ÉMILE DURKHEIM E O SENTIDO DA MODERNIDADE

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    MILE DURKHEIM E O SENTIDO DA MODERNIDADE:

    INTERFACES ENTRE POLTICA, MORAL E CIDADANIA

    Sidnei Ferreira de Vares

    Resumo: O propsito deste artigo analisar, em conformidade com o ttulo, o sentido da

    modernidade na sociologia de mile Durkheim. Sabe-se que, ao longo de sua trajetria, o

    socilogo francs empreendeu enormes esforos com o escopo de compreender as

    transformaes processadas no interior das sociedades tradicionais, e que culminaram com o

    surgimento de novas estruturas sociais, muito mais complexas do que as estruturas anteriores.

    Contudo, no se trata apenas de entender como se deu esta complexificao da vida social,

    mas, sobretudo, de responder a algumas questes suscitadas por esse processo, quais sejam,

    ser que a expanso do individualismo, fenmeno tpico das organizaes sociais complexas,

    concorre para a desintegrao dos laos sociais? Como pensar uma ordem social estvel, com

    o mnimo de solidariedade, em face do individualismo promovido pelo avano da

    industrializao? Caso isso seja possvel, que tipo de moralidade pode dar conta das

    demandas da sociedade contempornea? So essas as questes que o presente trabalho

    pretende responder.

    Palavras-chave: modernidade, solidariedade, individualismo, moralidade e democracia.

    MILE DURKHEIM IS THE MEANING OF MODERNITY:

    INTERFACES BETWEEN POLITICS, MORALS AND CITIZENSHIP

    Abstract: The purpose of this article is to analyze, in accordance with the title, the meaning

    of modernity in sociology of Emile Durkheim. It is known that, throughout its history, the

    French sociologist undertaken enormous efforts to understand the scope of the changes

    processed within traditional societies, and culminating with the much more complex

    emergence of new social structures than previous structures. However, it is not just to

    understand how this complexity of social life was, but above all, to answer some questions

    raised by this process, namely, does the expansion of individualism, typical phenomenon of

    Doutor e mestre em Educao pela FEUSP. professor dos Cursos de Histria, Pedagogia e Filosofia do UniFAI. Tambm atua no Curso de Ps-Graduao em Histria do Pensamento Poltico e Social, ministrando a

    disciplina de Fundamentos do Pensamento Poltico. Nos ltimos anos tem se dedicado a estudar os aspectos

    pedaggicos e polticos da teoria sociolgica de mile Durkheim.

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    complex social organizations, contribute to the disintegration of social ties? Would it be

    possible? How could we think a stable social order, with a minimum of solidarity in the face

    of the individualism promoted by the advancement of industrialization? If this is possible,

    what kind of morality can cope with the demands of contemporary society? These are the

    questions that this study aims to answer.

    Keywords: modernity, solidarity, individualism, morality and democracy.

    Introduo

    A sociologia de Durkheim pretende responder aos problemas postos pelo vir-a-ser da

    modernidade, sobrepondo-se, conflitivamente, aos resqucios da velha ordem estamental,

    ainda presentes na sociedade francesa ao tempo da efetivao da Terceira Repblica. Sua

    preocupao com a solidariedade, numa sociedade moralmente abatida e culturalmente

    cindida, tem seus contornos definidos em uma obra consistente e rigorosa, movida pelo

    desafio de transcender os limites da teoria.

    Por esse motivo os esforos do autor gravitam em torno de questes tais como a

    poltica, a moral, a educao, a religio, as instituies, enfim, pontos que perpassam o

    conjunto de seus trabalhos e que se apresentam como problemticos no contexto moderno.

    Destarte, sua concepo de modernidade desponta como um elemento-chave para se entender

    o leitmotiv do mal-estar que acomete as sociedades urbano-industriais. Visto que entre as

    caractersticas deste tipo de organismo social sobressai o individualismo, experincia cada vez

    mais requisitada mediante a acentuao da diferenciao funcional, as dvidas acerca da

    moralidade mais apropriada s novas demandas coletivas exigem do socilogo francs uma

    soluo engenhosa e vivel.

    Entusiasta da crena iluminista de que possvel reconstruir o mundo atravs da

    vontade humana emancipada, Durkheim no adere, porm, a todas as implicaes deste

    postulado, atentando para os limites da ao individual. O prprio autor enuncia que o modo

    como a sociedade est organizada incide decisivamente sobre as formas pelas quais os seus

    membros assimilam o mundo, e por suposto a moral, longe de ser uma inspirao divina,

    revela-se enquanto expresso funcional da vida coletiva.

    Ao situar a cincia social no cenrio intelectual da poca, Durkheim no considera

    somente a necessidade de expanso das liberdades individuais, mas, tambm, a de

    reconstruo dos laos morais frente aos riscos do egosmo radical. Essa posio,

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    aparentemente paradoxal, retraduz a prpria complexidade da vida social moderna, na qual

    possvel individualizar socializando.

    Posto isto, algumas questes despontam guisa de desafio: como Durkheim define o

    fenmeno moderno? Quais as caractersticas primordiais da modernidade? Ser o advento

    moderno uma pgina feliz ou infeliz da histria da humanidade? Em suma, qual o sentido da

    modernidade para o mestre francs?

    Na tentativa de respond-las, o presente artigo divide-se em trs momentos. No

    primeiro momento, pretende-se analisar as caractersticas da sociedade moderna, destacando

    os impactos gerados pela acentuao da diviso do trabalho. No segundo momento, discute-se

    o esforo durkheimiano para conjugar, a partir de uma nova moralidade, as tendncias

    solidaristas, presentes na sociedade francesa, e o individualismo, fenmeno tpico das

    sociedades urbano-industriais. Por ltimo, intenta-se demonstrar que o comprometimento de

    Durkheim, contrariamente ao que afirmam os seus principais crticos, no com a

    manuteno da ordem, mas com a promoo de uma sociologia capaz de articular

    individualismo moral e democracia, uma vez que a sociedade moderna no pode dispensar

    nem a moralidade sem a qual a vida social seria impossvel nem a expanso das liberdades

    individuais exigncia de uma sociedade cada vez mais centrada no indivduo.

    1. A diviso do trabalho e o emergir da modernidade

    Em sua tese de doutoramento, Da Diviso do Trabalho Social, Durkheim demonstra

    especial preocupao com o fenmeno da modernidade. Intriga-lhe a questo da

    solidariedade, sobretudo porque, no que concerne s sociedades complexas, o individualismo

    tornou-se um valor inquestionvel. Como pode, numa sociedade cada vez mais

    individualizada, os laos sociais no se dissolverem? a partir desse questionamento que o

    socilogo se lana numa rdua pesquisa a fim de compreender os elementos legitimadores da

    coeso social moderna. A dvida durkheimiana tem uma razo de ser, afinal, esse processo de

    individuao parece colidir com a noo de solidariedade. Se a viso utilitarista segundo a

    qual as relaes sociais ancoram-se no auto-interesse for correta, ento, os laos necessrios

    existncia de toda e qualquer forma de vida coletiva estariam comprometidos, tendendo

    inevitavelmente para a desintegrao. Entretanto, no parece ser este o caso, e isso o que

    certamente incomoda o socilogo francs. Com efeito, se o avano da diviso funcional e do

    individualismo no oblitera a possibilidade da vida em sociedade, porque ambos os

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    fenmenos devem cumprir algum tipo de funo social. Mas, se esse raciocnio for correto,

    que funo seria esta?

    Objetivando responder a essa questo, Durkheim prope uma anlise de cunho

    morfolgico, e, lanando mo do mtodo histrico-comparativo, distingue dois modelos de

    organizao social as sociedades homogneas e as sociedades diferenciadas , aos quais

    correspondem duas formas diferentes de solidariedade, respectivamente a solidariedade

    mecnica e a solidariedade orgnica.

    Segundo o socilogo, aqueles organismos sociais com uma diviso do trabalho pouco

    acentuada, tais como nas sociedades pr-industriais ou homogneas, caracterizam-se pela

    incidncia de uma forte conscincia coletiva, entendida como a soma de crenas e

    sentimentos comuns mdia de seus membros. Em modelos sociais como estes, os indivduos

    tendem a agir e se comportar de modo similar, pois os ideais e os valores apresentam-se como

    unvocos, deixando assim pouco espao para as manifestaes individuais.

    Ainda que s possa existir atravs dos indivduos, essa conscincia comum constitui

    uma realidade sui generis, que independe das conscincias particulares isoladas. A fora do

    hbito e da tradio condiciona o comportamento individual, e conquanto o crime objeto de

    discusso tanto na primeira parte de sua tese doutoral quanto no terceiro captulo de As

    Regras do Mtodo Sociolgico aponte para a presena de uma individualidade rudimentar, a

    mdia de seus membros tende a agir nos limites da moralidade instituda.

    Haja vista que a solidariedade social no diretamente mensurvel, Durkheim sugere

    a utilizao de um fait extrieur que a simbolize. Esse ndice pode ser encontrado nos cdigos

    legais, pois toda forma estvel de vida social tem suas regras morais codificadas sob a forma

    de leis.1 Depreende-se disso dois tipos principais de direito, a saber, o repressivo e o

    restitutivo. O primeiro predominante nas sociedades homogneas, enquanto o segu