essencial franz kafka

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  • essencial fr anz k afk a

    Traduo, seleo e comentrios demodesto carone

  • copyright da introduo e comentrios 2011 by Modesto carone

    copyright da cronologia 1966 by Penguin Group

    Grafia atualizada segundo o Acordo Ortogrfico da Lngua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.

    agradecemos a Serrote por ceder os Aforismos, de franz kafka, publicados originalmente no nmero 1 da revista, em maro de 2009.

    Penguin and the associated logo and trade dress are registered and/or unregistered trademarks of Penguin Books limited and/or

    Penguin Group (usa) inc. Used with permission.

    Published by companhia das letras in association with Penguin Group (usa) inc.

    capa e projeto grfico penguin-companhiaraul loureiro, claudia Warrak

    preparaocarlos alberto Brbaro

    revisoHuendel Viana

    luciane Helena Gomide

    [2011]Todos os direitos desta edio reservados

    editora schwarcz ltda.rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32

    04532-002 so Paulo sp Telefone (11) 3707-3500 fax (11) 3707-3501

    www.penguincompanhia.com.brwww.blogdacompanhia.com.br

    Dados internacionais de catalogao na Publicao (cip)(cmara Brasileira do livro, sp, Brasil)

    essencial franz kafka/ seleo, introduo e traduo de Modesto carone; traduo. so Paulo: Penguin classics companhia das letras, 2011.

    isbn 978-85-63560-23-0

    1.contos alemes 2. kafka, franz, 1883-1924 crtica e interpretao i. carone, Modesto.

    11-04452 cdd-833

    ndice para catlogo sistemtico:1. contos: literatura alem 833

  • sumrio

    introduo Modesto carone 7

    essencial franz kafka

    O veredicto 25Um artista da fome 43na colnia penal 59Diante da lei 101Um relatrio para uma academia 109O cavaleiro do balde 125Um fratricdio 133O abutre 141a ponte 147na galeria 153Pequena fbula 167Uma mensagem imperial 173Desista! 179aforismos 185a metamorfose 209

    Cronologia 293Sugestes de leitura 297

  • O veredictouma histria para

    a senhorita felice b

  • a novela O veredicto (kafka chama-a de histria) ocupa na obra do escritor um lugar decisivo em mais de um sentido. em primeiro lugar, o texto em que o autor des-cobre sua forma especfica de narrar; cronologicamente, um ponto de inflexo, pois introduz a sequncia das obras primas kafkianas. O consenso crtico de que O veredicto contm a estrutura bsica que as demais nar-rativas desenvolvem e submetem a pequenas variaes. Do ponto de vista temtico, a primeira novela (ou con-to longo) do autor em que aparecem no s o motivo recorrente da condenao e da morte (por uma culpa desconhecida) como tambm a figura que encarna uma fora vital o Pai que baixa a pena capital sobre um eu desgarrado ou alienado de si mesmo.

    a criao literria com que o autor estabeleceu a li-gao afetiva mais profunda e cujo valor reconheceu sem a menor restrio caso raro em se tratando de kafka.

  • era uma manh de domingo no auge da primavera. Georg Bendemann, um jovem comerciante, estava sentado no seu quarto, no primeiro andar de um dos prdios baixos, de construo leve, que se estendiam em longa fila ao longo do rio, diferentes um do outro quase s na altura e na cor. Tinha justamente acabado de escrever uma carta a um amigo que se achava no estrangeiro, fechou-a com uma lentido ldica e depois, o cotovelo apoiado sobre a escri-vaninha, olhou da janela para o rio, para a ponte e para as colinas da outra margem, com o seu verde sem vigor.

    ficou pensando como esse amigo, insatisfeito com suas perspectivas na prpria terra, j fazia anos havia literalmente se refugiado na rssia. Tinha agora uma casa comercial em so Petersburgo, que a princpio ha-via caminhado muito bem, mas que parecia h muito ter estacionado, conforme se queixava o amigo nas suas visitas cada vez mais raras. assim que ele se desgastava inutilmente no estrangeiro: a extica barba cheia oculta-va mal o rosto to conhecido desde os anos de infncia, e a cor amarela da pele parecia apontar para uma mo-lstia em evoluo. como ele contava, l no mantinha nenhuma ligao autntica com a colnia dos seus con-terrneos e quase nenhum contato social com as famlias do lugar, de maneira que se encaminhava definitivamen-te para a vida de solteiro.

  • 30 essencial franz kafka

    O que se devia escrever a um homem assim, que evi-dentemente tinha sado fora dos trilhos e a quem se po-dia lastimar mas no prestar auxlio? Devia-se talvez aconselh-lo a voltar de novo para casa, a transferir para c sua existncia, a retomar as velhas relaes de amizade para o que certamente no havia obstculo algum e no mais confiar na ajuda dos amigos? Mas isso no significava outra coisa seno estar ao mesmo tempo lhe dizendo, de uma maneira tanto mais ofensi-va quanto maior a considerao, que suas tentativas at agora tinham malogrado, que ele devia finalmente desis-tir delas, regressar e permitir que todos o olhassem com espanto como a algum para sempre de volta, que s os seus amigos sabiam um pouco das coisas e que ele era uma criana crescida, pura e simplesmente necessitada de seguir os companheiros bem-sucedidos que haviam permanecido em casa. e alm do mais, era mesmo certo que todo esse transtorno, que seria preciso infligir a ele, tivesse um sentido? Talvez no se conseguisse nem ao menos traz-lo de volta ele mesmo afirmou que no entendia mais as condies vigentes no seu pas , e desse modo, a despeito de tudo, talvez continuasse na terra estranha, amargurado com os conselhos e um pou-co mais distanciado dos amigos. se ele porm seguisse de fato o conselho e naturalmente sem essa inteno, mas em virtude dos fatos fosse esmagado, no se en-contrasse nos seus amigos nem sem eles, sofresse com o vexame, de fato ento no possusse lar ou amigos, nesse caso no teria sido muito melhor para ele ficar no estrangeiro, do modo como estava? era possvel, em tais circunstncias, pensar que aqui ele iria efetivamente le-var as coisas avante?

    Por essas razes, mesmo que se quisesse manter a ligao por correspondncia, no se podia na verdade transmitir a ele nenhuma comunicao real, como se faria sem temor at aos conhecidos mais distantes. O

  • o veredicto 31

    amigo j no vinha ao pas fazia mais de trs anos e explicava muito precariamente esse fato pela incerte-za da situao poltica na rssia, que no permitiria nem mesmo a mais breve ausncia de um pequeno co-merciante, ao passo que centenas de milhares de russos circulavam tranquilamente pelo mundo. Para Georg, entretanto, muita coisa havia mudado no curso desses trs anos. sobre a morte da me de Georg, que havia ocorrido dois anos antes, e depois da qual ele passara a viver em comum com o velho pai na mesma casa, o ami-go naturalmente tinha recebido notcia e manifestado o seu pesar numa carta de tamanha secura que o motivo s podia ser que no estrangeiro o luto por um aconteci-mento dessa natureza inteiramente inconcebvel. Mas desde aquela poca Georg havia assumido com maior determinao o negcio, bem como tudo o mais. Talvez o pai, enquanto a me era viva, por querer fazer valer s o seu prprio ponto de vista na firma, o tivesse impedido de exercer uma atividade pessoal efetiva; talvez o pai, desde a morte da me, embora ainda continuasse traba-lhando no estabelecimento, tivesse ficado mais retrado; talvez o que era at muito provvel acasos felizes houvessem desempenhado um papel muito mais impor-tante; fosse como fosse, porm, nesses dois anos a firma tinha se desenvolvido de um modo totalmente inespera-do, fora preciso dobrar o pessoal, o movimento havia quintuplicado e sem dvida se estava na iminncia de um novo avano. Mas o amigo no fazia ideia dessa mu-dana. anteriormente talvez pela ltima vez naquela carta de psames tinha querido convencer Georg a emigrar para a rssia, estendendo-se sobre as perspecti-vas que existiam em so Petersburgo justamente para o ramo comercial de Georg. as cifras desapareciam diante do volume que os negcios de Georg tinham alcanado. Mas este no havia sentido vontade alguma de escrever ao amigo sobre seus xitos comerciais, e caso o tivesse

  • 32 essencial franz kafka

    feito agora, em retrospecto, isso realmente teria adquiri-do uma aparncia estranha.

    assim sendo, Georg se limitava sempre a escrever ao amigo s sobre incidentes insignificantes, da ma-neira como estes se acumulam desordenadamente na lembrana, quando se reflete sobre eles num domingo tranquilo. ele no pretendia seno deixar inalterada a imagem que o amigo, no decorrer do longo intervalo, tinha feito da cidade natal e qual se havia conforma-do. aconteceu assim que Georg, em cartas bem distan-tes uma da outra, anunciou por trs vezes o noivado de uma pessoa sem importncia com uma moa igual-mente sem importncia, at que o amigo, na realidade contra as intenes de Georg, comeou a se interessar por essa ocorrncia notvel.

    Mas Georg preferia escrever-lhe sobre coisas como essa a admitir que ele prprio tinha ficado noivo, um ms atrs, da senhorita frieda Brandenfeld, uma jovem de famlia bem situada. Muitas vezes conversou com a noiva sobre esse amigo e a situao peculiar da corres-pondncia que mantinha com ele.

    ento ele no vir de modo algum para o nosso casamento dizia ela. e eu tenho o direito de conhe-cer todos os seus amigos.

    no quero perturb-lo respondia Georg. en-tenda bem, provvel que ele viesse, pelo menos o que acredito; mas iria se sentir forado e prejudicado, talvez ficasse com inveja de mim; e certamente insatisfeito e incapaz de pr de lado essa insatisfao, regressaria so-zinho. sozinho voc sabe o que isso?

    sim, eu sei, mas ele no pode ficar sabendo do nosso casamento de outra maneira?

    seja como for, isso eu no posso evitar; mas, vi-vendo como vive, improvvel.

    se voc tem amigos assim, Georg, no devia ter ficado noivo.

  • o veredicto 33

    Bem, a culpa de ns dois; mas mesmo agora eu no queria que as coisas fossem dif