Parecer ALC

  • Published on
    03-Jul-2015

  • View
    555

  • Download
    4

Embed Size (px)

DESCRIPTION

O presente parecer desenvolvido a partir do Resumo No Tcnico e da documentao que sobre a AIA est recolhida no site da empresa adjudicatria para a realizao da obra em causa (http://www.edp.pt/pt/sustentabilidade/EDPDocuments/Estudos%20de%20impacte%20ambiental/Frido/RT%20-%20Volume%201/AP_Cap-IV.pdf).

Transcript

<ul><li> 1. PARECER SOBRE O ESTUDO DE IMPACTE AMBIENTAL REFERENTE AO PROJECTO DE CONSTRUO DA BARRAGEM DO FRIDO Antnio Luis Cresp, Herbrio, Jardim Botnico da Universidade de Trs-os-Montes e Alto Douro, CITAB, Universidade de Trs-os-Montes e Alto Douro, Apdo. 1013, 5001-801 Vila Real,acrespi@utad.pt O presente parecer desenvolvido a partir do Resumo No Tcnico e da documentao que sobre a AIA est recolhida no site da empresa adjudicatria para a realizao da obra em causa (http://www.edp.pt/pt/sustentabilidade/EDPDocuments/Estudos%20de%20impacte%20ambi ental/Frido/RT%20-%20Volume%201/AP_Cap-IV.pdf).ObjectivosAtravs da anlise dos documentos mencionados ser efectuado um estudo crtico do Resumo No Tcnico, objecto da presente discusso pblica. Esta anlise determinar a validez cientfica deste documento, especialmente em relao flora e vegetao, bem como nas implicaes ecolgicas deste nvel trfico no ecossistema onde pretende ser construda a barragem.IntroduoO empreendimento proposto constitui, em termos funcionais do ecossistema em causa, um tipo de alterao ambiental substancial, que implicar um claro empobrecimento na complexa organizao dinmica de estados de equilbrio (Hanski, 2001; Rohde, 2005), bem como na diversidade genmica existente, na qualidade das guas e no ordenamento pasiagstico desta regio. Em relao funcionalidade do ecossistema, desde uma perspectiva dinmico- estrutural, a construo da albufeira implicar uma clara reduo dos estados de equilbrio funcionais, tal como resulta aprecivel na Figura 1, onde est representado, de modo muito esquemtico, o possvel efeito da aplicao do presente empreendimento. Pgina 1 de 14 </li></ul><p> 2. Figura 1.- Diversidade das situaes de equilbrio dinmico estrutural, ao longo da rea abrangida pelo empreendimento proposto (reas adjacentes ao empreendimento; e zona de implantao da albufeira). visvel a progressiva diminuio destas situaes de equilbrio dinmico (representados por cada um dos pequenos vales ao longo de um mesmo transepto), com a aplicao do empreendimento proposto ou sem ele. A rea intervencionada sofrer, inevitavelmente, uma diminuio drstica de estados de equilbrio (e, portanto, da sua complexidade dinmico-estrutural), o que acabar por provocar uma acentuada diminuio da biodiversidade e, consequentemente, das combinaes biolgico-estruturais. Atravs do princpio da continuidade ecolgica (Vandermeer, 1999), este efeito obrigar a um esforo suplementar por parte das reas adjacentes. Tal esforo traduzir- se- numa progressiva diminuio da complexidade biolgico-estrutural, com uma perda aprecivel de caos estrutural (Souza &amp; Buckeridge, 2004). Deste modo ser patente a reduo de estados de equilbrio dinmicos (representados na Figura 1 pelos pequenos vales), resultando num claro empobrecimento do ecossistema em relao a sua resistncia e resilincia, garantias estas da funcionalidade do sistema (Ives &amp; Gross, 2000).Ao longo de sculos, a diversidade funcional do ecossistema objecto do projecto foi assegurada pela predominncia da heterogeneidade ambiental, que distribua as diferentes variveis ambientais de um modo mais complexo e disperso ao longo de toda a rea (Turner &amp; Chapin, 2005) em matrizes ambientais e biolgicas infinitesimais. Estas variveis ambientais acabavam assim por constituir um diversificado elenco de factores ecolgicos, que incidiam sobre os indivduos aumentando o caos estrutural (Hastings et al. 1993; Prigogine, 1993) e, consequentemente, a diversidade de comportamentos estruturais e taxonmicos (ver Figura 2) num ambiente evolutivo com uma importante percentagem de no linearidade (Gassmann et al., 2005).Pgina 2 de 14 3. Figura 2.- Representao da variao do caos estrutural das comunidades ao longo de um gradiente de diversidade de variveis ambientais e, ao mesmo tempo, de intensidade destas variveis. A progressiva diminuio do nmero de variveis ambientais, bem como o aumento do protagonismo de umas poucas em detrimento das restantes, provocar uma acentuada diminuio do caos estrutural e, consequentemente, das situaes de equilbrio estrutural-dinmico. Tal fenmeno incidir numa diminuio da resistncia e resilincia das comunidades, as quais tero que recorrer a taxa exticos que consigam proporcionar uma resposta mais eficiente perante este desequilbrio ambiental.Tendo em considerao que a presena do elemento antrpico provoca variaes importantes na matriz ambiental e, consequentemente, biolgica, o agroecossistema do Tmega constitui um conjuntoPgina 3 de 14 4. extremamente complexo de situaes de equilbrio em constante e continua mudana. Esta dinmica de variao dos estados de equilbrio ser a resposta dos indivduos a essas variaes ambientais que de modo continuado intervm no ecossistema.A presena de uma albufeira como a aqui proposta provocar uma alterao intensa na matriz ambiental e na biolgica, de repercusses desconhecidas. Tal circunstncia obrigar a um estudo prvio muito pormenorizado do ecossistema objecto da alterao, pois s assim ser possvel ter uma ideia aproximada da complexidade das matrizes ambiental e biolgica. Por tal motivo, o estudo de impacte ambiental aqui apresentado dever, obrigatoriamente, salvaguardar este carcter abrangente, pormenorizado e devidamente discutido com base no elevado volume de resultados que venham a ser obtidos. DiscussoA primeira aluso flora e vegetao surge numa vaga e inadequada descrio referente Caracterizao da zona de implantao (captulo 5, pgina 14). De acordo com esta descrio, a zona onde ser instalada a obra dominada pelo pinheiro bravo e eucaliptal, ocorrendo as espcies de maior interesse em manchas dispersas de carvalhal e na galeria ripcola do rio Tmega, em particular a jusante da barragem principal,. Uma descrio sumria como a solicitada neste captulo introdutrio est muito longe de responder ao texto referido. Pela leitura desta descrio notria a falta de viso paisagstica por parte do avaliador, alm da aparente ignorncia do mesmo em relao importncia do elenco florstico existente nas formaes vegetais no florestais (arbustivas, rupcolas, de leito de cheia ou de pastagens). De facto este captulo no est isento de contradies. Assim, por exemplo, em relao ao uso do solo (captulo 5, pgina 15) o avaliador incide na grande interveno humana com uma floresta intensiva por pinhal bravo e eucalipto, zonas de pastoreio e agrcolas. Com base nesta descrio estaramos perante uma tpica paisagem ibero-atlntica ocidental, no fragmentada, atendendo presena de exploraes florestais e ganadeiras. preciso lembrar, neste sentido, que o Parque Nacional da Peneda-Gers ou o Parque Natural do Alvo esto caracterizados por uma paisagem deste tipo e, no entanto, so reas protegidas. Por tal motivo, no s esta descrio no resulta apropriada ao contexto da rea do projecto, como tambm no proporciona uma ideia real da ocupao do solo nesta zona.Esta deficiente descrio ecolgica da rea origina um dos aspectos mais deficientes de todo o documento. Este encontra-se, precisamente, na anlise dos Impactes do projecto (captulo 6, pgina 16), mais especificamente em relao aos impactes negativos. Segundo consta nas pginas 18 e 19, os impactes em termos da flora e vegetao e da paisagem so pouco consistentes. Aparentemente, segundo o avaliador, estes impactes iro a ocorrer de forma mais significativa sobre as espcies tpicas do leito do rio, como salgueiros, freixos e ameais e algumas manchas dispersas de carvalhos. De facto, o avaliador insiste neste aspecto pouco significativo e, j em relao paisagem, indica como impactes mais importantes os resultantes da submerso de alguns elementos e/ou pequenos troos do rio com interesse paisagstico e/ou ldico recreativo, que so contudo impactes pontuais e passveis de minimizao. Este atrevimento resulta ser ainda mais persistente no fim deste pargrafo, quando o avaliador considera oportuno opinar do seguinte modo: o nvel do plano de guaPgina 4 de 14 5. da albufeira do Escalo Principal permite uma utilizao ldica e recreativa da albufeira e uma maior relao visual e funcional como o plano de gua, no se perdendo, contudo, a imagem de algum encaixe da zona de vale, aspectos que concorrem para uma valorizao dos aspectos cnicos e paisagsticos do vale do Tmega.Alertado por estes comentrios e discusses sem qualquer consistncia cientfica, que deixavam entrever no s erros bsicos de funcionalidade dos ecossistemas, como tambm uma falta de notria de informao em relao flora e vegetao da rea do projecto, considerei oportuno consultar a documentao que sobre este assunto est disponvel no site daempresaEDP (http://www.edp.pt/pt/sustentabilidade/EDPDocuments/Estudos%20de%20impacte%20ambi ental/Frido/RT%20-%20Volume%201/AP_Cap-IV.pdf). Neste sentido, na pgina 173 do captulo IV-Descrio do estado actual do ambiente- me foi possvel confirmar as minhas sospeitas. No subcaptulo 10.3.2, destinado a explicar a metodologia a aplicar para o estudo da flora e vegetao, recolhido um ambicioso programa de fases para esta anlise, as quais passam desde uma anlise horizontal da vegetao (Fase 2, 3 e 5), at um estudo estrutural e florstico (Fase 4), juntamente com uma desconcertante Caracterizao fitogeoclimtica que protagoniza a Fase 1. Tendo em considerao esta estruturao faseada para o estudo da flora e da vegetao, os resultados obtidos deveriam ser ricos e diversificados, permitindo uma discusso dos mesmos igualmente enriquecedora. Porm, tal nunca chega a acontecer, pois de forma surpreendente o avaliador oferece um conjunto extremamente pobre e frustrante de resultados.Estes resultados surgem no subcaptulo 10.3.3, ou de Enquadramento Geral. Em primeiro lugar o avaliador atreve-se a afirmar que a zona de estudo constitui em termos ecolgicos um conjunto de bitopos de caractersticas xerotrmicas acentuadas relativamente envolvente. De acordo com esta afirmao estaramos perante um ecossistema com uma matriz ambiental muito diversa, o que j est a enriquecer o mesmo. O principal problema est no facto de que esse comentrio, como tal, no quer dizer cientificamente nada, uma vez que no so indicados os pisos bioclimticos presentes, os valores dos ndices de termicidade aplicados ou algum parmetro que funcione como descritor. Contudo, o mais desconcertante ainda est por vir no pargrafo a seguir: De acordo com os trabalhos de Pina Manique e Alburquerque (1982) O avaliador s utiliza esta bibliografia fitoclimtica?. Permitam-me lembrar um pequeno conjunto de outras contribuies, que tambm abrangem a rea de estudo: CAPELO, J., MESQUITA, S., COSTA, J. C., RIBEIRO, S., ARSNIO, P., NETO, C., MONTEIRO-HENRIQUES, T.,AGUIAR, C., HONRADO, J., ESPRITO-SANTO, D., LOUS, M. -2007- A mehodological approach topotential vegetation modeling using gis techniques and phytossociological expert-knowledge: application to mainland portugal. Phytocoenologia, 37 (3-4): 399-415.CORREIA, A. I. -1997- Essai de phytoclimatologie dynamique sur le nort du Portugal.Lasgacalia, 19(1-2): 413-422.CRESP, A. L.; SILVA, L.; RIBEIRO, J. A.; COELHO, A.; AMICH, F. &amp; BERNARDOS, S. 2001. Modelo decaracterizao fitoclimatolgica do Nordeste de Portugal. I. Anlise metodolgica eprimeiros resultados. Silva Lusitana 9(1): 69-81.Pgina 5 de 14 6. FREITAS, R., ROCHA, J., CRESP, A. L., CASTRO, A., BENNET, R. N., ALVES, P., GARCA-BARRIUSO, B.,AMICH, F. 2008. The occurrence of alien species for Northern of Portugal. Apparentbioclimatic indicators?. Studia Botanica (in press).FRANCO, J. DO A. 1994. Zonas fitogeogrficas predominantes de Portugal Continental.Annais Instituto Superior de Agronomia 44: 39-56.LOUS, M. F. -2004- Bioclimatologia e sries de vegetao de Portugal. Lazaroa 85: 83-86.MARTINS, A. R.; CRESP, A. L.; BERNARDOS, S.; BRANCO, M. A.; CASTRO, A.; FERNANDES, C. P.;JANIAK, A.; SANTOS, C.; AFONSO, C.; CARVALHO, G.; LOBATO, A.; HOELZER, A.; AMICH, F. &amp;WOZIWODA, B. 2004. Sistema de caracterizacin fitoclimatolgico de taxones en el Nortede Portugal. II. Grupos bioclimticos. Bol. Real Soc Esp. Hist. Nat. (Ser. Biol.) 99(1-4):5-17.MARTINS. A., CRESP, A. L., CASTRO, A., FERNANDES, C. P., ROCHA, J., BERNARDOS, S.,AGUIR, C. &amp; AMICH, F. -2006- Contribucin para la caracterizacin florstico-ambientaldel Norte de Portugal. Botanica Complutensis 31 ( in press).MOLINA, R. T., TELLEZ, T. R. &amp; ALCARAZ, J. D. -1992- Aportacin a la bioclimatologia dePortugal. Anales del Jardn Botnico de Madrid, 49(2): 245-264. Como no poderia ser doutro modo, a caracterizao biogeogrfica apresentada no s mostra uma clara e indiscutvel desactualizao, como tambm um total desajuste com a realidade. Neste sentido volta a chamar a ateno um aspecto que permite ver a ignorncia do avaliador, agora quando trata o extremamente complexo caso do taxon Quercus pyrenaica. De facto, o avaliador indica que este taxon consegue chegar at foz do rio Tmega ( at confluncia do Rio Douro) e desconhece que de facto esses indivduos foram classificados como endemismos extremamente raros, conhecidos como Quercus x henriquesii Franco &amp; Vasc. In Annais Inst. Super. Agron. 21: 25 (1954).As anlises biogeogrficas efectuadas at presente data pelo Herbrio do Jardim Botnico da Universidade de Trs-os-Montes e Alto Douro j detectaram a complexidade biogeogrfica do vale do rio Tmega (ver referncias bibliogrficas acima citadas). Esta complexidade no resulta s de uma evoluo histrica glacial e inter-glacial, como tambm o resultado da intrincada orientao deste curso fluvial, que acaba por proporcionar um efeito de refgio/corredor muito dinmico. A reduo do problema a uma mera transio eurosiberiana-mediterrnica mostra, novamente, um claro desinteresse por parte do avaliador.No captulo 10.3.4 o EIA entra j na anlise especfica da Flora. A primeira abordagem diz respeito ao comportamento corolgico, facto este que a partida j causa muita surpresa, uma vez que no existe qualquer referncia riqueza florstica da regio (anlise do catlogo florstico, comportamentos fisionmicos, fenolgicos ou riqueza taxonmica por habitats, anlise sistemtico-filogentica,). O avaliador opta, sem causa justificada, por aplicar a hierarquia de Rivas-Martnez (1985) e a caracterizao biogeogrfica de Costa et al. (1998). Em relao a esta, novamente injustificada, tomada de deciso surgem duas questes determinantes:a) A riqueza florstica em causa tem origens diversas (euroasiticas de diversos tipos,neotropicais, paleotropicais, mais recentes atlnticas, mediterrnicas, subendmicasou endmicas- ou alctones), aspectos estes que no so se quer mencionados.Pgina 6 de 14 7. b) A caracterizao de Costa et al. (1998) j est mais actualizada em Capelo et al. (2007).Curiosamente, agora passou a ser mais complexa do que a verso aqui utilizada.Deste modo, e seguindo os critrios muito discutveis escolhidos pelo avaliador, a caracterizao biogeogrfica aborrecida e triste, uma vez que no reflecte a extrema riqueza biogeogrfica da regio. Chamo a ateno aqui para o aspecto extremamente relevante das glaciaes neognicas, os efeitos de corredor e refgio florstico, a importante presena de ilhas biogeogrficas presentes nesta regio, a importncia do acesso exgeno recente (resultante das alteraes amb...</p>