Conhecimento em Platão

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Texto de apoio para alunos do ensino secundário

Text of Conhecimento em Platão

  • 1. Plato e o Saber 16 de Novembro de 2012, Jorge BarbosaA Construo do ConhecimentoNeste texto de apoio, utilizada a perspetiva seguida pela esmagadora maioria dos estudiosos dePlato que interpreta as datas de publicao dos seus dilogos como exprimindo a evoluointelectual e ideolgica de Plato. Assim, no seguida a abordagem analtica, segundo a qual cadaobra deve ser interpretada exclusivamente a partir das informaes presentes no seu texto.No dilogo OPrimeira resposta: construir um quadrado, formadoMnon, oa partir do dobro do lado do quadrado inicial. Se ointerlocutor dequadrado inicial tem 2cm, constri-se um quadradoScrates (Mnon) com 4 cm de lado. Mas esta estratgia no d umprotesta contra aquadrado de 8cm2 , mas de 16 cm2.metodologia seguidapor Scrates ecoloca o problemaque ficou conhecido como paradoxo de Mnon:Para que serve refutar sistematicamente algumque investiga o que uma coisa ? que mesmo quea resposta diga o que essa coisa , o investigadorno pode reconhecer aquilo mesmo que ignoracompletamente. Por outras palavras como quepodemos alcanar o estado de saber a partir doestado oposto, designado pelo termo ignorncia?Para responder a este paradoxo, Plato escreve,pelo menos trs dilogos: O Mnon, o Teetetoe o Sofista. S avana com uma soluodefinitiva neste ltimo. Vamos ver agora qual foi oseu percurso evolutivo.Segunda resposta: construir um quadrado com o lado medindo o mesmo que o lado do quadradoO dilogo com o escravoinicial mais metade desse valor (2+1)(2+1). Mas oScrates pede a um escravo sem instruo que lhe novo quadrado tambm excede o dobro dodiga qual deve ser a linha sobre a qual se podequadrado inicial: d um quadrado de 9cm2.construir um quadrado de rea dupla de umquadrado dado. Scrates sugere a construo de um quadrado a partir da diagonal do primeiro.JB. 2012 1

2. possvel aprender a partir da ignornciaO rapaz reconhece que o quadrado construdo sobre a diagonal do original o da rea dupla. Deste modo,Scrates alega ter conseguido provar que: Aquele que ignora o que quer que seja tem em si opiniesverdadeiras sobre aquilo que ignora.Na prtica, Scrates prova que um dilogo ou interrogatrio bem conduzido permite que aquele que ignoravenha a conseguir saber, por si mesmo, aquilo que ignorava, mas tinha esquecido. Vejamos, ento, o queentende Scrates por conhecimento, por aprendizagem e por reminiscncia.ConhecimentoSempre que Scrates faz uma pergunta a Mnon, pede-lhe que responda em seu prprio nome. Esta exigncia corresponde a uma das caractersticas do conhecimento: a coerncia consigo mesmo. O saber tem de ser assumido como tal pelo sujeito. De outro modo, no ser possvel refutar esse saber porque no haver ningum que responda por ele. A segunda caracterstica do saber a consistncia, ou a coerncia desse saber com outros saberes. Por outras palavras, o saber no pode apresentar contradies internas nem contradies externas (com outros saberes que digam respeito ao mesmo assunto). Por exemplo: um quadrado com o dobro de lado de um outro no pode ser entendido como tendo o dobro da rea do primeiro, porque contraria os saberes sobre o que um quadrado, sobre o que o dobro, etc. Uma vez que a verdade das opinies decorre da coerncia e da consistncia do saber, a descoberta de qualquer delas deve ser compreensvel para qualquer sujeito dotado de razo. Esta a terceira caracterstica do conhecimento. esta caracterstica que permite ao escravo concluir, primeiro, que acha que sabe, depois, que sabe que no sabe e finalmente que capaz de ficar a saber.Esta caracterizao do conhecimento corresponde a uma verdadeira ruptura com o que vulgarmente seentendia por conhecimento em Atenas, na poca de Plato. Para Plato, com efeito, o conhecimento no simplesmente um conjunto de informaes estabelecidas, fixadas e susceptveis de serem transmitidas aoutros. Implica tambm a coerncia, a consistncia e a compreensibilidade.A concepo platnica de conhecimento vai influenciar o pensamento ocidental at aos dias de hoje.Qualquer professor pretende que os alunos se apropriem das informaes relevantes e as faam suas, que asutilizem de forma consistente e que as transmitam de forma compreensvel.Reflexo: No entanto, esta concepo platnica, embora til em termos prticos na gesto do dia a dia (isto : ao nvel do sensocomum) levanta atualmente srios problemas filosficos. A principal crtica dirige-se sobretudo contra a reformulao daconcepo platnica na poca moderna (a partir do sculo XVII). A tese de Descartes a de que, sendo prprio do ser humanoser um ser racional (o bom senso a coisa mais bem distribuda do mundo), tudo o que seja coerente, consistente e compreensvel razo humana suscetvel de ser aprendido por qualquer ser humano, uma vez que todos so racionais. No sendo verdade queisso acontea na prtica, esta teoria deu origem a uma imensa quantidade de deficincias que explicariam por que razoalguns seres racionais no aprendiam tudo o que fosse conhecimento: discalculia, disgrafia, dislexia, disortografia, afasia,disfasia, atraso mental, etc., etc. Verificando-se ainda que algumas pessoas no aprendiam por no prestarem ateno s coisas,inventaram-se ainda outras deficincias, disfunes, etc. relacionadas com dfice de ateno, hiperatividade,depresso, etc., etc. Ora, sendo verdade que existem problemas desta natureza, ainda mais verdade que a maior parte delestem mais origem no erro de conceber o conhecimento dessa forma, do que exclusivamente nas caractersticas das pessoas. Nomnimo, temos de admitir que existem formas distintas, igualmente racionais ou prprias de seres humanos, de entender arealidade, de inteligncia das coisas, e ainda que esse entendimento e essa racionalidade no funcionam sem componentesenergticas ou emocionais que os ativem e lhes dem sentido. A valorizao da razo no tem de implicar o racionalismo, comoforma de entender a razo, por si s, como condio suficiente e necessria para o conhecimento.JB. 2012 2 3. AprendizagemNo dilogo de Scrates com Mnon (a obra de Plato - no esquecer), o conceito de aprendizagem decorre,em primeiro lugar, do conceito de conhecimento. Neste sentido, a aprendizagem consiste no processo de,atravs de perguntas e respostas, um sujeito ser levado a exprimir uma opinio verdadeira (adequada realidade) acerca daquilo que ignorava. A questo que se coloca de imediato : mas se ignorava, como foique deixou de ignorar?Vejamos, ento, como podemos interpretar, em linguagem atual, a tese de Plato: Do ponto de vista do rapaz, todas as respostas que d so verdadeiras porque exprimem a verdade, tal como ela para ele naquele momento; Essa verdade posta em causa sempre que o rapaz compreende que uma das respostas, pelo facto de contradizer outras, no pode ser verdade; Esta concepo intuitiva de verdade confirmada quando o rapaz compreende que, ao concordarem umas com as outras, todas as proposies antes expressas se tornam verdadeiras: verdade que no se consegue obter um quadrado que tenha o dobro da rea de um outro, duplicando a valor do lado, etc., e verdade que se obtm esse quadrado que o dobro do primeiro, se a linha de origem for a diagonal do primeiro.Por outras palavras, nos termos de Plato (atravs das palavras de Scrates) o escravo ignorava porquejulgava que sabia. Pelo contrrio, soube que sabia - isto : aprendeu -, quando, ao compreender que aconsistncia das proposies admitidas lhe permitia certificar a verdade de cada uma delas, integrou noconjunto aquela que respondia ao problema colocado por Scrates.ReminiscnciaPara chegar a este ponto, segundo a afirmao de Scrates, o escravo recordou. Aprender foi, afinal decontas, recordar, atravs de um esforo de depurao de vrias opinies ou crenas verdadeiras, sendo que suma delas correspondia resposta correta pergunta de Scrates.Mas recordou o qu?Em primeiro lugar, recordou a Forma do quadrado. Mas como pode ele ter recordado uma coisa que, em boaverdade, nem sabe o que quer dizer? O escravo no sabe qual o conceito que tem Scrates a respeito doque a Forma, ou a Ideia. Como recordou, ento, essa coisa?Vamos recorrer (de novo) a uma linguagem actual para compreender o que quer dizer Plato com o termorecordar. O rapaz sabe falar grego; dispe do vocabulrio que lhe permite dialogar; tambm o sabe usarpara descrever o mundo em que vive, nomeadamente, referindo objetos com formas quadradas. Pode noentender a passagem de um quadrado desenhado para um quadrado no espao ou um espao quadrado e dapara o quadrado como forma ou como ideia. Mas mesmo assim compreende o que o dobro de umquadrado. Podemos ento concluir que no necessrio saber o que a alma, saber a teoria das Ideias dePlato, para se ser capaz de aprender o que no se sabia. Por outro lado, todas as propriedades do quadrado,quaisquer que sejam, so anteriores sua descoberta por um gemetra. E nesta convico se baseia Platopara defender uma espcie de conhecimento a priori, isto , que se fundamenta no facto de a Forma doquadrado ser anterior ao desenho do quadrado e ao conhecimento dessa Forma por qualquer humano. Ora, essa Forma que a alma recorda de um mundo onde j viveu e onde a conheceu a ela e a todas as outras: oMundo das Ideias. A fragilidade de Plato est no facto de transpor esta perspetiva geomtrica para a tica epara a Poltica. Mas essa j outra questo.JB. 2012 3 4. Alegoria da CavernaFaz sentido fazer um ligeiro desvio para analisar uma das alegorias que Plato refere numa outra obra ARepblica (Livro VII): a Alegoria da Caverna.Essa alegoria apresenta trs Teses: A vida que os homens levam na cidade no real - agora diramos: no autntica. necessrio mudar a vida dos homens na cidade, justamente por no ser autntica. H que reorientar a vida da cidade, educando os cidados, com vista ao desenvolvimento da natureza humana.Note-se que esta alegoria, conforme Plato afirma mais adiante na mesma obra, um retrato metafrico deuma cidade grega sua contempornea, cujo nome ele no revela. Esta cidade muito diferente das nossascidades atuais, no que diz respeito a coisas de pormenor, e, por isso, podemos ter