GRADES INVISÍVEIS: AS CARACTERÍSTICAS ?· 2 hellen virginia da silva alves grades invisÍveis: as…

  • View
    218

  • Download
    0

Embed Size (px)

Transcript

  • UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDNIA - UNIR

    NCLEO DE CINCIAS EXATAS E DA TERRA - NCET

    DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA DGEO

    PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM GEOGRAFIA

    HELLEN VIRGINIA DA SILVA ALVES

    GRADES INVISVEIS: AS CARACTERSTICAS SCIOESPACIAIS DA

    PRISO A PARTIR DA PERCEPO DAS MULHERES

    ENCARCERADAS NA PENITENCIRIA FEMININA DE RONDNIA

    TOMO II

    PORTO VELHO RO 2017

  • 2

    HELLEN VIRGINIA DA SILVA ALVES

    GRADES INVISVEIS: AS CARACTERSTICAS SCIOESPACIAISDA

    PRISO A PARTIR DA PERCEPO DAS MULHERES

    ENCARCERADAS NA PENITENCIRIA FEMININA DE RONDNIA

    Dissertao apresentada como requisito para obteno de ttulo de Mestra junto ao Programa de Ps-Graduao em Geografia da Universidade Federal de Rondnia. Orientadora: Profa. Dra. Maria das Graas Silva Nascimento Silva Linha da Pesquisa: Territrio, Representaes e Polticas de Desenvolvimento TRSD.

    PORTO VELHO RO 2017

  • 3

    Sumrio

    APRESENTAO ....................................................................................................... 4

    1. Carla Cristina: a mezinha .................................................................................... 6

    2. Esperana: mulher prestativa e bola pra frente ................................................ 11

    3. Mirtes: a cabeleireira vaidosa ............................................................................. 16

    4. Carla: a faz-tudo da famlia ................................................................................. 24

    5. Sofia: uma jovem mulher com sede de independncia....................................... 44

    6. Alegria: uma menina-mulher carente de amor, respeito e estrutura familiar....... 61

    7. Guerreira: uma mulher forte e de postura constantemente defensiva, mas que se

    desarma ao falar da famlia. ...................................................................................... 74

  • 4

    APRESENTAO

    O presente volume constitudo, exclusivamente, por sete histrias de vida de

    mulheres encarceradas na Penitenciria Feminina Estadual de Rondnia PENFEM.

    As histrias de vida aqui apresentadas foram apreendidas a partir de

    entrevistas de histria oral e passaram pelos processos de transcrio, textualizao

    e transcriao. Aps realizados estes procedimentos, surgem as narrativas que o

    leitor aqui encontrar, estas no seguem a estrutura tradicional de perguntas e

    respostas, pois so fluidas e contnuas. Os dilogos estabelecidos em forma de

    perguntas, respostas, observaes e comentrios so apresentados em forma de

    narrativa contnua. O texto foi trabalhado com a inteno de preservar e destacar os

    momentos sensveis do dilogo, bem como comunicar as experincias vivenciadas

    por estas mulheres em estgios distintos da sua existncia: a vida antes do crcere,

    a vida durante o crcere e as expectativas para o futuro. Nesta perspectiva, destacam-

    se, e se torna possvel perceber com maior clareza, as ideias, representaes sociais

    e questes relacionadas ao espao, lugar e as relaes de gnero estabelecidas em

    cada uma das etapas de vida mencionadas e dessa forma podemos perceber como

    estas experincias relacionam-se com a percepo do espao e do lugar que as

    mulheres ocupam (ou no) neste ambiente.

    Buscamos preservar a estrutura narrativa original, resguardando os

    movimentos do discurso que remetem aos movimentos da memria, motivo pelo qual

    possvel perceber em alguns momentos viagens ao passado que rapidamente se

    transformam em passeios pelo presente e vislumbram o futuro.

    As intervenes realizadas referem-se adequao vocabular da linguagem

    coloquial para a norma culta, por tratar-se de um texto acadmico. Contudo, tivemos

    o cuidado em preservar algumas expresses que representam a individualidade do

    sujeito, ou seja, grias, expresses regionais e prprias do ambiente carcerrio, ainda

    que de forma mnima.

    Nos concentramos em excluir as repeties e os vcios de linguagem coma

    finalidade de tornar a narrativa mais fluida e a leitura mais agradvel.

    Em comum acordo com as mulheres que contriburam com a pesquisa,

    optamos em preservar a identidade das mesmas. Os nomes aqui apresentados so

    fictcios, cabendo elas a livre escolha da forma como gostariam de ser reconhecidas.

  • 5

    As intervenes realizadas ocorreram mediante os preceitos da tica e foram

    validadas pelas mulheres que corajosamente aceitaram compartilhar suas histrias

    de vida conosco, apresentando um pouco das subjetividades presentes neste

    universo que para muitos parece ser quase impenetrvel; o universo carcerrio.

  • 6

    1. Carla Cristina: a mezinha

    Fotografia 1: Carla Cristina durante a criao de um mapa mental.

    Fonte: ALVES, Hellen Virginia da Silva. Acervo pessoal. 2016.

    Enquanto eu viver, quero que ela e meu filho vejam que sou uma boa me e

    no quero que Deus permita jamais que eles venham parar num lugar desses.

    Eu morava com a minha me quando meu pai era vivo. Ele trabalhava no

    garimpo e batia muito na minha me. Minha me trabalhava escondida dele. A

    mataram ele no garimpo e minha me ficou com cinco crianas pra cuidar.

    Ns estudvamos, s eu que sempre fui mais danada que os outros. Minha

    me sempre deu o melhor dela pra nos manter, trabalhava duro pra no deixar a gente

    29 anos.

    Presa, reincidente no artigo 33; trfico de drogas.

    Natural de Porto Velho - Rondnia, residia no bairro Marcos Freire, zona leste da

    capital.

    Grvida de oito meses.

    Esperava ansiosamente o nascimento de seu filho Messias, apesar de todas as

    adversidades impostas pela cadeia.

  • 7

    passar fome. Tudo que ela podia fazer ela fez, s que eu arrumei uns coleguinhas e

    com dez anos eu comecei a ver meus colegas fumando maconha e fiquei na

    curiosidade... A um dia um menino perguntou se eu poderia levar uma biribinha pra

    ele ali que ele me dava cinco reais. Eu falei: Eu quero. A eu fui, levei, s que quando

    eu recebi dinheiro preferi trocar pra experimentar o que era a maconha. A minha me

    comeou a ter dor de cabea comigo, eu comecei a fugir de casa, comecei a levar

    polcia em casa e minha me comeou a sofrer, ela comeou a chorar... Da ela

    arranjou um rapaz, que o esposo dela at hoje. Hoje ela casada e tem dois filhos

    com ele. Foi meu padrasto que cuidou da gente.

    Eu fui a primeira a sair de casa, minhas outras irms todas so trabalhadoras,

    so casadas, tem sua famlia...

    Eu sa de casa porque conheci o pai da minha filha, eu tinha dezoito anos. Ele

    foi preso e eu engravidei dentro da cadeia. No tive oportunidade de conviver com

    ele. Eu fui embora de casa, porque minha me mandou escolher entre ela ou ele e eu

    preferi ele. E hoje eu sofro as consequncias da minha escolha. Minha me avisou

    que se eu fosse por esse caminho eu ia quebrar a cara e realmente eu quebrei... Mas

    isso t servindo como lio de vida pra mim.

    Ele nunca mexeu com droga, foi preso por ter matado umas pessoas, foi

    acusado de latrocnio. Em dezembro, depois de onze anos, eu casei com ele. Agora

    eu estou grvida de novo dele e eu espero mudar de vida.

    Eu j mudei cem por cento pra melhor porque quando eu vim presa pela

    primeira vez minha filha ainda era pequena. Ela ficou na casa da minha sogra, ento

    ela sofreu muito. Quando eu sa, pensei que eu no ia mais fazer nada de errado, e

    decidi correr atrs de trabalho, mas no consegui. Foi a que eu comecei a discutir

    com a minha sogra, ela me xingava e eu xingava ela, ela vinha querendo me bater,

    eu empurrava ela. Eu era muito estressada mermo... A foi quando ela falou que era

    pra mim ir embora, comeou a me xingar. Nesse tempo meu relacionamento com

    ele tambm no estava indo muito bem. Ento decidi ir atrs de procurar uma casa,

    fique sabendo que estava tendo inscrio do Minha Casa Minha vida l na Talism.

    A eu fui atrs, correr atrs, eu falei: Quer saber, eu vou atrs duma casa pra mim

    morar!

    Eu passei trs dias indo e no conseguia nada. Quando chegou no terceiro dia

    eu consegui. Eu j estava com o olho fundo, parecia que eu estava noites e noites

    acordada. Eu fiz a inscrio e agora eu recebi a notcia que eu ganhei a casa e agora

  • 8

    eu tenho pra onde ir, tenho onde ficar com a minha filha, o meu filho. Se Deus quiser

    e ele sair agora, ns vamos morar juntos e criar nossos filhos. Elevai trabalhar, eu

    tambm porque eu vou fazer trinta anos e eu no quero viver nessa vida. Eu sei que

    a minha filha est sofrendo e eu tambm estou sofrendo muito por causa dessa

    situao. Eu estou gravida, eu no imaginava que ia ficar grvida aqui nesse lugar.

    S eu sei o que eu estou passando nesse momento aqui dentro. Apesar de tudo minha

    me no vem me ver... Minha famlia no liga pra mim... Mas minha sogra t a comigo,

    me acompanhando, me ajudando no que pode... Eu agradeo muito ela e quando

    eu sair daqui eu quero agradecer a ela tudo que ela fez por mim at hoje ...

    Eu vim para aqui porque quando eu sa da primeira vez que fui presa eu fui

    atrs de trabalho, mas no conseguia. O nico trabalho que consegui foi pelo convnio

    com a SEJUS1durante o semiaberto. Eu trabalhava no IML2, ficava todo o ms

    trabalhando e recebia s seiscentos reais. Eu achei pouco, da fiz uma entrevista na

    SUBWAY, mas no me aceitaram. Ligaram pra eu ir l e eu fiz a entrevista e no

    passei. O rapaz que fez a entrevista