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MEMORIA E IDENT ADE

-MichnelPollDk MSceu em Vte1IO,Austria, em

1948, e morreu em Paris em 1992. Rntlicadona FrlUlfD, formou-se em socwlogio. e traba/hou como pesquisador do Centre Natwnol de In Rechel'r:M Scientifique - CNRS. Seu interesse acadmico, voltodo de inicio para as relaes entre politica e cincias sociais, tema de sua tese de dQl.ltorado orienkUlo por Bourdieu e defendida nacok Pratiq;edes Hautesbuinem 1975, estendeu-se a diversos outros campos de pes'1'isa, c0nf4Jm para uma reflexiio terica sobre o problema do iJentitfotle social em sitlloes limiJes. Entre seus imos trabalhos incluem-se um eshvfo sobre mulheres sobreviventes dos campos de concentrao publicado sob o ttulo L'exprience concentrationnaire: esSjli sur le maintien de I'identit sociale (Paris, FAitwns Melaili, 1990), e uma pesquisa sobre a Aids (Les bomosexuels race au SIDA).

PollaJc esteve no Brasil entre outubro e dezembro de 1987 como prof""''' visiJanJe do CPDOC e do PPGAS do Musa. NacwnaL Na oco.sWo concedeu uma entrevista sobre aAids a AlziraAlves deAbreu eA.5psio. Camargo publicado em Qncia Hoje, voL7, nR41 (abr.1988). Proferiu tambm, no CPDOC, a conferncio. aqui transcriJ, que vem se somar a seu artigo MMemriLl, esquecimenlO, silncio", publicado em Estud"" Hist6ricoo 3 (1989). Prestamos uma homenagempsluma a estegrandete das cincins .sociais na Fran.a.

SOCIAL

Michael Pollak

ratarei aqui do problema da ligao entre memria e identidade social,

mais especificamente no mbito das histrias de vida, ou daquilo que hoje, como nova rea de pesquisa, se chama de histria oral.

Ultimamente tem aparecido certo nmero de publicaes que dizem respeito, sob aspectos relativamente diferentes, ora ao problema da memria - e refiro-me apenas abordagem histrica - ora ao problema da identidade.

Para falar apenas da Frana, a llima obra de Femand Braudel foi precisamente um livro sobre a identidade deste pas. Neste caso, claro, predominava a preocupao com os conceitos de identidade e de COllStruO, na longa durao, de uma identidade nacional. No que diz respeito memria, penso sobretudo no livro de Pierre Nora, Les lieux de la mmoire, que uma tentativa de encontrar uma metodologia para apreender, nos vestgios da memria, aquilo que pode relacion-los, principalmente, mas no exclusivamente, com a memria poltica. Finalmente, no caso

Nota: Esta conferDcia foi transcrita t tnduztda por Monique Augras. A edio i de Dora Rocha.

EsJudOJ lIistricos, Rio de Janeiro., vai. S. o. lO, 1992, p. 200-212.

MEMRIA E IDENTIDADESQClAL 201

das diversas pesquisas de histria oral, que utilizam entrevistas, sobretudo entrevistas de histria de vida, bvio que o que se recolhe so mem6rias individuais, ou, se for o caso de entrevistas de grupo, memrias mais coletivas, e o problema a saber como interpretar esse material.

Se levannos em conta certo nmero de conceitos usados freqentemente na histria da Frana - mas claro que eu poderia me referir a qualquer outro pas -, h algumas designaes, atribudas a detenninados perodos, que aludem diretamente a fatos de memria, muito mais do que a acontecimentos ou fatos histricos no trabalhados por memrias. Por exemplo, quando se fala nos "anos sombrios", para designar a poca de Vichy, ou quando se fala nos "trinta gloriosos", que so os trinta anos posteriores a 1945, essas expresses remetem mais a noes de memria, ou seja, a percepes da realidade, do que Cactualidade positivista subjacente a tais percepes.

A priori, a memria parece ser um fenmeno individual, algo relativamente ntimo, prprio da pessoa. Mas Maurice Halbwacbs, nos anos 2(}'30,j havia sublinhado que a memria deve ser entendida tambm, ou sobretudo, como um fenme-00 coletivo e social, ou seja, como um fenmeno construdo coletivamente e submetido a flutuaes, transformaes, mudanas constantes.

Se destaca)11OS essa caracterstica flutuante, mutvel, da memria, tanto individuai quanto coletiva, devemos lembrar tambm que na maioria das memrias existem marcos ou pontos relativamente invariantes, imutveis. Todos os que j realizaram entrevistas de histria de vida percebem que no decorrer de uma entrevista muito longa, em que a ordem cronolgica no est sendo necessariamente obedecida, em que os entrevistados voltam vrias vezes aos mesmos acontecimentos, h nessas voltas a detcnninados perodos da

vida, ou a certos fatos, algo de invariante. como se, numa histria de vida individual - mas isso acontece igualmente em memrias construdas coletivamente -houvesse elementos irredutveis, em que o trabalho de solidificao da memria foi to importante que impossibilitou a ocorrncia de mudanas. Em certo sentido, detenninado nmero de elementos tomam-se realidade, passam a Caur parte da prpria essncia da pessoa, muito embora outros tantos acontecimentos e fatos possam se modificar em funo dos interlocutores, ou em funo do movimento da fala.

Quais so, portanto, OS elementos constitutivos da memria, individual ou coletiva? Em primeiro lugar, so os acontecimentos vividos pessoaliLLnte. Em segundo lugar, so 06 acontecimentos que eu chamaria de "vividos por tabela", ou seja, acontecimentos vividos pelo grupo ou pela coletividade qual a pessoa se sente pertencer. So acontecimentos dos quais a pessoa nem sempre participou mas que, no imaginrio, tomaram tamanho relevo que, no fim das contas, quase impossvel que ela consiga saber se participou ou no. Se formos mais lohge, a esses acontecimentos vividos por tabela vm se juntar todos os eventos que no se situam dentro do espao-tempo de uma pessoa ou de um grupo. perfeitamente possvel que, por meio da socializao poltica, ou da socializao histrica, ocorrn um fenmeno de projeo ou de identificao com detenninado passado, to forte que podemos falar numa memria quase que herdada. De fato - e eu gostaria de remeter a ao livro de Philippe Joutard sobre os camisards -, podem existir aContecimentos regionais que traumatizaram tanto, marcaram tanto uma regio ou um grupo, que sua memria pode ser transmitida ao longo dos sculos com allssimo grau de identificao.

Alm desses acontecimentos, a memria constituda por pessoas, persolJQgens. Aqui tambm podemos aplicar o mesmo

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esquema, falar de personagern realmente encontradas 1\0 decorrer da vida, de personagens freqentadas por tabela, indiretamente, mas que, por assim dizer, se transformaram quase que em conbecidas, e ainda de personagern que no pertenceram necessariamente ao espao-tempo da pessoa. Por exemplo, 1\0 caso da Frana, no preciso ter vivido na poca do general De Gaulle para senti-lo como um contemporneo.

Alm dos acontecimentos e das persanagern, podemos finalmente arrolar os lugares. Existem lugares da memria, lugares particularmente ligados a uma lembrana, que pode ser uma lembrana pessoal, mas tambm pode no ter apoio no tempo cronolgico. Pode ser, por exemplo, um lugar de frias na infncia, que pennancceu muito forte na. memria da pessoa, muito marcante, independentemente da data real em que a vivncia se deu. Na memria mais pblica, nos aspectos lnais pblicos da pessoa, pode haver lugares de apoio da memria, que so os lugares de comemorao. Os monumentos aos mortos, por exemplo, podem servir de base a uma relembrana de um perodo que a pessoa viveu por ela mesma, ou de um perodo vivido por tabela. Para a minha gerao na Europa este o caso da Segunda Guerra Mundial.

Locais muito longnquos, fora do espao-tempo da vida de uma pessoa, podem constituir lugar importante para a memria do grupo, e por corneguinte da prpria pessoa, seja por tabela, seja por pertencimenta a esse grupo. Aqui estou me referindo ao exemplo de certos europeus com

origern nas collas. A memria da Africa, seja dos Camares ou do Canga, pode fazer parte da herana da fanulia com tania fona que se trarnforma praticamente em sentimento de pertencimento. Outro exemplo seria o da segunda gerao dos pieds rwirs na Frana, que na verdade nem chegaram a nascer na Arglia, mas entre os

quais a lembrana argelina foi mantida de tal maneira que o lugar se tomou formador da memria.

Esses trs critrios, amolecimentos, personagern e lugares, conhecidos direta ou indiretamente, podem obviamente dizer respeito a acontecimentos, personagens e lugares reais, empiricamente fundados em fatos concretos. Mas pode se tratar tambm da projeo de outros eventos. o caso, na Frana, da confuso entre fatos ligados a uma ou outra guerra. A Primeira Guerra Mundial deixou marcas muito fortes em certas regies, por causa do grande nmero de mortos. Ficou gravada a guerra que foi mais devastadora, e freqentemente os mortos da Segunda Guerra foram assimilados aos da Primeira. Em certas regies, as duas viraram uma S, quase que uma grande guerra.

O que ocorre nesses casos so portanto trarnferncias, projees. Numa srie de entrevistas que fizemos sobre a guerra na Nonnandia, que foi invadida em 1940 pelas tropas alems e foi a primeira a ser libertada, encontramos pessoas que, na poca do fato, deviam ter por volta de 15,16, 17 anos, e se lembravam dos soldados alemes com capacetes pontudos (casqtlPS d pointe). Ora, OS capacetes pontudos so tipicamente pntssianos, do tempo da Primeira Guerra Mundial, e foram usados at 1916, 1917. Era portanto uma trarnferncia caracteristica, a partir da memria dos pais, da ocupao alem da Alscia e Lorena na Primeira Guerra, quando os soldados alemes eram apelidados de "capacetes pontudos", para a Segunda Guerra. Uma trarnferncia por herana, por assim dizer.

Alm dessas diversas projees, que p0-dem ocorrer em relao 8 eventos, lugares e personagern, h tambm o problema dos vestgios datados da memria, ou seja, aquilo que fica gravado como data precisa de um acontecimento. Em funo da experincia de uma pessoa, de sua inscrio na vida pblica, as datas da vida privada e da

MEMRIA E IDENlIDADE SO