Franz kafka-metamorfose

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  • 1. www.nead.unama.brUniversidade da AmazniaA Metamorfosede Franz KafkaNEAD NCLEO DE EDUCAO A DISTNCIAAv. Alcindo Cacela, 287 Umarizal CEP: 66060-902 Belm Par Fones: (91) 210-3196 / 210-3181www.nead.unama.br E-mail: uvb@unama.br1

2. www.nead.unama.brA Metamorfosede Franz KafkaCaptulo INuma manh, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregrio Samsa deu porsi na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, toduro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabea, divisou oarredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o quala colcha dificilmente mantinha a posio e estava a ponto de escorregar.Comparadas com o resto do corpo, as inmeras pernas, que eram miseravelmentefinas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos.Que me aconteceu ? pensou. No era nenhum sonho. O quarto, um vulgarquarto humano, apenas bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre asquatro paredes que lhe eram familiares. Por cima da mesa, onde estava deitado,desembrulhada e em completa desordem, uma srie de amostras de roupas: Samsaera caixeiro-viajante, estava pendurada a fotografia que recentemente recortara deuma revista ilustrada e colocara numa bonita moldura dourada. Mostrava umasenhora, de chapu e estola de peles, rigidamente sentada, a estender aoespectador um enorme regalo de peles, onde o antebrao sumia! Gregrio desviouento a vista para a janela e deu com o cu nublado ouviam-se os pingos dechuva a baterem na calha da janela e isso o fez sentir-se bastante melanclico. Noseria melhor dormir um pouco e esquecer todo este delrio? cogitou. Mas eraimpossvel, estava habituado a dormir para o lado direito e, na presente situao,no podia virar-se. Por mais que se esforasse por inclinar o corpo para a direita,tornava sempre a rebolar, ficando de costas. Tentou, pelo menos, cem vezes,fechando os olhos, para evitar ver as pernas a debaterem-se, e s desistiu quandocomeou a sentir no flanco uma ligeira dor entorpecida que nunca antesexperimentara. Oh, meu Deus, pensou, que trabalho to cansativo escolhi! Viajar,dia sim, dia no. um trabalho muito mais irritante do que o trabalho do escritriopropriamente dito, e ainda por cima h ainda o desconforto de andar sempre aviajar, preocupado com as ligaes dos trens, com a cama e com as refeiesirregulares, com conhecimentos casuais, que so sempre novos e nunca se tornamamigos ntimos. Diabos levem tudo isto! Sentiu uma leve comicho na barriga;arrastou-se lentamente sobre as costas, mais para cima na cama, de modo aconseguir mexer mais facilmente a cabea, identificou o local da comicho, queestava rodeado de uma srie de pequenas manchas brancas cuja natureza nocompreendeu no momento, e fez meno de tocar l com uma perna, masimediatamente a retirou, pois, ao seu contato, sentiu-se percorrido por um arrepiogela- do. Voltou a deixar-se escorregar para a posio inicial. Isto de levantar cedo,pensou, deixa a pessoa estpida. Um homem necessita de sono. H outroscomerciantes que vivem como mulheres de harm. Por exemplo, quando volto parao hotel, de manh, para tomar nota das encomendas que tenho, esses se limitam asentar-se mesa para o pequeno almoo. Eu que tentasse sequer fazer isso com omeu patro: era logo despedido. De qualquer maneira, era, capaz de ser bom paramim quem sabe? Se no tivesse de me agentar, por causa dos meus pais, hmuito tempo que me teria despedido; iria ter com o patro e lhe falar exatamente oque penso dele. Havia de cair ao comprido em cima da secretria! Tambm um2 3. www.nead.unama.brhbito esquisito, esse de se sentar a uma secretria em plano elevado e falar parabaixo para os empregados, tanto mais que eles tm de aproximar-se bastante,porque o patro ruim de ouvido. Bem, ainda h uma esperana; depois de tereconomizado o suficiente para pagar o que os meus pais lhe devem o que develevar outros cinco ou seis anos , fao-o, com certeza. Nessa altura, vou me libertarcompletamente. Mas, para agora, o melhor me levantar, porque o meu trem partes cinco. Olhou para o despertador, que fazia tique-taque na cmoda. Pai do Cu! pensou. Eram seis e meia e os ponteiros moviam-se em silncio, at passava dameia hora, era quase um quarto para as sete. O despertador no teria tocado? Dacama, via-se que estava corretamente regulado para as quatro; claro que devia tertocado. Sim, mas seria possvel dormir sossegadamente no meio daquele barulhoque trespassava os ouvidos? Bem, ele no tinha dormido sossegadamente; noentanto, aparentemente, se assim era, ainda devia ter sentido mais o barulho. Masque faria agora? o prximo trem saa s sete; para o apanhar tinha de correr comoum doido, as amostras ainda no estavam embrulhadas e ele prprio no se sentiaparticularmente fresco e ativo. E, mesmo que apanhasse o trem, no conseguiriaevitar uma reprimenda do chefe, visto que o porteiro da firma havia de ter esperadoo trem das cinco e h muito teria comunicado a sua ausncia. O porteiro era uminstrumento do patro, invertebrado e idiota. Bem, suponhamos que dizia que estavadoente? Mas isso seria muito desagradvel e pareceria suspeito, porque, durantecinco anos de emprego, nunca tinha estado doente. O prprio patro certamente irial a casa com o mdico da Previdncia, repreenderia os pais pela preguia do filho eporia de parte todas as desculpas, recorrendo ao mdico da Previdncia, que,evidentemente, considerava toda a humanidade um bando de falsos doentesperfeitamente saudveis. E enganaria assim tanto desta vez? Efetivamente,Gregrio sentia-se bastante bem, parte uma sonolncia que era perfeitamentesuprflua depois de um to longo sono, e sentia-se mesmo esfomeado. medida que tudo isto lhe passava pela mente a toda a velocidade, sem sercapaz de resolver a deixar a cama o despertador acabava de indicar um quartopara as sete, ouviram-se pancadas cautelosas na porta que ficava por detrs dacabeceira da cama. Gregrio disse uma voz, que era a da me, um quarto para as sete.No tem de apanhar o trem?Aquela voz suave! Gregrio teve um choque ao ouvir a sua prpria vozresponder-lhe, inequivocamente a sua voz, certo, mas com um horrvel epersistente guincho chilreante como fundo sonoro, que apenas conservava a formadistinta das palavras no primeiro momento, aps o que subia de tom, ecoando emtorno delas, at destruir-lhes o sentido, de tal modo que no podia ter-se a certezade t-las ouvido corretamente. Gregrio queria dar uma resposta longa, explicandotudo, mas, em tais circunstncias, limitou-se a dizer: Sim, sim, obrigado, me, j vou levantar.A porta de madeira que os separava devia ter evitado que a sua mudana devoz fosse perceptvel do lado de fora, pois a me contentou-se com esta afirmao,afastandose rapidamente. Esta breve troca de palavras tinha feito os outrosmembros da famlia notarem que Gregrio estava ainda em casa, ao contrrio do 3 4. www.nead.unama.brque esperavam, e agora o pai batia a uma das portas laterais, suavemente, emboracom o punho. Gregrio, Gregrio chamou , o que voc tem?E, passando pouco tempo depois, tornou a chamar, com voz mais firme: Gregrio! Gregrio!Junto da outra porta lateral, a irm chamava, em tom baixo e quaselamentoso: Gregrio? No se sente bem? Precisa de alguma coisa?Respondeu a ambos ao mesmo tempo: Estou quase pronto e esforou-se o mximo por que a voz soasse tonormal quanto possvel, pronunciando as palavras muito claramente e deixandograndes pausas entre elas. Assim, o pai voltou ao breve almoo, mas a irmsegredou: Gregrio, abre esta porta, anda. Ele no tencionava abrir a porta e sentia-se grato ao prudente hbito queadquirira em viagem de fechar todas as portas chave durante a noite, mesmo emcasa. A sua inteno imediata era levantar-se silenciosamente sem serincomodado, vestir-se e, sobretudo, tomar o breve almoo, e s depois estudar quemais havia a fazer, dado que na cama, bem o sabia, as suas meditaes nolevariam a qualquer concluso sensata. Lembrava-se de muitas vezes ter sentidopequenas dores enquanto deitado, provavelmente causadas por posiesincmodas, que se tinham revelado puramente imaginrias ao levantar-se, e ansiavafortemente por ver as iluses desta manh desfazerem-se gradualmente. No tinhaa menor dvida de que a alterao da sua voz outra coisa no era que o prennciode um forte resfriado, doena permanente dos caixeiros-viajantes. Libertar-se da colcha era tarefa bastante fcil: bastava-lhe inchar um pouco ocorpo e deix-la cair por si. Mas o movimento seguinte era complicado,especialmente devido sua invulgar largura. Precisaria de braos e mos paraerguer-se; em seu lugar, tinha apenas as inmeras perninhas, que no cessavam deagitar-se em todas as direes e que de modo nenhum conseguia controlar. Quandotentou dobrar uma delas, foi a primeira a esticar-se, e, ao conseguir finalmente quefizesse o que ele queria, todas as outras pernas abanavam selvaticamente, numaincmoda e intensa agitao. Mas de que serve ficar na cama assim sem fazernada, perguntou Gregrio a si prprio. Pensou que talvez conseguisse sair da cama deslocando em primeiro lugar aparte inferior do corpo, mas esta, que no tinha visto ainda e da qual no podia teruma idia ntida, revelou-se difcil de mover, to lentamente se deslocava; quando,finalmente, quase enfurecido de contrariedade, reuniu todas as foras e deu umtemerrio impulso, tinha calculado mal a direo e embateu pesadamente naextremidade inferior da cama, revelando-lhe a dor aguda que sentiu serprovavelmente aquela, de momento, a parte mais sensvel do corpo. 4 5. www.nead.unama.br Visto isso, tentou extrair primeiro a parte superior, deslizando cuidadosamentea cabea para a borda da cama. Descobriu ser fcil e, apesar da sua largura evolume, o corpo acabou por acompanhar lentamente o movimento da cabea. Aoconseguir, por fim, mover a cabea at borda da cama, sentiu-se demasiadoassustado para prosseguir o avano, dado que, no fim de contas caso se deixassecair naquela posio, s um milagre o salvaria de magoar a cabea. E, custasse oque custasse, no podia perder os sentidos nesta altura, precisamente nesta altura