V WORKSHOP EMPRESA, EMPRESÁRIOS E SOCIEDADE O .2006-09-26 · características mais gerais dessas

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V WORKSHOP EMPRESA, EMPRESRIOS E SOCIEDADE O mundo empresarial e a questo social

Porto Alegre, 2 a 5 de maio de 2006 PUCRS

Mesa Redonda: 03 Grupos Econmicos e poder poltico

Grupos financeiros no Brasil: um perfil econmico e sociopoltico dos maiores credores privados (*)

Ary Cesar Minella Dr. em Estudos Latino-americanos.

Universidade Federal de Santa Catarina Resumo:

O trabalho apresenta alguns aspectos conceituais dos grupos econmicos e, considerando a reestruturao financeira ocorrida no Brasil na dcada de 1990 e as caractersticas mais gerais do crdito, traa um perfil dos dez maiores bancos privados a partir de indicadores econmicos como o controle sobre as operaes de crdito, a participao na dvida pblica interna e a constituio enquanto grupo financeiro; entre os indicadores sociopolticos, considera-se especialmente a participao na estrutura de representao de classe do empresariado financeiro, a atuao poltica a partir do financiamento de campanhas eleitorais e a ocupao de cargos em rgos estratgicos do Estado. Busca, assim, verificar em que medida tais bancos podem ser caracterizados de forma mais ampla, em termos econmicos, histricos e sociopolticos.

(*) Trabalho vinculado ao projeto de pesquisa "Amrica Latina: uma viso sociopoltica das transformaes e das perspectivas do sistema financeiro (III etapa)", realizado com apoio do CNPq. Endereo do autor: minella @matrix.com.br.

1. Introduo

As consideraes que trago para o debate procuram responder a questo de como analisar

as instituies financeiras atualmente. Sero elas apenas intermedirias financeiras que se

beneficiam de polticas econmicas que lhes so francamente favorveis no contexto da

chamada globalizao financeira? Ou se constituem como conglomerados que atuam em

diversos segmentos do sistema financeiro e, alm disso, se integram a ncleos que agregam

empresas que atuam em diversos setores da economia, constituindo grupos econmicos ou

grupos financeiros, cujos interesses e vnculos se estendem tambm para uma diversificada

gama de interesses sociais, culturais e polticos? Para responder a estas questes, o

trabalho apresenta os seguintes passos: uma breve reviso conceitual em relao aos

grupos econmicos, uma descrio da reestruturao bancria ocorrida no Brasil a partir de

meados dos anos 1990, as caractersticas do crdito no pas e finalmente identifica os dez

maiores bancos privados credores, tomando como referncia o ano de 200, e apresenta as

caractersticas mais gerais dessas instituies em termos de um perfil econmico e

sociopoltico.

2. Grupos econmicos

Segundo alguns autores, embora a existncia dos grupos econmicos se apresente como

um fenmeno bastante amplo e central no capitalismo contemporneo, tem recebido uma

ateno ainda insuficiente por parte das cincias sociais (GRANOVETTER, 1994;

GONALVES,1991).1 A partir dos anos noventa parece ter se ampliado o interesse pelo

tema, com vrios estudos empricos e discusses tericas publicadas na Amrica Latina

(alm de GONALVES, 1991, podem ser citados: COMIN et al, 1994; ALCORTA, 1992;

PORTUGAL JUNIOR, 1994; STOLOVICH, 1993, 1995; SCHVARZER, 1995;

AZPIAZU, BASUALDO, KHAVOSSE, 1989; BASUALDO, 2002). No caso brasileiro, a

retomada de estudos sobre os grupos econmicos leva a uma melhor compreenso da

dinmica econmica e poltica no perodo (COMIN et al,1994).

Embora existam algumas divergncias conceituais e dificuldades operacionais nos

procedimentos empricos de anlise, em termos gerais tm-se destacado dois aspectos:

primeiro, a importncia dos grupos, tanto como agentes privilegiados das operaes

1 O fenmeno recebe diferentes denominaes: Grupo Econmico (Amrica Latina), Zaibatsu depois keiretsu (Japo), Chaebol (Coria do Sul), Twenty-two families (Paquisto), Indian business house (ndia), Business Group (Inglaterra) (GRANOVETTER, 1994).

2

econmicas em esfera global, quanto por sua influncia ou potencial de influncia direta e

indireta sobre as polticas governamentais e, segundo, seu papel no mundo do

entretenimento e da cultura, constituindo-se como grandes artfices da cultura mundial no

final do sculo XX (ORTIZ, 1994, p.147-182).

Gonalves define grupo econmico como um conjunto de empresas que, ainda que

juridicamente independentes entre si, esto interligadas, seja por relaes contratuais, seja

pelo capital, e cuja propriedade (de ativos especficos e, principalmente, do capital)

pertence a indivduos ou instituies, que exercem o controle efetivo sobre este conjunto

de empresas (GONALVES,1991, p. 494).

Uma ampla pesquisa bibliogrfica realizada no Brasil durante os anos noventa, e que

repassa as diversas concepes e tendncias da literatura sobre o tema, tambm enfatiza a

questo da propriedade na constituio do grupo econmico (PORTUGAL JUNIOR,

1994). Os proprietrios detm um poder ativo, (quando exercem cargos administrativos e

executivos) ou latente (quando no so membros integrantes da direo do grupo). A

propriedade do capital atua como mecanismo ou instrumento de controle e como lcus de

controle pois, atravs da propriedade se exerce o poder. O grupo econmico , ento, um

lcus de acumulao de capital e um lcus de poder (GONALVES,1991, p.494).

Portugal Jr observa que pela tradio marxista, o grupo econmico produto especfico

do desenvolvimento capitalista contemporneo (1994, p.16) e se define por intenso

processo de interpenetrao patrimonial entre as grandes burguesias industriais e

financeiras das principais economias capitalistas. Os grupos econmicos so o topo de

uma estrutura bastante concentrada, de qualquer ponto de vista (1994, p. 18).

Assim o grupo econmico expressa relaes de fora e de poder, em torno das quais se

movimentam indivduos, classes, grupos sociais de um modo geral, formando redes de

solidariedade e campos de conflito. Em seu interior, est expressa uma diversidade de

interesses de acionistas, gerentes e trabalhadores frente aos recursos que precisam ser

organizados e hierarquizados (PORTUGAL JUNIOR, 1994, p. 17).

Segundo este autor, alguns aspectos so essenciais para definir grupo econmico, como o

controle e poder centralizado, atuao produtiva e financeira de grande porte e

3

complexidade, estrutura produtiva diversificada e descentralizada e o aspecto fundamental

a existncia de um centro comum de deciso responsvel pela tomada de decises

estratgicas do grupo econmico. O grupo deve ser entendido como um locus de

acumulao que detm grande poder econmico e financeiro e se subordina a um centro de

controle estratgico nico. Essa sua caracterstica bsica e imutvel (PORTUGAL

JUNIOR, 1994, p. 25).

Embora reconhea uma certa arbitrariedade na definio do que um grupo econmico,

Granovetter (1994) tende a defini-lo de uma forma mais ampla, como um conjunto de

empresas conectadas ou unificadas de algum modo formal ou informal. As conexes

includas na definio so de diversas naturezas, mas excluem, num extremo, aquelas

resultantes de alianas estratgicas de curto prazo e no outro um grupo de firmas

legalmente consolidadas em uma nica. O autor considera a existncia de grupos

econmicos com uma ampla diversidade de formas de constituio, organizao, grau de

estabilidade e natureza das conexes que estabelecem entre as empresas. Em geral, no

grupo existem laos pessoais e operacionais entre as empresas.

Algumas anlises coincidem ao enfatizar o estudo dos grupos econmicos para estabelecer

a conexo entre a dimenso micro e a macro. Assim, enquanto a microeconmia coloca

seu foco analtico na empresa e a macroeconmica enfatiza os agregados econmicos, o

estudo sobre os grupos econmicos constituiria uma mesoeconomia (COMIN et al,1994;

GRANOVETTER, 1994).

necessrio reconhecer que existe uma ampla variedade de tipos de grupos econmicos,

que se caracterizam por diferentes tipos de propriedade. Alguns grupos so controlados por

indivduos ou famlia ou conjunto de famlias relacionadas, de forma direta ou indireta.2

Em outros casos, podem ser mantidos de forma indireta atravs de sucessivas participaes

acionrias ou atravs de holdings.3 Como sugere Granovetter (1994), acordos e

participaes acionrias cruzadas podem ganhar uma estrutura extremamente complexa,

envolvendo vrias empresas, articuladas por redes de diretorias cruzadas. Os grupos

2 Granoveter (1994) cita como exemplo o chaebol Sul Coreano tal como Hyundai. Esta forma centralizada pode ser associada a grupos altamente conhecidos mas tambm com grupos menores e menos conhecidos e que no aparecem nas estatsticas oficiais, como foi constatado na Frana. 3 Granovetter (1994) cita os grupos econmicos mexicanos como exemplo da via holding.

4

japoneses apresentam algumas peculiaridades em termos dos relacionamentos acionrios

mtuos.

Um elemento distintivo dos grupos econmicos a existncia de solidariedade social e

estrutura social entre as firmas componentes que se estabelece a partir de fatores como

parentesco, etnicidade, partido poltico, religio e regio (GRANOVETTER, 1994, p. 462-

463). O parentesco um elemento bsico, por exemplo, para os grupos coreanos (chaebol).