A questão racial na política brasileira (os últimos quinze anos)

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    GUIMARES, Antonio Srgio Alfredo. A questo racial na poltica brasileira (os ltimos quinze anos). Tempo Social; Rev. Sociol.USP, S. Paulo, 13(2): 121-142, novembro de 2001.

    Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 13(2): 121-142, novembro de 2001. A R T I G O

    RESUMO: Neste artigo, analiso o modo como a questo racial tem marcado apoltica brasileira nos ltimos quinze anos. Comeo expondo o que significou a

    idia de democracia racial no processo de construo da nacionalidade brasi-

    leira, para depois, com a brevidade que o espao exige, resenhar os estudos

    sobre o comportamento eleitoral dos negros brasileiros e tratar da emergncia

    de movimentos sociais negros e de sua incorporao ao sistema poltico. Meu

    entendimento que devemos ver na democracia racial um compromisso po-

    ltico e social do moderno estado republicano brasileiro, que vigeu, alternando

    fora e convencimento, do Estado Novo de Vargas at o final da ditadura mili-

    tar. Tal compromisso, hoje em crise, consistiu na incorporao da populao

    negra brasileira ao mercado de trabalho, na ampliao da educao formal,

    enfim na criao das condies infra-estruturais de uma sociedade de classes

    que desfizesse os estigmas criados pela escravido. A imagem do negro en-

    quanto povo comum e o banimento, no pensamento social brasileiro, do con-

    ceito de raa, substitudo pelos de cultura e classe social, so as expres-

    ses maiores desse compromisso.

    ste um tema que pode, sem dvida, ser tratado de diferentesperspectivas. Pode, primeiramente, referir-se ao modo como as-suntos relativos s diferenas raciais da populao brasileira sotratados ou abordados pelos polticos e pelas polticas pblicas.

    Pode, tambm, reportar-se maneira como algumas minorias raciais seorganizam politicamente, seja em termos da construo de um sentimentotnico particular, seja em termos institucionais e partidrios. Ou, final-

    A questo racial na polticabrasileira

    (os ltimos quinze anos)

    ANTONIO SRGIO ALFREDO GUIMARES

    E

    PALAVRAS-CHAVE:democracia racial,movimento negro,questo racial,Brasil.

    Professsor do Depar-tamento de Sociologiada FFLCH - USP

  • GUIMARES, Antonio Srgio Alfredo. A questo racial na poltica brasileira (os ltimos quinze anos). Tempo Social; Rev. Sociol.USP, S. Paulo, 13(2): 121-142, novembro de 2001.

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    mente, pode aludir forma particular com que diferentes contingentes ra-ciais foram absorvidos numa nica identidade nacional brasileira.

    A cincia poltica brasileira construiu, todavia, no decorrer dosanos, um certo modo de abordar a questo. Bolvar Lamounier (1968) eAmaury de Souza (1971) arrolam trs questes substantivas para estudo narelao entre raa e poltica no Brasil. A primeira se negros e brancos tmcomportamentos polticos diferenciais, presumidamente baseados na expe-rincia das desigualdades sociais; a segunda se h um comportamentopoltico coletivo por parte dos negros, que expresse solidariedade racial; efinalmente, como opera o sistema poltico para desmobilizar o potencialde comportamento poltico coletivo. Souza e a maioria dos que escreveramsobre a relao entre raa e poltica no Brasil (Silva e Soares, 1985; Castro,1992; Berqu e Alencastro, 1992; Prandi, 1996) restringiram seus estudos primeira dessas questes, enquanto Lamounier ateve-se a examinar a ter-ceira. Tentarei abordar, brevemente, as trs questes.

    Entretanto, creio que a discusso, tal como esboada acima, deve,no Brasil, enfrentar um primeiro desafio o de demonstrar a existncia deuma questo racial. Ainda que a nao brasileira tenha-se formado a partir damesma matriz colonial americana, ou seja, do transplante de povos europeuspara as Amricas em situao de domnio sobre as populaes indgenas aquiencontradas e sobre o tambm grande contingente de africanos escravizados,ainda assim, digo, acredita-se, em geral, numa certa excepcionalidade brasi-leira, que teria superado as diferenas raciais originais. Isso porque a soluobrasileira ao problema da integrao dos ex-escravos negros e de descenden-tes dos povos indgenas sociedade nacional passou, primeiro, por negar aexistncia de diferenas biolgicas (capacidades inatas), polticas (direitos),culturais (etnicidade) e sociais (segregao ou preconceito) entre esses e osdescendentes de europeus, com ou sem misturas, e, em segundo lugar, porincorporar todas essas diferenas originais numa nica matriz sincrtica e h-brida, tanto em termos biolgicos, quanto culturais, sociais e polticos. oque se convencionou chamar de democracia racial.

    Para desenvolver o tema deste artigo, portanto, sinto-me obrigadoa demonstrar que a excepcionalidade brasileira parte do problema, ou seja,trata-se de uma soluo poltica historicamente datada, que se encontra emplena transformao.

    Comearei, ento, por situar historicamente o processo de constru-o da identidade nacional brasileira, no qual enquista-se a soluo primei-ra da questo racial, para em seguida, com a brevidade que o espao exige,resenhar os estudos sobre o comportamento eleitoral dos negros brasileiros e,depois, tratar da emergncia de movimentos sociais negros e de sua incorpo-rao ao sistema poltico. Darei, em todos esses tpicos, uma nfase especials mudanas registradas nos ltimos quinze anos.

    Comecemos, pois, por compreender a incorporao simblica dosnegros na comunidade nacional. o que faremos a seguir.

    Texto preparado paraa conferncia Fifteenyears of democracy inBrazil, University ofLondon, Institute ofLatin American Stu-dies, London, 15 and16 February 2001.Agradeo comentriosfeitos a verses anteri-ores por Braslio Sa-llum, Lilia Schwarcz,Nadya Guimares ePeter Fry.

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    GUIMARES, Antonio Srgio Alfredo. A questo racial na poltica brasileira (os ltimos quinze anos). Tempo Social; Rev. Sociol.USP, S. Paulo, 13(2): 121-142, novembro de 2001.

    A democracia racial brasileira

    A modernidade brasileira , sem dvida, produto dos ltimos se-tenta anos. Os socilogos e cientistas polticos demarcam, geralmente, talmodernidade com a Revoluo de 1930, que ps fim Primeira Repblica(1889-1929). Se em relao ao Imprio (1823-1889), a Primeira Repblicaprocurou modernizar o Brasil atravs da adoo de novas instituies, da euro-peizao dos costumes (Freyre, 1936) e do incentivo emigrao europia(Seyferth, 1990, Schwarcz, 1993), em continuidade com aquele, manteve umanacionalidade ostensivamente polarizada, marcada pela enorme distncia en-tre brancos e pretos, civilizados e matutos. Foi apenas a partir de 1930, prin-cipalmente com o Estado Novo (1937-1945) e a Segunda Repblica (1945-1964), que o Brasil ganhou definitivamente um povo, ou seja, inventoupara si uma tradio e uma origem1.

    A idia fundamental da nova nao a de que no existem raashumanas, com diferentes qualidades civilizatrias inatas, mas existem, sim,diferentes culturas. O Brasil passa a se pensar a si mesmo como uma civiliza-o hbrida, miscigenada, no apenas europia, mas produto do cruzamentoentre brancos, negros e ndios2. O caldeiro tnico brasileiro seria capaz deabsorver e abrasileirar as tradies e manifestaes culturais de diferentespovos que para aqui imigraram em diferentes pocas; rejeitando apenas aque-las que fossem incompatveis com a modernidade (supersties, animismos,crendices, etc.). Tal idia permite o cultivo de uma alta cultura propriamen-te brasileira em sintonia com a cultura popular, algo que eclode na Semanade Arte Moderna de 19223. Mas, de certo modo, foram as cincias sociais, eno apenas as artes plsticas e a literatura ficcional, as inventoras desse Brasilmoderno, atravs de obras seminais como as de Gilberto Freyre (1933 e 1936),Srgio Buarque de Holanda (1936) e Caio Prado Jr. ([1937]*1965).

    As bases materiais e econmicas dessa modernidade foram planta-das pela Revoluo de 1930. Essas consistem, basicamente, no incentivo indstria e substituio da mo-de-obra estrangeira por mo-de-obra brasi-leira, que passa a constituir propriamente um proletariado, com estatuto pol-tico reconhecido e regulado.

    De fato, se a importao de cerca de 5 milhes de africanos abas-teceu o mercado de trabalho da colnia (1560 a 1823) e do jovem estadoindependente durante o seu primeiro sculo de existncia (1823 a 1852), apartir da extino do trfico de escravos a Europa passa a ser a principalregio de abastecimento de mo-de-obra para a agricultura de exportao epara a indstria nascente. Estima-se em 4 milhes a emigrao europiapara o Brasil, constituda principalmente por portugueses, italianos e espa-nhis, entre 1850 e 1932. Essa mo-de-obra estrangeira, concentrada quasetotalmente em So Paulo, nos estados do sul e no Rio de Janeiro, dominou aoferta de mo-de-obra industrial e artesanal, alijando completamente domercado a populao negra e mestia.

    * A data entre colchetesrefere-se edio ori-ginal da obra. Ela indicada na 1a vez quea obra citada. Nasdemais, indica-se so-mente a edio utiliza-da pelo autor (N.E.)

    1 Sigo, grosso modo,a interpretao deFreyre. bem ver-dade, como nos dizSchwarcz (2000),que a europeizaodos costumes inicia-se com o Imprio.Mas, esta foi contra-balanada pelo ro-mantismo brasileiro,em busca de nati-vismo; que, por suavez, nunca foi amploo suficiente para in-corporar as massasnegras e mulatas. Opovo brasileiro, talcomo hoje o concebe-mos, uma constru-o modernista.

    2 Esta , entretanto,uma tradio intelec-tual que remonta aofinal do sculo XIX,e que tem entre seusexpoentes intelectu-ais do porte de SilvioRomero (1949) e Joa-quim Nabuco (1883).

    3 Esta interpretaodeve, de novo, sermatizada com a com-preenso de que o ro-mantismo brasileirorevelou-se bastanteartificial, ao excluirnegros e mulatos doimaginrio nacional.

  • GUIMARES, Antonio Srgio Alfredo. A questo racial na poltica brasileira (os ltimos quinze anos). Tempo Social; Rev. Sociol.USP, S. Paulo, 13(2): 121-142, novembro de 2001.

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    O fim da emigrao estrangeira, nos anos 30, e a