Platão - teeteto

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Euclides — Vivo, porém muito mal; ressente-se bastante dos ferimentos recebidos. Porém o pior éter apanhado a doença que atacou as tropas. Terpsião — Por onde andavas? Terpsião — Pelo que dizes, estamos na iminência de perder um homem e tanto! Terpsião — Morto ou vivo? Euclides — É que não me achava na cidade. 1 — Euclides — Voltaste há pouco do campo, Terpsião, ou já faz tempo? Euclides — Exato. Terpsião — Disenteria, talvez?

Text of Platão - teeteto

  • Verso eletrnica do dilogo platnico Teeteto Traduo: Carlos Alberto Nunes Crditos da digitalizao: Membros do grupo de discusso Acrpolis (Filosofia) Homepage do grupo: http://br.egroups.com/group/acropolis/ A distribuio desse arquivo (e de outros baseados nele) livre, desde que se d os crditos da digitalizao aos membros do grupo Acrpolis e se cite o endereo da homepage do grupo no corpo do texto do arquivo em questo, tal como est acima.

    TEETETO

    1 Euclides Voltaste h pouco do campo, Terpsio, ou j faz tempo?

    Terpsio - Faz bastante tempo; procurei-te na praa do mercado e estranhei no encontrar-te.

    Euclides que no me achava na cidade.

    Terpsio Por onde andavas?

    Euclides Havia baixado ao porto, quando encontrei Teeteto, que transportavam do acampamento de Corinto para Atenas.

    Terpsio Morto ou vivo?

    Euclides Vivo, porm muito mal; ressente-se bastante dos ferimentos recebidos. Porm o pior ter apanhado a doena que atacou as tropas.

    Terpsio Disenteria, talvez?

    Euclides Exato.

    Terpsio Pelo que dizes, estamos na iminncia de perder um homem e tanto!

    Euclides De muito merecimento, Terpsio. Agora mesmo, ouvi fazerem-lhe os maiores elogios, pelo modo por que se houve na batalha.

    Terpsio No de admirar. Estranho seria se ele fosse diferente. Mas, por que no ficou aqui em Mgara conosco?

    Euclides Tinha pressa de chegar a casa. Insisti com ele e o aconselhei muito; porm no se deixou convencer. Por isso, o acompanhei: e, ao retornar, lembrei-me, com admirao, de como Scrates foi bom profeta a respeito de muita coisa e tambm de Teeteto. Se mal no me lembro, pouco antes de morrer ele encontrou Teeteto, que ainda era adolescente. Ambos a se conhecerem, e logo a conversar, tendo ficado Scrates encantado com a natureza do rapaz. Quando estive em Atenas, Scrates me falou pormenorizadamente na conversa que ento mantiveram, muito digna de ouvir, tendo acrescentado que se ele chegasse a ser homem, fatalmente se tornaria clebre.

  • Terpsio S falou a verdade, como parece. E a respeito de qu conversaram, poderias dizer-me?

    Euclides No, por Zeus! Assim, de improviso, no me seria possvel. Porm logo que cheguei a casa, tomei alguns apontamentos sobre o que mais me impressionara, havendo posteriormente redigido mais de estudo o que me acudia memria. Alm do mais, sempre que ia a Atenas, interrogava Scrates acerca do que no me recordava com mincias e, de regresso, corrigia meu trabalho. Foi assim que, praticamente, consegui reproduzir todo o dilogo.

    Terpsio verdade; j te ouvira falar nisso, e sempre tinha inteno de pedir que mo mostrasses, o que vinha diferindo at hoje. Mas, que nos impede de o lermos agora mesmo? Tanto mais, que preciso descansar, pois acabo de chegar do campo.

    Euclides Eu, tambm, acompanhei Teeteto at Ernio; por isso, uma pausa, agora, no seria nada mal. Vamos entrar; enquanto repousamos, meu escravo nos far essa leitura.

    Terpsio tima idia.

    Euclides Aqui tens, Terpsio, o livro. Porm redigi de tal modo o dilogo, que em vez de Scrates me relatar o ocorrido, como o fez, entretm-se com os que ele prprio declarou terem tomado parte na conversao. Referia-se ao gemetra Teodoro e a Teeteto. Para no sobrecarregar o escrito com tantas frmulas intercaladas no discurso, sempre que Scrates fala: Digo, ou Afirmo, ou, com referncia aos interlocutores: Concordou, No concordou, dei ao trabalho feio de um dilogo direto entre ele e os dois opositores, com excluso de tudo aquilo.

    Terpsio Foi uma excelente idia, Euclides.

    II Scrates Se eu me interessasse, Teodoro, particularmente pelas coisas de Cirene, no deixaria de interrogar-te sobre seus homens e o que acontece por l, como, por exemplo, se entre os jovens h quem se dedique ao estudo da geometria ou a outros ramos do saber. Porm como me preocupo menos com eles do que com os de casa tenho muito mais curiosidade de saber quais dos nossos adolescentes revelam maior probabilidade de distinguir-se. do que sempre procuro informar-me com o maior empenho, e para isso interrogo as pessoas cuja companhia eles freqentam. Ora, s tu quem rene tua volta o maior nmero de rapazes, e com razo, no s pelo merecimento prprio como pela atrao da geometria. Por isso, caso tenhas encontrado algum jovem digno de meno, com muito prazer ouvirei o que disseres.

    Teodoro Efetivamente, Scrates, vale tanto a pena eu falar como ouvires a respeito de um adolescente que descobri entre vossos concidados. Se se tratasse de um belo rapaz, teria medo de manifestar-me, para no pensarem que eu o fazia como apaixonado. Porm a verdade sem querer ofender-te que ele no nada belo; parece-se contigo em ter o nariz chato e os olhos saltados, alis em grau menos acentuado. Por isso, falo sem o menor constrangimento. Sabe, pois, que no meio de tantos jovens que at agora conheci e no tm conta os com que j tenho conversado no encontrei nenhum com to maravilhosa natureza. A facilidade de aprender como apenas se encontraria em mais algum, uma

  • docilidade nica, associada a singular valentia so qualidades que nunca imaginei pudessem existir ou que ainda venhamos a encontrar. De fato, os que so dotados de igual vivacidade, entendimento rpido, boa memria, de regra so sujeitos a acessos de clera e se deixam levar matroca, como navio sem lastro, sobre se revelarem mais impulsivos do que realmente corajosos. Os mais ponderados so algum tanto preguiosos e sumamente esquecidos. Este, pelo contrrio, avana com naturalidade e segurana na senda do saber e da pesquisa, com doura igual ao do leo que escorre sem bulha, que admira com to poucos anos j tenha feito o que fez.

    Scrates tima notcia! Mas de qual dos nossos concidados ele filho?

    Teodoro J lhe ouvi o nome, porm no me ocorre neste momento. Mas ali vem ele, no meio daquele grupo que se aproxima. Agora mesmo, na galeria externa, ele e seus amigos acabaram de passar leo no corpo. Concluda essa parte, tenho a impresso de que vm para c. V se o conheces

    Scrates Conheo; filho de Eufrnio, de Smio, um homem, meu caro, exatamente como disseste ser o filho, de reputao excelente e que, ademais, deixou um patrimnio considervel. Porm no sei como o filho se chama.

    Teodoro Chama-se Teeteto, Scrates. Quanto ao patrimnio, tenho idia de que os tutores se incumbiram de gastar, o que no o impede, alis, de ser de uma liberalidade incrvel em matria de dinheiro.

    Scrates Pelo que dizes, pessoa de carter. Convida-o para vir sentar-se ao nosso lado.

    Teodoro Agora mesmo. Teeteto, vem para perto de Scrates!

    Scrates Isso mesmo, Teeteto, para que eu prprio me contemple e veja como tenho o rosto. Diz Teodoro que parecido com o teu. Porm, se cada um de ns tivesse uma lira e ele declarasse que ambas estavam com igual afinao, dar-lhe-amos crdito de imediato, ou primeiro procuraramos certificar-nos se ele entende de msica, para falar com autoridade?

    Teeteto Sim, primeiro nos certificaramos disso.

    Scrates E uma vez confirmada sua competncia, aceitaramos de pronto o que dissesse; em caso contrrio, no.

    Teeteto Isso mesmo.

    Scrates E agora, segundo penso, se nos interessa de algum modo tal parecena, precisaremos decidir se ele entende de pintura e, consequentemente, se pode opinar nessa matria.

    Teeteto tambm o que eu penso.

    Scrates Porventura Teodoro pintor?

  • Teeteto Que eu saiba, no.

    Scrates Nem entende de geometria?

    Teeteto Entende, e muito, Scrates.

    Scrates Entender, tambm, de astronomia, clculo, msica e o mais que se refere educao?

    Teeteto Acho que sim.

    Scrates Logo, quando ele disse que fisicamente ns temos um qu de parecena, ou seja isso guisa de reparo ou como elogio, no devemos atribuir maior importncia a suas palavras.

    Teeteto Talvez no.

    Scrates Porm suponhamos que fosse a alma de um de ns que ele elogiasse para o outro, no que respeita virtude ou sabedoria: no seria justo que o ouvinte se apressasse a examinar o elogiado, e este, por sua vez, se prontificasse a exibir-se?

    Teeteto Perfeitamente, Scrates.

    III Scrates Pois ento, amigo Teeteto, chegou a hora de te exibires e eu de examinar-te. Convm saberes que Teodoro j me fez o elogio de muita gente, assim estrangeiros como Atenienses, porm nunca em termos to calorosos como agora mesmo a teu respeito.

    Teeteto desvanecedor, Scrates, se no se tratar de alguma brincadeira.

    Scrates No do feitio de Teodoro. Porm no quebres teu compromisso, sob o pretexto de que ele quis pilheriar, para no o obrigarmos a depor. Bem sabes que ningum o recusaria como testemunha. Reveste-te de confiana e no desfaas tua promessa.

    Teeteto como terei de proceder, se pensas desse modo.

    Scrates Dize-me o seguinte: no verdade que estudas geometria com Teodoro?

    Teeteto .

    Scrates E tambm astronomia e harmonia e clculo?

    Teeteto Pelo menos, esforo-me nesse sentido.

    Scrates Eu tambm, jovem; com ele e com quem mais eu considere competente nesses assuntos. No obstante, dado que eu apanhe regularmente bem semelhantes questes, h um ponto insignificante que eu desejaria examinar contigo e estes aqui. Dize-me o seguinte: aprender no significa tornar-se sbio a respeito do que se aprende?

  • Teeteto Como no?

    Scrates Logo, pela sabedoria, segundo penso, que os sbios ficam sbios.

    Teeteto Sem dvida.

    Scrates E isso difere em alguma coisa do conhecimento?

    Teeteto Isso, qu?

    Scrates Sabedoria. No se sbio naquilo que se conhece?

    Teeteto Como no?

    Scrates Ento, a mesma coisa conhecimento e sabedoria?

    Teeteto Sim.

    Scrates Eis o que me suscita dvidas, sem nunca eu chegar a uma concluso satisfatria: o que seja, propriamente, conhecimento. Ser que poderamos defini-