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Brasília, julho de 2006 Diversidade do Público da EJA Alfabetização e Cidadania Revista de Educação de Jovens e Adultos Nº 19 – julho de 2006

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Alfabetizaoe CidadaniaN 19 julho de 2006

Revista de Educao de Jovens e Adultos

Diversidade do Pblico da EJA

Braslia, julho de 2006

2006. Rede de Apoio Ao Alfabetizadora do Brasil (RAAAB) e Organizao das Naes Unidas para a Educao, a Cincia e a Cultura (UNESCO)

Os autores so responsveis pela escolha e apresentao dos fatos contidos neste livro, bem como pelas opinies nele expressas, que no so necessariamente as da UNESCO, nem comprometem a Organizao. As indicaes de nomes e a apresentao do material ao longo deste livro no implicam a manifestao de qualquer opinio por parte da UNESCO a respeito da condio jurdica de qualquer pas, territrio, cidade, regio ou de suas autoridades, ou da delimitao de suas fronteiras ou limites.

Alfabetizaoe CidadaniaN 19 julho de 2006

Revista de Educao de Jovens e Adultos

Diversidade do Pblico da EJA

Conselho Editorial da UNESCO no Brasil Vincent Defourny Bernardo Kliksberg Juan Carlos Tedesco Adama Ouane Clio da Cunha Comit para a rea de Educao Clio da Cunha Candido Gomes Marilza Machado Regattieri Edio: Alexandre Aguiar (Servios de Apoio Pesquisa em Educao Sap) e Jane Paiva (Universidade do Estado do Rio de Janeiro UERJ) Coordenao Editorial da UNESCO no Brasil: Clio da Cunha Assistente Editorial: Larissa Vieira Leite Reviso: Reinaldo Lima Reis Diagramao: Paulo Selveira Projeto Grfico: Selma Bertachini Pacheco RAAAB, UNESCO Alfabetizao e cidadania: revista de educao de jovens e adultos. Braslia: RAAAB, UNESCO, Governo Japons, 2006. ISSN: 1518-7551 1. Alfabetizao de Adultos 2. Educao de Adultos I. Rede de Apoio Ao Alfabetizadora do Brasil II. UNESCO CDD 374.012

Representao no BrasilSAS, Quadra 5, Bloco H, Lote 6, Ed. CNPq/IBICT/UNESCO, 9 andar 70070-914 Braslia/DF Brasil Tel.: (55 61) 2106-3500 Fax: (55 61) 3322-4261 E-mail: [email protected]

A RAAAB uma rede dedicada ao intercmbio e sistematizao de experincias, formao de educadores de jovens e adultos sob inspirao do paradigma da educao popular e mobilizao em torno de polticas pblicas para a rea. A filiao RAAAB est aberta a movimentos sociais, centros de educao popular, centros de pesquisa, ONGs e organismos pblicos das trs esferas de governo que compartilhem os objetivos da Rede. A coordenao da RAAAB realizada por um colegiado executivo, com o qual colaboram comisses setoriais especficas. A partir de 2005, o colegiado executivo da Rede passou a ser composto pelas seguintes organizaes: Instituto Paulo Freire (secretaria da Rede) Sonia Couto Rua Cerro Cor, 550 - 2 andar - Conj. 22 Alto da Lapa - So Paulo - SP Fone: (11) 3021-5536 E-mail: [email protected] Dilogo - Pesquisa e Assessoria em Educao Popular Liana Borges Rua Vigrio Jos Incio, 399 sala 411 Centro Porto Alegre/RS CEP: 90020-100 Fone: 51- 9917-1788 E-mail: [email protected] Projeto Escola Z Peo Maria Jos Nascimento Moura Arajo Rua Cruz cordeiro, 75 Varadouro CEP 58010-120 Joo Pessoa - PB E-mail: [email protected]

SUMRIO

Editorial Artigos

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .9

NA PRISO EXISTE A PERSPECTIVA DA EDUCAO AO LONGO DA VIDA? Marc De Maeyer . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .17 DESAFIOS NA EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS COM NECESSIDADES EDUCACIONAIS ESPECIAIS NO BRASIL Windyz Brazo Ferreira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .39

Olhar da pesquisa sobre a diversidadePESQUISANDO OS JOVENS BRASILEIROS: OS DESAFIOS DA EDUCAO Eliane Ribeiro Andrade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .61 EDUCAO E TRABALHO COMO PROPOSTAS POLTICAS DE EXECUO PENAL Elionaldo Fernandes Julio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .73

A diversidade na poltica pblica"VAMOS JOGAR A TARRAFA..." A EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS PESCADORES Maria Luiza Tavares Bencio, Renato Pontes Costa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .87

Dcada da alfabetizaoA DCADA DAS NAES UNIDAS PARA A ALFABETIZAO: EDUCAO PARA TODOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .101

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EDITORIALDepois de um tempo longo, muito maior do que a nossa vontade admitia, volta-se a editar Alfabetizao e Cidadania, a Revista de Educao de Jovens e Adultos da RAAAB, cuja presena entre educadores consolidou-se desde outubro de 1994, mantendo-se por dez anos seguidos com a publicao de dezoito edies. O esforo de uma rede, tramada no compromisso de participantes identificados com a questo da alfabetizao e sua relao com a cidadania, sustentou, com a parceria de agncias internacionais, a maior parte dessas publicaes, demonstrando o vigor da sociedade civil organizada. E foi com o mesmo esprito de enredamento, tramando novas estratgias de ao que a RAAAB buscou, via UNESCO, um novo parceiro, desta feita representado pelo Governo Japons, que solidariamente tem apostado nas conquistas e avanos educacionais voltados para a diversidade de pblicos a quem se deve o direito educao. Na 4 edio da Revista, em dezembro de 1996, o tema da diversidade dos sujeitos j se fazia presente, expresso pelos indgenas, trabalhadores da construo civil, mulheres, adolescentes e jovens e uma experincia de aprendizagem de leitura com adultos presos. Nesta 19 edio, a diversidade do pblico da educao de jovens e adultos volta cena, retomando discusses ainda incipientes, como a dos internos penitencirios, e aprofundando a temtica da presena juvenil, desafiadora e instigante para quem deseja pensar polticas pblicas para um pblico cada vez mais jovem que integra a EJA. O tema da diversidade de pblicos que participam de projetos educativos tem movido o estudo, a discusso e a pesquisa de muitos profissionais, face riqueza e complexidade dos sujeitos, traduzida pelas diferentes formas como expressam seu estar no mundo, sua condio tnica, de classe, de gnero, seu lugar social etc, o que inevitavelmente define e toma foco central quando se pensam projetos voltados a esses sujeitos.

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Editorial

Historicamente, essa diversidade, tratada como elemento constituidor da desigualdade, arrastou e conformou modos de pensar e de reconhecer o outro, segundo hierarquias ditadas pelas foras do poder social e econmico. Mais recentemente, o reconhecimento dessas diferenas passa a constituir singularidades sem exigir padres de referncia tomados como norma e tenta mudar os processos sociais e culturais estabelecidos em antigos parmetros, para assumir a perspectiva de uma sociedade menos desigual que invisibiliza os diferentes, tratados como minorias. Como conceber, ento, projetos educativos que concorram para minimizar as desigualdades como espao e lugar do exerccio da diversidade? Ao refletir sobre essa questo, Alfabetizao e Cidadania ps em foco alguns recortes caros ao tema, por entender que a emergncia de alguns sujeitos da diversidade, em projetos educativos, tem apontado dificuldades quanto s abordagens que lhes so dispensadas, mas tambm tem feito surgir, criativamente, um modo de pensar e de atuar segundo novos valores, alterando lgicas institudas. O que est em jogo, quando se trata da diversidade, diz respeito, diretamente, ao campo do direito educao. E quando se fala de direito no se admitem escolhas, partindo-se do princpio constitucional de que todos so iguais perante a lei e, no tocante educao, de que a conquista da educao para todos resultado de luta, de histria e no pode ser menosprezada. No entanto, a emergncia da diversidade como contedo da ps-modernidade traz, muitas vezes, contradies quando se toma o diverso como foco de oferta, sem garanti-la aos demais sujeitos. O contedo pode variar, mas no a oferta, o que resumiria a contradio encoberta em muitas propostas, programas e projetos. No marco do direito, e do direito a ser diferente, o Estado ainda o principal veculo para assegurar o direito de educao para todos, particularmente, para os grupos menos privilegiados da sociedade, tais como as minorias e os povos indgenas, como afirma a Declarao de Hamburgo sobre Educao de Adultos (V CONFINTEA, 1997). Da presena do Estado, portanto,

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Editorial

no se pode abrir mo para assegurar o cumprimento de um dever para com todos os cidados. Ainda a mesma Declarao, ao tratar do tema diversidade e igualdade (V CONFINTEA, 1997, 15), no tocante educao de adultos, assim se expressa:[...] deve refletir a riqueza da diversidade cultural, bem como respeitar o conhecimento e formas de aprendizagem tradicionais dos povos indgenas. O direito de ser alfabetizado na lngua materna deve ser respeitado e implementado. A educao de adultos enfrenta um grande desafio, que consiste em preservar e documentar o conhecimento oral de grupos tnicos minoritrios e de povos indgenas e nmades. Por outro lado, a educao intercultural deve promover o aprendizado e o intercmbio de conhecimento entre e sobre diferentes culturas, em favor da paz, dos direitos humanos, das liberdades fundamentais, da democracia, da justia, da coexistncia pacfica e da diversidade cultural.

Por fim, antes de apresentar os autores que dialogam com o tema nesta publicao, deve-se invocar o Tema VIII da Agenda para o Futuro (V CONFINTEA, 1997, 43), para compreender o pacto assumido pelos pases signatrios em Hamburgo nos acordos referentes educao de jovens e adultos, demonstrando o alcance das reflexes a partir das quais postulamos a formulao de polticas pblicas de educao para sujeitos da diversidade.O direito educao um direito universal que pertence a cada pessoa. Embora haja concordncia em que a educao de adultos deve ser aberta a todos, na realidade, muitos grupos ainda esto dela excludos: pessoas idosas, migrantes, ciganos, outros povos fixados a um territrio ou nmades, refugiados, deficientes e reclusos, por exemplo. Esses grupos deveriam ter acesso a programas educativos que pudessem, por uma pedagogia centrada na pessoa, responder s suas necessidades, e facilitar a sua plena integrao participativa na sociedade. Todos os membros da sociedade deveriam ser convidados e, se necessrio, ajudados a se beneficiar da educao de adultos o que supe a satisfao de necessidades educativas muito diversas.

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Editorial

Pautados por esses marcos, dois artigos sinalizam questes centrais na discusso que a Revista prope: o primeiro, de Marc de Maeyer, especialista em pesquisa da UNESCO Institute for Education que, com base em pesquisa internacional promovida pelo organismo a que est ligado, questiona a possibilidade de existncia de uma perspectiva do aprender por toda a vida em instituies prisionais. O artigo, rico em referncias sobre o universo social, cultural, psicolgico e pessoal de internos homens e mulheres, dialoga com os significados da aprendizagem em ambientes e para sujeitos privados da liberdade. Os dez milhes de internos penitencirios em todo o mundo, entre os quais a lacuna da alfabetizao ainda realidade para muitos, desafiam as polticas e os programas, no apenas para cumprir o direito de todos educao, mas para pr na agenda dos pases e dos estados que executam as polticas de execuo penal a exigncia de reconhecer a legitimidade de um direito, no reconhecido pela sociedade nem pelo Estado, muitas vezes, como tal. Olhando-se o caso brasileiro, Marc de Maeyer nos incita a perguntar: como, sob a guarda do Estado, manter cerca de 350.000 homens e mulheres privados da liberdade, sem cumprir o dever de assegurar-lhes o direito constitucional educao? O segundo artigo, de Windyz Brazo Ferreira, sacode as nossas certezas de que as questes referentes aos portadores de necessidades educacionais especiais so objeto do tratamento da escola bsica de crianas e adolescentes, para traz-los, vivos, potenciais, educao de jovens e adultos porque, na maioria dos casos, foram preteridos pela escola, excludos do direito a aprender como os demais. Indagando quanto relevncia e urgncia da abordagem do tema no contexto da educao de jovens e adultos, a autora traz tona a perspectiva das polticas pblicas educacionais inclusivas, o que amplia o conceito, como referendado em Salamanca. Ao clarificar o panorama atual da educao dos jovens e adultos com deficincia, apresentando os desafios mais significativos que perpassam o processo de incluso dessas pessoas nas turmas de EJA, explicita os demais grupos sociais que encontram barreiras para terem acesso educao e ao currculo na direo proposta pela incluso:

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Editorial

populaes de zonas rurais e as que vivem em reas remotas; jovens e adultos analfabetos; pessoas com deficincia; filhos de populaes de baixa renda; afro-brasileiros; indgenas; quilombolas; pessoas com HIV/Aids. Em uma seo que contemplou dois relatos derivados de pesquisas, Eliane Ribeiro Andrade, no artigo Pesquisando os jovens brasileiros: os desafios da educao, apresenta resultados da recente pesquisa Juventude Brasileira e Democracia participao, esferas e polticas pblicas, realizada com 8.000 jovens entre 15 e 24 anos, em sete regies metropolitanas (Belm, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e So Paulo) e no Distrito Federal. Por meio dessa pesquisa, a autora demonstra a continuidade da aposta dos jovens na escola pblica, o percentual de quase 25% que no havia concludo o ensino fundamental nvel de direito de todos educao e de como o que tem sido tratado como excepcionalidade por tanto tempo o insucesso e o fracasso de jovens pobres , em verdade, um modus vivendi das classes desfavorecidas, socialmente imposto a milhes de pessoas, uma vez que, antes de deformaes, constituem partes inerentes de um sistema marcado por profundas desigualdades. O artigo, Educao e trabalho como propostas polticas de execuo penal, de Elionaldo Fernandes Julio, retrata uma pesquisa j realizada e dados de outra em processo, no sistema penitencirio do estado do Rio de Janeiro. O autor, confrontando a lgica da privao da liberdade como modo de ressocializao, impacta o leitor, ao afirmar que dos[...] que vivem encarcerados no Brasil hoje, estima-se que a reincidncia entre adultos egressos penitencirios no Brasil atinja nmeros alarmantes. [...] dados to significativos que sugerem [...] a desinstalao da atual cultura da priso, ou seja, da idia de que a verdadeira ressocializao s obtida por meio da pena privativa de liberdade.

E vai alm, quando aponta que a educao tomada com freqncia como programa de ressocializao, sendo poucos os estados que reconhecem a importncia de polticas educativas no contexto da prtica carcerria, equiparando ensino ao trabalho, instituindo a remio da pena tambm pelo estudo.

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Editorial

Uma ltima seo dedica-se a pensar em polticas pblicas para a diversidade, com o artigo Vamos jogar a tarrafa... a educao de jovens e adultos pescadores, de Maria Luiza Tavares Bencio e de Renato Pontes Costa, que apresenta a situao de uma rea cuja existncia comea a tomar contornos firmes, com espao organizado junto aos atores sociais envolvidos, inaugurando a formulao de polticas construdas no dilogo sociedade e Estado, para trabalhadores que vivem da pesca. Os dados estarrecedores de que, entre os 500 mil pescadores registrados cerca de 79% so analfabetos ou tm baixa escolaridade impe medidas urgentes para tratar da complexa diversidade desse pblico, cujo modo de vida, seguramente, interfereriu na condio relativa sua escolaridade. Tomando a referncia do Programa Pescando Letras, que se vale de princpios caros aos sujeitos envolvidos identidade, vida em comunidade, atividade e organizao dos trabalhadores , ao mesmo tempo ressalta a necessidade de considerar as peculiaridades e as demandas de cada regio e dos ecossistemas locais, desafiando estados e municpios a pensarem propostas curriculares e modos organizativos adequados realidade desses homens (em sua maioria) do mar. Fechando a publicao, inseriu-se o documento-base da Dcada da Alfabetizao (2003-2012), com o intuito de disseminar e fazer circular as idias e as propostas com as quais os estados-membros da ONU assumiram compromisso para dez anos no campo da alfabetizao. A novidade que ao se pensar uma dcada, levou-se em conta a necessidade de garantir tempo para a aprendizagem, sem o que, o esforo vo. Todo o empenho para o retorno de Alfabetizao e Cidadania parece recompensar, no momento em que a Revista ganha o mundo pela publicao, a disposio com que muitos se lanaram ao trabalho: autores, o colegiado da RAAAB, a UNESCO, colaboradores e associados. Agora, poder sab-la objeto de leitura acurada mesmo na timidez dos seus nmeros de educadores-leitores do pas que a esperam ansiosamente, compartilhando-a com seus pares, atribuindo a seus textos sentidos singulares como potencial ferramenta de apoio prtica pedaggica comprometida e solidria. A Editoria

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ARTIGOS

NA PRISO EXISTE A PERSPECTIVA DA EDUCAO AO LONGO DA VIDA?Marc de Maeyer Pesquisador Snior Instituto da UNESCO para a Educao ao Longo da [email protected] [email protected] www.educationinprison.org

Este documento foi escrito com base na pesquisa internacional coordenada pelo Dr. Hugo Rangel, Diretor do Observatrio Internacional de Educao nas Prises Traduo: Alvansio Damasceno

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Na priso existe a perspectiva da educao ao longo da vida?

A educao um direito humano. Todos concordam com isso. Promov-la no mundo todo em processos de educao ao longo da vida a misso da comunidade internacional de educao. Simultaneamente, aproximadamente, dez milhes de pessoas se encontram na priso e as possibilidades de acesso educao ao longo da vida no so completamente conhecidas. Naturalmente, a situao muito diferente em cada pas: programas e atores so diferentes e h situaes especficas em cada priso. A promoo e organizao de programas educacionais, neste caso, so sempre conseqncias das decises polticas das autoridades de cada pas, e devem responder a duas questes: educao para quem e por que um debate especfico para a populao prisional?

QUEMAt agora, no temos um perfil claro e global dos/as internos/as do sistema penitencirio; o que sabemos que, em geral, eles/as tm um nvel educacional mais baixo do que a mdia da populao. E que geralmente as pessoas pobres constituem a maior parte da populao nas prises. Os migrantes tambm formam uma parte significativa dessa populao; em alguns pases constituem de vinte a quarenta por cento da populao penitenciria. A priso causa e conseqncia da pobreza; o que no significa que as pessoas pobres sejam mais perigosas que as outras! Em geral, a excluso global: excluso da escola, do trabalho, da integrao social, do emprego, dos laos familiares, com ausncia de relacionamentos. Nessas condies, quando se chega priso, a melhor atitude acatar a norma especfica do local: um bom interno do sistema algum que no assume qualquer responsabilidade, apenas respeita as regras, o ritmo, as decises dentro da priso; agindo assim, seu potencial de tomada de deciso quase nulo. Durante anos seguidos, o interno penitencirio deixa de tomar decises corriqueiras sobre coisas como: o preparo da comida, a

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Marc De Maeyer

escolha das atividades dirias, o desenvolvimento de contatos com pessoas de diferentes lugares, a organizao de oramentos etc. Essas atividades no tm lugar na priso. Ao mesmo tempo, espera-se que logo aps ser posto em liberdade o interno seja capaz de lidar com todos esses aspectos da vida diria.PORQUE UM DEBATE ESPECFICO?

Toda deciso poltica supe uma justificativa: a educao na priso tem uma poro de justificativas (explcitas) e preocupaes: garantir um mnimo de ocupao para os internos (ter certeza de que a segurana e a calma estejam garantidas), oferecer mo-de-obra barata para o mercado de trabalho, quebrar o lado ruim da personalidade e construir um novo homem e uma nova mulher, apresentando atitudes e comportamentos religiosos, oferecer ferramentas para a vida externa, reeducar, reduzir a reincidncia, etc. Cada uma dessas justificativas motivada pela viso ideolgica das autoridades de cada pas. A organizao da educao na priso reflete tambm as atitudes da opinio pblica. Nos pases em que o oramento para a escola regular no suficiente, fica difcil explicar por que a educao na priso precisa de dinheiro pblico. Assim, com essas condies e contradies, a educao na priso possvel? A priso pode ser transformada em um ambiente global de aprendizagem? O que estamos fazendo quando oferecemos educao na priso?FORTALECENDOO DIREITO EDUCAO PARA TODOS

A educao na priso tambm um direito de todos. Entretanto isso no parece ser uma realidade dentro da comunidade internacional de educao, mesmo quando muitas iniciativas so tomadas nos nveis local e nacional. Campanhas internacionais (Seguimento de Dakar, Dcada da Alfabetizao da ONU) ou regionais (A Nova Parceria para o Desenvolvimento da frica Nepad) do pouca ou nenhuma ateno para esse problema, um problema que afeta mais de dez milhes de pessoas.

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Na priso existe a perspectiva da educao ao longo da vida?

PROMOVENDO

EDUCAO EM DIFERENTES COMUNIDADES

Esses dez milhes de internos do sistema penitencirio em todo o mundo no so as nicas pessoas afetadas pelo problema da educao na priso. Normalmente, os pais, amigos e familiares dessas pessoas tambm so categorias que se encontram excludas da educao formal. E muito provavelmente seus filhos deixaram de fazer parte do sistema escolar formal. Alm disso, as prises quase sempre carecem das possibilidades de processos de educao ao longo da vida. Assim, o problema diz respeito a muito mais do que dez milhes de internos; na realidade, setenta milhes de pessoas so diretamente impactadas pela educao na priso.

INCLUINDO

EDUCAO EM TODA A SOCIEDADE

Como a Declarao de Hamburgo (Arts. 2 e 5) afirma explicitamente, educar promover um direito, no um privilgio. Educar no se resume a um treinamento prtico. Educar destacar a dimenso social, profissional e cultural da cidadania.A educao de adultos, dentro desse contexto, torna-se mais que um direito: a chave para o sculo XXI; tanto conseqncia do exerccio da cidadania como condio para uma plena participao na sociedade. Alm do mais, um poderoso argumento em favor do desenvolvimento sustentvel, da democracia, da justia, da igualdade entre os sexos, do desenvolvimento socioeconmico e cientfico, alm de ser um requisito fundamental para a construo de um mundo onde a violncia cede lugar ao dilogo e cultura de paz baseada na justia. A educao de adultos pode modelar a identidade do cidado e dar um significado sua vida. A educao ao longo da vida implica repensar o contedo que reflita certos fatores, como idade, igualdade entre os sexos, necessidades especiais, idioma, cultura e disparidades econmicas. (Art. 2).

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Os objetivos da educao de jovens e adultos, vistos como um processo de longo prazo, desenvolvem a autonomia e o senso de responsabilidade das pessoas e das comunidades, fortalecendo a capacidade de lidar com as transformaes que ocorrem na economia, na cultura e na sociedade; pro-

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movem a coexistncia, a tolerncia e a participao criativa e crtica dos cidados em suas comunidades, permitindo assim que as pessoas controlem seus destinos e enfrentem os desafios que se encontram frente. essencial que as abordagens referentes educao de adultos estejam baseadas no patrimnio cultural comum, nos valores e nas experincias anteriores de cada comunidade, e que estimulem o engajamento ativo e as expresses dos cidados nas sociedades em que vivem. (Art. 5)

PR-REQUISITOSAEDUCAO NA PRISO UM DIREITO

A educao de adultos no uma segunda chance de educao. No uma segunda e provavelmente ltima oportunidade de se fazer parte da comunidade de letrados, aqueles que estudaram e tm conhecimento. Tambm no um prmio de consolao ou um tipo de educao reduzida a ser oferecida queles que, por razes sociais, familiares ou polticas, no foram capazes de tla durante a infncia. No uma educao pobre para pobres. A comunidade internacional declarou que a educao um direito de todos. Considerar a educao na priso como privilgio est fora de questo. A priso a perda do direito de mobilidade, no dos direitos de dignidade, respeito e educao. Ns sabemos que a maior parte dos internos na maioria das prises do mundo possuem um nvel educacional mais baixo quando comparado ao da mdia nacional. E podemos dizer que aqueles que esto na priso so pobres, so economicamente pobres e freqentemente (auto) excludos da escola formal ou nunca tiveram oportunidade de acesso a ela. Paradoxalmente, o direito educao no est entre as principais preocupaes dos internos... provavelmente porque eles aprenderam a viver sem ela, porque para eles escola quer dizer fracasso e frustrao. Quem luta por atividades educacionais na priso so organizaes no-governamentais e alguns governos. O fato de no ser exigido por muita gente, nem oferecer risco ordem social quando no realizado, no o torna um direito opcional.

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Na priso existe a perspectiva da educao ao longo da vida?

O direito educao deve ser exercido sob algumas condies: no pode ser considerado como sinnimo de formao profissional, tampouco usado como ferramenta de reabilitao social. ferramenta democrtica de progresso, no mercadoria. A educao deve ser aberta, multidisciplinar e contribuir para o desenvolvimento da comunidade. A educao no deve ser usada como ferramenta para lidar com conflitos dentro da priso e esse direito no deve ser aplicado e tolerado apenas para os de boa conduta.AEDUCAO NA PRISO GLOBAL

A educao na priso no apenas ensino, mesmo que devamos ter certeza de que a aprendizagem de conhecimentos bsicos esteja assegurada. Tambm aqui lida, principalmente, com pessoas indivduos dentro de um contexto especial de priso (e encarceramento) , e deve ser primordialmente uma oportunidade para que os internos decodifiquem sua realidade e entendam as causas e conseqncias dos atos que os levaram priso. Os tribunais do as razes objetivas; o advogado apresenta circunstncias atenuantes, e a educao na priso ser o caminho para a compreenso de tudo e para a descoberta da lgica (s vezes infernal). Decodificar para reconstruir um trabalho longo e de pacincia. A priso no obviamente o melhor lugar. No tem as ferramentas necessrias, mas sejam quais forem as circunstncias, a educao deve ser, sobretudo, isto: desconstruo/reconstruo de aes e comportamentos. nesse contexto que devemos denunciar o que algumas pessoas chamam de educao, a saber: prticas que consistem em humilhar internos, em quebrar sua personalidade ruim e em fazer com que executem aes automticas e tenham comportamentos pavlovianos. Esse tipo de reeducao nada tem a ver com educao. A educao global tambm porque recolhe pedaos dispersos da vida; d significado ao passado; d ferramentas para se formular um projeto individual ao organizar sesses educacionais sobre sade, direitos e deveres, no-violncia,

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auto-respeito, igualdade de gnero (90% dos reclusos so homens) etc.AEDUCAO NA PRISO TEM UMA DIMENSO SOCIAL BVIA

A V Conferncia Internacional sobre Educao de Adultos (Hamburgo, 1997) recomendou que toda aprendizagem deveria ser baseada nas experincias e conhecimentos dos adultos. Tambm deve valer para a populao prisional. Muito freqentemente, os internos dispem de um conhecimento alternativo, que pode no ser sempre aceito pela sociedade. Eles conhecem uma forma de organizao social com hierarquias cambiantes. Dispem das artes de sobrevivncia, comunicao, organizao, negociao e dissimulao. Nem todas devem ser apoiadas, mas integradas ao superalardeado reconhecimento de habilidades bsicas. Ningum de fato acha que a priso realmente sirva para a reabilitao dos internos. Ainda definida por sua funcionalidade negativa (privar algum temporariamente de seu direito de ir e vir) e no como uma oportunidade de educao global. Com demasiada freqncia, a priso inclusive educa para o crime. Uma priso idealmente organizada (supondo no haver qualquer contradio entre as palavras priso e ideal) pode nunca resolver a disparidade de acesso educao, sade, atividades de lazer, trabalho e capacitao fora de suas paredes e todas as contradies polticas, econmicas e sociais. A priso no-educacional por definio. O que ns chamamos educao deve focar sob essas condies e prioritariamente nas causas e nos processos do passado, em vez de unicamente em um futuro melhor. Ns acreditamos que a educao apenas uma gota no oceano da vida quando sabemos que ela para todos o direito e a oportunidade de expressar projetos pessoais, de entender a si mesmo e aos outros e de continuar tomando suas prprias decises com total compreenso dos fatos. a chave, a ferramenta que pode ser usada para dar significado vida como um todo.

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Na priso existe a perspectiva da educao ao longo da vida?

A educao na priso ser interessante para todos os envolvidos e no apenas para os professores. Mobilizar no apenas a UNESCO mas tambm cada agncia das Naes Unidas responsvel.

ESTADO

DA ARTE

Pesquisa internacional, realizada pelo Instituto da UNESCO para Educao ao Longo da Vida e que est em processo permanente, descreve a situao da educao prisional no mundo (disponvel no site ). Na pesquisa j foi realado o seguinte: A situao legal dos internos influencia a organizao de turmas. As pessoas acusadas de um crime, mas ainda no sentenciadas tm maior dificuldade (ou menor motivao) de entrar em turmas fixas. Em alguns pases, a coordenao e administrao das prises regional, em vez de nacional. Coordenar programas educacionais mais difcil, especialmente quando os internos so transferidos para prises de uma diferente entidade poltica e/ou administrativa. A maior parte dos crimes envolve trfico de drogas. Isso deve encorajar os administradores a incorporar educao para a sade a seus programas. Entre as mulheres, o trfico de drogas o crime mais comum. Em alguns pases, a freqncia s aulas obrigatria, organizada pelo estado com professores qualificados, que foram treinados para adaptar seus mtodos educacionais ao especial contexto da priso. Na maior parte dos pases, entretanto, a educao uma opo e compete com a possibilidade de trabalhar (e, portanto, de poder comprar produtos como cigarros etc.). Em muitos outros pases no se dispe de absolutamente nada.Alfabetizao e Cidadania n 19 Julho de 2006 24

A alfabetizao um elemento chave na educao prisional, no apenas em pases com taxa de analfabetismo alta mas tambm nos pases ocidentais em que h muitos estrangeiros nas prises.

Marc De Maeyer

Alguns pases afirmam claramente que a educao deve incluir aspectos sociais, sanitrios, artsticos e ticos. A criao de programas de educao tcnica leva organizao de atividades produtivas que, por um lado, permitem desenvolver habilidades tcnicas para o mercado de trabalho, mas, por outro, prejudicam as atividades educacionais ou alteram a dimenso social dos programas educacionais. Uma das conseqncias diretas o estabelecimento em algumas prises de unidades de subcontratao de empresas privadas que empregam internos sob condies econmicas suspeitas. um estgio na privatizao da educao na priso. A taxa de evaso alta (mais de trinta por cento), mas muito difcil organizar as pesquisas pela diversidade de atores, programas e governos. A superlotao na priso uma realidade desfavorvel organizao de sesses educacionais. A superlotao afeta os programas, principalmente nos pases do sul. Na frica, a taxa de superlotao atinge cerca de duzentos por cento. A superlotao, a falta de espao e a insalubridade dificultam a organizao de turmas. A educao para a sade raramente ensinada. Em alguns pases, crianas pequenas vivem na priso com a me e poucas turmas e/ou atividades de aprendizagem prprias educao infantil so organizadas.

DESAFIOS PARA LDERES QUE DESEJAM PROMOVER AMBIENTESDE APRENDIZAGEM

A

PRIVATIZAO DA EDUCAO

A idia de que a privatizao da educao aumentaria a qualidade e a quantidade das aulas tambm tem se apoderado do setor de educao prisional. Diante da realidade dos insignificantes recursos destinados pelos estados, o setor que trata a educao como um negcio rapidamente compreendeu que existia um mercado real na priso. Qualquer que seja a motivao, o ritmo, as habilidades prvias, as condies de estudo, as hesitaes ou o abatimento dos internos, os mercadores de conhecimento acham que encontraram alunos que, com um

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Na priso existe a perspectiva da educao ao longo da vida?

pouco de boa vontade, poderiam ser bons e obedientes trabalhadores, uma vez treinados na priso. Apesar disso, eles deveriam saber que a educao sempre tem de comear com algo, e que o ponto de partida, especialmente em educao de adultos, sempre diferente e que a partir da que um relacionamento e em seguida uma comunicao para a aprendizagem sero criados. Acima de tudo, a educao na priso uma difcil, mas necessria reconciliao com o ato ou mesmo com o prazer de aprender. E muito maior a possibilidade de se aprender com a ajuda/presena/respeito/ simpatia de algum. Uma outra dimenso pode ser perdida se a educao for tratada como mercadoria: a presena da sociedade civil dentro da priso. Exceto pelas visitas de advogados e de familiares, a priso (obviamente) um mundo fechado e o isolamento das instituies um risco. A presena de instrutores, professores e organizadores garante a possibilidade de a sociedade civil continuar a entrar na priso e realizar seu papel de vigilncia, questionamento e participao no trabalho feito com cada um dos internos. Reforar a liderana, a autoridade, o comprometimento e a presena do Estado dentro da priso e na educao prisional uma questo poltica crucial. A definio do contedo e da organizao da educao (na priso) de competncia exclusiva do Estado, no uma deciso do mercado.AEXPLORAO DA EDUCAO

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O objetivo da educao prisional no criar uma fora de trabalho mais obediente do que qualificada. Nem deve ser justificada ou imposta em nome das assim chamadas propriedades conciliatrias ou ocupacionais. A educao no se justifica como um instrumento de reabilitao, mesmo que contribua para ela e que a capacitao possa ajudar um interno quando ele sair da priso. A educao um direito que tem sido proclamado pela comunidade internacional na Declarao de Direitos Humanos. Isso justifica plenamente a obrigao de cada Estado organizar a educao na priso.

Marc De Maeyer

Um outro perigo vem tona: pela falta de dinheiro alguns governos toleram ou mesmo apelam para que grupos religiosos ministrem educao na priso. Textos religiosos so ento usados como material de leitura e escrita e para discusses em grupo (quaisquer que sejam as crenas filosficas dos internos). No seria a primeira vez na histria da humanidade que o sistema religioso exortado a garantir a ordem social e moral. Com essa estrutura de contribuio/redeno, a educao perde seu potencial de dotar os indivduos para criar sua prpria moralidade, a avaliar seu passado com a ajuda de seus prprios parmetros e encontrar neles mesmos possveis solues. Como um espelho da presena da sociedade civil na priso, os grupos religiosos tendem a padronizar a aprendizagem e criar exclusivamente um novo julgamento (um metajulgamento) sobre o que j existe nos tribunais e na sociedade. Os parcos investimentos dos estados em recursos humanos e materiais e a mnima preocupao da opinio pblica com a educao nas prises deixam uma brecha que alguns grupos religiosos se apressam em preencher, como se a religio precisasse da redeno de algumas pessoas para existir.A VISOSIMPLISTA DE SUA ESFERA DE ATIVIDADE

A educao na priso deve apresentar uma introduo formao profissional e aquisio de capacidades bsicas de comunicao, leitura e escrita. Entretanto no deve considerar isso como um programa completo. Da maneira como a educao na priso se encontra hoje, no d para acreditar que as turmas e o nmero de professores disponveis sejam suficientes para mais de dez milhes de reclusos. O que pode acontecer nessas condies fazer com que os reclusos gostem de aprender, mostrar que eles so capazes de escrever, de dedicar sua ateno a uma tarefa, de estabelecer para si mesmos objetivos a atingir individual e coletivamente em diferentes tipos de projetos. Honestamente, no so muitos os internos capazes de completar sua formao na priso. Demasiados requisitos devem ser reunidos para que um ciclo de formao completo seja

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realizado: a formao deve ser dada inteiramente, com a realizao de exames, reconhecimento de qualificao, oficinas aparelhadas como nas empresas, internos no transferidos para outras prises e capazes de estudar sem abrir mo do trabalho que lhes rende um salrio que lhes permite comer na cantina. Tudo isso sem falar no apoio motivao. A formao completa freqentemente encontra um tremendo obstculo no caminho: os internos tero que lidar com a realidade do mercado de trabalho, com a reao dos empregadores ao apresentar sua ficha criminal e com os constrangimentos que os ex-presidirios geralmente enfrentam. O efetivo conceito de priso um inegvel obstculo para a criao de um ambiente de aprendizagem. Aprender como viver a vida diria e administrar o oramento, o tempo, relacionamentos, privacidade, espao, sade etc. posto em banhomaria durante o encarceramento. Nessas condies, justificar a educao na priso por seu papel na reabilitao uma iluso, se no uma mentira. A educao na priso nunca deve ser confundida com reabilitao profissional. Nem uma garantia contra a reincidncia. uma oportunidade de reconciliao com o ato de aprender. Eis porque os riscos envolvidos na educao so imensos.ASFRGEIS CONEXES INSTITUCIONAIS

A plena aplicao do direito educao na priso uma exigncia que no tem sido posta em prtica por todos os governos. Dizer que a educao ao longo da vida para todos nossa meta, no suficiente. s vezes medidas discriminatrias positivas devem ser tomadas, como no caso de crianas, mulheres, refu-giados, frica etc. A avaliao na metade da Dcada das Naes Unidas para a Alfabetizao deve ser a ocasio para uma avaliao dos programas de alfabetizao na priso.Alfabetizao e Cidadania n 19 Julho de 2006 28

A educao na priso no deve ser a nica preocupao do setor educacional. Na verdade educao tambm educar para a sade, o meio ambiente, a no-violncia, a formao profissional, a cidadania e assim por diante.

Marc De Maeyer

A Organizao das Naes Unidas para a Educao, a Cincia e a Cultura (UNESCO) e as principais agncias das Naes Unidas devem integrar a educao na priso a seus programas regulares: a UNESCO deve intensificar seu trabalho, por exemplo, durante a Dcada das Naes Unidas para a Alfabetizao, mas tambm no campo das cincias sociais, da cultura e das comunicaes, a fim de integrar os problemas especficos dos internos do sistema penitencirio; o Fundo das Naes Unidas para a Infncia (UNICEF) deve tambm atuar promovendo programas de educao no-formal para mulheres e cuidar das crianas que vivem com a me na priso; a Organizao Mundial da Sade (OMS) deve ocupar-se da educao para a sade (seringas, tatuagens, aids, sade reprodutiva); o Programa das Naes Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) deve lembrar que, em todos os pases, so os pobres os principais moradores das prises; a Organizao Internacional para a Migrao (IOM), que est muito consciente do fato de que quarenta por cento dos internos so imigrantes, deve tambm agir. A lista longa: o papel desempenhado pelos sindicatos em relao a trabalhadores presos, a aprendizagem ao longo da vida para o staff da priso, providncias a serem tomadas com as famlias de internos (e a educao das crianas etc.).OPROBLEMA ESPECFICO DAS MULHERES

Ainda que sejam minoria, as mulheres provam, quando assumem todos os riscos ao carregar drogas como mulas, que a pobreza e a priso esto intimamente ligadas. A pobreza rene todos os tipos de excluso: educao, moradia, sade e cultura esto totalmente fora de alcance. As mulheres na priso so as pobres entre os pobres, e os bebs que s vezes vivem com elas na priso raramente tm acesso a atividades prprias educao infantil. No admira que, em alguns pases, vinte por cento das crianas nascidas na priso acabem voltando para a priso vinte anos depois. A pobreza no gentica. causada, entre outros problemas, pela falta de educao. hora de se levar em conta a educao formal e no-formal das mulheres reclusas e seus filhos. VtimasAlfabetizao e Cidadania n 19 Julho de 2006 29

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de sua prpria histria e muitas vezes de um parceiro que desapareceu quando foram presas mes solteiras devem pesar nas despesas familiares. extremamente urgente que os governos, a UNESCO e as agncias especiais das Naes Unidas, articuladas com a rede de organizaes no-governamentais (ONGs), desenvolvam juntas programas de educao formal e no-formal, bem como programas de formao profissional para essas presidirias especiais. Ns tambm precisaremos ser muito cuidadosos para no oferecer aulas que reproduzam uma abordagem sexista, tais como costura, tric ou culinria.OPROBLEMA ESPECFICO DOS (JOVENS) IMIGRANTES

O encarceramento de (jovens e) adultos imigrantes mostra que os mecanismos clssicos de educao fracassaram para alguns deles. Longe de ns reprovar o sistema educacional que apoiou uma multido de jovens migrantes em sua determinao de integrar e sua trajetria para a integrao. Em alguns pases, quarenta por cento dos internos so estrangeiros. Aqui, novamente, deixamos claro que nosso objetivo no associar indiscriminadamente os estrangeiros ao perigo, mas enfatizar as condies econmicas e sociais que podem levar a uma determinada criminalidade. Uma adicional ateno precisa ser dada nacionalidade dos monitores, ao contedo da formao, influncia religiosa, realidade especfica da famlia; aos relacionamentos ativos dentro e fora da priso e aos diferentes tipos de capacitao oferecidos. Pouqussimas pesquisas tm sido feitas sobre esses assuntos. Ento, a educao na priso deve, na medida do possvel, ser uma educao com a famlia e algum tipo de grupo circundante. Programas de alfabetizao devem ser oferecidos em alguns idiomas nacionais, mas, dado o nmero de idiomas falados em uma priso e a limitao de recursos, as escolhas devem ser feitas pelo Ministrio da Educao de cada pas (e no por empresas privadas).Alfabetizao e Cidadania n 19 Julho de 2006 30

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O

DIREITO AO VOTO

O aprendizado da democracia e da cidadania deve ser objetivado de forma regular (e no como uma exceo). Uma boa oportunidade seria o direito ao voto. A situao muito diferente de um pas para outro. Mesmo nos pases em que assegurado (para as pessoas acusadas e/ou condenadas), aparentemente no fcil organizar isso. Apesar de tais mecanismos serem suficientemente complicados para serem usados como desculpa para no organizar eleio na priso, h o aprendizado. O que um partido poltico, uma ideologia, o que um voto faz mudar, como se manter ativo mesmo alijado do processo? Essas questes devem ser debatidas em um lugar em que obviamente os habitantes no estejam preocupados com a idia ou para quem os polticos e os programas que eles apresentam sejam prejudiciais. Por personificar a sociedade que os aprisionou, os polticos no so muito bem considerados entre os presos. Mas ainda assim, como todos os outros cidados, devem ter o direito ao voto, ter o direito de serem informados sobre as tcnicas eleitorais e sobre os mecanismos de participao dos cidados. Acrescentemos que a Corte Europia de Direitos Humanos anunciou que negar o direito ao voto contradiz o Artigo 3 do Protocolo 1 da Conveno Europia de Direitos Humanos.UMAEDUCAO PARA A TOLERNCIA

A presena de minorias (filosficas, raciais, religiosas) deve ser levada em conta ao se organizar cursos na priso. A percepo da minoria pela maioria deve ser estimulada, por meio da educao pela tolerncia (Recomendaes de Florianpolis). A priso o reflexo da sociedade, e nela a diversidade mais visvel. Ao mesmo tempo, redes informais esto desenvolvendo percepo, modo de vida, regras internas e comportamentos comunitrios, promovendo interesses comunitrios: as pessoas esto se reunindo via grupos religiosos e identidades culturais. Em alguns casos, tal organizao pode ser um forte fundamento para conflitos intertnicos e religiosos na priso. A educao

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deve promover troca, conhecimento intercultural; programas no-formais podem dar conta do desafio.AFORMAO DE FORMADORES

Educao na priso no significa apenas educao para os presidirios. A educao na priso na perspectiva do aprender por toda a vida para todos envolve o ambiente e, portanto, tambm o staff e os agentes penitencirios. Em muitos pases, os agentes penitencirios recebem uma formao bsica a respeito de deveres, medidas de segurana... O possvel papel deles em amparar e promover educao formal e no-formal no est ainda suficientemente enfatizado. Algumas experincias tm sido promovidas com sucesso em alguns poucos pases, e o papel social dos agentes penitencirios tem sido destacado e valorizado eles so as pessoas que mais tm contato com os prisioneiros. O papel que cumprem entre todos os que atuam na priso e com relao s famlias dos internos crucial. A educao na priso deve realmente incluir os agentes penitencirios que, em muitos pases, tambm tm um baixo nvel de escolaridade e nenhum acesso educao continuada.

O

PROBLEMA ESPECFICO DA ALFABETIZAO

Em muitas prises, o analfabetismo uma realidade. Durante a Dcada das Naes Unidas para a Alfabetizao, um esforo especial deve ser feito pelas aes de educao na priso. Na verdade, a situao est longe de ser satisfatria. A comunidade internacional de educao no est mostrando interesse nem investindo nisso, e a UNESCO deve como coordenadora desta Dcada se envolver e incentivar seus parceiros a fazer o mesmo. As metas para esta Dcada das Naes Unidas para a Alfabetizao parecem estar bastante claras. No discurso para o seu lanamento, o Diretor Geral da UNESCO afirmou:esta dcada se concentrar na alfabetizao para todos, e prioridade mxima ser dada queles que mais necessitam dela, especialmente mulheres e meninas, minorias tnicas e lingsticas, populaes nativas, migrantes e refugiados, crianas e adolescentes desprovidos de escolaridade e deficientes.

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No se pode deixar de aprovar a opo, mas a ausncia de dez milhes de internos do sistema penitencirio significativa. Acrescent-los lista das populaes para as quais um esforo educacional deve ser feito ainda no uma tradio da comunidade internacional. As estratgias esboadas para a Dcada das Naes Unidas para a Alfabetizao na priso devem ser as seguintes: a) colocar a alfabetizao no ncleo dos sistemas educacionais: a alfabetizao deve ajudar a entender o mundo dentro da priso e entre os familiares dos internos. Assim como os outros, precisam de uma chave para entender sua situao (e precisam saber e compreender por que eles esto na priso) e para criar uma imagem realista de sua vida futura. A dcada deve ser a poca para se investir pesadamente: o analfabetismo na priso deve ser analisado profundamente. O trabalho feito por muitas organizaes regionais, isoladas e sem substitutos deve ser reconhecido. Alm disso, a esses atores devem ser dados o apoio material e o perfil poltico que merecem; b) incentivar a criao de sinergia entre a educao escolar e a educao no-escolar: a escola quando freqentada pelos internos raramente uma boa lembrana. Assim, importante para os programas de alfabetizao no reproduzir o que no funcionou. A educao no-formal, a expresso e a criatividade devem ser enfatizadas. Formar professores e o staff da priso fundamental. As iniciativas tomadas durante esta Dcada devem definitivamente levar isso em conta. No devemos perder de vista as principais questes: por que a escola formal perde cada vez mais alunos, por que alguns deles acabam na priso, e por que essas pessoas so cada vez mais jovens? c) promover um ambiente favorvel alfabetizao em geral e incentivar a leitura: as prises nunca sero escolas e nunca sero o ambiente adequado para qualquer tipo de ensino ou aprendizagem. Mas elas podem ser transformadas internamente pela instalao de uma biblioteca facilmente acessvel, pela criao de reas de leitura nas quais os livros possam ser trocados e pela autorizao para que os internos possam ler deixando as luzes

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de suas celas acesas por mais tempo. Quando a internet est envolvida, o problema deve ser estudado um pouco mais para que se possam combinar as exigncias da segurana com a criao de um ambiente que favorea a alfabetizao; d) promover a participao das comunidades: a priso nunca ser uma comunidade ( um lugar em que os encontros das pessoas so forados), mas ela pode por meio de uma srie de iniciativas ajudar a reconstruir a famlia e ensinar a viver junto. Experincias de vida junto devem ser favorecidas, permitindo que o(a) interno(a) estude ao mesmo tempo em que seus filhos; e) estabelecer parcerias em todos os nveis: organizaes no-governamentais, os vrios ministrios (Educao, Justia, Sade, Desenvolvimento Social, Migrao etc.), professores, pesquisadores, ativistas, associaes de familiares, ex-presidirios e sindicatos devem ter a oportunidade de reunir suas experincias em nvel nacional e oferecer uma educao prisional que leve em conta a realidade das prises. Na condio de lder da Dcada das Naes Unidas para a Alfabetizao, a UNESCO deve apostar neste projeto, assim como suas comisses nacionais devem dar o seu apoio. Semanas de Aprendizagem para Adultos podem ser uma boa oportunidade.

CRIAO

DE REDES EM NVEL REGIONAL

A Comisso Europia reconheceu a importncia da educao em prises ao apoiar vrios projetos Grundtvig/Scrates de educao de adultos em prises. Uma rede europia tem estado ativa por dois anos. Paralelamente a ela, que se tornar uma plataforma e/ou rea de referncia para a comunidade europia, muitas iniciativas relacionadas educao prisional tm sido co-financiadas. Em geral, so projetos de dois anos que produzem ferramentas concretas: metodologia, currculos, comparao de experincias, estudos e pesquisa. O reconhecimento de projetos de educao no-formal uma realidade: vrios projetos visam expresso dos internos. A expresso desejada e incentivada e tambm uma condio para a educao formal. Os internos descobrem

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que so capazes de falar sem violncia, expressar sentimentos e realizam projetos individuais e coletivos que levam formulao de uma procura pela educao. Um novo fracasso em atividades educacionais poderia eventualmente fazer com que eles se sentissem definitivamente descontentes com a educao. Em 2002, a Comisso Europia tambm apoiou um projeto relacionado educao para jovens e migrantes na priso. Uma publicao, editada pelo Instituto da UNESCO para a Educao ao Longo da Vida (UIE), rene experincias de educao noformal do Canad, Mxico, Brasil, Portugal, Alemanha e Blgica. Vale a pena mencionar que, em nvel de Europa, e j h muitos anos, a Associao Europia para Educao na Priso tem organizado, de dois em dois anos, um seminrio baseado na troca de experincias. Nos pases do Caribe, h tempos uma rede de coordenao e troca se desenvolveu e o Conselho Internacional para a Educao de Adultos est realmente envolvido. Na frica, muito poucos pases dispem de uma legislao que organize a educao na priso. Mesmo sem dispor de nmeros precisos, temos certeza de que a maior parte dos internos nas prises da frica so analfabetos ou semi-analfabetos. Na sia, a realidade totalmente diferente. A tendncia aumentar a conscincia das autoridades sobre o problema e de mostrar a inteno de oferecer formao profissional. Essa modalidade de formao tambm ajuda a fortalecer uma economia de livre mercado atravs do fornecimento de mo-de-obra barata. Devemos destacar tambm iniciativas religiosas que visam reabilitao de internos, de acordo com as tradies e religies dos pases. Essa tendncia atua sobre os programas de educao, quase sempre baseados na tica ou espiritualidade. Tal abordagem aplicada especialmente nos casos de internos viciados em drogas. Na Amrica Latina, a maior parte das prises organiza ou tem algum organizando turmas de alfabetizao. Vrias associaes de voluntrios desempenham um estratgico papel, e alguns grupos religiosos ensinam a ler e escrever por meio da bblia.

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Apesar da limitao de material e de recursos econmicos, governos da Amrica Latina esto cada vez mais interessados em comear ou fortalecer projetos de educao e capacitao nas prises. Vrios programas foram instalados, principalmente em educao bsica, e tambm no setor de educao no-formal. Essa tendncia favorece a formao profissional que desenvolvida paralelamente privatizao dos servios e introduo nas prises de empresas que subcontratam mo-de-obra. s vezes, a capacitao depende mais das atividades econmicas e do financiamento da priso do que da educao em geral. O Instituto da UNESCO para a Educao ao Longo da Vida organizou, em parceria com Instituto Crislida (Florianpolis), um encontro sub-regional (2002) financiado pela Comisso Europia, em que oito recomendaes foram lanadas, destacando as diferentes dimenses. A educao na priso parte da educao continuada; tem uma dimenso multidisciplinar, uma educao para e por todos; uma responsabilidade de todos os atores; uma educao para a tolerncia; deve ser oferecida se for possvel e no for perigoso geogrfica e culturalmente prxima dos relacionamentos dos internos; faz parte da formao profissional dos internos; uma capacitao para a autonomia profissional.

CONCLUINDO: ENFATIZAR A RECONCILIAO COM O ATODE APRENDER

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Todos sabemos e h muito tempo que as prises mantm reclusas vrias pessoas parcamente educadas. Pela mdia, aprendemos tambm que a maior parte das prises do mundo esto superlotadas. Mas isso tudo que sabemos sobre as prises. Temos que admitir, a priso um mundo com o qual no estamos familiarizados, e a opinio pblica nunca tem pressa

Marc De Maeyer

para que os responsveis pela educao nos pases organizem programas de educao nas prises. A parceria entre os estados e as ONGs deve ser fortalecida. Temos que continuar nossa batalha para que as aulas sejam fsica e financeiramente acessveis para todos. Devemos continuar a formar o staff da priso, administradores e professores para despertar e manter a motivao dos internos para aprender e compreender. A oferta atual de educao deve ser levada a uma concluso bem-sucedida original, individual e coletiva busca de aprendizados. E, dentro da prpria priso, conseguir a reconciliao do interno com a aprendizagem seria uma grande vitria.

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DESAFIOS NA EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS COM NECESSIDADES EDUCACIONAIS ESPECIAIS NO BRASILWindyz Brazo Ferreira PhD em EducaoMEC/Secretaria de Educao Especial [email protected] [email protected]

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Desafios na educao de jovens e adultos com necessidades educacionais especiais no Brasil

Tambm no se avaliou o alcance da meta de promoo de uma educao de jovens e adultos inclusiva, sensvel s necessidades de mulheres, idosos, indgenas, pessoas com deficincia e presidirios. (Pierro 2004, p. 21)PORQUE RELEVANTE E URGENTE ABORDAR AS QUESTES RELATIVAS AOS ESTUDANTES COM NECESSIDADES EDUCACIONAIS ESPECIAIS NO CONTEXTO DA EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS?

Este artigo tem como objetivo responder pergunta situando-a no mbito das polticas pblicas educacionais inclusivas, ou seja, a poltica que tem como objetivo combater a excluso educacional atravs do acesso e da promoo da melhoria da qualidade educacional para todo(a)s aquele(a)s que, por razes distintas, no encontram em sua vida oportunidades de serem escolarizado(a)s, isto , pessoas com necessidades educacionais especiais, segundo a Declarao de Salamanca (UNESCO 1994). No Brasil, historicamente, o termo necessidades educacionais especiais ainda est fortemente ligado educao da pessoa com deficincia. Contudo o documento de Salamanca (UNESCO 1994) estabelece que diz respeito a qualquer educando(a) cujas necessidades decorrem de deficincias ou dificuldades de aprendizagens que emergem em qualquer tempo ou fase da escolarizao (p.6). Assim, qualquer estudante, independentemente de faixa etria, origem, raa, cor, condies fsicas, emocionais, intelectuais e outras condies, que encontra barreiras para aprender no ensino formal ou informal deve ser considerado um estudante com necessidades educacionais especiais. Com base nessa definio, portanto, podemos afirmar que, no Brasil, entre os grupos sociais que encontram barreiras para terem acesso educao e ao currculo esto as populaes de zonas rurais e as que vivem em reas remotas, o(a)s jovens e adultos(as) analfabeto(a)s, as pessoas com deficincia, os(as) filho(a)s das populaes de baixa renda, o(a)s afrobrasileiro(a)s, o(a)s indgenas, o(a)s quilombolas, as pessoas com HIV/Aids. Reconhecendo a urgncia de garantir os direitos da pessoa com deficincia em todas as modalidades e etapas educacionais, o presente artigo aborda questes especificamente pertinentes s

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Windyz Brazo Ferreira

pessoas com deficincia porque seus direitos educao tm sido sistematicamente negados, apesar da extensa legislao vigente (vide MEC/SEESP 2001). Os dados do Censo Escolar 2005 mostram que dos cerca de 57 milhes de crianas, jovens e adultos matriculados na educao bsica oferecida pela rede de ensino pblica ou privada, apenas em torno de 640 mil matrculas correspondem a estudantes com necessidades educacionais especiais1, nmero que representa pouco mais de 1% do total de estudantes no pas (INEP 2005). Com este artigo pretendo, pois, contribuir para clarificar o panorama atual da educao dos jovens e adultos com deficincia no contexto da EJA. Para tanto, primeiro abordo de forma sucinta o contexto internacional do movimento da educao para todo(a)s, iniciado em 1990 em Jomtien na Tailndia, e da educao inclusiva lanado em 1994 em Salamanca, buscando nesses documentos subsdios para explicitar como as pessoas com deficincia foram mantidas margem dos sistemas educacionais na idade prpria e se tornaram estudantes potenciais de EJA. Segundo, apresento o panorama da legislao brasileira a fim de explorar leis que garantem o direito educao e incluso de pessoas com deficincia no sistema regular de ensino (e no em escolas ou classes especiais!) e, portanto, seu direito de acesso s turmas de EJA. Por fim, abordo alguns dos desafios mais significativos que perpassam o processo de incluso das pessoas com deficincia nas turmas de EJA, para a seguir, apresentar algumas consideraes finais sobre tal realidade.PANORAMA INTERNACIONAL DA EDUCAO (INCLUSIVA) PARA TODO(A)S

Ao final do sculo XX, com o colapso dos sistemas, a Organizao das Naes Unidas decidiu rever diretrizes educacionais internacionais e impulsionar polticas pblicas de combate excluso nas vrias esferas da vida humana. Os indicadores mundiais apontavam claramente a situao catastrfica da falta de oportunidades de acesso de determinados1. Este percentual inclui 1.928 estudantes identificados como superdotados e altas habilidades.

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Desafios na educao de jovens e adultos com necessidades educacionais especiais no Brasil

grupos sociais aos bens comuns sociais, culturais, educacionais, econmicos (UNESCO, 1990). Hoje amplamente reconhecido e debatido, o fenmeno da excluso no novo nem se restringe a pases economicamente pobres, existe tambm nos ricos; o que muda em cada um so os grupos sociais. Como exemplo, cito os marroquinos na Frana, os chicanos (latino-americanos) nos Estados Unidos e os bangladeshis na Inglaterra. No contexto internacional de tentativas de promoo de maior justia social e equidade importante destacar que, tanto nos pases do Norte como nos pases do Sul, as pessoas com deficincia so igualmente discriminadas e tm seus direitos humanos violados sistematicamente, embora a violao possa ter graus e caractersticas distintas, da mesma forma que diferem a disponibilizao e a qualidade dos servios e recursos, os quais so, em geral, em nmero maior e de qualidade superior em pases economicamente ricos (BIELER 2004). No campo da educao, entre 1990 e 2000, a UNESCO lanou as diretrizes internacionais de combate excluso. A falta de acesso educao de amplas parcelas da populao mundial e o reconhecido fracasso no combate ao analfabetismo (OXFAM, 1999; UNESCO, 2000) criaram o solo e a urgncia para o estabelecimento de novas diretrizes internacionais que corrigissem o curso do desenvolvimento dos sistemas educacionais e os transformassem em sistemas educacionais, de fato, para todo(a)s. Em 1990 foi, ento, realizada na Tailndia a Conferncia Mundial de Educao para Todo(a)s2 e Diretrizes para aes que respondam s necessidades bsicas de aprendizagem, cujo documento denuncia a realidade perversa e excludente dos sistemas educacionais com relao a grupos em situao de desvantagem e estabelece como metas para o ano 2000: (1) universalizao da educao para todos(as); (2) reduo do analfabetismo metade do ndice de 1990; e (3) eliminao das desigualdades entre os gneros.Alfabetizao e Cidadania n 19 Julho de 2006 422. Disponvel em:

Windyz Brazo Ferreira

Ao estabelecer tais metas como prioridades educacionais na dcada, esse documento adota uma abordagem geral de polticas e servios necessrios para responder s necessidades bsicas de aprendizagem de todo(a)s e no foca nenhum grupo social em particular. Exatamente por essa razo, em 1994, a UNESCO e o governo da Espanha realizaram a Conferncia de Salamanca3 e Diretrizes para aes sobre a educao das necessidades especiais: acesso e qualidade, que tiveram papel crucial no desenvolvimento educacional global porque introduziu o conceito de educao inclusiva & incluso e direcionou a nfase das polticas pblicas para os grupos vulnerveis quando definiu o conceito de necessidades educacionais especiais de forma to abrangente, como vimos acima. verdade que o documento de Salamanca adotou ntido vis das necessidades educacionais de pessoas com deficincias. Todavia, em dez anos, a educao inclusiva cresceu em abrangncia na direo da advocacia dos direitos de todo(a)s estudantes de serem educados(as) nas escolas da rede de ensino, (FERREIRA, 2001; AINSCOW & FERREIRA, 2003). Ao expandir seu foco de ateno aos grupos vulnerveis, a educao inclusiva se fortaleceu mundialmente em teoria e prtica e se expandiu na defesa da educao de qualidade para todo(a)s (FERREIRA, 2006), conforme afirma Bieler (2004, p.11).A perspectiva da educao inclusiva vai muito alm da deficincia. Esta apenas uma das reas que seriam beneficiadas com ela [educao inclusiva]. A qualidade da educao que est em debate porque hoje no se considera [nos sistemas educacionais] a diversidade dos aluno[a]s, os nveis de necessidades e as caractersticas individuais. A proposta da educao inclusiva melhoraria a qualidade de ensino para todos. No se trata s de incluir deficientes na sala de aula.

De acordo com o Relatrio de Monitoramento Global 2005 da Educao para Todos O imperativo da Qualidade (UNESCO 2005), a qualidade em educao tende a ser definida com base em dois princpios:3. Disponvel em:

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Desafios na educao de jovens e adultos com necessidades educacionais especiais no Brasil

O primeiro identifica o desenvolvimento cognitivo dos alunos como o principal objetivo explcito de todos os sistemas educacionais. Conseqentemente, o sucesso dos sistemas em realizar este objetivo um dos indicadores de sua qualidade. O segundo enfatiza o papel da educao na promoo de valores e atitudes de cidadania responsvel e no provimento do desenvolvimento criativo e emocional (p.17).

De fato, a qualidade da educao que est em debate, pois uma escola que educa com qualidade todo(a)s os(as) seus(suas) estudantes, essencialmente uma escola inclusiva que no precisa discriminar nenhum educando(a) com base em qualquer caracterstica pessoal. luz da definio de qualidade em educao, possvel entender por que, no Brasil, a maioria das pessoas com deficincia continuam do lado de fora dos muros das escolas. Em geral, ainda existe entre a populao brasileira uma forte descrena na capacidade cognitiva dessas pessoas assim como h uma tendncia em no consider-las capazes de desenvolver atitudes e cidadania responsvel, terem criatividade ou serem produtivas. Hoje, entretanto, inmeros estudos e experincias de sucesso acadmico de estudantes com deficincia independentemente do tipo de deficincia revelam que essas crenas so infundadas. Talvez hoje o melhor exemplo para provar a inexistncia de fundamento para essa crena seja o campeo da I Olimpada Brasileira de Matemtica das Escolas Pblicas: o jovem de 15 anos, Paulo Santos Ramos, de Braslia, com deficincia visual, usurio de cadeira de rodas e que possui apenas 30% de audio do ouvido direito devido a uma artrite reumatide, venceu a Olimpada. Se Paulo no fosse aluno regular de uma escola pblica jamais teria encontrado chances para desenvolver seu potencial! O princpio fundamental das escolas inclusivas, segundo o documento de Salamanca (UNESCO, 1994, pp. 11-12), consiste em garantir que todos os aluno(a)s[...] aprendam juntos, sempre que possvel, independentemente das dificuldades e das diferenas que apresentam.

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Essas escolas devem reconhecer e satisfazer as necessidades diversas de seus estudantes, adaptando-se aos vrios estilos e ritmos de aprendizagem, de modo a garantir um bom nvel de educao para todo(a)s atravs de currculos adequados, de boa organizao escolar, de estratgias pedaggicas de utilizao de recursos e de cooperao com as respectivas comunidades.

Isso quer dizer que todo(a)s os atores envolvidos no processo de melhoria da qualidade dos sistemas educacionais e das escolas trabalhem como parceiros e colaboradores na definio de polticas e estratgias de identificao e combate excluso e na promoo e defesa dos direitos de todo(a)s de acesso educao (matrcula) e ao sucesso escolar (permanncia). Ao chegarmos ao ano 2000, dez anos aps o movimento da educao para todo(a)s, foi inevitvel a constatao do fracasso dos governos em atingir as metas estabelecidas na Tailndia e em Salamanca: o analfabetismo continuava (e continua!) sendo tanto prioridade como um desafio, a desigualdade de acesso educao entre mulheres/meninas e homens/ meninos se mantm em muitos pases, e muito gradualmente a universalizao4 da educao primria se torna realidade. Assim, foi realizado naquele mesmo ano, o Frum Mundial de Educao de Dacar5 (UNESCO, 2000), que teve como objetivo avaliar os resultados das metas estabelecidas em 90 e estabelecer novas metas: (1) expanso e melhoria da educao e cuidados na primeira infncia; (2) garantir que em 2015 todas as crianas em especial meninas, crianas de grupos tnicos e outras em situao de desvantagem tenham acesso e completem a educao primria; (3) garantir que jovens e adultos tenham acesso a programas de aprendizagem para a aquisio de habilidades compatveis com o desenvolvimento humano; (4) atingir cinqenta por cento de melhoria na alfabetizao de adulto at 2015, especialmente para mulheres; (5) eliminar disparidade de gnero na educao primria e secundria at 2005 e atingir4. No Brasil, de acordo com dados oficiais, em torno de 97% das crianas e jovens em idade escolar esto matriculados na rede de ensino, dos quais 88% so alunos e alunas da rede pblica. 5. Disponvel em:

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igualdade de gnero em educao at 2015; e (6) melhorar a qualidade da educao em todos os aspectos, garantindo excelncia que seja passvel de medio atravs de avaliao de resultados. Como possvel verificar, entre as metas, a educao de jovens e adultos se mantm prioridade, estabelece que aquele(a)s que no tiveram oportunidade de ter acesso educao na poca certa devem ter acesso a programas de apredizagem para a aquisio de habilidades compatveis com seu desenvolvimento humano. Considerando-se o momento das necessidades de rpida e intensa mudana no perfil do docente, dos educadore(a)s e dos prprios estudantes (FERREIRA, 2006), importante destacar que, a qualidade [da educao] deve ser aprovada no teste da equidade [na rede de ensino, ou seja, isto quer dizer que] um sistema educacional caracterizado pela discriminao contra qualquer grupo particular no est cumprindo sua misso. (UNESCO 2005, Prefcio, s/p.). Se tal meta para todo(a)s sem discriminao, ento, jovens e adultos com deficincia devem estar inseridos nos programas de EJA, assim como suas necessidades especficas devem ser consideradas pelas escolas e educadore(a)s. Nesse contexto, cabe abordar como a legislao brasileira assegura os direitos de pessoas com deficincia educao.PANORAMA DA LEGISLAO NO BRASIL SOBRE OS DIREITOS DE PESSOASCOM DEFICINCIA

O impacto das diretrizes internacionais nas polticas pblicas educacionais brasileiras se deu gradual e sistematicamente e, com relao especificamente aos direitos das pessoas com deficincia, tornou-se mais slida a partir do novo sculo. Em 1988 a Constituio Federal estabeleceu que o atendimento educacional especializado ao estudante com deficincia deve acontecer preferencialmente na rede regular de ensino e institui como um dos princpios fundamentais que devem reger o processo educacional desses(as) aluno(a)s:Alfabetizao e Cidadania n 19 Julho de 2006 46

A igualdade de condies de acesso e permanncia na escola (art. 206, inciso I), condio esta que deve ser assegurada pelo Estado mediante a garantia de acesso aos nveis mais

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elevados do ensino, da pesquisa e da criao artstica, segundo a capacidade de cada um (art. 208, V), sem preconceitos de origem, raa, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminao (art. 3, inciso IV).

Na linguagem da prtica, esses artigos asseguram o direito de qualquer estudante e, portanto, tambm daquele(a)s com deficincias de acesso a qualquer escola e sala de aula do ensino regular assim como aos servios e apoios necessrios sua escolarizao. Na mesma linha, a Conveno dos Direitos da Criana, da ONU (1989), teve um impacto sobre a legislao brasileira, pois estabelece em seu artigo 23 que:Os estados reconhecem que toda criana portadora de deficincias fsicas ou mentais dever desfrutar de uma vida plena e decente; reconhecem o direito da criana deficiente de receber cuidados especiais; estimularo e asseguraro a prestao de assistncia adequada s condies da criana, que ser gratuita, e visar assegurar criana deficiente o acesso educao, capacitao, aos servios de sade, aos servios de reabilitao, preparao para emprego e s oportunidades de lazer de forma que ela atinja uma completa integrao social. Os estados promovero ainda o intercmbio e a divulgao de informaes a respeito de mtodos e tcnicas de tratamento, educao e reabilitao para que se possam aprimorar os conhecimentos nestas reas.

Em resposta a essa Conveno e ao movimento da sociedade civil brasileira de defesa e promoo dos direitos das crianas e jovens, foi publicado o Estatuto da Criana e do Adolescente ECA6 (1990, Lei Federal 8.069) que estabelece que: nenhuma criana ou adolescente ser objeto de qualquer forma de negligncia, discriminao, explorao, violncia, crueldade e opresso, punindo na forma da lei qualquer atentado por ao ou omisso aos seus direitos fundamentais. No mesmo ano a Lei 7.853/89 (Decreto 914/93) dispe sobre o apoio s pessoas portadoras de deficincia, sua integrao social, sobre a Coordenadoria nacional para a Integrao da Pessoa Portadora de Deficincia (CORDE) [e] institui a tutela jurisdicional de interesses coletivos ou difusos6. Disponvel em:

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dessas pessoas, disciplina a atuao do Ministrio Pblico, define crimes e d outras providncias e estabelece que:constitui crime punvel com recluso de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa: I. recusar, suspender, procrastinar, cancelar ou fazer cessar, sem justa causa, a inscrio [matrcula] de um aluno em estabelecimento de ensino de qualquer curso ou grau, pblico ou privado, por motivos derivados da deficincia que porta. (Lei 7.853/89, Art. 8, MEC/SEESP, p. 274).

No contexto do avano legal das garantias de acesso educao regular, a Lei de Diretrizes e Bases da Educao Nacional (LDB, Lei 9.394/96) tem papel determinante para assegurar o direito educao das pessoas com deficincia na rede regular de ensino, pois traz um captulo inteiro (V) sobre a educao especial e a redefine na legislao como sendo: a modalidade de educao escolar, oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos portadores de necessidades especiais (Artigo 58) [e] tem inicio na faixa etria de zero a seis anos, durante a educao infantil (Pargrafo 3).. Entre inmeras leis, resolues, portarias e decretos, trs documentos legais7 tm particular importncia na promoo e defesa dos direitos da pessoa com deficincia: (1) a Lei de Acessibilidade (Lei 10.098/2000), que estabelece normas gerais e critrios bsicos para a promoo da acessibilidade de pessoas portadoras de deficincias ou com mobilidade reduzida e d outras providncias; (2) as Diretrizes Nacionais para a Educao Especial na Educao Bsica (Resoluo 02 de 2001), que trazem os fundamentos, a poltica educacional, os princpios, a operacionalizao das diretrizes pelos sistemas de ensino, a organizao do atendimento na rede regular de ensino, a organizao do atendimento em escola especial, etapas da escolarizao em qualquer espao escolar, currculo, terminalidade especfica e educao profissional; e, finalmenteAlfabetizao e Cidadania n 19 Julho de 2006 487. A fim de favorecer a disseminao de tal legislao, a Secretaria de Educao Especial publicou em 2001 o documento Direito Educao, Necessidades Educacionais Especiais: subsdios para atuao do Ministrio Pblico Brasileiro. Orientaes Gerais e Marcos Legais, o qual j est em sua segunda edio.

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(3) o Decreto 3.956 (2001), que promulga a Conveno Interamericana para Eliminao de Todas as Formas de Discriminao Contra as Pessoas Portadoras de Deficincia. Se comparada a outros pases da Amrica Latina, a legislao brasileira avanada. Todavia, apesar de todo o arsenal legislativo, a realidade e os dados disponveis (SCS 2003, FERREIRA, 2002; BIELER, 2004; BANCO MUNDIAL, 2003; FERREIRA, 2003) revelam que as leis e os procedimentos legais no so conhecidos pela populao em geral e, conseqentemente, os direitos das pessoas com deficincia continuam sendo violados de inmeras formas: entre elas podemos citar como exemplos comuns as secretarias de educao que criam excessivas burocracias (ex. declaraes de responsabilidade de familiares, exames e laudos mdicos) para que um estudante com deficincia tenha acesso educao no sistema regular ou diretores(as) de escolas que se recusam matricular aluno(a)s com deficincias, apesar da legislao, justificando que no esto preparados. Ainda hoje, a educao oferecida por escolas especiais aos estudantes com deficincia enfatizam sobremaneira as atividades artsticas e as esportivas independentemente da idade do educando(a) (FERREIRA, 2003). Na escola de ensino regular, por outro lado, por no acreditar que esses(as) aluno(a)s possam aprender contedos curriculares, com muita freqncia os docentes realizam atividades similares s que so oferecidas na educao infantil (ex. colagem, pintura, juntar pontos, dana e msica), as quais no direcionam o(a) aluno(a) no caminho real da escolarizao porque no implicam adquirir os conhecimentos e as habilidades previstas para cada fase da escolarizao regular. Com as recentes mudanas na legislao educacional, somado a programas8 educacionais que tm como objetivo disseminar a poltica de incluso das pessoas com deficincias, assim como preparar professores para receberem e educarem esses(as) aluno(a)s nas salas de aula regular, o sistema educacional passa8. Entre outros, a Secretaria de Educao Especial coordena o Programa Educao Inclusiva: direito diversidade, Projeto Educar na Diversidade, Programa Interiorizando Libras, Programa Interiorizando Braille, Programa Ncleo de Altas Habilidades e Superdotao.

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por um intenso processo de transio, dentro do qual existem inmeros desafios a serem superados.DESAFIOS DA INCLUSO DE JOVENS E ADULTOS COM DEFICINCIA NAS TURMAS DE EJA

A LDB (MEC 1996) trata da Educao de Jovens e Adultos como modalidade da educao bsica, assumindo como pressupostos que ela tem carter permanente e deve estar a servio do pleno desenvolvimento do educando. Seu Artigo 4 estabelece que:[o ensino fundamental] obrigatrio e gratuito, inclusive para os que a ele no tiveram acesso na idade prpria (I) [assim como obrigatria a] oferta de educao escolar regular para jovens e adultos, com caractersticas e modalidades adequadas s suas necessidades e disponibilidades, garantindo-se aos que forem trabalhadores as condies de acesso e permanncia na escola (VII).

Como vimos, em geral, crianas com deficincia no tm acesso educao em idade prpria por razes distintas, abrangendo desde a falta de escolas que aceitem sua matrcula at ter acesso a ela e ser excludo das atividades escolares porque se acredita que no vo aprender. Inevitavelmente, essas crianas crescem e se tornam jovens e adultos analfabetos privados da convivncia escolar ou analfabetos funcionais com acesso matrcula, mas no escolarizao e vida escolar. Ao analisarmos a situao educacional desses jovens e adultos luz da legislao brasileira, sem dificuldade, podemos depreender que: 1. a grande maioria de jovens e adultos com deficincia no teve acesso ao ensino fundamental na idade prpria e, portanto, tm direito de acesso educao de jovens e adultos, que obrigatria e gratuita; 2. quando o estudante j for jovem ou adulto, obrigatria a oferta de educao escolar regular para ele(a), considerando-se suas caractersticas e contemplando-se modalidades adequadas s suas necessidades e disponibilidades.Alfabetizao e Cidadania n 19 Julho de 2006 50

De acordo com Brunel (2004), diferentemente do que acontecia no passado, os alunos de EJA:

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So cada vez mais jovens e a maioria possui um histrico de vrias repetncias (...) de no mnimo dois anos, [que] faz com que este aluno destoe um pouco dos outros colegas, e como eles mesmos dizem: professora, eu era a mais alta da turma ou professora, s tinha criana na minha sala, eu no tinha com quem conversar (p.10).

Na citao acima, a autora se refere aos estudantes de EJA. Apesar disso, ela poderia facilmente estar se referindo s experincias de jovens e adultos com deficincia, uma vez que uma prtica bastante comum nas escolas brasileiras matricular esses estudantes nas turmas de primeira e segunda sries, quando no nas de educao infantil, por sua condio de deficincia e de analfabetismo.Em 2002 visitei uma escola de ensino fundamental (1 fase) em So Paulo, particularmente porque esta escola tinha iniciado um projeto de incluso de estudantes com deficincias oriundos de uma escola especial no mesmo bairro. Para minha surpresa, ao entrar na escola fui levada a uma classe especial com seis pessoas adultas (com idades a partir de 24 anos) com deficincias diversas e a maioria obesa. Durante o intervalo, fui levada ao ptio onde pude assistir a uma apresentao de sete de setembro com esses aluno(a)s, enquanto as crianas de 7, 8 anos estavam apenas assistindo. A seguir, em conversa com as mes presentes, fui informada de que esta era a primeira vez que seus filhos tiveram oportunidades de estudar... uma das mes mencionou que a filha j tinha perdido muito peso porque no ficava mais em casa comendo o tempo todo.

Essa experincia indica que, se por um lado, os direitos desses alunos e alunas com deficincia foram respeitados pela escola, por outro, seus direitos a condies apropriadas para seu desenvolvimento humano e social foi negado. Esses estudantes jovens e adultos deveriam estar matriculados em uma turma de EJA privando de oportunidades de aprendizagem compatveis com sua idade e habilidades, conforme explicitado na lei. No presente contexto de mudanas nos sistemas educacionais e de garantias da oferta de educao de qualidade para todo(a)s, um dos desafios que se apresenta s escolas no mbitoAlfabetizao e Cidadania n 19 Julho de 2006 51

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da Educao de Jovens e Adultos o desenvolvimento de cultura de acolhimento e respeito aos direitos das pessoas com deficincia, a fim de que possam ter acesso escolarizao e, alm da aprendizagem advinda da convivncia com seus pares, oportunidades de aprendizagem dos contedos curriculares que possibilitem atingir nveis mais elevados de educao. As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educao de Jovens e Adultos (Parecer CEB n 11/2000) apontam trs funes da EJA: (1) a funo de reparao, por possibilitar de forma concreta o acesso de jovens e adultos escolarizao; (2) a funo de equalizao, que visa restabelecer a trajetria escolar do jovem e adulto; e a (3) funo qualificadora, que objetiva propiciar a atualizao de conhecimentos por toda a vida. No caso da pessoa com deficincia, tais funes respondem diretamente aos direitos e necessidades educacionais desses jovens e adultos. Para responder a essas funes, outro desafio para o sistema educacional brasileiro diz respeito oferta de turmas de EJA durante os perodos da manh e tarde. No territrio nacional, h prtica comum de oferta de EJA no perodo noturno. Tal fenmeno ilustrado pela fala de uma professora de turma de EJA no perodo noturno:Aqui na minha sala, meu aluno mais novo (aquele ali...) tem 13 anos e o mais velho 64 (aquele naquela mesa com cinco). No fcil tamanha diferena de idade, mas a gente faz o que pode... Depois que eu conheci as estratgias de ensino inclusivas ficou mais fcil trabalhar com as diferenas de interesses e de nveis de alfabetizao, porque eu diversifico as atividades em classe para um mesmo assunto e, alm disso, peo para que uns colaborem com os outros. Aquele aluno ali na segunda carteira no gosta de trabalhar com ningum, ele at que sabe bem, mas parece que tem algum problema de cabea... no sei. (Fala de uma professora numa turma de EJA em uma escola municipal de Joo Pessoa)

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A me de uma moa de 22 anos que nunca teve oportunidade de freqentar escolas fica preocupada com as aulas no perodo noturno e, novamente frustrada, pergunta sobre como ela poderia permitir que sua filha fosse sozinha noite escola? De fato, um questionamento pertinente, pois, como familiares que passaram a vida protegendo seus filhos e filhas contra discriminaes e preconceitos sociais e sem apoio de qualquer ordem, podem repentinamente aceitar que a partir de agora ele(a)s vo freqentar as escolas e no sofrero ameaas? Levando-se em conta a violncia crescente nas escolas, imprescindvel que as polticas pblicas e os sistemas educacionais considerem situaes como essa que envolvem milhares de jovens brasileiros com e sem deficincias. Dessa forma, a urgncia de criao de turmas nos turnos da manh e da tarde no se justifica apenas pela presena de estudantes com deficincia nas escolas (at porque se o fosse estaramos defendendo a criao de classes especiais, o que no se traduz como abordagem inclusiva), mas pelo fato de que, de acordo com os dados da EJA, a populao de estudantes dessa modalidade educacional est rejuvenescendo a cada ano (BRUNEL, 2004). Para o sistema educacional e os programas de EJA, de fato, realizarem sua funo equalizadora necessrio vencer o desafio que diz respeito a garantir tambm s pessoas com deficincias sua participao na vida social que advm com o acesso educao e sua integrao ao mercado de trabalho formal ou informal. Para que isso seja possvel, crucial que os docentes estejam preparados e assumam de fato a responsabilidade de alfabetizar essa populao. Em outras palavras, no bastar apenas aceitar sua matrcula e ignor-los na sala de aula como comum acontecer, necessrio assegurar que as atividades realizadas em classe incluam esses(as) aluno(a)s. No que diz respeito funo qualificadora da EJA de preparao e qualificao contnua para a vida produtiva e a cidadania, gradualmente o sistema educacional e a escola devem se ajustar s polticas pblicas inclusivas e incorporar em seus projetos pedaggicos a ateno a todos os grupos vulnerveis

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em risco de excluso educacional. No caso de estudantes jovens e adultos com deficincias, esse trabalho dever ser desenvolvido atravs do estabelecimento de parcerias slidas entre as comunidades locais e, principalmente, os vrios segmentos que constituem o mercado de trabalho. Essa nova demanda educacional acarreta o desafio de promover a articulao entre as esferas pblicas federais, estaduais, municipais e privadas a fim de assegurar que as necessidades dos estudantes jovens e adultos com ou sem deficincias sejam mantidos dentro do foco de abrangncia de polticas, programas, projetos, aes e servios.CONSIDERAESFINAIS

Ao tratar do analfabetismo no Brasil, o Plano Nacional de Educao (MEC 2001) enfatiza ascondies de excluso e marginalidade social em que vivem segmentos da populao brasileira e o fato de que o analfabetismo est diretamente relacionado aos problemas que se concentram em bolses de pobreza nas periferias urbanas e reas rurais (FERREIRA, 2005, p. 31).

Existe um vnculo entre pobreza e deficincia que, segundo Bieler, extremo. considerado que pelo menos 14% a 16% de todas as pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza tm alguma deficincia, e este o ndice que o Brasil apresenta 14,5% de pessoas com deficincia, segundo o Censo 2000. A deficincia aumenta a pobreza, e a pobreza aumenta a deficincia, um circulo vicioso que no se consegue romper. (p. 12) Soma-se a esse quadro j crtico da falta de oportunidades educacionais, da defasagem idade-srie e da pobreza, a histrica invisibilidade das pessoas com deficincia em todos as esferas da vida humana e nveis educacionais, condio que leva ao noreconhecimento de seus direitos e suas necessidades. Como, em geral, pessoas sem deficincias no tm oportunidades de conviver com pessoas com deficincias, a falta de referncias vivenciais acaba por gerar mitos e crenas (FERREIRA, 2004). Dentre esses mitos, ainda forte entre os(as) brasileiro(a)s a crena de que pessoas com deficincias no aprendem porque

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so intelectualmente incapazes. Mas cabe perguntar queles que acreditam nesse mito: quantos estudantes que no possuem deficincias tambm no aprendem? Como se explicam os altos nveis de fracasso e evaso escolar de crianas, jovens e adultos sem deficincias no sistema educacional brasileiro? Seja na rede pblica ou privada, em instituies federais, estaduais ou municipais, a grande maioria das crianas, jovens e adultos com deficincia no encontra oportunidade de acesso escolarizao. Muitas vezes, quando so matriculados, no encontram os meios e recursos necessrios aprendizagem dos contedos curriculares ou participao na vida escolar e social de sua comunidade. Conseqentemente, esse(a)s aluno(a)s so levados(as) ao fracasso escolar e acabam por abandonar a escola. Paralelamente experincia escolar ou na sua falta, so extremamente escassas (s vezes inexistentes) as oportunidades para a convivncia com seus pares na famlia, na escola e na comunidade. As pessoas com deficincia freqentemente so escondidas (.), oprimidas, ultrajadas e usadas (SCS s/d). Viver continuamente em tal situao de desigualdade social acaba por