DA SENTENA PENAL —FUNDAMENTAO DE sentena penal — fundamentao de facto 25 concretosintegradoresdeumacausajustificativadaconduta,noqueacompanhadopor

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  • DA SENTENA PENAL FUNDAMENTAO DE FACTO

    SRGIO POASNo que considera ser a questo essencial do processo penal, ou seja a proferio da sen-tena, aqui se elabora uma profunda anlise do que consubstancia uma legitimao da funo dejulgar, ou seja a fundamentao da deciso. Restringindo o autor a sua anlise fundamenta-o de facto, nomeadamente a enumerao dos factos provados e no provados e a motivaoda deciso da matria de facto prope-se um incisivo discurso do como fazer e no fazer uma moti-vao da sentena penal.

    Mostra-me por que me julgas assim1

    I INTRODUO21.1. Perdoe-se-nos o excesso: a sentena tudo no processo. De

    facto, na sentena e s na sentena que tudo se decide.Se todas as fases anteriores ao julgamento so teleologicamente justifi-

    cadas, o seu carcter precrio que fundamentalmente as caracteriza. Naverdade, suficientemente indiciada a prtica da infraco, tudo se encaminhapara a audincia de julgamento, com a consequente sentena.

    Mas se na sentena que tudo se decide, ento devem ser claras asrazes da deciso.

    Assim, se o que est em causa uma sentena condenatria, nodevem restar quaisquer dvidas sobre as razes de facto e de direito por quese condena e em que se condena: se de uma sentena absolutria quese trata, igualmente devem ser claras as razes por que se absolve3.

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    1 Citao do Livro de Job, pelo Padre Antnio Vieira, na Petio ao Conselho Geral da Inqui-sio in Os Autos do Processo de Vieira na Inquisio, Edio, Transcrio, Glossrio eNotas de Adma Muhana, Editora UNESP, 1995, pg. 128.2 Este texto, a que foram introduzidos alguns aditamentos, serviu de suporte a uma interven-o oral na Associao Jurdica de Braga, em 29 de Janeiro de 2004. Pese embora osacrescentos efectuados, mantm-se os traos da oralidade.3 Sobre a sentena absolutria no deixaremos de citar o Acrdo da RE de 13-12-2000, Proc.n. 1091/00 de que fomos relator:Mesmo quando o tribunal absolve por dvida na verificao dos factos, esta dvida tem deser insanvel, razovel, objectivvel e tais caractersticas tm de ser evidentes na funda-

  • Dito claramente: da leitura da sentena no devem restar quaisquerdvidas aos sujeitos processuais e comunidade sobre o que se decidiu e porque desse modo se decidiu.

    No que j dissemos, est tudo o que queramos dizer e nada haveria aacrescentar. Mas se nos propomos tratar do dever de dizer o porqu das deci-ses, constituiria intolervel desonestidade intelectual e contradio grosseiraproduzir, neste quadro, duas ou trs afirmaes sem apresentar justificao.De facto, nossa obrigao explicitar razes, aduzir argumentos, de modo aconvencer o auditrio da correco do que afirmmos. isso que vamos ten-tar fazer, se para tal formos capazes.

    1.2. Como evidente, do que estamos a falar da fundamentao, pala-vra ainda no dita, da sentena fundamentao que uma exignciaconstitucional.

    De facto, dispe o artigo 205. da Constituio da Repblica Portuguesa:As decises dos tribunais que no sejam de mero expediente so funda-mentadas na forma prevista na lei.

    Com naturalidade, a importncia da fundamentao das decises judiciaisno Estado de Direito Democrtico reconhecida pela generalidade da doutrinae jurisprudncia.

    Assim, Michell Taruffo, em Note sulla garanzia constitzionale della moti-vazione, Boletim da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra,vol. LV, 1979, pgs. 34 e 35, citado no Acrdo n. 680/98 de 2-12-98 do TC,publicado no DR, II Srie, de 5-3-99, escreve: a garantia constitucionaldo dever de fundamentao ocupa um lugar central no sistema de valoresnos quais se deve inspirar administrao da justia no Estado democrticomoderno.

    No mesmo sentido, Gomes Canotilho e Vital Moreira: o dever defundamentao uma garantia integrante do prprio conceito de Estado direitodemocrtico, ao menos quanto s decises judiciais que tenham por objectoa soluo da causa em juzo, como instrumento de ponderao e legitimaoda prpria deciso judicial e de garantia do direito ao recurso (Constitui-o da Repblica Portuguesa Anotada, 1993, pgs. 798 e 799).

    Germano Marques da Silva, sublinhando de igual modo a importncia dafundamentao, na anlise das suas finalidades, escreve: A fundamentaodos actos imposta pelos sistemas democrticos com finalidades vrias.Permite o controlo da legalidade do acto, por uma parte, e serve para con-vencer os interessados e os cidados em geral acerca da sua correco e jus-tia, por outra parte, mas ainda um importante meio para obrigar a autori-

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    mentao. Isto , por um lado, deve ser claro que o tribunal investigou e se pronunciou sobretodos os factos que podia e devia; por outro, devem ser claras as razes por que persiste advida. Em suma: a dvida tem de ser sempre devidamente fundamentada pelo tribunalque julga.

  • dade decisora a ponderar os motivos de facto e de direito da sua deciso,actuando como meio de auto controlo (Curso de Processo Penal, III, 1994,pg. 290).

    Finalmente, a fundamentao enquanto factor de legitimao do poderjudicial, igualmente afirmada pela Juza Ftima Mata-Mouros na Comunicaoque apresentou no VI Congresso dos Juzes Portugueses, publicada na Edi-o Especial do Boletim da Associao Sindical dos Juzes Portugueses.Escreve na pg. 177: a motivao que confere um fundamento e umajustificao especfica legitimidade do poder judicial e validade das suasdecises, a qual no reside nem no valor poltico do rgo judicial nem no valorintrnseco da justia das suas decises, mas na verdade que se contm nadeciso.

    De modo pacfico na doutrina e na jurisprudncia, entende-se (por todos,Acrdo n. 55/85 do TC, in B.M.J. n. 360, Suplemento, pg. 195) que afundamentao das decises jurisdicionais cumpre duas funes:

    a) Uma, de ordem endoprocessual, afirmada nas leis adjectivas, e quevisa essencialmente: impor ao juiz um momento de verificao econtrolo crtico da lgica da deciso; permitir s partes o recurso dadeciso com perfeito conhecimento da situao; colocar o tribunalde recurso em posio de exprimir, em termos mais seguros, umjuzo concordante ou divergente com o decidido;

    b) E outra, de ordem extraprocessual, que apenas ganha evidnciacom referncia, a nvel constitucional, ao dever de motivao e queprocura acima de tudo tornar possvel o controlo externo e geralsobre a fundamentao factual, lgica e jurdica da deciso4.

    Estando de acordo com a doutrina e a jurisprudncia citadas, acrescen-taria ainda: o dever de fundamentar tambm uma questo que releva nodomnio da tica. De facto, quando algum condenado tem o direito asaber das razes, sem subterfgios, da condenao. Dito com palavras sim-ples: o juiz no proceder bem, no respeitar o outro, como deve, se de umaforma clara no disser o porqu da deciso.

    E conclua deste modo: a fundamentao um verdadeiro acto de trans-parncia, de verdade. Ao fundamentar, o juiz, aps sria e serena reflexo,elabora um texto a deciso tambm um texto claro, enxuto, concisoe completo (um texto simultaneamente conciso e completo, e nisto no h qual-quer contradio) onde, em discurso argumentado para ser convincente expondo-se, expe a deciso e as suas razes5.

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    4 O Tribunal Constitucional, ao longo dos anos, vem mantendo esta posio, como bem ilus-tra o recente Acrdo n. 408/2007 de 11-07-2007, acessvel in www.tribunalconstitucional.pt/tc.No mesmo sentido, Tolda Pinto, Tramitao Processual Penal, 2. ed., pg. 951.5 Como evidente do acabado de expor, a fundamentao a parte da sentena que maio-res exigncias coloca ao tribunal. Na verdade, exige-se ao juiz que num discurso verdadeiro

  • 1.3. No artigo 374., n. 2, do CPP, alis em consonncia com o dispostono artigo 97., n. 4, do mesmo diploma e com a norma constitucional acimaidentificada (artigo 205.), esto previstos os requisitos a que deve obedecera fundamentao da sentena.

    Dentro da fundamentao, apenas iremos tratar da fundamentao defacto, aqui se compreendendo a enumerao dos factos provados e no pro-vados e a motivao da deciso da matria de facto.

    (Um parntesis necessrio:Penso que vai ficando cada vez mais longnquo o entendimento arcaico

    de que o bom juiz era aquele que fazia de cada sentena o poiso para umalonga dissertao jurdica, a propsito ou no, legitimada por uma funda-mentao de facto, mesmo que pobre e apressada. Hoje para todos claroque uma boa, justa, deciso exige, antes do mais, uma audincia de julga-mento onde seja feita uma exaustiva e serena indagao da matria defacto relevante; uma deciso da matria de facto fiel prova produzida euma clara e convincente motivao da deciso sobre a matria de facto os factos que decidem.)

    II DA ENUMERAO DOS FACTOS PROVADOS E NO PRO-VADOS

    2.1. O tribunal, como resulta nomeadamente do disposto nos arti-gos 339., n. 4, 368., n. 2, e 374., n. 2, do CPP, deve indagar e pro-nunciar-se sobre todos os factos que tenham sido alegados pela acusa-o, pela contestao ou que resultem da discusso da causa e se mostremrelevantes para a deciso. Ou seja, ainda que para a soluo de direito queo tribunal tem como adequada para o caso, se afigure irrelevante a provade determinado facto, o tribunal no pode deixar de se pronunciar sobre a suaverificao/ no verificao o que pressupe a sua indagao , se tal factose mostrar relevante num outro entendimento jurdico plausvel6. que em

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    e claro, simultaneamente completo e conciso, de modo convincente exponha as razes dadeciso.6 1. Em nossa opinio, como resulta do acima exposto, relativamente aos factos que resulta-rem da discusso da causa relevantes para a deciso, o tribunal tambm se deve pro-nunciar expressamente sobre eles quando resultam no provados e como tal devem serenumerados. Outro entendimento no permite, salvo melhor entendimento, o disposto nos arti-gos 339., n. 4, e 368., n. 2, do CPP. Se o presidente submete a deliberao e votaoos factos que resulta