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49 O CD morreu? Viva o Vinil! Simone Pereira de Sá Dizem que João Cabral de Melo Neto não gostava de música. Mas, se vivo estivesse, talvez até o poeta exclamaria: alguma coisa anda fora da velha ordem musical! São bandas que fazem sucesso graças a downloads na internet, sem terem lançado um único CD. São blogs antecipando tendências musicais antes das revistas especializadas. São versões sucessivas de videoclipes feitos por fãs. São redes sociais tais como Last.fm e SoulSeek , que criam comunidades a partir da troca de arquivos sonoros pela internet. Sem falar nos estúdios caseiros, nos  podcastings, no crescimento exponencial de gravadoras independentes e de vendas de música por unidade por meio da rede, além dos números decrescentes de venda de CDs. Tudo isso, em conjunto, chamando-nos a atenção para a revolução que a cibercultura introduziu no circuito de produção, circulação e consumo musical em pouco mais de uma década. O argumento mais corrente para explicar essas mudanças é o de que a comunicação em rede constrói um novo modelo cuja ênfase está na relação direta entre produtores e consumidores. Descentralização, desintermediação e desmaterialização são três palavrinhas-valise que no qual serviços e acesso combinam-se para criar uma experiência musical mais importante do que a venda de suportes “fechados”, como o disco ou o CD (Rifkin, 2001; Sá e Andrade, 2008). 50 consolidam, constata-se também um vigoroso consumo de nicho que abrange os discos de vinil e os aparelhos de reprodutibilidade desse suporte musical. música eletrônica, em que DJs transformaram o toca-discos em ins- trumento musical e o disco de vinil em objeto de desejo, revitalizando o mercado de discos usados e até reabrindo fábricas de prensagem de discos de vinil. O segundo, mais inusitado, foi assunto de capa da revista O Globo em matéria intitulada “A turma do vinil”. 1  O gancho, uma “nova mania”, batizada de Sleeveface 2 , que se espalhou por sites da internet: posar com capa de discos na frente do rosto e compor a foto com roupas e atitude corporal adequadas, formando um conjunto capa/corpo de re- sultado bastante surpreendente e às vezes engraçado. 1 Revista O Globo, suplemento dominical do jornal O Globo, ano 4, n. 192, 30 de março de 2008. Capa e p. 22-27. 2 www.sleevef ace.com.

O CD morreu - viva o vinil!

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    O CD morreu? Viva o Vinil!

    Simone Pereira de S

    Dizem que Joo Cabral de Melo Neto no gostava de msica.

    Mas, se vivo estivesse, talvez at o poeta exclamaria: alguma coisa

    anda fora da velha ordem musical!

    So bandas que fazem sucesso graas a downloads na internet,

    sem terem lanado um nico CD. So blogs antecipando tendncias

    musicais antes das revistas especializadas. So verses sucessivas

    de videoclipes feitos por fs. So redes sociais tais como Last.fmeSoulSeek, que criam comunidades a partir da troca de arquivos sonoros

    pela internet. Sem falar nos estdios caseiros, nos podcastings, no

    crescimento exponencial de gravadoras independentes e de vendas de

    msica por unidade por meio da rede, alm dos nmeros decrescentes

    de venda de CDs. Tudo isso, em conjunto, chamando-nos a ateno

    para a revoluo que a cibercultura introduziu no circuito de produo,

    circulao e consumo musical em pouco mais de uma dcada.

    O argumento mais corrente para explicar essas mudanas o de

    que a comunicao em rede constri um novo modelo cuja nfase est

    na relao direta entre produtores e consumidores. Descentralizao,

    desintermediao e desmaterializao so trs palavrinhas-valise que

    no qual servios e acesso combinam-se para criar uma experincia

    musical mais importante do que a venda de suportes fechados, como

    o disco ou o CD (Rifkin, 2001; S e Andrade, 2008).

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    consolidam, constata-se tambm um vigoroso consumo de nicho que

    abrange os discos de vinil e os aparelhos de reprodutibilidade desse

    suporte musical.

    msica eletrnica, em que DJs transformaram o toca-discos em ins-

    trumento musical e o disco de vinil em objeto de desejo, revitalizando o

    mercado de discos usados e at reabrindo fbricas de prensagem de

    discos de vinil.O segundo, mais inusitado, foi assunto de capa da revista O Globo

    em matria intitulada A turma do vinil.1O gancho, uma nova mania,

    batizada de Sleeveface2, que se espalhou por sites da internet: posar

    com capa de discos na frente do rosto e compor a foto com roupas e

    atitude corporal adequadas, formando um conjunto capa/corpo de re-

    sultado bastante surpreendente e s vezes engraado.

    1 Revista O Globo, suplemento dominical do jornal O Globo, ano 4, n. 192, 30 de maro de 2008.

    Capa e p. 22-27.

    2 www.sleeveface.com.

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    Crdito da imagem do SleevefaceDisco - Songs of Leonard Cohen. Produzido por Tiago Monteiro para o blog do LabCult, http://labcult.blogspot.com/search/label/sleeveface.Foto de Flavia Rodrigues