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José D'assunção Barros - Musica Indígena

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Text of José D'assunção Barros - Musica Indígena

mSiCa iNdGeNa BRaSileiRa FiltRaGeNS e APROPRIAES HISTRICAS Jos D Assuno Barros*

Resumo Este artigo unindo a perspectiva historiogrfica e a perspectiva musicolgica busca examinar aspectos fundamentais da msica indgena brasileira, particularmente a sua dimenso social e a histria de sua apropriao e restrio pela cultura ocidental. Busca-se, sobretudo, refletir sobre a inadequao de abordagens que at a primeira metade do sculo XX e em alguns casos persistindo ainda hoje examinaram a prtica musical indgena a partir de critrios de escuta e de anotao exclusivamente calcados nos parmetros ocidentais. O texto intenta refletir sobre as distores que podem surgir com o deslocamento de uma determinada produo cultural para fora de seu contexto. Palavras-chave Aculturao; msica indgena; interao cultural.

abstract This article, uniting historiographical and musical perspectives, intends to examine fundamental aspects of Brazilian indigenous music, including the social dimension and the history of assimilation and restrictions imposed by the Western culture. It aims, above all, to reflect on the inadequacy of approachings which have examined the indigenous practical music based on criteria of listening and annotations exclusively cemented on Western parameters. This text is an attempt to reflect on the distortions that can arise from a dislocation of a specific cultural production outside of its context. Key-words Acculturation; Brazilian indigenous music; cultural interaction.

Proj. Histria, So Paulo, (32), p. 153-169, jun. 2006

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A sujeio de uma sociedade por outra sempre envolve problemas complexos no mbito da interao cultural. Nas posies extremas, existem os casos em que a sociedade conquistadora ou invasora, sendo em parte admiradora da sociedade vencida, assimila avidamente traos culturais daqueles que foram submetidos belicamente. Mas existem tambm os casos mais freqentes em que, considerando a si mesma como plenamente superior s populaes conquistadas, a sociedade invasora incorpora consciente ou inconscientemente um projeto de aniquilar a cultura dos dominados, de dilu-la na sua prpria cultura ou ainda um projeto de deixar que essa cultura sobreviva, mas apenas dentro de determinados limites extremamente restringidos e sob um determinado controle. Esses enfrentamentos culturais podem se dar sob o signo da hostilidade assumida ou do paternalismo, conforme o caso. O universo cultural das vrias sociedades indgenas que habitavam a regio sul-americana por ocasio da chegada dos europeus sofreu inmeras dilapidaes de um e de outro tipo. Alguns historiadores e antroplogos tm se dedicado precisamente a estudar essa dilapidao cultural, at mesmo com o intuito de poupar da aniquilao essa realidade cultural riqussima que a das sociedades indgenas. Aspectos que incluem a vida cotidiana, a cultura material, a mitologia e outros tm merecido estudos significativos. Mas talvez pela especificidade desse campo para cujo estudo so requeridos alguns conhecimentos de musicologia a msica dos ndios brasileiros nem sempre tem merecido a devida ateno dos historiadores. Neste artigo, procuraremos precisamente diminuir essa distncia entre a reflexo historiogrfica e a reflexo musicolgica, no intuito de examinar com maior clareza essa questo crucial para a formao da identidade brasileira. O objetivo inicial ser o de examinar os problemas de filtragem que se do quando o estudioso ocidental se esfora por perceber a msica indgena. Partiremos da lembrana que hoje j certamente lugar comum nos campos da antropologia e da histria de que a leitura de uma cultura por outra sempre traz consigo problemas de filtragem decorrentes do fato de que uma cultura impe quele que est nela inserido determinadas maneiras de ver e de olhar para as coisas, de escutar e de ouvir objetos sonoros, de produzir pensamentos em uma direo e no em outra. Um exemplo pode ser evocado antes de adentrarmos a especificidade da percepo de objetos sonoros e de produtos musicais de uma outra cultura. Pensemos, por exemplo, nas direes de visualidade que so impostas aos indivduos de determinada cultura. A histria das artes visuais no Ocidente mostra que homem ocidental aprendeu a ver em perspectiva. Tenho diante de mim um quadro em estilo clssico ou neoclssico onde esto representados dois homens afastados um do outro. Um deles est mais perto de mim como observador da cena. retratado por isso em tamanho maior. O outro, mais afastado154 Proj. Histria, So Paulo, (32), p. 153-169, jun. 2006

no espao em relao a esse mesmo ponto de observao, representado em tamanho menor. Esse artifcio da perspectiva, que pode ser acrescido de outros recursos, como o uso da arquitetura para reforar essa impresso de afastamento, constitui-se na verdade de um cdigo visual que os indivduos inseridos na cultura ocidental aprendem desde crianas. Aprende-se a olhar para as coisas em perspectiva. Essa maneira de olhar para uma figura um desenho, por exemplo no algo natural, mas na verdade cultural. Imaginemos agora que se colocou diante do mesmo quadro um indivduo inserido em outro sistema cultural que no desenvolve nos indivduos nele includos esse mesmo processo de leitura das representaes visuais. Esse novo indivduo, supondo que no tenha aprendido a ver em perspectiva, estar diante de duas figuras de homens de tamanhos diversificados que facilmente poder interpretar como as representaes de um gigante e de um ano. O seu olhar no se encaminha culturalmente para examinar a reduo no tamanho das figuras como ndices de afastamento no espao. Assim, diante de uma mesma representao visual, dois indivduos podero produzir leituras distintas, conforme a tbua de leituras que trazem consigo em decorrncia de sua insero em seu prprio meio cultural. Com os objetos sonoros ocorre, naturalmente, algo similar. Uma cultura j impe, necessariamente, queles que dela participam uma determinada maneira de ouvir, de produzir e perceber objetos sonoros, de separar o que ser considerado som musical e rudo para j considerar nesse ltimo caso o problema da produo artstica de sonoridades. Uma cultura, da mesma forma, atribuir diferentes significados e funes sociais s suas produes sonoras. A msica, por exemplo, ter funes diferentes em sociedades distintas, para alm de ser percebida da maneira diferenciada pelos indivduos pertencentes a essas sociedades distintas. Quando ouvimos msica, uma determinada direo mental j nos fora a escutar em uma direo mental e no em outra, a descartar certos rudos e classificar outros como sons musicais, a recriar a partir de um determinado padro de escuta aquilo que estaremos ouvindo. Essas questes, obviamente, interferem ativamente quando um indivduo pertencente a uma determinada cultura um homem ocidental, por exemplo coloca-se diante dos objetos sonoros ou da msica produzida por indivduos pertencentes a outros meios culturais, como um grupo de indgenas, por exemplo. Voltaremos ainda a essas questes, mas antes retomando o encontro histrico desses dois meios culturais diferenciados que se produziu a partir do confronto dos portugueses com os povos indgenas que habitavam esta parte da Amrica do Sul que futuramente viria a constituir o Brasil. *Proj. Histria, So Paulo, (32), p. 153-169, jun. 2006 155

Desde j lembraremos que indgena brasileiro foi lanado, desde o primeiro momento de contato com o homem branco europeu, em um duplo processo, que envolve simultaneamente a aculturao e a reduo de suas comunidades. Quando no em momentos de maior acelerao e radicalismo, esse processo representa no mnimo um gradual esquecimento da cultura indgena, atingido por dois caminhos complementares. Na aculturao, o ndio levado a esquecer de si mesmo, a dissolver sua cultura na do homem branco, a silenciar a sua msica para escutar um rdio de pilha. No desaparecimento das comunidades, o homem branco que se esquece dos ndios, deixando que suas aldeias sejam atropeladas pela civilizao de matriz ocidental, acantonando-os em reas cada vez mais restritas. Perde com isso a oportunidade de conhecer um lado do universo que poderia em muitos aspectos enriquecer a sua experincia humana.1 Se quisermos recuar aos primeiros instantes desse complexo processo, poderemos retornar ao tempo dos franciscanos e jesutas, que aqui estiveram no sculo XVI para catequizar o ndio, em nome da Igreja e dos interesses da empresa colonizadora. A msica foi ento utilizada como poderoso instrumento de converso: levavam-se os nativos a participarem de autos religiosos, a cantarem e a danarem sob a ordem e o controle eclesistico, a abandonarem os seus instrumentos as suas taquaras, tors e teirs em favor das flautas, gaitas e violas europias. Da mesma forma, aquilo que, de um ponto de vista pretensamente civilizado, era encarado como o canto sujo dos ndios com suas notas rodeadas de efeitos de afastamento em relao aos sons fixos que os europeus considerariam afinados era limpado para se adequar afinao europia. Os improvisos eram banidos em favor do som da pauta, do som controlado rigorosamente pelo mestre de capela. A irregular multiplicao de cantos, que em alguns casos tendia a produzir uma simultaneidade de repeties minimamente defasadas do mesmo desenho meldico, cedia lugar ao mais rigoroso unssono herdado da disciplinada prtica monstica do canto gregoriano. A partir de uma infinidade de operaes e represses, enfim, a msica renascentista e o cantocho invadiam a paisagem sonora dos indgenas. verdade que sempre existiram os civilizados curiosos e s vezes conscientes, s vezes dotados de algum mnimo de intuio antropolgica, empenhados em compreender a cultura indgena nas suas prprias bases e em registrar os seus mitos, os seus costumes, a sua msica. O sculo XIX, por exemplo, trouxe um nmero significativo de pesquisadores e viajantes europeus que estavam precisamente interessados em conhecer um Brasil mais extico e esteve na moda a formao de misses culturais, de expedies e de viagens isoladas que ger