As Regras do Método Sociológico (Émile Durkheim)

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AS REGRAS DO MTODO SOCIOLGICO Emile DurkheimAt o presente, os socilogos pouco se preocuparam em caracterizar e definir o mtodo que aplicam ao estudo dos fatos sociais. assim que, em toda a obra de Spencer, o problema metodolgico no ocupa nenhum lugar; pois a Introduo cincia social, cujo ttulo poderia dar essa iluso, destina-se a demonstrar as dificuldades e a possibilidade da sociologia, no a expor os procedimentos que ela deve utilizar. Stuart Mill, verdade, ocupou-se longamente da questo; mas ele no fez seno passar sob o crivo de sua dialtica o que Comte havia dito, sem acrescentar nada de verdadeiramente pessoal. Um captulo do Curso de filosofia positiva, eis praticamente o nico estudo original e importante que possumos sobre o assunto. Essa despreocupao aparente, alis, nada tem de surpreendente. De fato, os grandes socilogos cujos nomes acabamos de mencionar raramente saram das generalidades sobre a natureza das sociedades, sobre as relaes do reino social e do reino biolgico, sobre a marcha geral do progresso; mesmo a volumosa sociologia de Spencer quase no tem outro objeto seno mostrar como a lei da evoluo universal se aplica s sociedades. Ora, apara tratar essas questes filosficas, n o so necess_nosprocedimentos especiais e complexos. A ra su iciente, portanto, pesar os mritos comparados da deduo e da induo e fazer uma inspeo sumria dos recursos mais gerais de que dispe a investigao sociolgica. Mas as precaues a tomar na observao dos fatos, a maneira como os principais problemas devem ser colocados, o sentido no qual as pesquisas devem ser dirigidas, as prticas especiais que podem permitir chegar aos fatos, as regras que devem presidir a administrao das provas, tudo isso permanecia indeterminado. Uma srie de circunstncias felizes, entre as quais justo destacar a iniciativa que criou em nosso favor um curso regular de sociologia na Faculdade

de Letras de Bordus, o qual possibilitou que nos dedicssemos desde cedo ao estudo da cincia social e inclusive fizssemos dele o objeto de nossas ocupaes profissionais, nos fez sair dessas questes demasiado gerais e abordar um certo nmero de problemas particulares. Assim, fomos levados, pela fora mesma das coisas, a elaborar um mtodo que julgamos mais definido, mais exatamente adaptado natureza particular dos fenmenos sociais. So esses resultados de nossa prtica que gostaramos de expor aqui em conjunto e de submeter discusso. Claro que eles esto implicitamente contidos no livro que publicamos recentemente sobre A diviso do trabalho social. Mas nos parece interessante destac-los, formul-los parte, acompanhados de suas provas e ilustrados de exemplos tomados tanto dessa obra como de trabalhos ainda inditos. Assim podero julgar melhor a orientao que gostaramos de tentar dar aos estudos de sociologia. O QUE UM FATO SOCIAL?

Antes de procurar qual mtodo convm ao estudo dos fatos sociais, importa saber quais fatos chamamos assim. A questo ainda mais necessria porque se utiliza essa qualificao sem muita preciso. Ela empregada correntemente para designar mais ou menos todos os fenmenos que se do no interior da sociedade, por menos que apresentem, com uma certa generalidade, algum interesse social. Mas, dessa maneira, no h, por assim dizer, acontecimentos humanos que no possam ser chamados sociais. Todo indivduo come, bebe, dorme, raciocina, e a sociedade tem todo o interesse em que essas funes se exeram regularmente. Portanto, se esses fatos fossem sociais, a sociologia no teria objeto prprio, e seu domnio se confundiria com o da biologia e da psicologia. Mas, na realidade, h em toda sociedade um grupo determinado de fenmenos que se distinguem por caracteres definidos daqueles que as outras cincias da natureza estudam. Quando desempenho minha tarefa de irmo, de marido ou de cidado,

quando executo os compromissos que assumi, eu cumpro deveres que esto definidos, fora de mim e de meus atos, no direito e nos costumes. Ainda que eles estejam de acordo com meus sentimentos prprios e que eu sinta interiormente a realidade deles, esta no deixa de ser objetiva; pois no fui eu que os fiz, mas os recebi pela educao. Alis, quantas vezes no nos ocorre ignorarmos o detalhe das obrigaes que nos incumbem e precisarmos, para conhec-las, consultar o Cdigo e seus intrpretes autorizados! Do mesmo modo, as crenas e as prticas de sua vida religiosa, o fiel as encontrou inteiramente prontas ao nascer; se elas existiam antes dele, que existem fora dele. O sistema de signos de que me sirvo para exprimir meu pensamento, o sistema de moedas que emprego para pagar minhas dvidas, os instrumentos de crdito que utilizo em minhas relaes comerciais, as prticas observadas em minha profisso, etc. funcionam

independentemente do uso que fao deles. Que se tomem um a um todos os membros de que composta a sociedade; o que precede poder ser repetido a propsito de cada um deles. Eis a, portanto, maneiras de agir, de pensar e de sentir que apresentam essa notvel propriedade de existirem fora das conscincias individuais. Esses tipos de conduta ou de pensamento no apenas so exteriores ao indivduo, como tambm so dotados de uma fora imperativa e coercitiva em virtude da qual se impem a ele, quer ele queira, quer no. Certamente, quando me conformo voluntariamente a ela, essa coero no se faz ou pouco se faz sentir, sendo intil. Nem por isso ela deixa de ser um carter intrnseco desses fatos, e a prova disso que ela s afirma to logo tento resistir. Se tento violar as regras do direito, elas reagem contra mim para impedir meu ato, se estiver em tempo, ou para anul-lo e restabelec-lo em sua forma normal, se tiver sido efetuado e for reparvel, ou para fazer com que eu o expie, se no puder ser reparado de outro modo. Em se tratando de mximas puramente morais, a conscincia pblica reprime todo ato que as ofenda atravs da vigilncia que exerce sobre a conduta dos cidados e das penas especiais de que dispe. Em outros casos, a coero menos violenta, mas no deixa de existir. Se no me submeto s convenes do mundo, se, ao vestir-me, no levo em conta os

costumes observados em meu pas e em minha classe, o riso que provoco, o afastamento em relao a mim produzem, embora de maneira mais atenuada, os mesmos efeitos que uma pena propriamente dita. Ademais, a coero, mesmo sendo apenas indireta, continua sendo eficaz. No sou obrigado a falar francs com meus compatriotas, nem a empregar as moedas legais; mas impossvel agir de outro modo. Se eu quisesse escapar a essa necessidade, minha tentativa fracassaria miseravelmente. Industrial, nada me probe de trabalhar com procedimentos e mtodos do sculo passado; mas, se o fizer, certo que me arruinarei. Ainda que, de fato, eu possa libertar-me dessas regras e viol-las com sucesso, isso jamais ocorre sem que eu seja obrigado a lutar contra elas. E ainda que elas sejam finalmente vencidas, demonstram suficientemente sua fora coercitiva pela resistncia que opem. No h inovador, mesmo afortunado, cujos empreendimentos no venham a deparar com oposies desse tipo. Eis portanto uma ordem de fatos que apresentam caractersticas muito especiais: consistem em maneiras de agir, de pensar e de sentir, exteriores ao indivduo, e que so dotadas de um poder de coero em virtude do qual esses fatos se impem a ele. Por conseguinte, eles no poderiam se confundir com os fenmenos orgnicos, j que consistem em representaes e em aes; nem com Os fenmenos psquicos, os quais s tm existncia na conscincia individual e atravs dela. Esses fatos constituem portanto uma espcie nova, e a eles que deve ser dada e reservada a qualificao de sociais. Essa qualificao lhes convm; pois claro que, no tendo o indivduo por substrato, eles no podem ter outro seno a sociedade, seja a sociedade poltica em seu conjunto, seja um dos grupos parciais que ela encerra: confisses religiosas, escolas polticas, literrias, corporaes profissionais, etc. Por outro lado, a eles s que ela convm; pois apalavra social s tem sentido definido com a condio de designar unicamente fenmenos que no se incluem em nenhuma das categorias de fatos j constitudos e denominados. Eles so portanto o domnio prprio da sociologia. verdade que a palavra coero, pela qual os definimos, pode vira assustar os zelosos defensores de um individualismo absoluto. Como estes

professam que o indivduo perfeitamente autnomo, julgam que o diminumos sempre que mostramos que ele no depende apenas de si mesmo. Sendo hoje incontestvel, porm, que a maior parte de nossas idias e de nossas tendncias no elaborada por ns, mas nos vem de fora, elas s podem penetrar em ns impondo-se; eis tudo o que significa nossa definio. Sabe-se, alis, que nem toda coero social exclui necessariamente a personalidade individual'. Entretanto, como os exemplos que acabamos de citar (regras jurdicas, morais, dogmas religiosos, sistemas financeiros, etc.)consistem todos em crenas e em prticas constitudas, poder-se-ia supor, com base no que precede, que s h fato social onde h organizao definida. Mas existem outros fatos que, sem apresentar essas formas cristalizadas, tm a mesma objetividade e a mesma ascendncia sobre o indivduo. o que chamamos de correntes sociais. Assim, numa assemblia, os grandes movimentos de entusiasmo ou de devoo que se produzem no tm por lugar de origem nenhuma conscincia particular. Eles nos vm, a cada um de ns, de fora e so capazes de nos arrebatar contra a nossa vontade. Certamente pode ocorrer que, entregando-me a eles sem reserva, eu no sinta a presso que exercem sobre mim. Mas ela se acusa to logo procuro lutar contra eles. Que um indivduo tente se opor a uma dessas manifestaes coletivas: os sentimentos que ele nega se voltaro contra ele. Ora, se essa fora de coero externa se afirma com tal nitidez nos casos de resistncia, porque ela existe, ainda que inconsciente, nos casos contrrios. Somos ento vtimas de uma iluso que nos faz crer que elaboramos, ns mesmos, o que se imps a ns de fora. Mas, se a complacncia com que nos entregamos a essa