Mênon - Platão

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Diálogo de Mênon com Sócrates sobre virtude.

Text of Mênon - Platão

  • Plato

    Mnon

    Texto estabelecido e anotado por JOHN BURNBT

    Traduo de MAURA IGLSIAS

    E D I T O R A

    PUC tdlfK ioyola

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    Direitos da traduo reservados Maura Iglsias

    Agradecemos Oxford University Press a permisso de reproduzir integralmente o texto grego

    estabelecido por John Burnet

    Edio IRLRY FRANCO

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    Capa JOS ANTNIO DE OLIVEIRA

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    ISBN: 978-85-15-02312-7 Edies Loyola, So Paulo, Brasil, 2001

    4 edio: agosto de 2007

    Plato Mnon / plato ; texto estabelecido e anotado por John Bur-

    net; traduo de Maura Iglsias. Rio de Janeiro : Ed. PUC-Rio ; Loyola, 2001.

    117 p. (Bibliotheca Antiqua ; 1) ISBN 85-15-02312-1 I. Bumet. John, 1863-1928. II. Srie. III. Ttulo

    CDD: 888.4

  • APRESENTAO DO DILOGO

    Nas ordenaes cronolgicas dos dilogos de Plato posterio-res ao emprego da estilometria ordenaes que reconhecem trs grupos de dilogos: iniciais (tambm chamados da juventude cu socrticos), intermedirios (ou da maturidade) e ltimos (fi-nais ou da velhice) o lugar atribudo ao Mnon no incio do grupo intermedirio. Ele ocuparia assim uma posio entre os di-logos ditos "socrt icos", que normalmente so considerados como veiculando o pensamento do Scrates histrico, e os gran-des dilogos do grupo intermedirio, entre os quais se destaca a Repblica, que representariam o pensamento da maturidade de Plato, diferenciado do de Scrates.

    Que essa ordenao represente ou no um desenvolvimento do pensamento de Plato, o fato que se podem reconhecer no Mnon caractersticas tanto dos dilogos ditos "socrticos" quan-to elementos normalmente apontados como influncias outras que as de Scrates, recebidas por Plato e incorporadas em sua filosofia.

    De fato, pela sua primeira parte, o Mnon liga-se ao grupo de dilogos socrticos, e, dentre esses, especialmente aos chamados dilogos "em busca de uma definio", uma pesquisa tradicional-mente associada com o Scrates histrico, graas ao testemunho de Aristteles, que a ele atribuiu explicitamente duas inovaes: o discurso indutivo e a definio geral (Metafsica M4,1078 b28-29). No caso do Mnon, a questo que abre o dilogo a virtu-de coisa que se ensina? num movimento tpico dos dilogos desse grupo, mudada por Scrates para a questo da definio que a virtude? A exemplo dos dilogos iniciais em busca de uma definio, so examinadas vrias respostas questo, reve-lando-se todas inadequadas.

    Mas o Mnon tenta ir alm da aporia sobre a definio da vir-tude, introduzindo uma nova aporia, mais fundamental, a aporia

  • PLATO

    sobre a possibilidade mesma da aquisio do conhecimento. a r e spe i to d e s s a apor ia c de sua so luo que o p e r s o n a g e m Scrates introduz na discusso elementos que revelam a influn-cia sobre Plato de doutrinas e mtodos aparentemente no so-crticos: a crena pitagrica na imortalidade da alma, sobre a qual se apoia a teoria da reminiscncia, apresentada como funda-mento da possibilidade de adquirir conhecimento, e o mtodo de hipteses, que Plato transpe da matemtica para a dialtica.

    O Mnon entretanto no faz nenhuma meno clara teoria das Idias transcendentes, nem mesmo na passagem sobre a re-miniscncia, onde esperado que ela faria sua apario. essa ausncia, e mais o fim aportico da pesquisa sobre a questo ini-cial do dilogo se a virtude se ensina ou no , que fazem considerar o Mnon um dilogo de transio, que ainda no con-teria o pensamento platnico da maturidade, embora j aponte nessa direo.

  • NOTAS SOBRE A COMPOSIO DRAMTICA DO DILOGO Data dramtica

    O dilogo contm aluses a vrios fatos histricos: a visita de Grgias Tesslia (70b), mencionada como recente; a morte de Protgoras (91e) como j acontecida h algum tempo; o dinheiro que Ismnias de Tebas teria recebido de Polcrates (90a) "recen-temente".

    As melhores indicaes para determinar a data dramtica so entretanto algumas aluses referentes ao prprio pe r sonagem Mnon:

    1. As palavras que Scrates lhe dirige em 76b ("... s belo e ainda tens apaixonados") sugere que ele ainda jovem mas no mais um adolescente, o que lhe d provavelmente uma idade en-tre dezoito e vinte anos; ora, o Mnon histrico, na primavera de 401 a . C , estava em Colosso, na sia Menor, frente de parte dos mercenrios gregos que participaram da expedio de Ciro contra Artaxerxes, apesar de sua pouca idade. Pois sobre Mnon Xenofonte nos diz que era horaios em 401 a.C. e um meirakion (i.e., entre 14 e 21 anos) em 400 (Xenofonte, Anabase II, 6, 28). Sua visita a Atenas portanto (provavelmente histrica), quando teria tido o encontro com Scrates descrito por Plato, deve ser pouco anterior data dos eventos em que tomou parte na sia Menor, e em meio aos quais encontrou a morte.

    2. Estando Mnon hospedado na casa de nito, um dos che-fes democratas, a conversao com Scrates deve acontecer entre o retorno dos democratas a Atenas (setembro de 403) e a partida de Mnon para Colosso (o mais tardar no inverno de 401).

    3. Segundo sugere Scrates em 76e, Mnon poderia ter ficado para tomar parte nos Mistrios; uma vez que ningum podia to-mar parte nos Grandes Mistrios, celebrados em setembro, se no tivesse sido iniciado nos Pequenos Mistrios, em fevereiro, a estes ltimos que deve estar referindo-se Scrates.

    A d a t a d r a m t i c a do d i l o g o a s s i m f ixada po r J . S . Mor r i s son ("Meno of Pharsa lus , Po lycra tes and I s m e n i a s " , Classical Quarterly, XXXVI (1942) pp. 57 ss.), seguido de R.S. Bluck, (Plato's Meno, Carnbridge, 1961, p. 120 ss.) e outros, em fins de janeiro ou comeo de fevereiro de 402 a.C.

  • CLATAO

    Cenrio

    Mnon , no dilogo, hspede de nito, mas este aparece como por acaso em meio conversao, o que parece excluir a possibilidade de ela passar-se em sua casa. O local provvel um ginsio ou a agora.

    Personagens

    Sc ra t e s A existncia histrica de Scrates no questionvel . Sua

    vida largamente atestada, e tambm sua morte. Todos sabemos que Scrates viveu como um filsofo e foi condenado a tomar cicuta. O grande objeto de controvrsia o teor de seu pensa-mento e a caracterstica de seu mtodo. Ele certamente praticava, sobretudo com os jovens, um tipo de quest ionamento que teve uma enorme influncia, inspirando a criao de um gnero liter-rio especfico, os "dilogos socrticos", que usam Scrates como principal personagem. Ora, os dilogos socrticos de Plato so os mais famosos, mas no os nicos. Como Scrates nada escre-veu; como a maioria dos dilogos socrticos de outros autores se perderam; como Plato no aparece em seus dilogos, mas, em quase todos e les , usa Scrates como principal personagem; e como prat icamente tudo o que Plato escreveu so dilogos, extremamente difcil delimitar o que propriamente "socrtico"' em Plato. A maioria dos intrpretes, com importantes excees, aceitam que os primeiros dilogos de Plato retratam de maneira fiel o mtodo socrtico de questionamento e apresentam certas teses que constituem a "tica socrtica". O Mnon j pertenceria a uma fase posterior, onde influncias outras que Scrates come-am a dar novos rumos ao pensamento de Plato. Progressiva-mente, Scrates passa a ser apenas o porta-voz de Plato, o per-sonagem principal que ele conserva, por fidelidade ao gnero li-terrio que sempre utilizara.

    M n o n O Mnon histrico era originrio da cidade de Farsalo, na

    Tesslia, e pertencia a uma famlia da nobreza que teve importan-tes ligaes com a Prsia e tambm com Atenas. A passagem em que Scrates diz ser ele "urn hspede, por herana paterna, do Grande Rei" (78d) faz aparentemente referncia a um pacto de

  • MNON

    amizade entre os ancestrais paternos de Mnon e o rei da Prsia, provavelmente do av de Mnon e Xerxes, por ocasio da inva-so persa comandada por este (480 a .C) , que teve o apoio dos Aluades, governantes de Larissa. Mas a Tesslia mantinha tam-bm com Atenas laos de amizade e alianas, e h registros da ligao de membros da famlia de Mnon com Atenas. Em 477/6 um Mnon de Farsalo (talvez av do Mnon do dilogo platni-co) foi recompensado com a cidadania ateniense por seu apoio e x p e d i o a teniense sob o comando de Cmon cont ra Eion (Herdoto, VI, 72, 1; Plutarco, Temstocles, 20, 1). Talvez seja o mesmo Mnon de Farsalo que estava entre os chefes dos contin-gentes enviados por cidades da Tesslia para ajudar Atenas na guerra arquidmia, em 431 (Tucdides, II, 22, 3). essa ligao tradicional entre a Tesslia e a famlia de Mnon com Atenas que sugere a J.S. Morrisson, (op. cit,), seguido de R.S. Bluck, (loc. cit.) a interpretao segundo a qual a presena de Mnon (do di-logo) em Atenas, que Plato usa como ocasio para um dilogo entre ele e Scrates, pre