Informações e análises sobre comércio e desenvolvimento ...· Organização Mundial do Comércio

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As coalizes nos bastidores da Ministerial da OMCBRASIL

Uma longa (e frustrante) jornada

CAIRNS

O Grupo Cairns na OMC: pragmticos preocupados

AMIGOS DO COMRCIO ELETRNICO

Uma agenda de desenvolvimento digital para o sculo XXI

B R I D G E S N E T W O R K

PONT ESInformaes e anlises sobre comrcio e desenvolvimento sustentvel

VOLUME 13, NMERO 7 - SETEMBRO

BRASIL4 Uma longa (e frustrante) jornada Pedro Camargo Neto

CAIRNS8 O Grupo Cairns na OMC: pragmticos preocupados Frances Lisson

G3313 Buenos Aires: o momento do Mecanismo de Salvaguarda Especial Agrcola Carlos Surez Cornejo

AMIGOS DO COMRCIO ELETRNICO16 Uma agenda de desenvolvimento digital para o sculo XXI lvaro Cedeo Molinari

GRUPO LATINO20 Negociaes sobre subsdios pesca na OMC Josefina del Prado

24 Publicaes

PONTES Informaes e anlises sobre comrcio e desenvolvimento sustentvel em lngua portuguesa.

ICTSDInternational Centre for Trade and Sustainable DevelopmentGenebra, Sua

EDITOR EXECUTIVORicardo Melndez-Ortiz

EDITOR CHEFE Andrew Crosby

COORDENAO Fabrice Lehmann

EQUIPE EDITORIALManuela Trindade VianaBruno Varella Miranda Daniela Alfaro Rodrigo Fagundes Cezar

CONSULTORA EDITORIAL Michelle Ratton Sanchez Badin

DESIGN GRFICOFlarvet

LAYOUTOleg Smerdov

Se deseja contatar a equipe editorial do Pontes, escreva para: pontes@ictsd.ch

O PONTES recebe com satisfao seus comentrios e propostas de artigo. O guia editorial pode ser solicitado junto nossa equipe.

PONT ESVOLUME 13, NMERO 7 - SETEMBRO

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PONTES | VOLUME 13, NMERO 7 - SETEMBRO 3

O Pontes de setembro abre espao a algumas das principais coalizes atuantes na Organizao Mundial do Comrcio (OMC). Qual a natureza da ao coletiva no sistema multilateral de comrcio? As organizaes nascem em resposta a um desafio claro. No final dos anos 1940, o Acordo Geral sobre Tarifas e Comrcio (GATT, sigla em ingls) foi criado com o objetivo de regulamentar uma fonte de interminveis conflitos nas dcadas anteriores: o intercmbio de bens industriais. A favor da iniciativa, estava um emaranhado de regras obsoletas, espera de adequao nova ordem mundial. Incentivado por um ncleo de pases com estruturas econmicas semelhantes, o GATT no tardou em colher resultados.

Materializadas as conquistas de suas primeiras rodadas de negociao, duas questes se impunham: conviria expandir um clube at ento seleto, absorvendo o mundo em desenvolvimento? Valeria a pena adicionar novos temas ao debate? Em ambos os casos, os integrantes do GATT responderam afirmativamente. Para alm disso, redobraram a aposta ao fomentar a criao da OMC.

Desde o fim da dcada de 1980, os membros do sistema multilateral de comrcio lidam com o desafio de costurar um amplo consenso entre pases com trajetrias histricas e preferncias diversas. Esto impedidos, porm, de adotar estratgias unilaterais. De forma interessante, o desfecho de disputas no sistema GATT/OMC no depende apenas da fora relativa das partes negociadoras. Acima de tudo, o xito potencial de uma agenda em Genebra medido por sua legitimidade.

Nesse sentido, o estabelecimento de coalizes tem servido a mltiplas funes. Em primeiro lugar, aes coletivas agrupam preferncias semelhantes em torno de um discurso coerente. A coordenao tambm acelera o aprendizado de membros recm incorporados s prticas do sistema multilateral de comrcio, reforando o seu senso de pertencimento ao regime. Por fim, as coalizes contribuem para a resilincia dos princpios da OMC. Afinal, o alinhamento de posies exige a construo de um discurso alinhado com os princpios do regime que possibilita as negociaes.

Nas pginas a seguir, damos voz s coalizes da OMC. Ademais, o stimo nmero de 2017 do Pontes inicia um perodo de ampla cobertura da 11 Conferncia Ministerial da OMC. Nosso objetivo: oferecer a voc, prezado(a) leitor(a), contedos que auxiliem na compreenso do significado do evento em Buenos Aires. Ao longo dos prximos meses, sua participao ser mais importante do que nunca. Para tanto, reforamos o convite para que nos escreva um e-mail ou deixe um comentrio no site da publicao.

Esperamos que aprecie a leitura.

A Equipe Pontes

Coalizes: construindo legitimidade

mailto:pontes@ictsd.chhttp://www.ictsd.org/bridges-news/pontes/overview

PONTES | VOLUME 13, NMERO 7 - SETEMBRO 4

D epois de 32 anos, retorna para a Amrica do Sul uma reunio ministerial de negociaes de regras multilaterais de comrcio. A Rodada Uruguai teve incio em Punta del Este, em 1986, com a proposta principal de inserir o comrcio agrcola nas regras multilaterais do antigo Acordo Geral de Tarifas e Comrcio (GATT, sigla em ingls).

Talvez por ingenuidade, poca acreditvamos que tal tarefa seria possvel at mesmo chegamos a investir expectativas na promessa de subsdio zero, ento anunciada pelos Estados Unidos. Tambm aplaudimos a incluso do Brasil ao Grupo Cairns, liderado pela Austrlia. O Brasil estava longe de ser um grande exportador de bens agrcolas, e suas importaes de inmeros produtos eram significativas. O mundo era outro.

A Rodada estendeu-se por oito anos e culminou com a transformao do GATT na Organizao Mundial do Comrcio (OMC), avanando na consolidao do sistema de soluo de controvrsias e do multilateralismo.

Alm disso, em 1994, os negociadores assinaram dois acordos de interesse para o setor agrcola: o Acordo sobre Agricultura e o Acordo sobre Medidas Sanitrias e Fitossanitrias (SPS, sigla em ingls). Considerando que os subsdios e a abertura de mercados que constam no Acordo sobre Agricultura permanecem os mesmos desde aquela poca, plausvel argumentar que o referido texto cristalizou o status quo e representou um progresso apenas no sentido de evitar retrocessos.

Durante as negociaes, foram estabelecidos limites de valores em subsdios permitidos por pas (de-minimis). Ainda, os subsdios foram classificados segundo a sua capacidade de distorcer o comrcio as chamadas caixas vermelha, amarela, verde e azul. A negociao foi organizada em trs pilares: acesso a mercado, subsdios domsticos e subsdios exportao. Em matria de acesso a mercado, todas as barreiras foram transformadas em tarifas, e os fluxos existentes foram acomodados em cotas tarifrias.

Aos pases em desenvolvimento, foi garantido o status quo, dificultando assim o retrocesso. J os pases desenvolvidos obtiveram o Acordo sobre Direitos de Propriedade Intelectual relacionados ao Comrcio (TRIPS, sigla em ingls) e o Acordo Geral sobre Comrcio de Servios (GATS, sigla em ingls) estes sim, constituram um avano, mas para os pases desenvolvidos.

O progresso foi prometido para o futuro, com a incluso da clusula 20 no Acordo sobre Agricultura, que teoricamente reiniciaria a negociao agrcola no ano 2000. Contudo, tal clusula se mostrou irrelevante nas Conferncias Ministeriais de Cingapura (1996) e Seattle (1999), posto que o xito das tratativas depende da disposio dos dois lados em negociar.

Em 2001, a Rodada Doha lanou a Agenda para o Desenvolvimento, com boas intenes para o setor agrcola nos trs pilares da negociao. J na primeira Conferncia Ministerial da nova rodada em Cancn (2003), o impasse entre pases desenvolvidos e em desenvolvimento ficou evidente. O resultado: nenhum consenso. Foi a primeira atuao do chamado G20 agrcola, coalizo em que o Brasil teve importante participao. Na

BRASIL

Uma longa (e frustrante) jornada

Pedro Camargo Neto

Este artigo argumenta que as propostas que marcaram o histrico das negociaes agrcolas na OMC esto distantes dos interesses dos produtores do setor no Brasil. Considerando a proposta mais recente apresentada pelo governo brasileiro, o autor sugere que a expectativa desses produtores quanto 11 Conferncia Ministerial deve ser baixa.

PONTES | VOLUME 13, NMERO 7 - SETEMBRO 5

reunio seguinte, em Hong Kong (2005), houve consenso para uma declarao ministerial totalmente irrelevante. possvel afirmar que houve mais avanos em Cancn, com a exposio dos dissensos, do que em Hong Kong, com um consenso marcado por boas intenes, mas repleto de irrelevncia.

A reunio ministerial seguinte ocorreu em Genebra e foi marcada pelo descarrilamento da Rodada Doha. Foi uma grande perda de oportunidade. Falharam todos. O diretor-geral Pascal Lamy iniciou a negociao com um texto desbalanceado, muito mais favorvel aos pases desenvolvidos. O Brasil apoiou de imediato o texto, perdendo a oportunidade de liderar os pases em desenvolvimento. Por sua vez, os pases de menor desenvolvimento relativo (PMDRs) insistiram em regras de salvaguardas que representariam um retrocesso ao Acordo sobre Agricultura, antes mesmo de ter se consolidado como avano. O nimo mostrado no Qatar ruiu. O retorno na Conferncia Ministerial em Bali, em 2013, foi muito frustrante para o setor agrcola do Brasil. Nessa ocasio, no houve nenhum avano. Pelo contrrio, a ndia defendeu um retrocesso, ao buscar ampliar os subsdios permitidos desde que apresentados como estoques de segurana alimentar. E ainda quiseram que comemorssemos o resultado pela obteno de um acordo prioritrio para os pases desenvolvidos: o Acordo sobre Facilitao do Comrcio (TFA, sigla em ingls). Para completar o cenrio, a atuao do Brasil nas negociaes de Bali foi omissa nos temas agrcolas, colocando-se como facilitador de um consenso papel que caberia ao diretor-geral, e no ao pas. A Ministerial de Nairobi (2015) resultou com a surpresa do equacionamento do pilar subsdios diretos exportao. verdade que j no vinham sendo muito utilizados. Mais uma vez, o que o sistema multilateral de comrcio nos ofereceu foi a garantia de no haver retrocessos. E foi com a importante e essencial liderana do Brasil, que trazendo a Unio Europeia (UE), impu