Franz Kafka - A Metamorfose

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Text of Franz Kafka - A Metamorfose

  • A MetamorfoseFranz Kafka

  • Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)(Biblioteca Energia, SC, Brasil)

    ndices para catlogo sistemtico:1. Fico: Literatura alem 833

    Ttulo Original: Die VerwandlungEscrito por Franz Kafka

    Publicado em Leipzig pelaEditora Kurt Wolf, em 1915

    Ttulo Traduzido: A MetamorfoseTraduo: Ramon Nunes RebeloPublicado em Florianpolis pelaEditora FEAN Ltda., em 2011

    1 edio, outubro de 2011.

    ISBN: 978-0-7334-2609-4

    Impresso no Brasil.

    Atendimento ao consumidor:Rua Saldanha Marinho, 51 Centro

    CEP: 88010-450 Florianpolis, Santa Catarinawww.energia.com.br/editorafean

    e-mail: editorafean@energia.com.brFone/Fax: +55 (48) 2107-5898

    Kafka, Franz (1883-1924)A Metamorfose / Franz Kafka ; traduo : Ramon Nunes Rebelo. Florianpolis : Editora FEAN, 2011.

    Ttulo original: Die VerwandlungISBN: 978-0-7334-2609-4

    1. Fico alem I. Kafka, Fraz II. Ttulo

    07-2290 CDD-833

  • Sumrio

    Capitulo I ..........................................................................................................5Capitulo II ....................................................................................................... 25Capitulo III ..................................................................................................... 45

  • Capitulo I

  • A MetAMorfose

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    N uma manh, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregrio Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco in-seto. Estava deitado sobre o dorso, to duro que parecia re-vestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabea, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posio e estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as inmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos.

    Que me aconteceu ? pensou. No era nenhum sonho. O quarto, um vulgar quarto humano, apenas bastante acanhado, ali esta-va, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares. Por cima da mesa, onde estava deitado, desembrulhada e em completa desordem, uma srie de amostras de roupas: Samsa era caixeiro-viajan-te, estava pendurada a fotografia que recentemente recortara de uma revista ilustrada e colocara numa bonita moldura dourada. Mostrava uma senhora, de chapu e estola de peles, rigidamente sentada, a esten-der ao espectador um enorme regalo de peles, onde o antebrao sumia! Gregrio desviou ento a vista para a janela e deu com o cu nublado ouviam-se os pingos de chuva a baterem na calha da janela e isso o fez sentir-se bastante melanclico. No seria melhor dormir um pouco e esquecer todo este delrio? cogitou. Mas era impossvel, estava ha-bituado a dormir para o lado direito e, na presente situao, no podia

  • 8Franz Kafka

    virar-se. Por mais que se esforasse por inclinar o corpo para a direita, tornava sempre a rebolar, ficando de costas. Tentou, pelo menos, cem vezes, fechando os olhos, para evitar ver as pernas a debaterem-se, e s desistiu quando comeou a sentir no flanco uma ligeira dor entorpecida que nunca antes experimentara. Oh, meu Deus, pensou, que trabalho to cansativo escolhi! Viajar, dia sim, dia no. um trabalho muito mais irritante do que o trabalho do escritrio propriamente dito, e ainda por cima h ainda o desconforto de andar sempre a viajar, preocupado com as ligaes dos trens, com a cama e com as refeies irregulares, com conhecimentos casuais, que so sempre novos e nunca se tornam amigos ntimos. Diabos levem tudo isto! Sentiu uma leve comicho na barriga; arrastou-se lentamente sobre as costas, mais para cima na cama, de modo a conseguir mexer mais facilmente a cabea, identifi-cou o local da comicho, que estava rodeado de uma srie de pequenas manchas brancas cuja natureza no compreendeu no momento, e fez meno de tocar l com uma perna, mas imediatamente a retirou, pois, ao seu contato, sentiu-se percorrido por um arrepio gelado. Voltou a deixar-se escorregar para a posio inicial. Isto de levantar cedo, pen-sou, deixa a pessoa estpida. Um homem necessita de sono. H outros comerciantes que vivem como mulheres de harm. Por exemplo, quan-do volto para o hotel, de manh, para tomar nota das encomendas que tenho, esses se limitam a sentar-se mesa para o pequeno almoo. Eu que tentasse sequer fazer isso com o meu patro: era logo despedido. De qualquer maneira, era, capaz de ser bom para mim quem sabe? Se no tivesse de me agentar, por causa dos meus pais, h muito tempo que me teria despedido; iria ter com o patro e lhe falar exatamente o que penso dele. Havia de cair ao comprido em cima da secretria! Tambm um hbito esquisito, esse de se sentar a uma secretria em plano elevado e falar para baixo para os empregados, tanto mais que eles tm de aproximar-se bastante, porque o patro ruim de ouvido. Bem, ainda h uma esperana; depois de ter economizado o suficiente para pagar o que os meus pais lhe devem o que deve levar outros cinco ou seis anos , fao-o, com certeza. Nessa altura, vou me libertar

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    completamente. Mas, para agora, o melhor me levantar, porque o meu trem parte s cinco.

    Olhou para o despertador, que fazia tique-taque na cmoda. Pai do Cu! pensou. Eram seis e meia e os ponteiros moviam-se em silncio, at passava da meia hora, era quase um quarto para as sete. O despertador no teria tocado? Da cama, via-se que estava corretamente regulado para as quatro; claro que devia ter tocado. Sim, mas seria pos-svel dormir sossegadamente no meio daquele barulho que trespassava os ouvidos? Bem, ele no tinha dormido sossegadamente; no entanto, aparentemente, se assim era, ainda devia ter sentido mais o barulho. Mas que faria agora? o prximo trem saa s sete; para o apanhar tinha de correr como um doido, as amostras ainda no estavam embrulhadas e ele prprio no se sentia particularmente fresco e ativo. E, mesmo que apanhasse o trem, no conseguiria evitar uma reprimenda do chefe, visto que o porteiro da firma havia de ter esperado o trem das cinco e h muito teria comunicado a sua ausncia. O porteiro era um instrumen-to do patro, invertebrado e idiota. Bem, suponhamos que dizia que estava doente? Mas isso seria muito desagradvel e pareceria suspeito, porque, durante cinco anos de emprego, nunca tinha estado doente. O prprio patro certamente iria l a casa com o mdico da Previdncia, repreenderia os pais pela preguia do filho e poria de parte todas as des-culpas, recorrendo ao mdico da Previdncia, que, evidentemente, con-siderava toda a humanidade um bando de falsos doentes perfeitamente saudveis. E enganaria assim tanto desta vez? Efetivamente, Gregrio sentia-se bastante bem, parte uma sonolncia que era perfeitamente suprflua depois de um to longo sono, e sentia-se mesmo esfomeado.

    medida que tudo isto lhe passava pela mente a toda a velocida-de, sem ser capaz de resolver a deixar a cama o despertador acabava de indicar um quarto para as sete, ouviram-se pancadas cautelosas na porta que ficava por detrs da cabeceira da cama.

    Gregrio disse uma voz, que era a da me, um quarto para as sete. No tem de apanhar o trem?

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    Aquela voz suave! Gregrio teve um choque ao ouvir a sua pr-pria voz responder-lhe, inequivocamente a sua voz, certo, mas com um horrvel e persistente guincho chilreante como fundo sonoro, que apenas conservava a forma distinta das palavras no primeiro momento, aps o que subia de tom, ecoando em torno delas, at destruir-lhes o sentido, de tal modo que no podia ter-se a certeza de t-las ouvido corretamente. Gregrio queria dar uma resposta longa e a assim poder explicar tudo, mas, nas circunstncias em que ele se econtrava, acabou limitando-se a dizer:

    Sim, sim, obrigado, me, j vou levantar.

    A porta de madeira que os separava devia ter evitado que a sua mudana de voz fosse perceptvel do lado de fora, pois a me se conten-tou com esta afirmao, afastando-se rapidamente. Esta breve troca de palavras tinha feito os outros membros da famlia notarem que Greg-rio estava ainda em casa, o que deixou todos com muita preocupao. Isso fez com que seu pai batesse a uma das portas laterais, suavemente, embora com o punho.

    Gregrio, Gregrio chamou , o que voc tem?

    Sem resposta, passando pouco tempo depois, tornou a chamar, desta vez com voz mais firme, esperando obter de seu filho uma respos-ta positiva:

    Gregrio! Gregrio!

    Junto da outra porta lateral a irm tambm o passou o chamar e em tom baixo, quase lamentoso, ela insistia e tentar ver se o Gregrio estava bem:

    Gregrio? No se sente bem? Precisa de alguma coisa?

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    Respondeu a ambos ao mesmo tempo:

    Estou quase pronto e esforou-se o mximo por que a voz soasse to normal quanto possvel, pronunciando as palavras muito claramente e deixando grandes pausas entre elas. Assim, o pai voltou ao breve almoo, mas a irm segredou:

    Gregrio, abre esta porta, anda.

    Ele no tencionava abrir a porta e sentia-se grato ao prudente h-bito que adquirira em viagem de fechar todas as portas chave durante a noite, mesmo em casa.

    A sua inteno imediata era levantar-se em silncio sem ser inco-modado, vestir-se e, tomar o breve almoo, e s depois estudar que mais havia a fazer, dado que na cama, bem o sabia, as suas meditaes no levariam a qualquer concluso sensata. Lembrava-se de muitas vezes ter sentido pequenas dores enquanto deitado, provavelmente causadas por posies incmodas, que se tinham revelado puramente imaginrias ao levantar-se, e ansiava fortemente por ver as iluses desta manh desfaze-rem-se gradualmente. No tinha a menor dvida de que a alterao da sua voz outra coisa no era que o prenncio de um forte resfriado, do-ena permanente dos caixeiros