContra a parede brancaPrega a palma da mo

    Uma vida curtapara mais de um sonho

    Ser precisoexplicar o sorrisoda Mona Lisapara que vocacredite em mimquando digoque o tempo passa?

    o critrioatitudes estranhasno dpara condenar pessoascriaturascom entranhas

    Quem me deraum mapa de tesouroque me leve a um velho bacheio de mapas do tesouro

    Fechamos o corpocomo quem fecha um livropor j sab-lo de cor.Fechando o corpocomo quem fecha um livroem lngua desconhecidae desconhecido o corpodesconhecemos tudo.

    S mesmo um velhopara descobrir,detrs de uma pedra,toda a primavera.

    O tempo todo caminha.Se para,

  • acompanha-sede uma s linhaera uma vezera uma vezera uma vez

    DomingoCanto dos passarinhosDoce que d para pr no caf

    Gente que mantmpssaros na gaiolatem bom corao.Os pssaros esto a salvode qualquer salvao.

    Ruas cheias de gente.Seis horas.Comida quente.Caarolas.

    Hesitei horasantes de matar o bicho.Afinal,era um bicho como eu,com direitos,com deveres.E, sobretudo,incapaz de matar um bicho,como eu.

    Pense depressa.O que veio?Quem vem?Bonito ou feio?Ningum.

    os dentes afiados da vidapreferem a carnena mais tenra infnciaquandoas mordidas doem maise deixam cicatrizes indelveisquando

  • o sabor da carneainda no foi estragadopela salmoura do dia a dia quandoainda se chora quandoainda se revolta quandoainda

    corpo entortadocontra o friosaco s costas vazioest roubando o vento?

    AmigoInimigoNada tive com o marNem ele comigoFui homem de secoHoje posto a secarNeste beco

    O olho da rua vo que no v o seu.Voc, vendo os outros,pensa que sou eu?Ou tudo que teu olho vvoc pensa que voc?

    Frutas que s ficamMaduras depois de colhidasMinhas velhas conhecidas

    J no chovePessoas molham passosAs ruas pesadas

    isso?aqui?j?assim?

    Amando,aumenta

  • at duas mil vezeso tamanho.

    Depois de hojea vida no vai mais ser a mesmaa menos que eu insista em me enganaralisdepois de ontemtambm foi assimanteontemantesamanh

    isso aquiacaso lugarpara jogar sombras?

    quem vivoaparece sempreno momento erradopara dizer presenteonde no foi chamado

    o silnciose mete a maltratarme ditandoabreviaturas de mime,quem