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  • Do Vinil ao Download

    andr midani

  • Prlogo

    Fernando Morais tinha a inteno de escrever um livro sobre a histria da msica brasileira contempornea, com minhas histrias como fio condu-tor. A ideia nunca chegou ao papel. Na noite de 31 de dezembro de 2005, Thomaz Souto Corra, amigo querido a quem j havia contado minha histria mltiplas vezes , me perguntou depois de uma gostosa conversa no Golden Room do Copacabana Palace:

    A histria da sua chegada ao Brasil verdadeira? Ela daria um belo livro. Se voc quiser, eu escrevo.

    Claro, Thomaz! Seria um privilgio.Os meses se foram e no encontramos um modus vivendi confortvel para

    escrever o livro. Mas eu tinha sido mordido por uma ideia: Voc vai escre-ver o livro. Voc mesmo! Sim, voc mesmo, rapaz.

    Peguei, ento, um longo dossi, com algumas histrias que tinha contado Heloisa Tapajs, alm de uma quantidade de entrevistas que ela, a meu pedido, havia realizado h alguns anos com colaboradores meus, e dediquei, religio-samente, muitas horas a organizar esse material. E assim se passaram 12 meses.

    Descobri nesse processo que tinha inventado um maravilhoso companheiro. Que ora me escutava com pacincia, ora com irritao pelos equvocos de da-tas ou pela falta de exatido no relato das histrias. Mas sempre me encorajava a seguir em frente. Escrevi em portugus, na maioria das vezes. Alguns trechos foram escritos em ingls ou francs, dependendo do lugar em que estivesse.

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    Gilda gostava do que lia. Num certo momento, quis ter a opinio de pessoas mais rigorosas. Mandei algumas pginas para Fernanda Torres e An-drucha Waddington, Susana de Moraes, Gloria Kalil, Thomaz Souto Corra, Leonardo Neto, Washington Olivetto, Eucana Ferraz e Roberto Oliveira. E o retorno foi mais do que reconfortante!

    Este livro rene vrios episdios que presenciei ou dos quais participei ao longo de minha vida.

    Neste mundo onde tudo rigorosamente classificado por gneros, po-deria ter sido lanado e promovido como um livro de autoajuda, com o propsito de enfatizar que tudo na vida possvel quando se tem a sorte de achar a vocao muito cedo, como no meu caso. E, se ela no cair do cu, ento necessrio tentar com afinco, descobrir uma usando a intuio e, sobretudo, escutando os sentimentos. Depois s correr atrs, incansavel-mente, e acreditar na sorte que o destino oferece.

    O livro tambm serve para mostrar que no se deve temer as surpresas que a gente encontra no caminho. Ao contrrio, essencial abraar tudo que vier, com desejo e volpia, sendo sempre cabea-dura para no perder o foco e tendo uma intensa vontade de trabalhar.

    A leitura ser um tanto decepcionante para quem espera encontrar con-sideraes intelectuais sobre a msica brasileira, revelaes sobre as rela-es mais ntimas que mantive com os que eu chamava orgulhosamente de meus artistas, ou projees a respeito da chamada indstria fonogrfica, negcio hoje mortalmente ferido.

    Escrevi a histria de um homem de negcios e de suas atribulaes na realizao de suas tarefas; um homem que buscou manter o equilbrio entre o sagrado (a msica) e o profano (o lucro). Escrevi a histria de um homem fascinado pela personalidade dos artistas sem fronteiras culturais ou geogrficas.

    Escrevi a histria de um homem de negcios que, como meu querido amigo Washington Olivetto dizia, trabalhava como uma formiga e se distraa como uma cigarra.

  • Primeiras palavras (Em depoimento a Carolina Chagas)

    A primeira verso deste livro foi lanada em 2008. Chamava-se Msica, dolos e poder do vinil ao download e no contava com dois dos captulos contidos nesta edio: o captulo 37 e o captulo 38. Os diretores de cinema Andrucha Waddington e Mini Kerti leram o livro e organizaram, em parce-ria com o canal GNT, uma srie de programas de televiso e um documen-trio chamados Do vinil ao download. Abaixo, trechos de um bate-papo de Andr Midani, personagem central dos programas, com os diretores, grava-dos em uma tarde de vero em Copacabana.

    Andr Midani: Antes de comear esse bate-papo, gostaria de ex-pressar minha gratido a todos os artistas que aceitaram o convite para participar dos encontros que deram origem aos programas de tev e ao documentrio dirigidos pelo Andrucha e pela Mini. Qualquer palavra seria menor que a alegria que tive em perceber o carinho e, muitas ve-zes, o entusiasmo desses artistas to talentosos e relevantes para a histria cultural deste pas em se reunirem na sala de minha casa para falar sobre momentos que vivemos juntos. Minha gratido a essas pessoas ser eterna e sem medidas.

    Mini Kerti: Comeamos esse trabalho amigos e samos ainda mais ami-gos. um sentimento em fase de crescimento.

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    Andr: Tudo comeou num jantar em minha casa. Andrucha e Mini me perguntaram, com certa timidez e precauo, se eu toparia trabalhar com eles em um documentrio. Sim!, respondi na mesma. Tinha plena confiana no trabalho deles, pessoas que conhecia e por quem nutria muito carinho e amor. Tinha certeza de que tudo o que nascesse dessa parceria resultaria em coisa boa.

    Mini: Nessa noite, o Andrucha botou a pilha. Tinha falado para o Andru-cha que ele devia filmar o livro do Andr, a histria do Andr. Uma histria muito boa, incrvel, nica. Ele ficou com isso na cabea. Acho que Flora e Gil tambm estavam nesse jantar.

    Andrucha Waddington: No lembro.

    Mini: Eles estavam.

    Andr: Vamos supor que eles estavam.

    Mini: Adoro. Vamos supor que sim. A Flora entrou na pilha. E o Andr convidou o Gil para participar das filmagens.

    Andrucha: Na verdade, ns fizemos uma primeira filmagem com o [Gilberto] Gil e o Cac [Diegues] que virou a pea de venda do projeto. Conseguimos vender a ideia para o [canal] GNT, que co-produtor, e para a Conspirao [Filmes, a produtora]. Formatamos os cinco episdios de aproximadamente uma hora cada e um documentrio. Filmamos ao longo de seis meses. Foram nove encontros, sempre na casa do Andr. Com pes-soas que participaram da vida do Andr, especialmente ligadas msica. As conversas seguiam uma pauta que a gente desenhava e que era comandada pelo Andr. A ideia era ter depoimentos espontneos. Conversas. E o tema era meio definido a partir do grupo reunido. Nesses nove encontros, con-seguimos contar a histria do Andr. Desde sua infncia, sua chegada ao Brasil, e sua trajetria na indstria da msica. O que ele fez desde a bossa nova at agora.

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    Andr: Passamos pela vivncia da guerra. Mas o essencial a minha chegada ao Brasil. O trabalho retrata com muita felicidade o panorama da msica brasileira dos anos 1960 at pouco tempo atrs. Nunca tinha visto artistas gravarem para a televiso com tanto desprendimento, ficou um tra-balho muito original.

    Mini: Tinha sempre vrias pessoas com instrumentos, cantando. As m-sicas apareciam espontaneamente. Estavam ligadas ao encontro dos artistas com o Andr. As pessoas tocavam de improviso. Havia uma descontrao entre eles.

    Andrucha: Sempre tinha uma refeio.

    Andr: Um vinho...

    Andrucha: E a gente gravando o tempo todo. As pessoas chegavam e as cmeras j estavam ligadas. E a, normalmente, tinha uma refeio. E uma conversa antes e uma conversa depois da refeio que sempre descambava para msica.

    Andr: Andrucha e a Mini trouxeram para o documentrio uma quali-dade tcnica extraordinria.

    Andrucha: Tnhamos de trs a oito cmeras. No dia que foram Gil, Jor-ge Ben [Jor], Arnaldo [Antunes], Marisa [Monte] e Dadi [Carvalho], tinha oito cmeras. O dia do rock tambm. Foram os dias com mais convidados. Precisvamos cobrir todos os movimentos dos presentes.

    Andr: Foi, por exemplo, a primeira vez depois de muito tempo que Gil e Jorge se reencontraram. Eles deram uma repassada em dois lbuns que so muito importantes na carreira desses dois artistas: Gil & Jorge e A tbua de esmeralda. Fazia tempo tambm que Caetano e Gil no cantavam em famlia. Os dois fizeram isso de novo durante as filmagens desse do-cumentrio.

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    Andrucha: Nosso objetivo como diretores era desparecer e criar um ambiente para que a conversa acontecesse de maneira natural. Nosso ob-jetivo era fazer com que o espectador se sentisse dentro daquela sala, ou-vindo aquelas msicas. No fizemos nenhuma interferncia durante as fil-magens. Tnhamos uma conversa prvia e s. A partir da a conversa seguia espontaneamente. uma forma rara de fazer documentrio aqui no Brasil. No sei se nica, mas rara. Ficou um produto muito legal. Com muita personalidade. Graas ao Andr. O Andr o catalizador desses talentos. O fato de ele ter trabalhado com toda essa gente e as pessoas terem muito carinho por ele fez com que tivssemos o privilgio de participar dessa histria. Ir para a filmagem no era um trabalho. Era: Oba! Semana que vem tem filmagem!

    Andr: A conjuno de ns trs foi muito proveitosa. Tenho essa apro-ximao com os artistas, mas, se no tivesse o gnio desses dois, o produto ficaria muito formal.

    Mini: raro as pessoas fazerem um documentrio sobre algum que no um artista. O Andr no exatamente um artista.

    Andrucha: Ele um business man.

    Mini: Quando mostramos o material para um amigo nosso, editor, ele confessou que estava muito preocupado com como o Andr ia se com-portar. Se ia parecer natural, interessante. Se ele ia falar bem. Se a voz dele ia funcionar. Tem gente que fala e tem uma voz muito aguda, o que prejudica a compreenso. H vrias coisas que podem acontecer e com-prometer o entendimento do objeto filmado. Quando lidamos com um artista, sabemos como ele fala, como ele se comporta, o carisma que ele tem. O Andr era uma incgnita. E tivemos duas surpresas boas em relao a esse receio: 1) Ele uma pessoa super carismtica no vdeo. As histrias dele s