Do caso julgado à definitividade da sentença penal

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  • Do caso julgado definitividade da sentena

    penal

    1. As origens do princpio ne bis in idem

    A afirmao expressa da regra ne bis in idem, enquanto garantia da paz

    jurdica do indivduo, s atingida com o Iluminismo1, sendo o texto

    fundamental para a consagrao do princpio a Constituio francesa de 1791,

    nos termos da qual se veio a estabelecer expressamente que tout homme acquitte par

    un jury legal ne peut plus tre repris ni accus raison du mme fait2. Com a

    consagrao do ne bis in idem, corolrio do princpio da liberdade individual, conseguia-

    se a abolio do plus amplmente informe, caracterstico do processo inquisitrio3.

    Na verdade, no processo inquisitrio a sentena tinha natureza provisria, nada

    impedindo que o juiz a reapreciasse com vista sua reformulao4. Esta ligao haveria

    de persistir e embora o respeito pelo caso julgado continuasse a ser afirmado, o recurso

    absolvio da instncia, ou absolutio pro nunc, rebus sic stantibus, acabou por constituir a

    1 EDUARDO CORREIA, Caso Julgado, 1948, pp. 302-303; LELIEUR-FISCHER, La rgle ne bis in idem, 2005, pp. 122 e segs. 2 Veja-se, sobre os seus antecedentes, em particular a crtica que passou a ser dirigida regra do plus amplemente inform, a partir do sec. XVIII, ARTURO ROCCO, Trattato Della Cosa Giudicata, 1900, pp. 127 e segs. 3 ARTURO ROCCO, Trattato Della Cosa Giudicata, 1900, p. 131; BRITTA SPECHT, Die zwischenstaatliche Geltung des Grundsatzes ne bis in idem, 1999, p. 10; EVA SCHESHONKA, Der Grungsatz ne bis in idem, 2005, p. 6. 4 ARTURO ROCCO, Trattato Della Cosa Giudicata, 1900, pp. 108-109; CORDERO, Procedura penale, 2006, pp. 1219-1220, soluo que se justifica porque o processo inquisitrio tende ao infinito.

  • maneira sistemtica de o negar5. Como habitual destacar-se, tal concepo conduziu,

    no processo inquisitrio francs do absolutismo, regra do plus amplement inform, nos

    termos da qual, no se demonstrando a inocncia do ru, a sentena absolutria tinha

    natureza provisria, podendo este ser submetido a novo julgamento, caso fossem

    descobertos novos meios de prova6. Em Itlia, na ausncia de prova o arguido era

    absolvido ab observatione iudicci, com a clusula stantitus rebus prout stant, podendo o

    processo ser reaberto apenas superveniant nova indicia7.

    O exemplo francs serviu de modelo para os restantes Estados europeus, para

    onde se espalhou a consagrao legal do princpio8. Do outro lado do Atlntico, quase

    em simultneo, a Quinta Emenda Constituio dos E.U.A., de 1791, viria a consagrar

    de forma expressa o princpio, com a seguinte formulao: nor shall any person be

    subject for the same offense to be twice put in jeopardy of life or limb.

    2. As concepes que atribuam ao caso julgado um valor (quase) absoluto

    A reaco provisoriedade da sentena, caracterstica do processo

    inquisitrio, traduziu-se, num primeiro momento, na consagrao da proibio

    de instaurao de novo processo pelo mesmo facto, como garantia da paz

    jurdica do cidado, mas a evoluo posterior haveria de conduzir a uma

    hipervalorizao do caso julgado, como meio de assegurar a segurana jurdica,

    impedindo ou dificultando a reviso das condenaes injustas.

    O resultado desta evoluo foi consequncia de um conjunto de factores, embora a

    preocupao inicial tenha sido a de proteger o cidado contra a interveno estadual na

    5 EDUARDO CORREIA, Caso Julgado, 1948, p. 301. Veja-se ainda, TAIPA DE CARVALHO, Sucesso de leis penais, 2008, pp. 275-276. Pode ainda referir-se, a ttulo de exemplo, a opinio de ALLARD, Histoire de la justice criminelle, 1868, p. 352, afirmando que, no Sec. XVI, apesar de o princpio ser unanimemente afirmado, a sua aplicao prtica estava longe de ser uniforme, tendo principalmente em conta as excepes regra do ne bis in idem, que se pretendiam retirar de fragmentos do Digesto e do Cdigo. Como nota ARTURO ROCCO, Trattato Della Cosa Giudicata, 1900, p. 123, se algumas destas eventuais excepes podiam fazer sentido no processo acusatrio romano, com o triunfo do processo inquisitrio passaram a ser arbitrrias e irrazoveis. 6 Desenvolvidamente, ARTURO ROCCO, Trattato Della Cosa Giudicata, 1900, pp. 125-126; EDUARDO CORREIA, Caso Julgado, 1948, p. 302; LELIEUR-FISCHER, La rgle ne bis in idem, 2005, pp. 121-122. 7 Por todos, CORDERO, Procedura penale, 2006, p. 1220. 8 Veja-se, por todos, com inmeros exemplos, ARTURO ROCCO, Trattato Della Cosa Giudicata, 1900, pp. 132. e segs.

  • sua esfera individual9, bem patente na alterao que o instituto sofreu na passagem do

    processo inquisitrio para o processo acusatrio. Como meio de se reagir

    provisoriedade da sentena, caracterstica do processo inquisitrio, acabou por cair-se

    na atribuio de uma tutela absolutamente rgida ao caso julgado. Se, por um lado, desta

    forma se garantia de modo eficaz a paz jurdica do cidado, objectivo principal da

    reforma10, por outro lado restringia-se muito severamente a possibilidade de

    reapreciao das condenaes injustas transitadas. Acresce que em certas ordens

    jurdicas o ne bis in idem no foi objecto de devida regulamentao legal, o que conduziu

    aplicao subsidiria das disposies civis sobre o caso julgado, com a consequente

    dissoluo do princpio no seu mbito11.

    habitual destacar-se que desempenharam um papel fundamental no caminho que conduziu

    hipervalorizao do caso julgado, ao contriburem para a exaltao da segurana jurdica, a codificao, o

    silogismo judicirio e a alterao da estrutura processual12. No que respeita codificao, a existncia de um

    conjunto de normas escritas, moderno e racional, concorreria decisivamente para assegurar a certeza jurdica,

    to querida pela burguesia emergente, e para eliminar os graves problemas prticos colocados pela aplicao e

    interpretao jurdicas13. A crena nas virtualidades do silogismo judicirio, mtodo de deciso que,

    caracterizado pela certeza, segurana e previsibilidade, levaria infalibilidade da sentena, contribuiu para a

    hiperbolizao da sua fora e da sua autoridade e prestgio, originando uma verdadeira mistificao do caso

    julgado14. Por fim, tambm o novo sistema processual, que se pretendeu configurar para ser imune ao erro,

    conduziu iluso de que no permitiria a prolao de uma sentena injusta15. Em particular, a substituio do

    9 Neste sentido, TAIPA DE CARVALHO, Sucesso de leis penais, 2008, p. 277; ANETTE GRNEWALD, Die Wiederaufnahme des Strafverfahrens zuungusten des Angeklaten, 2008, p. 565. No mesmo sentido, CONDE CORREIA, O Mito do Caso Julgado, 2010, pp. 32-33. 10 ANETTE GRNDWALD, Die Wiederaufnahme des Strafverfahrens zuungusten des Angeklaten, 2008, p. 565. 11 DANAN, La Rgle non bis in idem en Droit Penal Franais, 1971, pp. 16-17 e p. 154, observado que a aplicao do art. 1351 do Cdigo Civil tinha como vantagem a previso rigorosa das condies de interveno da excepo, que passou a assumir natureza essencialmente tcnica e processual. Veja-se ainda ROGERIO MACHADO DA CRUZ, A Proibio de Dupla Persecuo Penal, 2008, p. 30 e BAS VAN BOCKEL, The Ne Bis In Idem Principle in EU Law, 2010, p. 26, destacando que o diverso caminho percorrido nos pases de common law permitiu que o princpio tivesse mantido a sua autonomia, como garantia individual. 12 Neste sentido, FRANCO COPPI, Reato Continuato e Cosa Giudicata, 1969, pp. 222 e segs.; CONDE CORREIA, O Mito do Caso Julgado, 2010, pp. 34 e segs. 13 CONDE CORREIA, O Mito do Caso Julgado, 2010, p. 34. 14 Idem, Ibidem, pp. 37-38. 15 Idem, Ibidem, pp. 40-41. Como exemplo deste tipo de argumentao podemos citar ARTURO ROCCO, Trattato Della Cosa Giudicata, 1900, p. 242, ao afirmar que a confiana pblica na verdade e justia do caso julgado se fundamenta na observncia das formas legais processuais e ainda, ibidem, p. 245, ao concluir que num sistema processual modelado de acordo com o acusatrio lcito nutrir fundada esperana de que a coisa julgada a verdade. Retomaremos a concepo do Autor nas pginas seguintes. Veja-se ainda, DAMIO DA CUNHA, O Caso Julgado Parcial, 2001, pp. 201-201 e pp. 523-524, ao estabelecer uma relao entre a evoluo do recurso de apelao, que passou a ser um misto de appellatio e de querela nullitatis, com a consequente absoro desta ltima nos diversos graus do

  • sistema da prova legal, prprio do processo inquisitrio, pela livre apreciao da prova, tarefa que passou a

    competir aos jurados, cujo veredicto era a manifestao genuna da soberania popular, eliminaria ou, pelo

    menos, reduziria ao mnimo, as hipteses de se cair num erro judicirio16.

    Entre as concepes que atribuem valor quase absoluto ao caso julgado

    destacaram-se as que assentavam na presuno de verdade que prpria da

    sentena que conhece do mrito da causa17. Nesta perspectiva, a lei estabeleceria a

    presuno de que o caso julgado contm a verdade objectiva de facto e de direito,

    presuno esta que seria inilidvel, por constituir fundamento para a rejeio da aco

    penal e por traduzir uma excepo peremptria, a exceptio rei judicatae18. Estas teses,

    originrias do processo civil, foram transpostas para o processo penal, onde vieram a

    merecer aceitao generalizada19.

    Por vezes, foi-se ainda mais longe, afirmando-se que, ao invs de uma

    presuno ou fico de verdade, o caso julgado traduziria a prpria verdade.

    Foi o caso de ROCCO, ao defender que, sendo o caso julgado a verdade humanamente alcanvel e a

    provvel verdade, tanto bastaria para que, exaurindo-se o processo a esta luz, a deciso se tornasse

    inexpugnvel e irrefutvel20.