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UNIVERSIDADE COMUNITÁRIA DA REGIÃO DE CHAPECÓ - UNOCHAPECÓ VICE-REITORIA DE PESQUISA, EXTENSÃO E PÓS-GRADUAÇÃO ÁREA DE CIÊNCIAS DA SAÚDE CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO ESPECIALIZAÇÃO LATO SENSU EM EDUCAÇÃO FÍSICA Deizi Domingues da Rocha CORPOS, TEMPOS E ESPAÇOS: DESCOBRINDO CAMINHOS PARA A COMPOSIÇÃO COREOGRÁFICA DO CORPO COM DEFICIÊNCIA VISUAL Chapecó - SC, Dez. 2010

MONOGRAFIA - COMPOSIÇÃO

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Text of MONOGRAFIA - COMPOSIÇÃO

  • UNIVERSIDADE COMUNITRIA DA REGIO DE CHAPEC - UNOCHAPEC VICE-REITORIA DE PESQUISA, EXTENSO E PS-GRADUAO

    REA DE CINCIAS DA SADE CURSO DE PS-GRADUAO ESPECIALIZAO LATO SENSU EM

    EDUCAO FSICA

    Deizi Domingues da Rocha

    CORPOS, TEMPOS E ESPAOS: DESCOBRINDO CAMINHOS

    PARA A COMPOSIO COREOGRFICA DO

    CORPO COM DEFICINCIA VISUAL

    Chapec - SC, Dez. 2010

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    DEIZI DOMINGUES DA ROCHA

    CORPOS, TEMPOS E ESPAOS: DESCOBRINDO CAMINHOS

    PARA A COMPOSIO COREOGRFICA DO

    CORPO COM DEFICINCIA VISUAL

    Chapec SC, Dez. 2010

    Projeto de Monografia apresentada a UNOCHAPEC como parte dos requisitos para obteno do grau de Especialista em Pedagogia da Educao Fsica.

    Orientador (a): Marlini Dorneles de Lima.

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    CORPOS, TEMPOS E ESPAOS: DESCOBRINDO CAMINHOS PARA A

    COMPOSIO COREOGRFICA DO CORPO COM DEFICINCIA VI SUAL

    Esta monografia foi julgada adequada obteno do grau de Especialista em

    Pedagogia da Educao Fsica e aprovada em sua forma final pelo Curso de Ps

    Graduao em Educao Fsica da Universidade Comunitria da Regio de Chapec -

    UNOCHAPEC.

    Chapec SC, 21 de Dezembro de 2010.

    ______________________________________________________

    Prof Mestra Marlini Dorneles de Lima - orientadora

    Coordenadora do Curso de Licenciatura em Dana UFG/GO

    ______________________________________________________

    Prof Mestra Neusa Kleinubing - avaliadora

    UNOCHAPEC

    ______________________________________________________

    Prof Especialista em Educao Especial Elci S. Lucachinski - avaliadora

    Coordenadora Pedaggica da ADEVOSC

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    Quem algum dia aprender a voar deve aprender

    antes a ficar de p, a caminhar, a correr, a subir, a

    danar, (FRIEDRICH NIETZCHE).

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    AGRADECIMENTOS

    Primeiramente e sem dvida nenhuma ao Grupo Universitrio de Dana

    Essncia, onde aprendi muito e quero continuar a apreender!

    A minha mestra e orientadora Marlini que me apresentou esse palco e que me

    fez desvendar espetculos que me movem nos dias de hoje. Agradeo pelos vrios

    momentos de dilogos e orientaes que perpassaram a relao de orientadora e

    orientanda; a disponibilidade de mesmo de longe e com tantas coisas na sua nova fase

    de vida ter continuado essa caminhada comigo. Marlini, esses so nossos frutos!

    Obrigada.

    Agradeo a minha amiga Vanessa pelos longos dilogos, pelas reflexes...

    Obrigada.

    A famlia Adevosquiana, pelos corpos, tempos e espaos que foram

    importantssimos nesta coreografia da minha vida. Os meus sinceros agradecimentos.

    Agradeo aos professores do curso que contriburam no meu processo de

    formao inicial ainda, quando me apresentaram uma Educao Fsica portadora de

    sentidos e significados, em especial a Professora Neusa pela fora, incentivo,

    credibilidade e oportunidades...

    Ao Fundo de Apoio Manuteno e ao desenvolvimento da Educao Superior

    (FUMDES).

    Obrigada!

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    RESUMO

    CORPOS, TEMPOS E ESPAOS: DESCOBRINDO CAMINHOS PARA A

    COMPOSIO COREOGRFICA DO CORPO COM DEFICINCIA VI SUAL

    Autora: Deizi Domingues da Rocha Orientadora: Marlini Dorneles de Lima

    Essa pesquisa teve como objetivo geral, registrar e analisar o processo de composio coreogrfica vivenciada e desenvolvida junto ao corpo-sujeito com deficincia visual. Esta pesquisa constituiu-se num estudo terico prtico, de cunho qualitativo caracterizando-se como uma pesquisa-ao. Numa perspectiva fenomenolgica. Foram utilizados quatro instrumentos para coleta de dados, sendo: dirio de campo, observao participante, grupo focal, histria de vida e vivncias prticas denominado como ateli de criao. Ao atingirmos os objetivos do trabalho, encontramos algumas etapas significativas no processo de composio coreogrfica, como: escolha da temtica; sensibilizao do corpo; instrumentalizao do corpo em movimento; sistematizao das clulas coreogrficas; coreografia. Conclumos ento que as etapas analisadas no processo de criao e composio coreogrfica esto diretamente ligadas aos pressupostos tericos de Lima (2006): movimento humano, tcnica e expressividade; ao tringulo da composio proposto por Lobo e Navas (2008): imaginrio criativo, corpo cnico e movimento estruturado, bem como os elementos elencados no TCC de Rocha (2008): conscincia corporal, vocabulrio de movimento e expressividade, assim como a importncia das vivencias de clulas coreogrficas para a concretizao da coreografia. Portanto, conclui-se que o processo de composio coreogrfica junto ao corpo-sujeito com deficincia visual um ato intencional, dialgico, reflexivo e educativo, ainda, um fenmeno que permite aos corpos-sujeitos se aventurarem no desvendar do desconhecido, na intencionalidade da execuo do movimento subjetivo, intuitivo, expressivo e significativo. Palavras-chave: Dana; Composio Coreogrfica; Corpo-sujeito; Deficincia Visual.

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    SUMRIO

    I APRESENTAO .......................................................................................... ...08

    1.1 O comeo................................................................................................08

    II MARCO TERICO....................................................................................... ...19

    2.1 Simplesmente Corpo...............................................................................19

    2.2 Corpo: simplesmente corpo que dana........... ........................................34

    2.3 Corpo com Deficincia Visual: Simplesmente corpo que dana........... 38

    2.4 Corpos, tempos e espaos: composio coreogrfica.............................43

    III DESCRIO E ANLISE DOS DADOS.................................................. ...53

    3.1 O Caminho Percorrido.............................................................................53

    3.2 Elementos estruturantes do processo de criao e composio

    coreogrfica........... .....................................................................................................56

    3.2.1 Sensibilizao... onde tudo comea...........................................56

    3.2.2 Intrumentalizao... o processo..................................................68

    3.2.3 Colcha de Retalhos Ateli de criao......................................75

    3.2.4 Entrando em Cena...cinco, seis, sete, oito..................................78

    IV CHEGADA A HORA................................................................................. ...80

    V REFERENCIAS ............................................................................................. ...87

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    I APRESENTAO

    1.1 O comeo...

    A histria da dana na minha vida algo indescritvel. Comeando pelas

    experincias de duas dcadas de vida pensando que sabia o que realmente a dana

    significava na minha vida e at mesmo na vida dos outros. Um entendimento construdo

    atravs das vivncias em dana, ou seja, desde os meus primeiros embalos danados,

    ainda criana, sem equilbrio, para o orgulho dos meus pais, a marcante passagem da

    exploso do ritmo da lambada na dcada de 90 e, sem dvida, os grandiosos bailes

    tradicionalistas do Rio Grande do Sul.

    Depois, o momento muito importante se refere experincia acadmica no curso

    de Educao Fsica na UNOCHAPECO1, atravs das experincias significativas em

    dana nas disciplinas do curso, em especfico em Movimento e Ritmo e Metodologia,

    teoria e prtica do Ensino da Dana. A partir da meu contato mais efetivo com a dana,

    e, o mago desse contato intimista com a dana vm nos seis anos de danarina

    integrante do Grupo Universitrio de Dana Essncia e nas atuaes durante quatro

    anos junto a alguns Programas e Projetos de extenso da UNOCHAPEC.

    Nesses seis anos de Grupo Essncia e nos quatro anos participando nos

    Programas e Projetos de extenso da Universidade, a minha histria com a dana tomou

    outro rumo, alm das minhas primeiras experincias. O contato com a dana

    proporcionou perceber e me sentir enquanto corpo-sujeito2 pela minha corporeidade e

    pela (re) construo desta nas relaes com os outros corpos-sujeitos danantes

    desmistificou o padro de corpo apto para dana, me lanando vrias vezes aos palcos

    1 Universidade Comunitria da Regio de Chapec Chapec/SC. 2 Corpo-sujeito: expresso que compreende os sujeitos no entrelaamento da complexidade do sentir, do pensar, do expressar-se, do agir, construindo assim uma unidade corprea que singulariza a presena do homem no mundo, conforme Schwengber (2005).

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    da vida, e, sem dvida, tendo como apresentao mais marcante o espetculo de realizar

    um trabalho de dana junto a Pessoas3 com deficincia.

    A primeira oportunidade foi atravs do Programa de Extenso Esporte e

    Emancipao na Escola Recanto da Esperana APAE de Chapec/SC nos anos de 2005

    a 2007. Depois atravs do Projeto de Extenso Mundo das Percepes: uma proposta

    de dana para deficincias visuais, este aprovado via FAPEX (Fundo de Apoio a

    Pesquisa e Extenso) e desenvolvido no ano de 2007 e 2008 na ADEVOSC (Associao

    de Deficientes Visuais do Oeste de Santa Catarina). E atualmente como professora de

    dana nos dois contextos, APAE e ADEVOSC.

    Diante disso, tornou-se perceptvel de que o corpo-sujeito desfruta de sua

    totalidade atravs de momentos que lhe possibilita perceber enquanto corpo e de

    estabelecer diferentes relaes e envolvimentos com a sociedade. Podemos desfrutar

    dessas relaes pelo fato de sermos corpos-sujeitos cidados e com pleno direito de

    exercermos nossa cidadania, independentemente de quem somos e como estamos.

    Frente a isso, o corpo-sujeito com deficincia tambm pode e deve desfrutar dessas

    relaes sociais, indiferente da rotulao que lanamos ao fato de ter alguma

    deficincia.

    No entanto, o corpo-sujeito com deficincia se depara com muitas barreiras

    arquitetnicas para alm de sua condio de ser humano, podemos destacar isso desde a

    situao pessoal e histrica que a palavra deficiente aborda at as polticas pblicas

    mais atuais do processo educacional inclusivo. Primeiramente a ideia de segregao e

    incapacidade, depois o zelo e a compaixo pela incapacidade apresentada, e, logo o

    desafio apontado, dialogado e refletido pelas discusses tericas frente ao paradigma da

    incluso, na busca pelos direitos da Pessoa com deficincia frente situao a ser

    vivida, enfrentada e transcendida pelo ser corpo-sujeito em sua essncia.

    Por ser corpo-sujeito e fazer parte do processo inclusivo em que vivemos, e que

    ainda um desafio, a Pessoa com deficincia, aqui em especfico, a Pessoa com

    deficincia visual, precisa, enquanto corpo-sujeito componente desta sociedade, se fazer

    presente e atuante na mesma, ou seja, dar sua contrapartida independente de suas

    limitaes e/ou medos.

    Contudo podemos perceber as dificuldades e impossibilidades que o corpo-

    sujeito com deficincia visual ainda encontra para que essas relaes sejam

    3 Refere-se ao corpo-sujeito;

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    estabelecidas, como por exemplo, a sua mobilidade e o direito de ir e vir com condies

    para que esse movimento acontea. Outro exemplo o processo de vivncias corporais

    para construes e significaes de movimentos que precisam ser experinciados

    enquanto corpos-sujeitos capazes e produtores de sentidos e significados, onde o

    vivenciar e sentir movimentos esto diretamente relacionados elaborao conceitual e

    a condio de (re) significar tais experincias.

    Nesse sentido, possibilitar atividades e vivncias corporais ao corpo-sujeito com

    deficincia visual o ponto de partida para (re) construes, (re) elaboraes e (re)

    significaes de experincias e vivncias de vida que possibilitam o seu agir e interagir

    na sociedade.

    A voz e vez do corpo-sujeito com deficincia visual (principalmente com

    cegueira congnita) se do pela condio de ser/sentir corpo portador de sentidos e

    significados. Afirmamos isso, partindo das concluses de pesquisa do trabalho de

    concluso de curso (TCC4) que desenvolvemos em 2008, no qual apontamos que o

    corpo-sujeito com deficincia visual (cegueira congnita) experincia o movimento e

    transforma-o [...]. [...] Quanto mais vivncias, maior o repertrio de movimento, e

    consequentemente mais possibilidades de criar e executar movimentos, atravs da

    experincia vivida (ROCHA, 2008, p. 77).

    Frente a isso, a dana enquanto arte, vivncias de movimentos, linguagem

    esttica, pesquisa e elemento da cultura de movimento possibilitam ao corpo-sujeito

    com deficincia visual significaes e construes para sua formao humana. A

    dana enquanto arte possibilita um desenvolvimento integral do corpo-sujeito que ao se

    apropriar da experincia de movimentos, constri um valor social significativo

    (ROCHA, 2008, p. 76).

    Compactuando com Freire (2001), a ideia de trabalhar a dana com pessoas

    com deficincia visual vem no seu mago como arte criativa e possibilidades no seu

    papel de desenvolvimento e aprendizagem do corpo-sujeito como um ser integral.

    Assim, conforme as concluses da pesquisa de TCC (2008, p. 77), cabe ao professor

    proporcionar experincias que direcionam de maneira emancipada a capacidade deste

    4 Caminhos e Possibilidades: uma proposta de dana na perspectiva educacional para pessoas com deficincia visual (Trabalho de concluso de curso apresentada a UNOCHAPEC como parte dos requisitos para obteno do grau de Licenciado em Educao Fsica, 2008. ROCHA, Deizi Domingues, sob orientao da professora Marlini Dorneles de Lima).

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    corpo-sujeito criar, executar e sentir-se no movimento, movimento esse portador de

    sentidos e significados.

    Assim, as aes e intervenes deste estudo estiveram pautadas nas premissas da

    dana, na perspectiva da fenomenologia5 e nas vivncias e experincias prticas que

    envolveram a cultura de movimento.

    Como uma das propostas crtica metodolgica da educao fsica, a cultura de

    movimento fundamenta-se na fenomenologia. A proposta crtico-emancipatria baseada

    no se-movimentar do corpo-sujeito busca o sentido e significado dessas aes de

    maneira que viabilize a construo desses corpos-sujeitos crticos e emancipados.

    O trabalho com dana, enquanto contedo da Educao Fsica e elemento da

    cultura de movimento torna-se aliada na elaborao, entendimento e significaes de

    conceitos e vivncias corporais.

    Assim, a perspectiva da fenomenologia para Barreto (2005) se baseia em

    Heidegger, quando este constri uma fenomenologia que investiga as coisas mesmas

    transcendendo realidade, seguindo no sentido da existncia e da possibilidade,

    estando esta pautada na intuio; na intencionalidade; na experincia vivida e na

    percepo.

    No entanto, como coreografar o corpo-sujeito com deficincia visual partindo do

    princpio que ele corpo em sua totalidade, e ainda, respeitando esse Corpo,

    conceituando com esse Corpo e possibilitando a construo de sua corporeidade atravs

    do processo de composio coreogrfica na perspectiva educacional alicerada pela

    fenomenologia?

    Esse questionamento partiu da nossa pesquisa de TCC em 2008, que, ao

    atingirmos nossos objetivos, encontramos alguns elementos significativos para um

    trabalho de dana numa perspectiva educacional para o corpo-sujeito com deficincia

    visual, sendo eles: conscincia corporal, expressividade, vocabulrio de movimento e

    improvisao e repertrio. Elementos estes que responderam aos nossos

    anseios/questes iniciais, mas, no entanto suscitou outros questionamentos a respeito de

    como sistematiz-los artisticamente, sendo que eles se inter-relacionam, partindo de um

    princpio de interdependncia.

    5 A escolha pela a fenomenologia vem acompanhada do estudo anterior (TCC) e principalmente, conforme Kunz (1999) a fenomenologia interessa-se pelo mundo das experincias, um mundo desenvolvido pelas percepes e que se apresenta como um horizonte de possibilidades, ela se interessa pelos dados imediatos da conscincia, da constituio de mundo na conscincia.

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    Encontramos um caminho com possibilidades para uma proposta de dana numa

    perspectiva educacional para o corpo-sujeito com deficincia visual:

    [...] parte da explorao sistematizada dentro do princpio da interdependncia desses elementos, como tambm sugere aes de ordem metodolgica do professor, as quais consistem em: verbalizao contnua, a questo proprioceptiva, a cinestesia e principalmente tranqilidade na espera de respostas conforme as informaes fornecidas e absorvidas (ROCHA, 2008, p. 76).

    Diante disso, a pesquisa desenvolvida no TCC nos possibilitou e, ao mesmo

    tempo, nos provocou um alerta para a forma com que a dana vem sendo conduzida

    junto ao corpo-sujeito com deficincia visual, ou seja, se a maneira que ela vem sendo

    desenvolvida respeita o potencial individual dos seus envolvidos, se permite a busca de

    sua linguagem corporal prpria e se torna suas experincias fonte de conhecimento

    prprio e do mundo em que vive.

    Outro fato relevante em estudar e registrar essa aventura vem das inquietaes

    construdas na trajetria histrica da dana, principalmente enquanto processo criativo,

    educativo e esttico, bem como o dficit de trabalhos cientficos sobre coreografias

    nesta perspectiva, principalmente, no que tange ao corpo-sujeito com deficincia visual.

    Assim, partiremos do pressuposto que a composio coreogrfica representa um

    caminho, ou seja, o processo de formulao de uma manifestao que construda de

    formas, smbolos, expresso imbuda de significados e sentidos no traduzveis

    verbalmente para quem dana, coreografa e assiste (LIMA, 2006, p. 13).

    As consideraes finais de um TCC do curso de Educao Fsica da Unochapec

    realizado no ano de 2004 trouxeram tona a necessidade de que haja mais trabalhos

    nesse mbito. O trabalho pesquisou acerca do sentido e significado da composio

    coreogrfica para os professores de Educao Fsica que desenvolvem trabalhos com

    dana nas escolas estaduais, municipais e privadas do municpio de Chapec/SC, e

    percebeu-se que a coreografia est pautada na nfase do produto final, sem considerar o

    processo como um todo, ou seja, a noo do trabalho coreogrfico fica nas barreiras do

    corpo mais hbil, na reproduo proximal, no belo, entre outros, desconsiderando o (re)

    conhecimento e a explorao do meio, o dilogo entre a temtica, as formas, a

    expressividade entre outras potencialidades vivenciadas pelos alunos.

    Outra problemtica pertinente a esse estudo referiu-se ao padro do belo, o

    padro potico presente na dana que em certa medida exige um padro hegemnico de

    corpo e formas, fato esse que nos instiga a refletir e ampliar as discusses e vivncias

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    acerca da construo de movimentos na dana frente a um corpo-sujeito com deficincia

    visual. Como tambm s formas de estmulos vivncia e criao de movimentos

    fugindo do padro de cpia e reproduo visual, ou seja, os procedimentos adotados no

    processo de criao em composio coreogrfica.

    Assim, esta pesquisa se torna relevante, no momento em que se prope a

    explorar junto s experincias de mundo vivido e sentido pelos corpos-sujeitos

    envolvidos e aos apontamentos tericos, a dana e o corpo-sujeito com deficincia

    visual essncia da composio coreogrfica, numa perspectiva educacional, luz da

    fenomenologia.

    Frente a isso, e partindo da proposta metodolgica elucidada pela pesquisa do

    TCC (2008), nossa questo de pesquisa, foi: Como se d o processo de composio

    coreogrfica para corpos-sujeitos com deficincia visual, luz da perspectiva

    fenomenolgica?

    Diante destes fatos e questionamentos justificamos a importncia em explorar

    essa temtica no anseio de conhecer esse processo e o papel dos sujeitos envolvidos na

    criao. Assim para uma melhor compreenso deste fenmeno, esta investigao teve

    como objetivo geral: Registrar e analisar o processo de composio coreogrfica

    vivenciada e desenvolvida junto ao corpo-sujeito com deficincia visual. Seus

    Objetivos especficos foram: Reconhecer as etapas estruturantes no processo de

    composio coreogrfica e desenvolvida junto aos sujeitos investigados; Analisar a

    relao entre os elementos da dana encontrados da pesquisa TCC: conscincia

    corporal, expressividade, vocabulrio de movimento e improvisao e repertrio com as

    etapas no processo de criao em composio coreogrfica; Identificar a perspectiva de

    corpo dos corpos-sujeitos envolvidos no processo de criao em composio

    coreogrfica;

    Essa pesquisa se constituiu num estudo terico prtico, de cunho qualitativo

    caracterizando-se como uma pesquisa-ao.

    Conforme Dilthey (apud Gnther, 2006), a pesquisa qualitativa consiste na

    prioridade da compreenso como princpio do conhecimento, o que prioriza o estudo de

    relaes complexas ao invs de explic-las por meio do isolamento de variveis (p.

    202). Outra caracterstica desta pesquisa a construo da realidade, que segundo

    Gnther (2006) torna a pesquisa percebida como um ato subjetivo de construo.

    Segundo Chizzotti (1991, p.80), "a pesquisa no pode ser o produto de um

    observador postado fora das significaes que os indivduos atribuem aos seus atos;

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    deve, pelo contrrio, ser o desvelamento do sentido social que os indivduos constrem

    em suas interaes cotidianas".

    Vista como um modo de conceber e de organizar uma pesquisa social de

    finalidade prtica, a pesquisa-ao deve estar de acordo com as exigncias prprias da

    ao e participao dos sujeitos envolvidos na situao observada, (THIOLLENT,

    2007).

    Assim como, reforar que a pesquisa-ao no uma simples transfigurao

    metodolgica da sociologia clssica. Ao contrrio, ela expressa uma verdadeira

    transformao da maneira de conceber e de fazer pesquisa em Cincias Humanas

    (BARBIER, 2007, p. 17).

    Outro aspecto relevante na/da prtica da pesquisa-ao est relacionada ao papel

    do pesquisador, em que esse deve assumir uma postura para alm do fato de ser

    pesquisador, ou seja, ele perpassa a classificao monodisciplinar, pois no desenrolar

    de sua prtica ele assume vrias posies, ora de socilogo, ora de historiador, ora de

    inventor, ora de psiclogo, entre outros (Barbier, 2007, p. 18). Ele descobre vrias

    reas do conhecimento de forma significante no decorre de sua prtica.

    Ainda, segundo o autor, na pesquisa-ao o pesquisador desempenha seu papel

    profissional numa dialtica, que articula constantemente a implicao e o

    distanciamento, a afetividade e a racionalidade, o simblico e o imaginrio, a mediao

    e o desafio, a autoformao e a heteroformao, a cincia e a arte, (Ibidem, p. 18).

    O pesquisador em pesquisa-ao no nem um agente de uma instituio, nem um ator de uma organizao, nem um indivduo sem atribuio social; ao contrrio, ele aceita eventualmente esses diferentes papis em certos momentos de sua ao e de sua reflexo. Ele antes de tudo um sujeito autnomo e, mais ainda, um autor de sua prtica e de seu discurso [...], (Ibidem, p. 19).

    Esse tipo de pesquisa possibilita ao grupo envolvido interagir de forma

    democrtica, pois, a pesquisa-ao eminentemente pedaggica e poltica. Ela serve a

    educao do homem cidado [...]. [...] estimulado pelo sentido do desenvolvimento do

    potencial humano, (Ibidem, p. 19).

    Assim, a pesquisa-ao possibilita ao grupo pesquisado e envolvido atitudes de

    mudana de atitudes e/ou comportamentos de forma interativa.

    Nesse sentido a populao desta pesquisa foi constituda por alunos com

    Deficincia Visual, sendo esses associados da ADEVOSC. A seleo da amostra deu-se

    pela participao no grupo de dana da entidade e, logo, pelo o interesse do associado(a)

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    em fazer parte deste estudo. Desta forma a amostra ficou constituda por duas (02)

    associadas, uma com 15 anos de idade e a outra com 19 anos de idade, ambas com baixa

    viso. Os encontros ocorreram nas sextas-feiras durante o horrio da aula de dana (das

    16h00 s 17h15min), na sede da ADEVOSC, situada a Rua Olavo Dias de Castro, n

    200 E, Passo dos Fortes, Chapec/SC.

    Foram utilizados quatro instrumentos para coletas de dados nesta pesquisa, o

    Dirio de Campo - existem alguns pressupostos norteadores do dirio de campo, entre

    esses, um dos pressupostos bsicos consiste na vontade e no interesse em participar de

    um dilogo efetivo. Para Mello (2005, p 60), este dilogo efetivo que quer tanto a

    escuta quanto o exerccio da fala e um interesse pelo interlocutor, acreditando que este

    tem algo a dizer e mesmo a ensinar. Esse instrumento foi utilizado em todos os

    encontros como forma de registro de todos os acontecimentos.

    A Observao Participante Esta etapa consistiu na participao real do

    pesquisador na vida da comunidade, do grupo ou de uma situao determinada, onde o

    observador assume, pelo menos at certo ponto, o papel de membro do grupo. Nesse

    sentido, muitos autores afirmam que atravs da observao participante se pode chegar

    ao conhecimento da vida de um grupo a partir do interior dele mesmo (SUASSUNA,

    s/d).

    A observao participante, inscreve-se como uma proposta metodolgica de envolvimento na comunidade na qual estamos inseridos. Implica a participao do educador-pesquisador nos crculos sociais, polticos e culturais da comunidade, observando, participando e registrando essa experincia, (MELLO, 2005, p. 63).

    A utilizao desse instrumento consistiu no envolvimento da pesquisadora como

    investigadora e criador- intrprete6.

    O Grupo Focal este instrumento desenvolve nos participantes, a capacidade de

    lidar com aquilo que lhes diz respeito, encorajando-os atuao nos processos. Para

    Ciampone (apud Gonalves & Leite & Ciampone, 2003), o grupo facilita o aprender, a

    pensar, transformando situaes problemticas, constrangedoras e alienadas, em

    6 Criador-intrprete, conforme Nunes (2002, p. 95), busca uma assinatura a partir de seu prprio corpo num processo investigativo. Articula novas hipteses que estabelecem possibilidades de relaes entre movimentos at ento no previstas num corpo que dana (...), ao invs de somente re-combinar padres de movimentos, busca question-los, recriando uma escrita coreogrfica.

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    ferramentas e instrumentos de mediao e transformao da realidade individual e

    coletiva.

    Assim, o grupo focal pode ser entendido como uma tcnica,

    Tcnica para obteno de informaes qualitativas em que um moderador orienta o grupo de at dez pessoas, numa discusso que tem por objetivo revelar experincias, sentimentos, percepes em torno de um determinado assunto. Com o grupo focal, o debate se d entre os participantes, (MELLO, 2005, p. 58).

    Esse instrumento foi utilizado durante o processo de pesquisa para promover um

    dilogo sistematizado entre os envolvidos na pesquisa considerando a individualidade,

    e, explorando as diferentes etapas experinciadas ao longo do estudo.

    Nesse sentido, a Histria de Vida foi utilizada como um quesito do grupo

    focal a fim de retratar aspectos da vida da pessoa participante do estudo/pesquisa. A

    histria de vida permite ao pesquisador (es), ir alm do objetivo do estudo, ou seja, o

    (re) conhecer de fato a pessoa, a histria desta, possibilitando assim um trabalho mais

    efetivo no sentido de conhecer o sujeito estudado.

    Essa fase do grupo focal foi utilizada no incio do estudo com intuito de

    (re)conhecer de forma aprofundada a histria de vida das envolvidas, dando nfase a

    algumas fases como: nascimento, infncia, adolescncia e atualmente.

    E por ltimo o Ateli de criao caracteriza-se pela ao do planejado, ou seja,

    h o acontecimento das oficinas para os processos de criao e composio coreogrfica

    durante o perodo de estudo. O ateli de criao dar-se- atravs de oficinas de criao

    em dana, ou seja, possibilitando ao corpo-sujeito envolvido a vivncia, experimentao

    e criao de movimentos, interpretao, produo, entre outros.

    Foi nos atelis de criao que materializamos as clulas coreogrficas e todas as

    etapas que constituram a proposta de composio coreogrfica.

    De acordo com a proposta metodolgica que direcionou esta investigao, foram

    utilizadas as seguintes etapas para investigar o processo de composio coreogrfica

    vivenciada e desenvolvida junto ao corpo-sujeito com deficincia visual: apropriao e

    categorizao das falas; possibilitar um processo de significao dos movimentos

    vivenciados na dana; autenticidade do processo de criao individual e coletiva dos

    movimentos vivenciados na dana; valorizao das vivncias e experincias do corpo-

    sujeito durante os atlies de criao em composio e nos elementos elencados no

    Tringulo da Composio (Lobo e Navas, 2008) sendo este composto por trs vrtices:

    o imaginrio criativo, corpo cnico e movimento estruturado, estando esses alicerados

  • 17

    pela a concepo terica dos elementos (Lima, 2006): movimento humano, tcnica e

    expressividade.

    No que se refere aos procedimentos metodolgicos da pesquisa-ao,

    destacamos algumas fases para este estudo, de acordo com Gonalves e Leite e

    Ciampone (2003): diagnstico situacional, campo de observao e colaboradores do

    estudo, plano de ao e interveno planejada e avaliao e interpretao dos dados

    coletados durante as aes.

    Nessa perspectiva, o Diagnstico Situacional consistiu em conhecer e descobrir

    as expectativas dos interessados, evidenciando as principais problemticas e saberes a

    respeito de algumas temticas/elementos como foco das aes, ou seja, quem so os

    corpos-sujeitos participantes da pesquisa, ainda, qual a sua percepo de corpo? Qual a

    sua percepo de corpo deficiente? O que corpo em movimento? Com o meu corpo

    eu...? Com o seu corpo eu...? (sendo que as duas ltimas questes deveriam ser

    completas com palavras e/ou frase). Cabe salientar essa etapa consistiu em uma

    apropriao coletiva dessas problemticas a partir de uma leitura de mundo vivido dos

    corpos-sujeitos, ou seja, que j vivenciam essas expresses no seu cotidiano e depois a

    estruturao coletiva das intervenes prticas com o grupo. Nesta etapa utilizamos os

    seguintes instrumentos de pesquisa: grupo focal, observao participante e dirio de

    campo.

    O Campo de Observao e Colaboradores do Estudo teve como propsito, nesta

    fase, a realizao do grupo focal e dos processos de criaes atravs do ateli de

    criao, o qual possibilitou pensar coletivamente s aes que foram constituindo a

    proposta do trabalho. Por meio do grupo, afirma Castilho (1998), o indivduo adquire

    sua identidade. Atravs do ateli pudemos construir e questionar, dar forma e

    reconhecer sua prpria forma, como um espelho que reflete sua prpria imagem, mas

    uma imagem crtica e questionadora, uma imagem que est disposta a transformar e ser

    transformada. Esta etapa se tornou decisiva para as aes posteriores, as quais j

    estavam presentes as aes referentes cultura de movimento e as discusses e

    reflexes diante delas. Foram utilizados os instrumentos: dirio de campo, observao

    participante, grupo focal e o ateli de criao.

    E por ltimo, o Plano de Ao e Interveno Planejada, que se constituiu na

    vivncia e experincia dos atelis de criaes, onde as aes tiveram como base a

    prtica da cultura de movimento, ou seja, a dana. Para isso foram elencados aes para

    o processo de criao que foram dialogados a todo o momento da pesquisa. O processo

  • 18

    de composio coreogrfica deu-se de acordo com as vivncias prticas a partir dos

    estudos tericos propostos neste estudo e das vivencias praticas durante os encontros.

    Foram utilizados os instrumentos: ateli de criao, dirio de campo, observao

    participante e grupo focal.

    Esta pesquisa foi financiada pelo FUMDES/SC (Fundo de Apoio Manuteno

    e ao desenvolvimento da Educao Superior), bem como foi aprovada pelo Comit de

    tica em Pesquisa da Universidade Comunitria da Regio de Chapec

    UNOCHAPEC sob o protocolo de pesquisa N 140/10.

    Diante disso, este estudo percorreu o seguinte caminho:

    Captulo I Reflexes preliminares e contextualizao do estudo;

    Captulo II - Marco Terico: Simplesmente Corpo; Corpo: Simplesmente Corpo

    que Dana; Corpo-sujeito com Deficincia Visual: Simplesmente Corpo que Dana;

    Corpos, tempos e espaos: Composio Coreogrfica; Das Propostas de Composio

    Coreogrficas: Composio Coreogrfica na Dana: Movimento Humano,

    Expressividade e Tcnica, Sob Um Olhar Fenomenolgico e A arte da Composio:

    teatro do movimento.

    Captulo III Descrio e Anlise dos Dados:

    Captulo IV chegada hora...

  • 19

    II MARCO TERICO

    2.1 Simplesmente Corpo

    Resgatando o trato com o corpo pelo estudo de Jnior e Lima, (2002), no

    difcil perceber o quanto esse corpo se torna objeto manipulvel frente s aes culturais

    dominantes de cada poca. Torna-se claro o porqu que o corpo na sociedade

    contempornea ainda vem sendo tratado e (re)conhecido atravs de uma viso que o

    fragmenta e o uniformiza.

    Tomamos como ponto inicial o perodo da antiguidade e no perodo medieval,

    no qual o corpo era considerado apenas um abrigo provisrio da alma, sendo apenas um

    suporte para o eu pensante (SANTIN, 2000).

    Na Modernidade esse corpo se tornou cada vez mais corpo e alma cada vez

    mais alma (JNIOR e LIMA, 2002, p. 32). E esse rtulo nada mais do que a herana

    trazida pela Idade Mdia, perodo que nos retrata momentos marcado pelo controle

    social imposto pela Igreja, atravs de sua doutrina dogmtica. No obstante, o

    Feudalismo que nas suas belssimas figuras posturais tratava o corpo como algo funesto

    e proibido, ver o corpo ver o feio e por isso a vergonha de mostr-lo (Ibid, p. 33).

    Apesar de o Feudalismo ser tambm conhecido pelos belos bailes da corte, a

    dana, apresentada por um corpo, perde sua essncia de manifestao cultural e passa a

    ser rotulada pela Igreja como extrema fonte do pecado evocada pelo corpo ou pela

    carne.

    No perodo do Renascimento que tentava derrotar os valores da igreja e buscava

    subsdio em outros espaos, chegado o momento da grande ecloso de manifestaes

    artsticas, filosficas e cientficas do novo mundo (Vicentino apud Junior e Lima,

    2002), mas seria tambm a era da razo como cerne das discusses vigentes. A

  • 20

    racionalidade toma a frente e proclamada como a via nica das dimenses humanas

    (p. 04).

    Diante disso, o surgimento da sociedade Moderna se deu pela racionalidade, da

    a luta do homem consigo mesmo e com a natureza. O corpo objeto adquiriu

    racionalmente tamanho e forma e as aulas de anatomia se tornam um verdadeiro

    espetculo em que o corpo dividido em partes e estudado a fundo (Ibid, p. 34).

    A transformao do corpo em algo que pode ser mensurvel , tambm, sua transformao em algo que pode ser dominado. Essa dessacralizao do corpo aponta para sua ambigidade no interior da cultura ocidental: importante enquanto fonte de experincia, mas , tambm, o corpo que se desvaloriza na medida em que se pode mexer nele e alter-lo. talvez, aqui que se pode localizar o incio do corpo como construo humana, gnese que chega ao seu auge, atualmente com a gentica e a medicina esttica (SILVA apud JUNIOR e LIMA, 2002, p. 34).

    O corpo se torna obra de dominao da biologia e posteriormente do mbito

    social, onde se controlava at mesmo o divertimento do povo, principalmente, aquele

    provocado pela cultura circense nas ruas. O corpo no nada mais que uma mquina a

    disposio dos interesses dominantes.

    A manipulao do corpo foi, progressivamente, assumindo propores cada vez mais graves, com a expanso do sistema capitalista e com o desenvolvimento da tecnologia: os movimentos corporais tornaram-se instrumentalizados, como se pode observar, por exemplo, na indstria ao dissociar os movimentos corporais em partes isoladas para aumentar a produo (GONALVES, 1994, p. 17).

    Com o passar dos tempos vrios atributos foram oferecidos e nomeados ao

    corpo. Podemos nos utilizar das palavras de Nbrega (2001), que com propriedade

    aborda alguns valores que lhe foram atribudos dentro de um processo histrico pela

    religio, pela filosofia, pela cincia, pela educao e pela arte, como: corpo-objeto,

    corpo-mercadoria, corpo-pecado, corpo-sujeito, corpo-prtese, enfim, cada poca

    constri seu prprio modelo de corpo, tratando-o de acordo com seus interesses e

    direcionamentos provocados por diferentes credos. Ainda, o corpo mquina, o corpo

    purificador da alma, o invlucro da psique, o suporte da razo, uma equao

    matemtica, uma frmula qumica, uma organizao mecnica, uma obra de arte, entre

    outros.

    Podemos perceber que muitos so os atributos lanados ao corpo, cada um no

    seu momento e com sua justificativa, porm, o momento atual no prioriza a histria

    que o discurso da racionalidade aborda sobre o corpo, mas sim a busca no prprio corpo

  • 21

    da condio de ser corpo e de se constituir corpo ao longo dos tempos. No entanto,

    como abordarmos a histria do corpo, seja atravs da filosofia, da religio, da mitologia,

    da prpria cincia ou at mesmo da arte se eu no me entender enquanto corpo em

    movimento, corpo sensvel, na corporeidade, corpo atuante e um ser simplesmente

    corpo.

    Frente a alguns apontamentos de Gaiarsa (2003) sobre corpo, nos diz: [...] o

    corpo um infante termo que significa precisamente que no fala (p. 87), mas, ainda

    o autor: ser que o corpo no fala, ou ser que ningum permitido falar sobre o que o

    corpo est dizendo? (p.87). O corpo se exprime em sua forma de fala, e isso o

    possibilita manifestar intenes, emoes, atitude, gestos, por meio da mais primitiva

    forma de comunicao: a linguagem corporal, ou seja, o movimento humano intencional

    (Ibid).

    Ento podemos dizer que o corpo em movimento um estado pleno de variao

    de conhecimento em funo do tempo, ainda, uma atitude singular de extrema

    necessidade e sensibilidade frente aos estmulos aguados de e para comunicao,

    trocas, possibilidades e linguagens que o ser humano realiza e potencializa a cada

    momento.

    Diante disso, o corpo-sujeito no seu se-movimentar7, alcanar espaos e

    mecanismos viveis para o seu entendimento e at mesmo (re)conhecimento de

    simplesmente ser corpo quando, conforme Verden-Zller e Maturana (apud Santin,

    2007), admitirmos que tudo o que construmos precisa partir do corpo, numa forma de

    desenvolvermos suas potencialidades, e que esse corpo sujeito fruto do momento em

    que h aceitao do corpo prprio e, esse corpo prprio, que leva ao amor de si

    mesmo.

    Nesse sentido, o corpo-sujeito ao se-movimentar, est em constante relao com

    o mundo, onde todo movimento tem seu significado prprio a cada instante em que

    surge, estabelecendo um novo dilogo pessoal e prprio do homem com o mundo

    (Gonalves, 1994).

    Porm toda essa relao com o mundo se torna de difcil quando no temos

    entendimento de corpo, a partir do momento em que nos consideramos donos de um

    corpo e no um ser corpo. Santin (2007) refora essa afirmao quando nos lembra da

    to usada afirmao: sou dono de meu corpo, fao, com ele, o que eu bem entender.

    7 O se, do Se-movimentar, como Kunz traduziu em seus estudos a expresso alem Sich-bewegen, refere-se a prprio, ou seja, o sujeito do movimento.

  • 22

    O sujeito toma o corpo como um objeto, no entanto no h espaos entre a pessoa e o

    corpo, pois a pessoa no possui um corpo, ela seu corpo (p. 37).

    Isso tudo porque o corpo nos conduz a uma fala, uma forma de comunicao,

    independente da linguagem utilizada, porm a linguagem corporal se faz presente a

    partir do momento que nos fazemos seres no ventre materno. A linguagem corporal

    sem dvida a mais primitiva forma de comunicao entre os animais [...] como no

    seres humanos (GAIARSA, 2003, p. 86).

    Essa forma de comunicao possibilita ao corpo estabelecer relaes com o

    mundo que segundo Santos (s/d, p. 02), o corpo constri uma relao consigo mesmo

    pela sua imagem corporal elaborada em sua apreenso de mundo. Ainda, [...] a

    conscincia de si mesmo ou experincia de si mesmo evidentemente o conjunto de

    retroaes originadas das interaes indivduo-mundo (VAYER apud SANTOS, s/d, p.

    02).

    Nesse sentido, o corpo aquilo de mais imediato, prximo, caracterstico de

    nossa existncia, pois, por ele que nos desvelamos (Vigarello apud Carvalho e

    Fernandes, 2000, p. 02). Diante disso, refletir sobre o corpo refletir sobre o ser

    humano e como ponto de partida devemos considerar o respeito diferena e

    diversidade humana atravs da sua individualidade, pois, conforme os autores, na

    diferena que nos encontramos, pois ser corpo ser eu, e isso possibilita a traduo da

    subjetividade do ser humano tornando-o nico em suas diferena e lhe permite viver sua

    presentidade na sua existncia.

    Segundo Santos (s/d), o corpo um espao ao qual devemos valorizar a ao

    individual, pois assim estaremos respeitando um espao corporal, pois a construo

    espacial simblica e no corpo que sua noo registrada (p. 01). Ainda de acordo

    com Merleau-Ponty (apud Santos, s/d, p. 01), o espao no o ambiente (real ou

    lgico) em que as coisas se dispem, mas o meio pelo qual a posio das coisas se torna

    possvel. E tudo isso apreendido pelo corpo.

    Nas palavras de Merleau-Ponty (1999, p. 193): no se deve dizer que nosso

    corpo est no espao nem tampouco que ele est no tempo. Ele habita o espao e o

    tempo.

    Ainda, segundo o filosofo,

    [...] enquanto tenho um corpo e atravs dele ajo no mundo, para mim o espao e o tempo no so uma soma de pontos justapostos, nem tampouco uma infinidade de relaes das quais minha conscincia operaria a sntese e em que ela implicaria meu corpo; no estou no espao e no tempo, no penso

  • 23

    o espao e o tempo; eu sou no espao e no tempo, meu corpo aplica-se a eles e os abarca. A amplitude dessa apreenso mede a amplitude de minha existncia [...], (Ibid. p. 194-195).

    Para Schilder (apud Kleinubing, 2008, p. 90) a estruturao de uma imagem de

    corpo s possvel quando se relacionam intimamente com as experincias a respeito

    do mundo, e esse processo esto atrelados s relaes com as coisas do mundo e com

    os sujeitos que constituem esse mundo, pois h uma dependncia do outro para essa

    estruturao, pois, ao construirmos a imagem do nosso corpo, ns o espalhamos

    novamente pelo mundo e o fundimos com os outros (p. 90).

    Diante disso, pelo corpo que estabelecemos relaes, que dialogamos com os

    outros, que nos fazemos seres humanos com necessidades singulares e subjetivas, pelo

    ser corpo que elaboramos um viver com sentido e significado de ser e estar no mundo,

    de sermos atuantes diante a formao e transformao de vida atravs da nossa

    existncia. pelo corpo que nos compreendemos e nos constitumos corpo, movimento

    e vida. Ser corpo experincia nica da essncia da vida pela nossa existncia. Pelo

    corpo somos, estamos e interagimos com a situao de mundo.

    Frente a esse universo corporal e das remotas e personalizadas formas de definir

    o corpo, nunca se falou tanto de corpo como hoje. Surgem novas ideologias de corpo,

    o momento em que a sociedade investe nesse corpo, a televiso, a mdia, uma

    infinidade de investidores buscando lucro atravs do corpo. A corporeidade entrou na

    moda, porm, a maioria das pessoas no tem compreenso do prprio corpo e, menos

    ainda, do que a sociedade est fazendo com ele.

    Um exemplo claro disso a educao brasileira que durante muito tempo tem

    negado o corpo, atravs de adestramento e disciplinamento, fundamentando-se numa

    viso cartesiana mecanicista do conhecimento na qual o corpo e a mente so vistos

    como duas partes distintas. Um disciplinamento que atua no corpo com a inteno de

    transform-lo num corpo dcil, reprodutor, obediente e acima de tudo num corpo

    preparado para atingir melhores resultados (ROCHA, 2008).

    Nesse sentido, o corpo vira alvo de especulao das mais variadas formas. Nessa

    perspectiva ele deixa de ser corpo-sujeito e passa (volta) a ser objeto de manipulaes

    deixando de ser reconhecido como parte fundamental do ser humano na construo de

    sua corporeidade e da prpria condio de corpo-sujeito-mundo.

    Outro exemplo a considerarmos, parte da cultura e do contexto social como

    alguns dos aspectos determinantes na formao da concepo de corpo que o homem

  • 24

    vem desenvolvendo ao longo da histria, onde os hbitos, costumes, gestos, entre outros

    so alguns elementos da corporeidade que configuram a maneira da presena e

    expresso dos indivduos (LIMA, 2002).

    Entendermos a complexidade de sermos e sentirmos corpo acarreta inmeras

    significaes, signos, e, acima de tudo, medos, pois at pouco tempo o corpo era uma

    construo histrica, um local de estadia, uma fonte de aes caracterizadas pela

    biologia e o seu processo vital, e que contemporaneamente, apesar do sistema capitalista

    vigente, comea a ser desvendado como um ir alm de ter um corpo como se

    comeasse uma revelao individual, singular, subjetiva e ao mesmo tempo coletiva de

    revelar-se um corpo em movimento enquanto um corpo-sujeito na sua existncia.

    Enquanto histria, resgate e entendimento do corpo, adentramos nas palavras de

    Santin (2000, p. 69):

    [...] Era uma vez um corpo que era simplesmente corpo. Tudo era corpo ou corporeidade. No havia outra maneira de ser. Um desses corpos foi reconhecido como sendo o homem. Havia outros corpos, como o dos primatas, dos smios, dos chipanzs, do gorila, do leo, do elefante, do gato, dos passarinhos, das pedras, das plantas etc, cada ser destes era corpo, isto , seu corpo. Ento, o homem, da mesma forma, era corpo, s corpo, mas corpo vivente. Mas vivente de uma vida prpria. Cada corpo vivente tinha sua vida prpria. [...] O homem, corpo vivente, era mundo. Todos os seres eram corpo. Todos os seres eram mundo. Todos eram, ao mesmo tempo, corpo e mundo [...].

    Nesse sentido, ser um corpo com tantas possibilidades sem dvida, uma

    caracterstica que nos diferencia dos demais seres vivos. A complexidade de pensarmos,

    agirmos, dialogarmos, sentirmos e relacionarmos atravs da nossa existencialidade nos

    permite sermos seres singulares a partir da nossa presena no mundo (GAIO E PORTO,

    s/d).

    Diante disso, ser corpo no apenas privilgio do sujeito, mas sim uma condio

    existencial desse sujeito viver sua corporeidade atravs da totalidade humana de ser,

    estar e sentir-se corpo (ROCHA, 2008).

    Se ser corpo no privilgio e, sim, condio humana, nos questionamos: por

    que nos deixamos ser manipulados por um sistema? Porque a sociedade ainda classifica

    e aponta estratgias errneas e aniquiladoras de corpos? Por que enquanto corpo que

    somos compactuamos (de certa forma) com uma determinada classificao de corpo que

    reserva excelentismo e padro de/para uma minoria de corpos-sujeitos?

    Talvez a resposta para essas questes estejam to presente em nossas vidas que

    parecem no t-la, ou melhor, no sabemos que a seja, pois no conseguimos ainda nos

  • 25

    considerarmos corpo na particularidade, nas possibilidades, nas potencialidades e na

    singularidade de sermos diversidade humana. Assume-se, ento, uma padronizao

    corporal ditada por uma rede de interesses e anula-se o corpo enquanto corpo-sujeito

    integrante de uma sociedade que se apresenta de forma plural, singular, hbrida,

    democrtica, excludente e inclusiva.

    Ao assumirmos a postura de ser corpo numa perspectiva de diversidade e

    pluralidade humana frente aos padres elitizados e determinados pelo interesse de uma

    minoria da sociedade, o corpo-sujeito foge dos padres que o classifica e o rotula.

    Assim, esse corpo ser diferenciado no pelos ttulos que recebe e o evidencia como um

    ser diferente, mas pela a situao nica de ser corpo atuante no mundo.

    [...] o corpo na sociedade atual visto na forma que se apresenta aos nossos olhos, e no em sua funo dinmica no ato de caminhar, de sentar, de apanhar um objeto, que so os modos como cada pessoa se expressa corporalmente. Nesse sentido, o ser/estar no mundo muitas vezes entendido como resultado de uma forma padro, incapaz de abarcar as inmeras possibilidades individuais de se perceber e relacionar com/no mundo [...], (SIMES E LOPES apud CARVALHO E FERNANDES, s/d, p. 02).

    Exemplo claro dessa situao, a condio de ser (estar) corpo-sujeito com

    deficincia, que com sua caracterstica singular corpo sobre todas as formas. No

    momento em que o corpo-sujeito deficiente-diferente estigmatizado, social, cultural e

    afetivamente seu corpo deixa de ser considerado como um ser que se movimenta e que

    participa como qualquer outro que no apresenta sinais corporais que o evidencie como

    diferente. Ao olharmos para um corpo e enxergar apenas as suas marcas, estar

    limitando-o e reduzindo-o a nada, sendo que o mais importante no saber se este corpo

    esta respondendo a regras impostas pela sociedade e, sim, se este esta se sentindo corpo

    em todos os momentos do seu viver (ROCHA, 2008).

    Ainda segundo Rocha (2008) em se tratando de regras sociais difcil de

    enfrentar e mais difcil ainda de transform-las, mas como seres humanos devemos nos

    conscientizar de que todos os corpos tm o seu espao no mundo para viver sua

    presentidade e devem prestigiar e fazer uso desse espao mesmo sendo necessrio lutar

    contra inmeras barreiras existentes que conduzem os corpos a serem meros

    reprodutores/executores destas regras impostas.

    Porm, a busca de entendimento e conscientizao perpassa as regras sociais.

    Alm da batalha a ser travada com a sociedade que complexa e pode chegar a ser

    desapontante, h o outro lado sensvel e fragilizado que est na grande parte da

  • 26

    populao deficiente que no se aceita como corpo, o que acaba contribuindo para

    que seja colocada de lado a vida como um todo.

    Para isso, torna-se fundamental que o corpo-sujeito com deficincia tenha

    oportunidades de se conhecer e de se perceber enquanto e como corpo sob todos os

    aspectos que no somente o aspecto fsico, que ela possa se perceber e, principalmente,

    se gostar e se apreciar enquanto corpo-sujeito em sua existncia.

    Segundo Merleau-Ponty (1999, p. 114), s posso compreender a funo do

    corpo vivo realizando-a eu mesmo na medida em que sou um corpo que se levanta em

    direo ao mundo. Explicando essa relao, o filsofo argumenta que,

    [...] O corpo o veiculo do ser no mundo, e ter um corpo , para um ser vivo, juntar-se a um meio definido, confundir-se com certos projetos e empenhar-se continuamente neles. [...] Mas, no momento em que o mundo lhe mascara sua deficincia, ele no pode deixar de revela - l: pois verdade que tenho conscincia de meu corpo atravs do mundo, que ele , no centro do mundo, o termo no percebido para o qual todos os objetos voltam a sua face, verdade pela mesma razo que meu corpo piv do mundo [...], e neste sentido tenho conscincia do mundo por meio de meu corpo, (MERLAU-PONTY, 1999, p. 122).

    Partindo disso, o corpo com deficincia transcender os padres e achismos

    ditados pela sociedade rotuladora e excludente que julga quem pode o qu. O corpo-

    sujeito com deficincia visual, por exemplo, que no vive o mundo a partir dos seus

    olhos, vive o mundo a partir da sua corporeidade em todas as outras aes possveis de

    ser realizada. Nesse sentido, ela nunca deixar de estar presente no mundo por ser corpo

    em movimento, pensamento e sentimento. Assim, podemos pensar e falar de todos os

    outros corpos (PORTO e ALMEIDA, 1999).

    Na perspectiva de Masini (apud Carvalho e Fernandes, s/d, p. 03), o ponto de

    partida para compreender as diferentes possibilidades da existncia humana, estar

    atento s formas prprias de cada pessoa, o que inclui a pessoa deficiente, explorar e

    perceber o mundo que a cerca.

    Para Porto (2002, p. 40), o deficiente da viso, embora no veja com os olhos,

    um ser humano vidente e visvel, cujo corpo, na sua relao com o mundo, na sua

    totalidade, o faz ver e sentir sua essncia e existncia nesse mundo. Ainda, segundo a

    autora, o mundo mundo prprio, nico, uma extenso da existncia do ser humano a

    partir de sua percepo, das suas aes frente a ele, daquilo que sei pelo mundo vivido.

    Tudo aquilo que sei do mundo, mesmo por cincia, eu o sei a partir de uma viso minha ou de uma experincia do mundo sem a qual os smbolos da

  • 27

    cincia no poderiam dizer nada [...]. O mundo no aquilo que penso, mas aquilo que eu vivo, eu estou aberto ao mundo, comunico-me indubitavelmente com ele, mas no o possuo, ele inesgotvel. H um mundo, ou antes, h o mundo, (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 243).

    Assim, lanar um olhar sobre o corpo com deficincia visual tem um sentido

    paradoxal, (Carvalho e Fernandes, s/d). Necessitamos ver com outros olhos, lanarmos

    um olhar aguado para que possamos construir outra percepo de mundo, baseada no

    apenas no nosso resduo visual, mas no ser corpo desse sujeito. Provocar um sentido

    aguado de olhar a olhar na potencialidade e nas possibilidades desse corpo-sujeito.

    Compactuando com Carvalho e Fernandes (s/d, p. 04) a ideia de lanar um olhar

    diferenciado ao que vemos ou ainda aquilo que normalmente no visto, apreender a

    ver com outros olhos. Assim, buscar transformar olhares e possibilitar atravs desse

    olhar a construo de uma percepo, ou melhor, outra percepo de mundo, que no se

    baste mais no sentido nico da viso, mas puramente no corpo. Esse um apreender

    descobrir outras formas de olhar, ampliar sentidos, ampliar a viso de corpo.

    Nesse sentido, a partir do momento em que o corpo-sujeito com deficincia

    visual se sente corpo, no pensamento Merleau-Ponty (1999) pelo corpo como unidade

    de pensamento, corpo de sensaes, corpo sujeito da percepo, faz-se uma

    compreenso da capacidade de o homem conhecer o mundo e a si prprio.

    Para Porto (2005, p. 35), falar sobre a percepo que o cego tem do mundo, s

    ele pode falar, pois somente ele pode perceb-lo pelo seu corpo. Pois quando nos

    deparamos, ou imaginamos um objeto, ou quando construmos a imagem de um

    objeto, no agimos como uma simples mquina perceptora, mas como uma

    personalidade que experimenta essa percepo, (DIEHL, s/d).

    Para a pessoa com deficincia visual a percepo de si e do mundo a sua volta alterada devido s informaes que recebem serem reduzidas e suas representatividades, pobres. Assim, tais informaes, feitas atravs da explorao do ambiente pelas mos e outros sentidos, tm sua representatividade, s vezes, distorcida, gerando ansiedade e insegurana. Seus conceitos se formam ao longo do tempo e a partir de seus relacionamentos sociais, com informaes produzidas a partir da descrio de objetos e espao, por pessoas no cegas, (DIEHL, s/d, p. 02).

    A esse entendimento fundamental discutirmos o que esse corpo, ou melhor,

    esse corpo-sujeito quer para sua experincia de vida. Pois, o corpo como um todo

    socialmente concebido e sofre uma anlise de sua representao social. Para Dalio

    (1995, p. 39), no corpo esto inscritos todas as regras, todas as normas e todos os

  • 28

    valores de uma sociedade especfica, por ser ele o meio de contato primrio do

    indivduo com o ambiente que o cerca.

    Frente a isso, a nossa corporeidade no se constri sozinha, ela sofre

    influncias, de uma forma ou de outra. Assim, o que nos diferencia enquanto

    corporeidade so as diferentes percepes, a forma e o tempo que nos entregamos s

    experincias e vivncias de mundo corporal.

    O homem, por meio do seu corpo, vai assimilando e se apropriando dos valores, normas e costumes sociais, num processo de inCORPOrao (a palavra significativa). Diz-se corretamente que um indivduo incorpora algum novo comportamento ao conjunto de seus atos, ou uma nova palavra ao seu vocabulrio ou, ainda, um novo conhecimento ao seu repertrio cognitivo. Mais do que um aprendizado intelectual, o indivduo adquire um contedo cultural que se instala no seu corpo, no conjunto de suas expresses. Em outros termos, o homem aprende a cultura por meio do seu corpo (Ibid, p. 40).

    O que implica para o corpo-sujeito com deficincia visual a necessidade de

    tempo maior para explorao de movimento de forma individual ou na prpria relao

    com o outro, ou seja, quanto mais contato com experimentaes e vivncias de

    movimento maior ser a compreenso e assimilao desses movimentos, possibilitando

    ainda, conforme Caz e Oliveira (2008), um aprimoramento nas relaes e inter-

    relaes com o prprio corpo e com os outros corpos.

    Desta forma, Rocha (2008) evidencia a necessidade do conhecimento corporal e

    da conscientizao do movimento para o corpo-sujeito com deficincia e visual (e at

    mesmo sem deficincia - videntes), uma vez que estes no tm auxlio da viso e do

    mundo das imagens, que um dos sentidos mais utilizados.

    Atravs das vivncias e da conscientizao do movimento, h uma busca de

    atenuar-se na insistncia de quem sabe que tem e sente um corpo. Apesar de cada

    sensao, percepo ser subjetiva ao ser, torna-se objetiva no momento de sentir (Ibid,

    p. 66).

    Ter um corpo de uma singularidade impressionante. O corpo pode lembrar ou ser muito parecido com o de algum ou de outros, mas nunca igual, at porque sua instncia bsica na dimenso espacial e temporal, da presena do aqui e agora, moldada e atualizada a todo o momento. Ter conscincia (capacidade de saber) e emoo (capacidade de sentir) tambm singular, pelas mesmas razes j citadas. Especificamente na prtica da conscientizao do movimento tratamos de um corpo que sabe que sente, sabe que existe e sabe que sabe que existe e sente (TEIXEIRA, 2003, p. 73).

  • 29

    As experincias corporais nos possibilitam um saber-sentir pelo/no movimento,

    atuando-se ao poder de um ir alm de simplesmente faz-lo, ou seja, senti-lo atravs da

    conscientizao do mesmo. Desta forma, Merleau-Ponty (1999, p. 192) nos diz,

    [...] a conscincia no um eu penso que, mas um eu posso. [...] A viso e o movimento so maneiras especificas de nos relacionarmos a objetos, e, se atravs de todas essas experincias exprime a diversidade radical dos contedos porque ele os liga, no os colocando todos sob a dominao de um penso, mas orientando-os para a unidade inter-sensorial de um mundo. O movimento no o pensamento de um movimento, e o espao corporal no um espao pensado ou representado. Cada movimento determinado ocorre em um meio, sobre um fundo que determinado pelo prprio movimento [...]. [...] A conscincia o ser para a coisa por intermdio do corpo. Um movimento aprendido quando o corpo o compreendeu, quer dizer, quando ele o incorporou ao seu mundo, e mover seu corpo visar s coisas atravs dele, deix-lo corresponder a sua solicitao [...].

    Nesse sentido, podemos relacionar a percepo de mundo do corpo-sujeito com

    deficincia visual, principalmente, a partir dos sentidos remanescentes, afinal, como

    afirma Porto (2002, p. 72) para um cego, todo o corpo que de algum modo se torna

    rgo da vista, qualquer parte do corpo pode olhar um objeto que lhe seja exterior.

    Segundo Sacks (apud Carvalho e Fernandes, s/d), ns somos seres construtores

    do mundo a partir de nossas experincias, ou seja, o mundo no nos dado e sim

    construdo por ns pelo qu somos e o que temos a oferecer a partir do que vivemos.

    Assim, o que distinguimos no est associado unicidade do ver, do tocar ou do

    perceber, e sim a explorao e conscincia de mundo. Nesse sentido, para o autor, no

    se v, no se toca, no se percebe, isoladamente, a percepo est sempre ligada ao

    comportamento e experincia, busca e explorao de seu prprio mundo (p.07).

    [...] ver no suficiente; preciso olhar tambm. O ato de olhar no est restrito apenas aos olhos, e, sim, inclui o corpo inteiro, sua interioridade e intencionalidade. Olhar envolve apropriao do mundo. Olhar envolve um comportamento visual (Sacks apud Carvalho e Fernandes, s/d, p. 07).

    Nesse entendimento, Caz e Oliveira (2008, p. 293) se referem a Santos quando

    esse afirma que,

    Alm desse ver eu preciso enxergar, mas para enxergar eu preciso do olhar dos meus olhos? [...] Se elaboro bem as minhas sensaes e emoes corporais, no preciso s dos meus olhos, mas do meu corpo para olhar, ver e enxergar.

    Nas palavras das autoras, o corpo-sujeito com deficincia visual encontra sua

    limitao relacionada sua percepo visual, no entanto, outras fontes de percepo

    podem ser essenciais na sua aprendizagem, o qu a torna vlida so as possibilidades

  • 30

    que esse corpo na sua individualidade tem para explorar o ambiente, oportunizando

    conhecimento, trocas, vivncias. Em suma, novas formas de interao, ampliando suas

    capacidades multisensoriais para uma aprendizagem significativa, reorganizando os

    conhecimentos pela interao dos sentidos no comprometidos, (Ibid, p. 294).

    Segundo Figueira (1996) a percepo visual uma funo bastante complexa,

    podemos de forma resumida apresent-la em trs fases: primria, secundria e terciria.

    Na primria h a apreenso da imagem pelos receptores fotossensveis localizados na

    retina, a imagem projetada no lobo occipital, onde se d a recepo do estmulo visual.

    Na secundria ocorre o reconhecimento da imagem projetada, ela passa a ter um

    significado. Na terciria ocorre uma integrao cortical desta imagem reconhecida

    com todos os outros sentidos (olfato, tato, audio etc.). Portanto, a viso est

    estreitamente correlacionada com as outras atividades sensoriais, particularmente, com

    o tato e a cinestesia.

    Ainda afirma a autora que ver no uma funo independente, um

    estabelecimento de relaes da pessoa que esto ligadas a alguns aspectos pessoais

    como, por exemplo, a personalidade.

    Nesse sentido, o no ver no significa que o corpo-sujeito com deficincia

    visual no possa estabelecer relaes, ou seja, essa situao de no ver ou esse estar

    sem ver acarreta a falta de acesso a, mas no a impossibilidade de ser corpo-sujeito

    atuante e produtor de sentidos e significados. Porto (2002) exemplifica isso quando

    considera que no ver as cores de um objeto, por exemplo, no ter acesso a uma

    propriedade do objeto em si, o que atravs desse estabelecimento de relaes, esse

    corpo-sujeito possa perceber e sentir qualidades atravs da associao a determinadas

    coisas, seja ela por meio da comunicao dos sentidos, ou at mesmo pela experincia

    vivida.

    Esse entrelaar de experincias, vivncias, ser, estar, sentir atravs do ser corpo

    provoca percepes, sensaes e emoes frente a uma reflexo de mundo pelo modo

    de ser e viver,

    , pois, da reflexo sobre o vivido e da ateno experincia perceptiva que emergem os significados da pessoa no mundo. Assim, por exemplo, a reflexo da criana com deficincia visual surge da sua experincia de habitar o mundo por meio de sua apalpao ttil, em que interroga o objeto de forma mais prxima do que se o fizesse com o olhar. A velocidade e a direo de suas mos que a faro sentir as texturas do liso e do rugoso, a temperatura fria ou quente, o ar mais abafado quando se aproxima de uma parede, acompanhado pela alterao de sua voz ouvida e sua voz articulada, que se altera frente a um obstculo ou em ambiente aberto. Essas percepes de tatear, que ocorrem com seus movimentos de mos e dedos, de articular a

  • 31

    voz, de ouvir, de sua comunicao e de sua locomoo no espao esto unidas no seu corpo, no mundo, e compreendidas pela reflexo sobre cada uma dessas experincias (MASINI, 2003, p. 08).

    O corpo-sujeito com deficincia visual encontra nos sentidos remanescentes

    possibilidades perceptivas significativas a partir do momento que as explora, ou seja,

    torna-se necessrio utilizar-se do seu corpo-prprio e das suas experincias perceptivas

    atravs dos sentidos como um todo e no de forma fragmentada.

    Essa condio explicitada por Masini (2003, p. 08), quando afirma que a

    experincia perceptiva o solo do conhecimento,

    O corpo prprio de cada um est no mundo - o surdo olha todas as coisas e tambm pode olhar a si mesmo, toca as coisas e toca-se tateante; da mesma forma, o cego ouve o que o cerca e se ouve tambm, sensvel temperatura e vibraes do que o cerca e de si mesmo - tem suas experincias [...], (Ibid, p. 08).

    Nessa direo, lanamos um olhar s indagaes de Carvalho e Fernandes (s/d,

    p. 03):

    Ser deste modo que o cego v? Ser o seu corpo instrumento, ferramenta de percepo do mundo? Ser esta forma de percepo deficiente? Ou o corpo deficiente apenas uma das condies possveis de ser/estar no mundo, mesmo quando representa formas diferentes de viver e de sobreviver das adotadas como convencionais?

    Nas palavras de Porto (2002, p. 30), sou corpo, sou instrumento e pelas minhas

    aes me expresso como ser-no-mundo [...]. Ser corpo deficiente ser corpo como

    outro ser qualquer.

    O corpo cego v. O corpo cego visto. Ver uma experincia que vai alm do sentido da viso. perceber/sentir/conhecer/tocar/relacionar/experimen-tar. Experincia que est inscrita no corpo, presena do ser humano no mundo, e, est originalmente familiarizado com o contexto em que se compreende/insere. Partindo do princpio de que, pelo corpo nos colocamos no mundo, este corpo que possibilita ver, tocar, perceber, (CARVALHO E FERNANDES, s/d, p. 04).

    Pontes (2006, p. 39) ao escrever sobre as habilidades e competncias possveis

    para que o cego possa enxergar atravs do corpo cita Santos que afirma: O cego no

    tem percepo visual, mas possui o olhar, pois o olhar no est isolado, mas enraizado

    na corporeidade atravs da sensibilidade e da motricidade.

    Sendo assim, o corpo-sujeito com deficincia visual, tambm v, mas v de

    uma maneira particular, diferente, nica, como a percepo de mundo se d a partir de

    cada indivduo, seja ele cego ou vidente, (CARVALHO E FERNANDES, s/d, p. 04).

  • 32

    Diante disso, a forma como se conduz a construo da corporeidade desse corpo-

    sujeito de suma importncia, pois:

    Quando ressaltamos que a construo do conhecimento se d no corpo todo e no apenas no sentido da viso, tomamos como ponto de partida para a experincia visual, o corpo. Forma singular de ser-no-mundo, aquele que permite a construo do conhecimento e a percepo de mundo a partir de si mesmo, de suas experincias, e, desse modo, elabora a percepo que o cego tem de si, do outro, do mundo [...], (Ibid, p. 07).

    Frente a isso a necessidade do corpo-sujeito com deficincia visual perpassar

    especificidades deficitrias lanadas pela prpria deficincia, no intuito de eliminar,

    seno de minimizar, perdas em diversos segmentos da sua trajetria de vida. A ideia

    parte de que esse corpo necessita de estmulos a partir de experincias de vida para

    enfrentar o que est a sua volta e superar desafios como, por exemplo, o qu para os

    ditos videntes costumeiro e de fcil entendimento, ao conversar com uma pessoa e

    tomar como respostas a sua conversa as suas reaes atravs das expresses faciais. No

    entanto, como isso para o corpo-sujeito com deficincia visual no s de perceber o

    rosto da outra pessoa, mas como ele estabelece essa linguagem corporal?

    Vivemos num processo de dependncia e de trocas constantes, no podemos

    mais fechar os olhos para o que se necessrio apreender e sentir pelas nossas

    percepes de sermos corpo. Dessa forma, ressaltamos Almeida (apud Kleinubing,

    2008, p. 94), quando afirma que a cada nova experincia o corpo se remodela,

    possibilitando novas percepes de mundo [...] todo novo corpo um novo sujeito no

    mundo.

    O corpo-sujeito com deficincia visual ter oportunidade maior de percorrer

    caminhos antes tidos como impossveis, atravs das experincias e vivncias

    diferenciadas de/pelo movimento, pela sua sensibilidade, propriocepo, cinestesia, do

    respeito com seu corpo e o seu (re) conhecimento enquanto corpo-sujeito no mundo.

    Pois o entendimento mnimo que essas fontes (e outras), podero estabelecer a esse

    corpo relaes significativas consigo e com os outros, esse corpo-sujeito ter

    entendimentos que contribuiro definitivamente para suas aes dirias, como o uso da

    bengala longa, por exemplo, que poder deixar de ser um objeto de identidade, bem

    como afirma Merleau Ponty (1999, p.198),

    [...] a bengala para o cego no um simples objeto, sua extremidade uma zona sensvel que aumenta a amplitude e o raio de ao de tocar, semelhante a um olhar. Ela um instrumento de orientao e promove a autonomia do indivduo cego, funcionando como uma extenso do prprio corpo.

  • 33

    Ressaltamos a importncia das experincias e vivncias significativas de

    movimento para o corpo-sujeito com deficincia visual, para estabelecer relaes com

    que e quem esta a sua volta, para explorar sua percepo e aprimorar sua corporeidade.

    No entanto, para que isso acontea torna-se necessrio considerarmos algumas

    especificidades causadas pela deficincia visual ao corpo-sujeito, como a insegurana, o

    medo, falta de motivao, falta de expressividade, compreenso e entendimento em

    situaes no claras, timidez, entre outras.

    Assmann (1994), ao relacionar o corpo deficiente com a corporeidade coloca

    que no h porque dizer ou acreditar que estes corpos so reprodues de ineficincia

    ou de improdutividade. So corpos vivos que possuem os seus sistemas ativados em

    funcionamento, podendo assim apresentar alguns sistemas desativados. No entanto, isso

    no significa que deixam de seres auto-organizativos, so aes permeadas pelo

    pensamento cognitivo e pela percepo do mundo que o cerca, so respostas ao mundo

    que lhes se apresentam, fazendo leitura, sonhando, inventando, transformando e

    percebendo com o prprio eu que cada um no seu tempo e espao.

    Nesse sentido, falar de corporeidade assumir essencialmente como ponto de

    partida, a contradio de externar um pensamento expresso pela fala sobre algo concreto

    chamado corpo vivo. falar do existente, do ser que interage no e com o mundo,

    consigo mesmo e com os outros. optar por conscientizar o pensamento, ou mais

    precisamente, corporificar o ser pensante (ROCHA, 2008).

    A corporeidade no corpo-sujeito amplia o universo humano, o mundo humano

    no mundo pr ordenado da causalidade instintual, em que um estmulo exterior

    produz em resposta o mesmo padro de comportamento. Ao contrrio, pois de acordo

    com o mundo fenomenolgico, no qual a relao dialtica do ser e do mundo (do ser no

    mundo) implica riqueza de vivncias significativas, as vivncias so corporais, porque o

    corpo maneira de uma obra de arte, no pode ser distinto da sua corporeidade, ou seja,

    daquilo que ele expressa no mundo.

    Isso nos permite dizer que as alternativas de interao que o homem utiliza

    possuem uma relao com a corporeidade. No caso especfico do corpo-sujeito com

    deficincia, no momento em que esse tiver suas interaes limitadas pelo preconceito e

    desconhecimento da sociedade e, ainda, quando esse corpo-sujeito perceber tais

    diferenas, a vivncia de sua corporeidade estaro limitada a sua incapacidade

    (ROCHA, 2008).

  • 34

    Reforamos que o corpo sofre e vem sofrendo ao longo dos tempos inmeras

    contradies frente ao ser, estar e sentir-se corpo atuante. No entanto, isso no exclui a

    culpabilidade desta pluralidade e diversidade humana em estar compactuando com esse

    sistema que visa rotular perfeio e imperfeio a desejo de uma maioria (sociedade).

    Porm, cabe tambm a essa minoria (aqui tratando dos deficientes) mostrar-se enquanto

    corpo-sujeito possuidor de uma identidade prpria e nica, no seu fazer presente atravs

    da construo da sua corporeidade e na conscincia de viver a sua essncia em ser

    corpo.

    Conforme Baggio e Vieira (2004), a existncia do homem s possvel pela

    corporeidade: ele dana, caminha, movimenta-se, expressa suas ideias, sentimentos,

    valores e emoes. Para melhor compreender a corporeidade, faz-se necessrio a

    compreenso da abstrao, dos sentimentos, das relaes humanas e sociais. A

    corporeidade faz parte do corpo que sente, que expressa e extravasa suas ideias e

    sentimentos.

    Retomamos ao trecho citado acima quando Merleau-Ponty (1999, p. 122) diz:

    [...] Mas, no momento em que o mundo lhe mascara sua deficincia, ele no pode

    deixar de revela-l: pois verdade que tenho conscincia de meu corpo atravs do

    mundo.

    Pontualmente para Porto (2000, p. 59):

    Ser cego, ser vidente, ser humano, ser sujeito, ser-no-mundo transcendendo a espacialidade e a temporalidade pela existncia e pela experincia de viver e perceber, a si e ao outro, nas relaes intramundanas e circundantes, intensificadas e prolongadas pela intencionalidade.

    Assim, pela corporeidade estabelecemos relaes diante de um se-movimentar

    com sentido e significado, de um se-movimentar intencional, expressivo e singular, pelo

    fato de sermos corpo.

    2.2 Corpo: Simplesmente Corpo que Dana

    Movimentos inerentes ao corpo... Sim! Falamos de gestos, entre outras cosias

    falamos de: formas, expresses, possibilidades, educao, comunicao, arte:

    simplesmente corpo que dana!

  • 35

    Falar em dana significa falar do movimento, mas tambm de educar o

    movimento. Para Mansur (2003, p. 212), educar significa conduzir para fora, extrair de

    si algo que se mostre significante, algo que ecoe em si mesmo e produza sentido,

    produza vida.

    Nesse sentido, a necessidade do ser humano em se-movimentar, em ser e estar

    no mundo, como sentir, ser e permanecer na sua forma prpria ao se expressar torna-se

    atenuante nas relaes estabelecidas pelo corpo que dana.

    Segundo Rosa (2008, p. 62), a dana vai alm da mera reproduo de

    movimentos padronizados,

    [...] a dana um aprendizado do corpo e uma especializao desse corpo que construdo na ao, a prtica e a produo de um conhecimento. Do corpo que dana exige-se, constantemente, uma ampliao de suas possibilidades, sejam elas de motricidade ou comunicao. sabido tambm que inerente ao corpo a experincia do fazer, do agir no mundo, mas essa ao e esse fazer do corpo que dana procuram dilatar a experincia.

    Nesse sentido, a dana possibilita ao ser humano uma compreenso de mundo de

    maneira diferenciada, ou seja, um aprendizado que se alcana atravs do saber-sentir,

    pelo se-movimentar. Enquanto arte vivida, conforme Rocha (2008), a dana provoca ao

    corpo-sujeito formao de um ser mais crtico, sensvel, criativo e atuante na

    sociedade que o envolve, j que podemos entender que vivenciar a dana um meio de

    buscar em si mesmo, atravs dos movimentos corporais, a plenitude da vida.

    Enquanto educao, a dana deve preservar a espontaneidade do movimento,

    mantendo a expresso criativa do corpo-sujeito, bem como cultivar a capacidade de

    trabalho no coletivo, ou seja, o agir com os outros. Acreditando, assim, num ensino

    mais criativo dos contedos tcnicos da dana, incentivando a comunicao no-verbal

    pela explorao da carga expressiva e espontnea de cada movimento e prprio de cada

    corpo-sujeito, ou seja, expressar-se criativamente pelo seu movimento, contribuindo

    assim a:

    [...] tomar conscincia de suas possibilidades, aumentando sua capacidade de resposta e sua habilidade para se comunicarem. [...] a sensibilizao e a conscientizao tanto nas posturas, nas atitudes, nos gestos e nas aes cotidianas, quanto em suas necessidades de se expressar, de comunicar, criar, compartilhar e interagir na sociedade na qual vivemos (STRAZZACAPPA E MORANDI, 2006, p. 73).

    Nessa perspectiva, a dana se configura enquanto manifestao humana possvel

    de modificaes e insero de novos conhecimentos baseando-se nas experincias e

    possibilidades de cada ser.

  • 36

    O corpo que dana tem o privilgio de agir e interagir em constantes mudanas e

    estados de movimento, que sofrem de forma objetiva e subjetiva influncias de um

    corpo atuante inaugurando um processo dialgico tambm com o outro.

    Rosa (2008, p. 68) fala que o corpo que dana est inserida num jogo potico e

    estabelece relaes entre corpo e espao,

    Compreender as habilidades do corpo atravs da dana pensar que o corpo que dana fala sobre si, que o corpo por suas qualidades constri um fazer que especializa seu potencial, entender que o corpo que dana habita o mundo e o espao, que ele mesmo capaz de construir o seu repertrio para a realizar habilidades especficas que o tornem mais apto ao (Ibid, p. 69).

    E para que essa compreenso acontea necessrio que esse corpo danante

    estabelea relaes no ato do se-movimentar e consiga sentir-se atravs das aes desse

    se-movimentar ator do movimento, e ainda, autoral desse, pois somos corpo arte quando

    danamos.

    Atravs das experincias e vivncias de ritmos e estilos de dana construmos

    nosso vocabulrio de movimento, porm, no basta apenas o conhecimento no mbito

    de classificarmos o que se dana, mas sim, sabermos o que danamos, porque

    danamos, e como esse danar reflete em minha vida.

    Merleau-Ponty (1999), nos dizia que toda a experincia fonte de conhecimento

    e possibilita novo olhar para o fenmeno, sendo esse novo olhar atravs do meu corpo

    singular e do que eu construo com ele.

    As experincias de nosso corpo construiro a nossa existncia, daro significados a nossos projetos e ao conjunto de processos vividos. Experincias de um corpo pensamento, de um corpo arte, de um corpo que dana. De um corpo singular e universal, por conseqncia de suas experincias e de seus projetos, (ROSA, 2008, p. 67).

    A dana possibilita ao corpo-sujeito no ato de danar uma sensao de plenitude,

    de princpio de vida, de liberdade de ser como somos e estarmos como estamos naquele

    momento, pois como nos traz Rosa (2008, p. 71) na dana o prprio corpo obra de

    arte, movimenta-se num espao que potico e tem conscincia disso, que joga com as

    possibilidades de ser corpo, e , portanto, um corpo que se sabe arte.

    Segundo Lima (2002, p. 55):

    A dana compreende a unio do movimento com o prazer, a alegria, a criatividade, a criticidade, espontaneidade, tristeza, expresso e a arte [...]. Vivenciar a dana proporciona um dilogo com o mundo, com o cotidiano, com a corporeidade, auxiliando a revelar a prpria existncia, pois a arte se confunde com a vida e a dana est contida nela. Falar de dana como

  • 37

    sinnimo de vida significa perceber e reconhecer os conflitos da existncia, das angustias do corpo, as opresses sociais e as transformaes individuais e coletivas [...].

    Todo corpo pode danar, quando acreditamos conforme Gaio e Gis (2006, p.

    19) que a dana existe como uma expresso prpria do ser humano e que esse ser

    humano de forma individual ou em grupo por meio de movimentos no-verbal expressa

    suas idias com objetivos de denuncia ou libertao de algo. A dana pode ser

    linguagem, para construo de uma nova cultura, de uma nova sociedade, de um novo

    mundo.

    Para Saraiva-Kunz (2003) a dana um fenmeno que corporalmente

    manifestado incumbe ao corpo a mediao entre o ser e o mundo numa totalidade

    vivida, ou seja, o movimento vivido em dana. [...] a dana um fenmeno criado cuja

    presena vivida uma experincia que faz emergir a reelaborao capaz de nos

    estimular muitas outras questes vitais para uma nova experincia (p.92).

    Para Dantas (apud Gaio e Gis, 2006, p. 18),

    Um corpo, ao danar, entrega-se ao mpeto do movimento, deixando-se deslocar e transformar. Ele atravessa o espao, joga com o tempo, brinca com as foras e leis fsicas, diverte-se com seu peso, provoca dinmicas inusitadas. Mas para que haja o movimento preciso tambm haver o no-movimento, a quietude, o silncio do corpo danante. o imvel que sustenta o movimento, assim como o vazio o no-movimento solicita e impulsiona o movimento para ser ele mesmo.

    A dana possibilita uma outra forma de sermos e de estarmos no mundo,

    provocando uma ampliao na/da vivncia do corpo em movimento, perpassando a

    ideia de ser mais do que movimento corporal sendo nada mais do que o movimento

    corporal, em suas variadas formas e significaes, contudo alicerado pela capacidade

    expressiva e intencional de movimento (SARAIVA-KUNZ, 2003, p. 101).

    A relao de cada pessoa com a dana algo diferenciada conforme sua vivencia subjectiva e a realidade social. Ambas se reflectem na atribuio de significados que a pessoa faz, de forma que ela tem sempre uma compreenso biogrfica da dana: cada pessoa tem formulado o significado que a dana tem para si (Ibid, p. 107).

    No entendimento da dana como arte e comunicao podemos traar tempos e

    movimentos pela ao intencional de nos descobrirmos enquanto corpo danante e

    atuante no meio, no sentido de explorar seu efeito denunciador, crtico e sensvel a

    quem assiste, a quem a produz e, principalmente, a quem a sente indiferente da maneira

    de senti-la.

  • 38

    Para Gaio e Gis (2006, p. 21), a dana arte, quando:

    [...] transmite o sensvel e o inteligvel pela esttica do movimento; quando leva corpos a viajar nas idias que emanam dos movimentos, ao mesmo tempo em que induz outros corpos a apreciar, refletir e sentir essas idias para alm de simples movimentos como fatos e realidade que devem e podem ser transformados.

    A dana uma linguagem corporal de um texto cultural que permite ao corpo-

    sujeito expressar sentimentos e sensaes atravs do se-movimentar humano

    intencional, expressivo e singular. A dana uno para o corpo-sujeito que se percebe e

    que a vive na sua essncia. A dana configura um dilogo da pessoa com seu mundo,

    um dilogo onde se investe a expresso do mundo vivido (SARAIVA-KUNZ, 2003, p.

    126).

    Como nos fala Nbrega (apud Gaio e Gis, 2006, p. 18),

    A dana deriva da corporeidade do danarino. A lgica da dana, sua configurao, encontra-se na interpretao/criao de movimentos. Para compreend-la preciso danar, pois trata-se de um conhecimento vivencial, envolvendo o corpo, os movimentos e a percepo. A dana est diretamente vinculada ao corpo, sua linguagem configurada pelo movimento, criando um vocabulrio prprio de gestos significativos.

    Para Saraiva-Kunz (apud Saraiva et. al, 2007, p. 107) a dana uma

    experincia esttica que desenvolve uma capacidade de percepo do mundo,

    tornando-o capaz de vivenci-lo, refleti-lo e recri-lo.

    Nesse entendimento, o corpo-sujeito que dana experincia outra maneira de ser

    estar no mundo, de forma singular, subjetiva e intencional, por esse ser corpo no seu se-

    movimentar.

    2.3 Corpo com Deficincia Visual: Simplesmente Corpo que Dana...

    O trabalho de concluso de curso (TCC) provocou e nos desafiou de maneira

    significativa a pensar no corpo-sujeito com deficincia visual que dana, o qu tambm

    nos trouxe, conforme relatamos no trabalho, novas perspectivas e muitas possibilidades,

    instigando nosso olhar a olhar, j que olhar para o corpo que dana ver alm do que

    os olhos podem enxergar, viver e criar com a dana (VENNCIO e TAVARES e

    FIGUEIREDO, 1999, p. 218).

  • 39

    Isso nos levou a refletir que, ser corpo-sujeito com deficincia visual diz respeito

    a ter menos visibilidade, a ter menos informao sobre certa situao em comparao

    com uma outra pessoa que pode ver essa situao [...]. O ver e o no ver fazem parte da

    sua vida (TIM GEBBELS apud FREIRE, 2001, p. 03).

    A dana uma possibilidade para todos os corpos e que ela se basta na sua

    materializao singular e sensvel. No entanto, para quem dana buscando uma

    identidade de corpo perfeito, o ato de danar ainda se sustenta na padronizao elitizada

    de movimento e de corpo, isso, nega a possibilidade de ser corpo danante na sua

    singularidade e na maneira de ser e estar no mundo tornando esta experincia mais

    sensvel e significativa.

    Conforme Rocha (2008), quando o corpo-sujeito com deficincia dana a

    diferena ainda pode parecer inquietante aos olhos de quem o assiste, infelizmente, pois,

    vivemos num mundo de aparncias, dominante e que comete grandes erros, como o no

    reconhecimento a esse corpo danante, atravs da rejeio ou comoo.

    Nesse sentido, Freire (2001, p. 40) levanta alguns questionamentos,

    Considerando que a deficincia significa a anttese cultural do corpo saudvel e apto, o que acontece quando uma pessoa com deficincia apresenta-se no papel de danarino? [...] pode a integrao de corpos deficientes na dana resultar rupturas com as pr-concepes das habilidades sobre o profissional da dana? Ou ser, ainda, que o corpo deficiente transcende sua deficincia para tornar-se um danarino?

    Como argumenta Arendt (apud Freire 2001, p. 03), aos olhos do espectador:

    [...] nada e ningum existe neste mundo cujo prprio ser no pressuponha um espectador, por conseguinte: o fato de que as aparncias sempre exigem espectadores e, por isso, sempre implicam um reconhecimento e uma admisso pelo menos potenciais, tem conseqncias de longo alcance para o que ns seres que aparecem em um mundo de aparncias - entendemos por realidade tanto nossa quanto a do mundo.

    A dana para o corpo-sujeito com deficincia visual deve propor uma nova

    experincia esttica que permita conforme Tolocka e Verlengia (2006, p. 12) que a

    diferena seja vista como riqueza e no problema.

    Nesse sentido, a proposta de trabalho com a dana para Pessoas com deficincia

    visual se fundamenta na perspectiva de incluso e emancipao dos sujeitos que por