Zbigniew Herbert, 'O Presente que Cega

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Poemas de Zbigniew Herbert traduzidos por Izabela Stapor, José Pedro Moreira e Tatiana Faia, originalmente publicados na revista Ítaca n. 3

Text of Zbigniew Herbert, 'O Presente que Cega

  • ZBIGNIEW HERBERT

    O presente que cega

  • ZBIGNIEW HERBERT

    O presente que cega

    verses publicadas na taca 3

    traduo do polaco deIzabela Stapor, Jos Pedro Moreira e Tatiana Faia

    posfcio de Ana Mara Snchez Tarro

  • Zbigniew HerbertO Presente que Cega

    traduo: Izabela Stapor, Jos Pedro Moreira e Tatiana Faia

    posfcio: Ana Mara Snchez Tarrofotografias: Ricardo vilareviso: Hanna Jakubowicz Batoro Katarzyna Herbertowa, Ana Mara Snchez

    Tarro, Izabela Stapor, Jos Pedro Moreira, Tatiana Faia, Edies Artefacto

    Agio cadernos de ideias, textos & imagenshttp://revistaagio.blogspot.pt/

    Sociedade de Instruo Guilherme CossoulAv. D. Carlos I, n. 61, 1. A1200 647 Lisboaeartefacto.blogspot.comed.artefacto@gmail.com

  • ndice

    de Torrente de Luz, 1956A Apolo...................................................................................Sobre Tria..............................................................................A Marco Aurlio......................................................................Nik que hesita........................................................................Uma balada para que no pereamos.......................................

    de Estudo de Objecto, 1961Apolo e Mrsias.......................................................................

    de Inscrio, 1969Lugar.......................................................................................Porqu os Clssicos..................................................................

    de O Senhor Cogito, 1974O Sr. Cogito e a prola............................................................Histria do Minotauro............................................................O velho Prometeu...................................................................Calgula...................................................................................O Sr. Cogito discorre sobre a posio recta..............................

    posfcioAna Mara Snchez Tarro, O presente que cega...................

    p. 09p. 11p. 13p. 14p. 16

    p. 17

    p. 20p. 21

    p. 23p. 24p. 25p. 26p. 28

    p. 33

  • 9 | Torrente de Luz, 1956

    A Apolo

    1

    Ia inteiro no rumor das vestes de pedradava sombra lurea e brilho

    respirava suavemente como as esttuase ia como uma flor

    ouvindo a sua prpria canoerguia a lira altura do silncio

    submerso em si prprioas pupilas brancas como a corrente de um rio

    petrificadodesde as sandliasat fita nos cabelos

    eu inventava os teus dedos confiava nos teus olhos

    sem cordas o instrumentoas mos sem dedos

    devolve-meo grito jovemas mos estendidase a cabea minhaadornada com a colorida coroa do encanto

    devolve-me a esperana branca cabea silenciosa

  • 10 | Torrente de Luz, 1956

    silncio o pescoo fendidosilncio o canto quebrado

    2

    No primeiro fundo da juventudeno tocarei eu mergulhador paciente

    agora apenas pescotorsos salgados feitos em estilhaos

    Apolo aparece-me em sonhoscom o rosto do persa morto

    os vaticnios da poesia so enganadorestudo era diferente

    diferente foi o fogo do poema diferente foi o fogo na cidade os heris no regressaram da expedio no houve heris salvaram-se os indignos

    procuro a esttua submersa na juventude

    ficou apenas o pedestal vazioo trao da mo buscando a forma

  • 11 | Torrente de Luz, 1956

    Sobre Tria

    1

    Tria Triaum arquelogopor entre os dedos deixar correr a tua cinzae um incndio maior do que a Iladapara as sete cordas

    demasiado escassas as cordasnecessrio um coroum mar de lamentosum estrpito de montanhasuma chuva de pedras

    como conduzir a partir das runas a gente como conduzir a partir dos poemas o coro

    pensa o poeta perfeito como uma esttua de sal dignamente mudo o Canto sair ileso Saiu ileso de uma asa de fogo no cu lmpido

    Sobre as runas nasce a luaTria Tria Est calma a cidade

  • 12 | Torrente de Luz, 1956

    O poeta luta com a prpria sombraO poeta grita como um pssaro no vazio

    A lua repete a sua paisagemum metal suave nos escombros

    2

    Caminhavam pelos desfiladeiros de ruas do passadocomo por um mar vermelho de destroos

    e o vento levantava o p vermelhofielmente pintava o ocaso da cidade

    Caminhavam pelos desfiladeiros de ruas do passadobafejavam em jejum na madrugada gelada diziam: longos anos passaroantes que aqui se construa a primeira casa

    caminhavam pelos desfiladeiros de ruas de outrorapensavam que viriam a encontrar uma pista

    na harmnicatoca o aleijadoacerca das tranas do salgueiroacerca da rapariga

    o poeta est caladochove

  • 13 | Torrente de Luz, 1956

    A Marco Aurlio

    Boa noite Marco apaga a luze fecha o livro J sobre a cabeacresce o lamento de prata das estrelas o cu que fala em outra lngua o grito brbaro do terrorque o teu latim desconhece o medo eterno o medo sombriocomea pela frgil terra humana

    a bater-se E vencer Ouves o rumor a mar alta Destruir as tuas letrasa corrente imparvel dos elementosat rurem as quatro paredes do mundoe para ns tremer ao ventoe de novo soprar as cinzas agitar o termorder os dedos procurar palavras vse arrastar connosco a sombra dos mortos

    melhor ento Marco que te despojes da paze ergas a mo sobre a escuridadeque trema ao bater nos cinco sentidoscomo numa lira dbil o universo cegoho-de trair-nos o universo a astronomiaos clculos das estrelas e a sabedoria da relvae a tua grandeza demasiado grandee o meu choro Marco desamparado

    Para o Professor Henryk Elzenberg

  • 14 | Torrente de Luz, 1956

    Nik que Hesita

    Nik mais belaquando hesitaa mo direita bela como uma ordemapoia-se no arporm as asas tremem

    pois ela vum jovem solitrioque segue o rastode um carro de guerrapor uma estrada cinzenta numa paisagem cinzentade rochas e escassos arbustos de zimbro

    aquele jovem morrer em breveagora mesmo o prato da balana do seu destinopende violentamentepara terra

    Nik sente um enorme desejo dese aproximare beijar-lhe a testa

    mas teme queele que no conhece aindaa doura do carinhoconhecendo-apudesse fugir como os outrosdurante esta batalhaento Nik hesitae por fim resolveficar na posioque lhe ensinaram os escultores

  • 15 | Torrente de Luz, 1956

    envergonhando-se muito por este momento de comoo

    sabe bemque amanh de madrugadaho-de encontrar este jovemcom o peito abertoos olhos fechadose com o amargo bolo da ptriadebaixo da lngua rgida

  • 16 | Torrente de Luz, 1956

    Uma balada para que no pereamos

    Aqueles que navegaram de madrugada mas nunca mais voltarona onda deixaram o seu trao

    no fundo do mar cai ento uma conchabela como lbios petrificados

    estes que andavam pelo caminho de areiamas no chegaram s portadasembora avistassem j os telhados

    e no sino do ar encontram abrigo

    e aqueles que s deixam rfoum quarto gelado alguns livrosum tinteiro vazio uma folha branca

    na verdade no morreram inteiramente

    por bosques de papel de parede avana o seu sussurrono tecto mora uma cabea plana

    de ar gua cal terrafizeram o seu paraso o seu anjo de ventoir com a mo fazer p dos seus corposvodispersar-se pelos prados deste mundo

  • 17 | Estudo de Objecto, 1961

    Apolo e Mrsias

    o exacto duelo entre Apoloe Mrsias(o ouvido absolutocontra as escalas imensas)d-se ao anoitecerquando como j sabemosos juzes deram a vitria ao deus

    fortemente amarrado rvoreperfeitamente arrancada a peleMrsiasgritaantes de o grito alcanaras suas altas orelhas descansa sombra deste grito

    agitado por um arrepio de repugnnciaApolo limpa o seu instrumento

    s em aparnciaa voz de Mrsias montonae composta por uma vogal A

    na verdadeconta Mrsiasa incomensurvel riquezado seu corpo

  • 18 | Estudo de Objecto, 1961

    calvas montanhas do fgadodesfiladeiros brancos de alimentossussurrantes bosques do pulmodoces colinas de msculosarticulaes fel sangue arrepioinvernoso vento de ossospor sobre o sal da memria

    agitado por um arrepio de repugnnciaApolo limpa o seu instrumento

    agora ao coro junta-se o monte de oraes de Mrsias essencialmente o mesmo As que mais profundo com a ferrugem adicionada

    isto ultrapassa as capacidades do deus de nervos de fibra sinttica

    pela lea de gravilhade buxo plantadaafasta-se o vencedorpensandose do uivo de Mrsiasno nasce com o tempoo novo ramoda arte digamos concreta

    de sbitoaos ps cai-lheum rouxinol petrificado

    vira a cabeae v

  • 19 | Estudo de Objecto, 1961

    que a rvore a que estava amarrado Mrsiasest cinzenta

    totalmente

  • 20 | Inscrio, 1969

    Lugar

    regressei anos depoistalvez demasiado saciado

    queria ver o lugar

    as colinas eram mais pequenasnas valas de salvaocorria gua castanha

    a relva no geral a mesmaidentificou a flor de anglica

    a paisagem minguouera meramente normalpor trs de tanto medopor trs de tanta esperana

    os pssaros esvoaavamdos ramos mais baixospara os ramos mais altos

    por isso nem neles podiaprocurar a certeza

  • 21 | Inscrio, 1969

    Porqu os Clssicos

    Para A. H.

    1

    no livro quarto da Guerra do PeloponesoTucdides conta a histria da sua expedio fracassada

    entre longos discursos de comandantesbatalhas cercos pestesdensa rede de intrigasesforos diplomticoseste episdio uma agulha de pinheirona floresta

    a colnia ateniense de Anfpoliscaiu nas mos de Brsidasporque Tucdides tardou com o auxlio

    por isto pagou sua cidadecom o exlio perptuo

    os exilados de todos os temposconhecem bem este preo

    2

    os generais das ltimas guerrasse lhes acontece caso parecidogemem de joelhos diante dos descendentesapregoam o seu herosmoe inocncia