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Nihonjin 1a Ed. - Oscar Nakasato

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  • Sumrio

    Capa

    Abertura

    Dedicatria

    Epgrafe

    1

    2

    3

    4

    5

    6

    7

  • Em memria de Yasuo Nakasato.Para Emiko Nakasato,

    que me acompanha sempre.Para Elzinete e Juca, que leram antes.

  • Y batake kuwa wo tomerazuoya no te wo miiru kodomo ni

    tasogare fukashi

    O lusco-fusco aprofundaa figura do menino olhando

    as mos do paique no larga a enxada.

    (Bosanjin, 1928)[1]

  • 1SEI POUCO DE KIMIE.H uma fotografia dela em preto e branco na casa de tio Hanashiro, as bordas cortadas em

    pequenas ondas pontudas, amarelada, em meio a tantas outras igualmente antigas, perdidanuma caixa de camisa. Quem se lembra dela? Homens e mulheres se instauram em algummomento, depois o tempo impe os extravios. O tempo sua reta inflexvel como o traadode uma flecha certeira no ar, sua norma inquestionvel e singular vai manchando asimagens, apagando algumas, gravando rudos no verbo, e logo se duvida do que foi dito, ou senecessita preencher as elipses, realar os contornos para que se possa ver, ou inventar traose cores em folhas em branco. No se pode fiar em palavras, mesmo as de vov, em cujaslembranas procuro os vestgios de Kimie, e mesmo as de tio Hanashiro, que registrou umvago perfil da primeira esposa do pai porque algumas vezes ele lhe falou sobre ela. Mas oque tenho alm da fotografia desbotada, onde a vejo: baixinha, magrinha, encolhida ao ladode ojiichan, pronta para o trabalho, metida num vestido claro, abotoado at o pescoo, demangas longas fechadas no punho, e numa cala amarrotada. Na cabea e no pescoo, lenospara se proteger do sol. Seus olhos assustados no fixavam a cmera, embora olhasse para afrente. Ao fundo, a fachada principal da casa velha, de madeira escurecida pelo tempo e pelasujeira, onde morava.

    Tio Hanashiro me contou algumas coisas dela que o vov havia lhe dito muito tempo atrs,coisas de que o prprio ojiichan se esquecera: que se afeioara a uma galinha e se recusava amat-la, que a levara ao meio do mato e a soltara para no ser obrigada a sacrific-la; queum dia, ao puxar o rastelo de baixo de um p de caf, trouxera junto com as folhas umacobra-cega e ento desmaiara; que fizera amizade com uma negra que morava na colnia,uma negra que fazia rezas e chs e curava doentes. E me pus a imaginar como se tornariamamigas uma imigrante japonesa que chegara havia pouco tempo do Japo e uma negra nasegunda dcada do sculo XX.

    Ojiichan, comparando Kimie com a vov, disse que eram muito diferentes, que ela,Kimie, era medrosa, fraca, que no servia para o trabalho duro da lavoura. E falou, rindo umriso que no ria havia muito tempo, um riso que trazia do passado distante, que ela ficouesperando pela neve no Brasil. Eu me surpreendia enquanto o riso ia se transformando emum sorriso melanclico. Agora via nas marcas de expresso de seu rosto e nos olhos cansadosuma mgoa que trazia daquele passado. Eu disse:

    Gostaria de t-la conhecido. Para qu? No fazia nada direito, mal falava.Mas gostei de Kimie, interessei-me por ela. Pensei nela como personagem, algum que

    nasceu da espera pela neve numa fazenda, no interior de So Paulo.

  • Eu a encontrei, primeiro, no navio, na longa viagem do porto de Kobe, no Japo, ao portode Santos, no Brasil.

    Calada. Assim eu a imaginei: ao lado de Hideo, o marido, sempre calada, cabisbaixa,encaramujada. Os cabelos estavam presos, mas mal-arrumados, com fios desalinhados.Usava um quimono pobre, de tecido claro com bolinhas rosadas, que ia at os tornozelos. Nosps, meias brancas e chinelos com base de palha e tiras de pano. Parecia, ento, menor doque realmente era. Quase inexistente.

    Depois era uma outra hora, provavelmente um fim de tarde vi os homensconversando animadamente sobre seus planos. Um, ao lado de Hideo, falava alto para quetodos conhecessem seu projeto, para que todos compartilhassem seus sonhos: ficar no Brasildurante quatro anos, cinco anos.

    Os anos passam depressa disse sorrindo, ao mesmo tempo em que se preparava parafumar um cachimbo.

    Depois, com bastante dinheiro no bolso, abrir um pequeno restaurante em Yokohama,servir sashimi com um shoyu especial que sua mulher, s ela, sabia fazer.

    No mesmo, Marichan?Deixar os concorrentes transtornados. No mesmo, Marichan?A esposa, um pouco distante, em conversa com outras mulheres, mas atenta ao marido,

    concordava: Hai.Outro, fungando a coriza do resfriado que contrara no porto de Kobe, onde ficara

    bastante tempo sob uma chuva fina, disse que queria voltar para a lavoura de arroz, quelavrar a terra era a nica coisa que sabia fazer.

    Um terceiro lamentava a queda da exportao da seda para os Estados Unidos, pois a suafamlia tinha uma criao de bicho-da-seda e de repente no podia produzir mais, no tinhamais compradores, e no restara outra sada que ir ao Brasil. Ia com o pai e os dois irmos. Ame ficara no Japo, na casa da av. Ela fora reprovada no exame mdico obrigatriorealizado alguns dias antes da viagem porque estava com tracoma. No sabia que os olhosvermelhos, cheios de muco, constituiriam um impedimento para viajar ao Brasil com afamlia. Mirando o piso do convs, o homem se lamentou, disse que era tudo um grandesofrimento, pois nunca pensara em sair do Japo, que deixara a me aos prantos no porto,que queria voltar logo, o quanto antes, depois abrir em sociedade com os irmos e o pai umamarcenaria para fabricar mesas, armrios, prateleiras, que quando era criana gostava debrincar com madeira.

    Um quarto homem, de cabelos longos e cavanhaque, o rosto muito srio, figura prximaquelas que se v em filmes de samurai, esfriou o nimo dos demais. Sussurrou primeiro umsussurro que no era humano, que era um lamento de animal desterrado, incompreensvel;depois disse, como se dissesse para si mesmo, que aps a partida ficara na amurada porlongo tempo olhando o porto, as pessoas acenando, algumas balanando bandeirinhas,

  • tornando-se cada vez menores medida que a embarcao se afastava, enquanto no navioalgumas pessoas ainda gritavam banzai, e no se sabia se festejavam ou lamentavam aquelaviagem. Depois a vista foi se estendendo, e ento o que se via era a cidade, que tambm foiencolhendo. Pensou que nunca mais veria o Japo, por isso no saiu da amurada at o marengolir a ltima mancha esverdeada de uma montanha distante.

    Os outros homens o ouviram assustados, surpresos com aquele prenncio de um futuro emexlio.

    No seja to pessimista disse algum.No era pessimismo, prosseguiu o homem. Era uma forma de pensar no porvir para no

    ser surpreendido. O Brasil ficava do outro lado do mundo, um lugar inimaginvel, por maisque lhes dissessem que era uma tima terra para se ganhar dinheiro. Um pas desconhecido,com homens estranhos, que podiam ser violentos, que poderiam querer impor normasdifceis ou at impossveis de serem cumpridas por japoneses. Um pas subdesenvolvido,onde podia haver epidemias. No lhes haviam dito se haveria mdico quando algum ficassedoente, se haveria um navio que traria de volta aquele que no se adaptasse ao trabalho nalavoura de caf, se haveria a quem reclamar se um nihonjin fosse maltratado. Era um artista,sua mo estava acostumada a segurar pincis leves e singelamente traar riscos sobre peasde barro.

    Uma voz se imps, interrompendo: Desculpe eu dizer, Kimurasan, mas ter uma ideia to negativa a respeito de nossa ida

    ao Brasil falta de patriotismo, um desrespeito ao imperador. Ele quer que emigremos,que fiquemos um tempo em terra estrangeira, mas que voltemos depois, com bastantedinheiro, e ajudemos no desenvolvimento do pas. Ser a nossa contribuio. E ningum vaipensando que encontrar um trabalho fcil, que no ser exigido suor. O governo no nosenganou dizendo que ganharamos dinheiro com arte. Se Kimurasan no aguenta empunharuma enxada, no deveria estar neste navio.

    Era a voz de ojiichan.Houve um breve constrangimento, ningum sabia o que dizer. O homem de cabelos longos

    e cavanhaque prosseguiu: Inabatasan, sei muito bem que uma enxada pesa mais que um pincel e que no Brasil

    vou fazer o meu traado sobre a terra, no mais sobre vasos e bules de ch. No o que mepreocupa, eu j fui lavrador e sou jovem e forte para aguentar o trabalho duro sob o sol. Oque me deixa apreensivo que lavraremos uma terra alheia, estrangeira, e obedeceremos sordens dos donos dessa terra, que no conhecemos. Os meus vizinhos sempre foramnihonjins, eu ia ao mercado e era um nihonjin que me vendia cereais, eu ia comprar tinta eera um nihonjin que me atendia, conversava comigo em japons.

    A gente aprende a falar brasileiro arriscou algum. Veja, nem isso vocs sabem. No Brasil no se fala brasileiro, l se fala portugus,

    porque o pas foi colonizado por portugueses. E no se aprende a falar uma lnguaestrangeira de um dia para o outro. Vocs devem se preparar para um comeo de

  • dificuldades para no serem surpreendidos.Sem falar mais, o homem se afastou. Ento ojiichan sorriu: Vamos ao Brasil contentes, cheios de esperana. No podemos permitir que um

    pessimista como Kimurasan contamine o nosso nimo.Todos o aplaudiram, e logo o ar pesado se desanuviou. Hideo prosseguiu falando, agora

    sobre os seus projetos pessoais: teria uma loja de utenslios domsticos em Tquio ou Osaka,j que o Japo estava se industrializando, fabricando peas em srie, e precisava de comrciopara vend-las. Teria trs ou quatro funcionrios, quem sabe meia dzia. Seria patro. Daria me, que j sofrera tanta penria, um pouco de conforto. Falar da me embargou-lhe a voz,calou-se por um instante, mas logo se animou novamente. Disse que a loja teria uma grandevariedade de produtos, todos de boa qualidade, pois seu comrcio teria fregueses da altasociedade. No perguntou a opinio de Kimie. Ela teria gostado que lhe dissesse: No mesmo, Kimichan?. Responderia que sim, com sinceridade, ou simplesmente sorriria eacenaria com a cabea, concordando.

    Hideo continuou: No Japo, s ganham dinheiro com a agricultura os latifundirios.E se dirigindo ao homem que pretendia voltar lavoura: E Hanadasan no est pretendendo comprar um latifndio, no ?Riu. E prosseguiu em tom professoral, dizendo que os pequenos proprietrios estavam

    mngua, os impostos eram elevados e o governo apoiava mais a indstria. claro que algumdeveria produzir alimento para o povo, mas que se encarregassem disso os grandesproprietrios. O governo investira na construo de usinas geradoras de energia, emindstrias de fiao de algodo e em siderrgicas para o pas se modernizar.

    A vida agora acontece na cidade completou.Kimie, sentada sobre as pernas, as mos pousadas uma sobre a outra, pensava que

    preferiria, como Marichan, abrir um pequeno restaurante, onde poderia se dedicar apreparar as iguarias que sua me lhe ensinara a fazer, enquanto o marido se encarregaria doatendimento e do caixa. Suas ideias, porm, logo foram desviadas para a loja de utensliosdomsticos, pois desejar outra coisa seria intil. Ento sonhava, agora, com a loja, mas semsaber se era a mesma que habitava as expectativas do marido. Seria bom viver entre panelas,hashis, colheres, jarros, canecas, tigelas, vassouras, cestos, talvez algum vaso, pois vasos,embora no fossem teis para os homens e as mulheres, alegrariam os olhos. Seria bomdispor as peas nas prateleiras, limp-las, vend-las para que algum vivesse melhor comelas.

    Depois, quando o navio chegou ao porto de Santos, vi Kimie se espremendo em meio ahomens e mulheres maiores que ela, procurando um espao na amurada. Primeiro asurpresa agradvel da recepo feita pelos japoneses que j moravam no Brasil, a alegria dever tremulando no ar pequenas bandeiras brancas com a bola vermelha no centro, aconfortvel sensao que substituiu a apreenso instalada no corao quando o capitoanunciou que o navio estava prximo de terras brasileiras. Logo as outras caras, criaturas

  • estranhas, e principalmente a viso assustadora dos negros, estivadores carregando enormescargas, gente jamais imaginada, nunca vista em gravuras de livros.

    Aps a pequena confuso para cada um encontrar a sua bagagem, todos foram de trem aSo Paulo, para a Hospedaria de Imigrantes, no bairro do Brs. No trajeto, Kimie olhava pelajanela do vago com o olhar curioso do estrangeiro: a mata cerrada, as rvores se enroscandoumas nas outras em encontros promscuos, confundindo-se na paisagem com seus galhos-braos envolvendo as vizinhas, os cips finos e os cips grossos assegurando que essesencontros fossem duradouros, as bananeiras e suas enormes folhas, os manacs sedestacando em meio ao verde em branco e rosa, os coqueiros eretos, elegantes. Depois apaisagem urbana da metrpole: o amarelo plido dos prdios e dos casarios, os homens emroupas escuras e passos rpidos, os bondes recolhendo e deixando gente nas ruas. Kimieperguntava algumas coisas a Hideo, no tudo, pois era esposa, e sua curiosidade era maiorque a pacincia do marido. Hideo respondia o que sabia com o orgulho de quem sabe e o queno sabia com o orgulho de quem no sabe. Kimie entendia algumas coisas, outras no, poisas explicaes no eram sempre claras, mas no repetia nenhuma pergunta, conformava-secom os fragmentos.

    Ao deixar a hospedaria no dia seguinte, um funcionrio lhe disse algumas palavras, e umintrprete da Companhia de Imigrao, que estava a seu lado, traduziu a frase: que eles, osjaponeses, eram bem-vindos, que eram todos muito educados, muito organizados, e seriabom se todos os imigrantes fossem assim. Ela disse ento, pela primeira vez, uma palavra emportugus:

    Obrigada.O intrprete lhe explicou em seguida que o mesmo funcionrio havia se queixado de

    outros imigrantes, que deixavam os quartos sujos e desarrumados.Depois, outra viagem de trem, agora de So Paulo para o interior. Na moldura da janela,

    apareceram os primeiros cafezais. Hideo, como quem sabia, explicava esposa: Veja, o caf.Aps a viagem de trem, o desembarque na pequena estao do interior, mais alguns

    quilmetros na carroceria de um velho caminho, e finalmente vi Kimie na casa da fazenda,na casa da fotografia.

    Ojiichan lembra o nome da fazenda? Ouro Verde.O nome da fazenda era a promessa que lhes haviam feito no Japo, metonmia de uma

    terra sem fim, onde faltavam braos para arrancar de suas entranhas a riqueza que oferecia.Kimie desceu em frente casa que lhe havia sido destinada, sentiu os sapatos afundarem

    no p. Depois observou a casa acanhada, de madeira encardida pelos anos, a manchaescurecida pelos respingos da chuva na parte inferior formando um largo rodap, as janelasde duas folhas fechadas. Ao lado da porta, havia uma pequena estrutura retangular demadeira, uma caixa sem fundo e sem tampa, em que estava fixada uma enxada com o fiovoltado para cima. O capataz que os acompanhava percebeu a curiosidade de Hideo e logo se

  • ps a demonstrar a serventia daquele instrumento: ergueu a botina, colocou-a sobre a lminacega e realizou movimentos de vaivm.

    para limpar os sapatos em dias de chuva explicou.Depois ele abriu a porta, e Kimie sentiu o forte odor que exalava do interior, um cheiro

    que lhe parecia um pouco de urina, um pouco de comida estragada. Antes de entrar, ergueuos olhos para o marido: era mesmo essa a casa que habitariam? Hideo compreendeu aangstia no olhar de Kimie, porm no disse nada, pois o prprio desapontamento j lhecustava muito. Fez uma pequena presso em seu ombro para que entrasse, e ela procurou asolidariedade de Jintaro.

    No era o que esperava, no , Kimichan? No podemos fazer nada, melhor nosconformarmos.

    O capataz abriu as janelas, disse que logo o cheiro se dissiparia, que a casa ficara muitotempo fechada, e como os novos moradores o olhavam sem entender o que dizia, caiu em si,riu, apertou o nariz com o indicador e o polegar, e com a outra mo, aberta, fez ummovimento em direo janela. Kimie riu, Hideo e Jintaro tambm riram: era engraado ehospitaleiro o capataz.

    Depois vi Kimie observando o piso de terra batida: os sulcos desenhando mapas no cho, oesboo de seu pas no centro da sala. Ela examinou as cortinas penduradas em aramesisolando dois cmodos que ficavam ao lado, uma gravura com rvores e morros esquecidapelos ex-moradores fixada com pregos na parede. Foi ao aposento ao lado, que lhe pareciaser um quarto, mas sentiu falta de um armrio para guardar as roupas e de uma cama.Ento, sem lembrar que o capataz no entenderia suas palavras, perguntou-lhe sobre osmveis e, mesmo depois que ele lhe demonstrou com o semblante que nada compreendia,seguiu cobrando, quase chorando, perguntou onde dormiriam, onde guardariam suas roupas.Em seguida fez gestos, e o capataz entendeu, disse que no havia mveis. Falou devagar,traduzindo as palavras com a mo, que apontava o piso duro. Explicou que os colonosdeveriam fabricar as camas, os armrios, as prateleiras, a mesa, as cadeiras, que haviamadeira na fazenda, ou ento que fossem cidade comprar os mveis; se no tivessemcolches poderiam usar palha de milho, era o que a maioria fazia.

    Quando o capataz acabou de falar, Kimie ouviu Mariko, que seria sua vizinha, em voz alta,dizendo ao marido que no ficaria, que ele havia prometido uma casa de alvenaria, o soalhode tijolos.

    Vamos deixar tudo no cho por enquanto disse Hideo. Depois fabricaremos osnossos mveis, no compraremos nada, no podemos j gastar o pouco dinheiro que temos.

    Na primeira noite, estenderam panos sobre o cho para dormir. Hideo observou a esposa esentiu pena:

    Me desculpe, Kimichan, eu no esperava que fosse to difcil.Kimie se virou para o esposo, surpresa. Hideo nunca lhe falava assim, com a voz terna, e

    nunca lhe pedia desculpas por nada.No tiveram dificuldades em adormecer, apesar do desconforto, porque estavam muito

  • cansados. Quando acordaram, porm, sentindo dores no corpo, decidiram que era urgenteprovidenciar colches.

    O capataz levou Hideo, Kimie e Jintaro ao paiol e lhes explicou com gestos o quedeveriam fazer: debulhar trinta espigas de milho para ganhar, em troca, a quantidadesuficiente de palha para os colches. O tecido para as capas poderia ser adquirido noarmazm da fazenda a um preo bem baixo.

    A primeira manh na fazenda: debulhar o milho e ficar com as mos esfoladas, rasgar aspalhas de milho em pequenas tiras, recortar as partes duras da base, descart-las, recortar otecido de algodo ordinrio com a tesoura cega, costurar dois sacos, um pequeno paraJintaro, outro grande para Hideo e Kimie, reche-los de palha.

    tarde, quando acreditavam que poderiam se dedicar fabricao dos mveis, foramconvocados para ir lavoura. Era hora de aprender a capina. Os japoneses ficaram em tornode um colono, orgulhoso em sua funo de mestre. Com uma enxada nas mos e falandomuito, esquecendo-se de que aqueles aprendizes no podiam compreend-lo, ps-se aensinar com palavras e gestos: curvar um pouco o corpo no muito , estender a enxadarente ao cho, pux-la com algum esforo para afund-la e arrancar a erva daninha, depoisrevolv-la para evitar que, encoberta pela terra, voltasse a brotar.

    A senhora, experimente disse a Kimie.Ela entendeu o que significava a enxada estendida em sua direo. Timidamente pegou o

    instrumento agrcola, que lhe pareceu mais pesado que nas mos do homem. No soubecomo manej-lo, atrapalhou-se ao tentar afund-lo na terra. Ento Hideo tomou oinstrumento das mos dela e arrancou algumas ervas daninhas com uma enxadada.

    assim que se faz!O capataz distribuiu enxadas para todos, e todos passaram a tarde capinando. Ojiichan, s tinha nihonjin na colnia?No. Havia italianos, havia brasileiros. Vov se lembrava pouco dos italianos. Disse das

    festas que faziam, da alegria incomum em trabalhadores que lavravam terra alheia em umpas que no era deles. Mas eu os conhecia dos meus livros de histria, dos filmes sobre aimigrao italiana. Ento pude v-los: de manh, quando iam para o cafezal, j cantavamcantigas alegres num grande coro de vozes de homens e mulheres. E noite se juntavam noterreiro, comiam batata-doce assada na fogueira, comiam bolos, bebiam vinho, cantavam edanavam. Aos domingos, Hideo e os outros japoneses estavam ocupados com a horta, com osremendos das roupas, recebiam as visitas no quarto, onde, descalos, acomodavam-se nacama para lembrar o Japo, para confessar as frustraes e redefinir projetos; e os italianoslevavam bancos e tocos sombra das mangueiras, ficavam sentados, conversando, gozando odia de folga. Alguns iam ao terreiro, onde haviam improvisado uma pista para o jogo debocha. E todos falavam muito alto, falavam muito rpido, falavam muito, homens emulheres, todos ao mesmo tempo, e Hideo no sabia como podiam se entender daquele jeito.

    Eu percorri a colnia, observando as casas. A ltima era a da Maria, a negra com quemKimie fizera amizade. Parei, fiquei longo tempo em frente casa de porta fechada, igual s

  • outras, construda para abrigar homens e mulheres trabalhadores. Ento a porta se abriu, epude ver a sala. Vi uma pequena mesa, ao redor da qual havia dois bancos e duas cadeiras, enos bancos e cadeiras podiam se sentar seis pessoas. Sobre a mesa se estendia uma toalhaalegre, com estampa de flores, e sobre a toalha havia uma moringa de barro, e ao redor damoringa trs canecas de alumnio. Nas paredes, em todas, estavam penduradas gravuras dediversos tamanhos, algumas de santos e santas, outras de montanhas e rios e rvores. Numcanto da sala, encolhido, um cachorro magricela e sujo dormia, sem se incomodar com asmoscas pousadas ao redor dos olhos. Surgiram depois os moradores: um homem negro, umamulher negra e duas crianas negras. O homem era forte e sereno. As crianas eram alegres,o menino com uma camisa pequena, o umbigo mostra, um calo rasgado, e a menina comum vestido reto, em que se usou pouco tecido, quase um tubo. A mulher: altiva, sorridente,bela. Imaginei Kimie no segundo dia, na fazenda, quando abrira a porta ao escutar doistoques leves e dera de cara com aquela mulher alta, forte, de uma cor inacreditavelmenteescura, sorrindo, os dentes brancos em contraste com a pele, dizendo alguma coisa.

    Eu sou a Maria. Vim desejar boas-vindas.Assustada, com medo, Kimie fechou a porta com fora. Que gente era aquela? E foi falar

    ao marido, que abriu a janela. Ento viram, aliviados, que a mulher ia embora, caminhandocom passos firmes, sem olhar para trs.

    No se meta com essa gente disse Hideo. Me disseram que os negros foramescravos no Brasil, que tm raiva de todos os que no so como eles. So uma gente menor,de baixo valor.

    Kimie a viu outras vezes, e ao seu marido e aos seus filhos, todos negros. Ela, a mulherque lhe sorrira, que lhe dissera alguma coisa, no lhe dirigiu mais o olhar. Na lavouraobservava a preta peneirando o caf, constatava que ela o fazia melhor que os homens, egostava de v-la lanando os gros para o alto como se estivesse danando, esperando o cafretornar peneira, as folhas secas e os pauzinhos voando, desprezados.

    O marido, um pouco distante, cantava:

    Eu quisera s penraNa coita do caf,Pra and dipinduradoNas cadra das mui.

    E ela respondia: E eu bem que gostaria de dar com o cabo da enxada na sua cabea, seu sem-vergonha!Kimie se arrependeu de ter fechado a porta na cara daquela mulher. Aquele sorriso,

    aquelas palavras, provavelmente eram uma saudao. E depois de v-la muitas vezes, semprecarinhosa com os filhos, andando de mos dadas com o marido, carregando enxadas erastelos, acostumou-se com a sua cor, no lhe tinha mais medo. Hideo a alertou mais umavez:

    No se meta com essa gente, eles tm raiva de ns.

  • Por isso demorou meses para procur-la, para se desculpar, dizer que no era costume seutratar os outros sem educao. Aproveitou uma hora em que o marido estava no ofur haviam construdo um ofur fora de casa, junto com os Kawahara, seus vizinhos,aproveitando a habilidade de Jintaro, que trabalhava como carpinteiro no Japo; e todos osdias, dias frios e dias quentes, preparavam o banho, e todos de sua famlia e da famlia deKawaharasan se banhavam, e s vezes ainda vinham outros vizinhos e foi casa de Maria,carregando um repolho enorme colhido em sua horta. Deu duas batidas leves, to leves quediziam que no queria ser atendida, mas a porta logo se abriu. E aquela mulher grande,negra, que tanto a assustara da primeira vez, olhou-a, surpresa. Kimie pensou que ela fossebater a porta na sua cara, era natural que o fizesse, mas Maria ficou parada, o rosto srio,aguardando que dissesse alguma coisa. Ento, com voz muito baixa, que era a voz que tinha,disse em um portugus quase incompreensvel, misturado a algumas palavras em japons,que o repolho era de sua horta, que se chamava Kimie, que a desculpasse por aquele dia, queficara assustada, pois para ela tudo era estranho no Brasil. Ento, para seu alvio, Maria lhesorriu um sorriso grande como ela, de cima para baixo, pois ela era alta, e Kimie, baixinha. Edisse para Kimie entrar, fazendo gestos grandes para que a outra compreendesse, disse quelhe prepararia um caf, que lhe desculpasse, no tinha nada para dar em retribuio, quenunca tinha visto um repolho to grande e bonito. Kimie sorriu o seu sorriso pequeno noque fosse pequeno o seu contentamento, mas era o sorriso que sabia sorrir e disse queprecisava ir embora. No disse mais nada, pois j era muito para a primeira conversa, eHideo no poderia sentir a sua ausncia.

    E as duas, a japonesa e a negra, tornaram-se amigas.Hideo ficou sabendo da aventura de Kimie: levar um repolho para a famlia de negros da

    colnia. Irritou-se: No lhe disse para no se meter com eles? No lhe disse que eram uma gente

    ignorante, que poderiam ser perigosos? No so respondeu Kimie. So trabalhadores como ns. Mas eu probo voc de voltar l, de conversar com eles!Kimie respondeu que sim. E no dia seguinte, quando Maria a cumprimentou, ela disse um

    bom-dia nervoso, baixo, receosa de que Hideo percebesse. Depois, na lavoura, aproveitandoum momento de distrao do marido, aproximou-se da negra, disse-lhe que no poderiammais conversar. Maria compreendeu, afastou-se. Mas algumas semanas depois, quandopercebeu que Kimie se incomodava com uma coceira no p, que os japoneses se juntavamem torno dela sem compreender o que ela tinha, aproximou-se, desculpou-se com Hideo,pediu para olhar e disse que era bicho-de-p, que no era nada, que, se lhe permitissem, iria noite a sua casa com uma agulha e resolveria o problema. Hideo disse no, tentou seexplicar, mas no conseguia formular a frase em portugus, dizer que resolveria o problemasozinho, e por isso disse simplesmente no. Maria insistiu, Kimie pediu ao marido que adeixasse ajud-la. Hideo se manteve firme:

    No!

  • Quem resolveu o problema foi Paola, da primeira casa de italianos da colnia, que foi casa de Kimie e cavoucou o seu p com uma agulha de costura e disse que fora Maria quemlhe ensinara. E disse ainda que Maria conhecia rezas para vrias enfermidades e fazia chsde ervas que curavam clicas, dores de cabea e outras dores.

    Um dia, Kimie ficou muito doente, queixou-se de grande cansao, teve febre, e todosdisseram que Hideo precisava lev-la ao mdico, mas ele no achava necessrio. Que eladescansasse alguns dias, que ela s era uma mulher fraca e despreparada para o labor sob osol. E ele se resignou com o fazer a comida, pois duvidava que Jintaro o conseguisse, e faloupara ele lavar os pratos e as panelas. Ento, quando estava a ss com o amigo, disse aquilo:que Kimie no tinha jeito, que deveria ter se casado com uma mulher forte, que aguentasseo trabalho na lavoura, que estava perdido com ela.

    Uma noite, Maria apareceu na casa de Kimie sem ser chamada, e quando Hideo, ainda naporta, disse que no precisava da ajuda de ningum, alertou que ela, Kimie, poderia morrer,e que, se ela morresse, ele seria o culpado, e disse mais muitas coisas que ele nocompreendia. Mas ele compreendeu, sim, que Maria estava ali para ajudar, que ele no teriapaz se Kimie morresse. Ento aquele homem, que sempre falava alto, que era uma rocha,afastou-se, ficou ao lado do amigo Jintaro, de p, humilhado, olhando Maria, que era mulher,que era gaijin, que era negra, mas era grande, maior que ele, ajoelhada aos ps da cama deKimie, com a mo direita sobre a sua cabea, afastada um palmo, sussurrando umaspalavras. Em seguida disse que teria que buscar umas ervas em casa, e foi, e voltou logo comumas folhas de boldo e carqueja, despedaou-as com as mos, juntou tudo numa caneca comgua. Kimie tomou o ch, obediente. Depois Maria explicou a Jintaro e Hideo: ela trariamais ervas no dia seguinte, eles deveriam preparar o ch conforme tinham visto, e Kimieprecisaria tom-lo trs vezes ao dia. No segundo ou terceiro dia, ela estaria boa.

    No dia seguinte, Kimie despertou cedo. Sentiu o aroma de caf que vinha da cozinha, viuos raios tnues de luz que se infiltravam no quarto pelas frestas da janela: estava bem. Foi cozinha, viu Hideo coando o caf.

    Kimichan, volte para a cama.Argumentou que estava melhor. Ele pousou a mo aberta sobre a sua testa, a mo que

    aprendera a usar como termmetro, e constatou que ela ainda tinha um pouco de febre,ento insistiu para que descansasse mais, pois precisava se recuperar totalmente paracumprir as suas obrigaes.

    Mais um dia de cama, e Kimie estava curada. Ela preparou o caf da manh de Hideo eJintaro, preparou o almoo. Ento, aps o trabalho na lavoura, Hideo colheu muitos tomatese dois repolhos grandes, pegou um frango no quintal, levou-os casa de Maria. Curvou-setrs vezes diante da mulher, estendeu os presentes, agradeceu:

    Kimichan agora est boa.Ela disse que ele no precisava ter se incomodado, que fizera o que fizera porque sabia

    rezas e chs, que se Deus lhe dera a oportunidade para aprender a rezar e a fazer chs erapara ajudar aqueles que precisavam de rezas e chs, e que, alm disso, Kimie era sua amiga,

  • e lhe queria muito bem. Hideo entendeu um pouco, entendeu que ela gostava de sua esposa,e disse em japons, misturando algumas palavras em portugus, que era seu dever retribuir,que seria muito vergonhoso ficar devendo um favor, e pensou que a vergonha era maiorquando se devia um favor a algum inferior, a uma mulher negra descendente de escravos,mas isso no disse. Curvou-se mais vezes, e Maria, que entendera poucas palavras, mascompreendera que era um gesto de agradecimento, aceitou os tomates, os repolhos e ofrango.

    Em casa, Hideo disse a Kimie que j no deviam nada a Maria e que no aprovava aamizade das duas, que no deviam se misturar, pois os negros eram uma gente de valormenor.

    Depois vi Kimie cuidando da casa, e a casa no era muito diferente daquela queencontraram no primeiro dia, embora houvesse na entrada dois canteiros de margaridas queela plantara, um canteiro de cada lado, e estavam floridos, e as ptalas alvas contrastavamcom as paredes sujas. Na sala no havia mesa e cadeiras como na casa de Maria, por issosobrava um grande vazio no meio. Havia um estrado de madeira encostado parede comsacos de mantimentos, enxadas e rastelos encostados num canto, chapus e lenospendurados em pregos, cabaos amarrados em barbantes, tambm pendurados em pregos,enormes buchas espalhadas pelo cho.

    hora do jantar, Kimie estava na cozinha, de p, ao lado do fogo de lenha, onde ficavamas panelas. Hideo e Jintaro estavam sentados mesa e comiam nos pratos fundos,esmaltados: couve colhida na horta, carne do frango que crescera solto no quintal e arrozcomprado no armazm com pedaos de batata-doce, pois s arroz era muito caro, e noprecisavam comprar batata-doce, j que havia plantaes que se espalhavam pela fazenda.Uma vez por semana, comiam quiabo com shoyu, e no podia ser mais que uma vez porsemana, no por causa do quiabo, pois quiabo havia muito, e se gostassem podiam com-lotemperado com sal, mas porque shoyu era caro. Kimie observava os dois homens comendo e,quando algum prato ficava vazio, pegava-o e o enchia novamente. At que Jintaro avisou:

    J chega, obrigado.Depois Hideo: J chega.Ento era a sua vez de comer. Delicadamente enchia o prato, quase como se no tivesse

    direito comida que preparara enquanto os homens da casa estavam no armazm bebendopinga e contando vantagens. A mo delicada segurava desajeitadamente a colher de ferro,recoberta de zinco, pesada demais para quem estava acostumada a usar hashi de bambu. Oshomens continuavam mesa, conversavam sobre o dia no cafezal. Hideo falava sobre o solinclemente, Jintaro dizia que suas mos estavam doloridas de tanto derriar caf. Depoisainda descascariam o arroz sob a luz do lampio, pois o beneficiamento feito no sbadoanterior com pilo e peneira no fora suficiente para eliminar todas as cascas. E, no diaseguinte, teriam que acordar muito cedo, pois era maio, a colheita j comeara.

    Levantaram s cinco horas da manh. Kimie preparou o caf e as marmitas. Depois,

  • quando ainda era escuro, ela, acompanhando Hideo, Jintaro e outros colonos, seguiu para ocafezal. Uns carregavam peneiras, outros, rastelos. Alguns, ainda cansados da labuta do diaanterior, seguiam pelo carreador como se j estivessem retornando.

    A cada famlia foram destinadas as carreiras em que deveriam trabalhar. Hideo observou:s famlias de italianos, Mateo, o fiscal, reservava as carreiras com os ps mais carregados.Afinal, tambm ele era filho de imigrantes italianos. Hideo no se manteve quieto. Emboraj fosse considerado impertinente por fazer muitas reivindicaes, chamou o fiscal e,apontando a carreira em que a famlia de Giuseppe j iniciava o trabalho de apanha, disse,usando o seu portugus tosco, que gostaria de trocar com o italiano. Os que estavamprximos se viraram para o fiscal, curiosos com a sua reao.

    Faa o seu trabalho, Inabata, e no me perturbe!O fiscal era novo na Fazenda Ouro Verde, viera de outra propriedade do patro. Ao

    contrrio do anterior, que era cordial com todos e at protegia os colonos, escondendo doproprietrio o que faziam de errado, Mateo era indiferente ao cansao dos trabalhadores, smos machucadas de tanto deslizarem pelos galhos na apanha do caf. Por isso Kimie sofria.

    Nunca vi mulher to mole!Hideo e Jintaro procuravam poup-la da derriagem, pois suas mos tinham a pele muito

    fina, mas os outros trabalhos tambm eram pesados para ela. Por isso, nos momentos em queMateo estava distante, ela se sentava no meio do cafezal. Ento era a vez de Hideo:

    Que mulher mole fui arranjar!No havia o que fazer. O pagamento no fim da colheita dependia da produtividade da

    famlia, e Hideo se lamentava: Quanto receberemos desse jeito?Eram trs. No Japo, quando Hideo lhe disse que Jintaro iria junto, que viveriam os trs,

    como uma famlia, Kimie fez objeo. Ela que quase no falava. Mas viver na mesma casa com um estranho?Ele explicou: No um estranho, um amigo da famlia, filho de Otanisan.E, alm do mais, no havia outro jeito, o governo brasileiro exigia pelo menos trs enxadas

    em cada famlia. Se sua irm Kimiko quisesse ir junto, no precisariam fazer aquele arranjo,aquela famlia artificial. Mas seu cunhado no queria arriscar:

    Vocs so doidos, isso uma aventura.Kimie tambm preferia ficar no Japo. Apesar das dificuldades, da falta de dinheiro, era a

    vida que conhecia. No gostava de mudanas, mas Hideo decidiu, e ela era esposa.Um dia e ela desconfiava que isso aconteceria, j percebera os olhares de Jintaro ,

    quando estavam a ss, quando Hideo havia sado para conversar sobre uma hortacomunitria com alguns vizinhos, Jintaro, que era sempre quieto, que mal lhe dizia bom-dia,abraou-a por trs na cozinha. Ela sentiu a respirao quente na nuca, tentou sedesvencilhar. Ela, que era honesta, que era imvel como a pedra que se deixa tornear pelachuva e pelo vento, que no poderia nem pensar na hiptese de se deitar com outro homem

  • que no fosse seu marido, sentiu vontades estranhas, sentiu uma sensao agradvel naqueleabrao firme, porm tentou se desvencilhar. Mas ele tinha os braos fortes, e os braos forteseram persuasivos. Ento ela, que sempre fora mais esposa que mulher, que no sabia serardilosa, que tinha pensamentos simples e poucas certezas, pensou sem querer pensar que,se ficasse assim, parada, no teria culpa, pois ele era muito mais forte. Ela parou de sedebater e depois no soube, ao pensar, se parou por estar cansada ou por querer que eleprosseguisse. Quando sentiu que havia vencido a resistncia de Kimie, Jintaro a virou,abraou-a, mas de repente a soltou e se afastou. E, tremendo, disse que era uma vergonha.

    Me desculpe, Kimichan, eu perdi a cabea. Por favor, no conte nada para Hideosan.Ela se afastou sem dizer nada.Mas aconteceu de novo, quase dois anos depois, numa tarde triste de domingo, quando

    Hideo havia sado para se distrair, beber com uns amigos, porque discutira com Jintaro.Problemas de uma conta de querosene pendente no armazm. Que ele, Jintaro, dizia Hideo,ficava at tarde da noite com a lamparina acesa rabiscando seus haikais e tankas, que elesestavam no Brasil para trabalhar, no para fazer literatura. Jintaro no era de discutir: era omais novo dos dois, era o agregado naquela famlia. No Japo, no porto, pouco antes departir, seu pai lhe dissera para respeitar Hideo, pois ele lhes fizera um favor e seria o chefeda casa. Viera com essa disposio de se submeter s condies que Hideo impusesse, maslogo o modo autoritrio do amigo passou a enerv-lo, e era calado que remoa o seudescontentamento, envenenando a alma. Hideo tinha todas as vantagens, valia-se disso parajustificar a sua tirania. Ele tinha esposa, deitava-se com ela noite, e Jintaro ficava no seuquarto, sobre aquele colcho de palha de milho estendido no cho, sonhando com o dia emque poderia voltar a dormir em um tatame e escutando os rudos ao lado, adivinhando ascarcias e se desesperando. Ento ia para a cozinha. noite, de madrugada, era o seu temploprivado, lugar de frigir as incertezas, debruar-se sobre as angstias, inscrever na ausnciado passado as suas lembranas. Acendia a lamparina, deixava a chama alta para ver melhor,para no ver fantasmas, e escrevia sobre as quatro estaes do ano: a triste vermelhido docu que as folhas de momiji copiavam no outono, o manto branco sobre as cerejeiras duranteo inverno, o canto do rouxinol saudando a primavera, a sinfonia das cigarras nas noites devero. Era um modo de se sentir no Japo.

    Um dia, mostrou um de seus poemas a Kimie:

    Vejo no momijiO vermelho triste do cu.Cor de outono.

    Jintarosan, eu no pensei que fosse to sensvel. No sei se um elogio...Ela fechou os olhos: Por favor, leia para mim.Ele leu. Depois que terminou, ela continuou com os olhos fechados.

  • Jintarosan, feche os olhos tambm, veja comigo o cu vermelho do Japo, as folhasavermelhadas... Sinta a brisa... Olhe, uma folha caindo... caindo devagar.

    Quando abriram os olhos, e ambos os abriram no mesmo momento, ficaram um tempoatnitos, decepcionados com a realidade que tiveram que voltar a encarar. Jintaro guardou opoema no bolso da cala, Kimie se dirigiu cozinha.

    Voc precisa arranjar uma esposa dizia Hideo ao amigo.Jintaro compreendia. Hideo cumpria o seu papel de chefe da casa, explicava que no era

    bom para o homem ser s, e que tambm precisavam de mais uma enxada na lavoura, e,ento, que se casasse com uma mulher forte, que suportasse o trabalho na roa e revezassecom Kimie nas tarefas da casa. Mas onde arranjar esposa? Na colnia, havia duas moassolteiras, porm no se atrevia a abord-las ou conversar com seus pais sobre elas, com tantosrapazes em condies melhores, solteiros que vieram com os pais, com os irmos casados,no um agregado como ele. E se encontrar com as moas de outras colnias era difcil,trabalhava demais. Ento passou a se aborrecer com Hideo. Sentia rancor, no gostava de suacondio de marido, de chefe da casa. Se havia o problema do querosene, tambm havia ascontas de pinga que Hideo deixava no armazm, que eram cobradas junto com as despesasde mantimentos.

    Voc tambm d os seus pulinhos no armazm, Jintarosan retrucava Hideo.Mas era raro, era para aguentar a solido, s vezes. No era como Hideo, que vivia

    naquele balco, que aprendera a gostar de pinga como gostava de saqu, que ficava horasconversando com os amigos, falando sobre o seu projeto de abrir uma loja de utensliosdomsticos, dizendo que seu pai era um timo ceramista, enquanto ele, Jintaro, em casa,arrumava o cabo de uma enxada que estava estragado, regava as verduras da pequena horta.E por que tratava Kimie como se fosse seu dono, como se ela no fosse gente?

    Kimichan, traga os meus chinelos! Kimichan, esse arroz est duro! Kimichan, pare deficar choramingando pelos cantos, porque eu tambm sinto falta do Japo, mas estamos aquipara trabalhar, ganhar dinheiro. E no suporto mais ouvir voc chorando!

    Se fosse ele, Jintaro, o marido, ela no sofreria tanto. Por isso, porque Hideo no era umbom marido, no era um bom amigo, porque guardava frustraes, naquela tarde dedomingo, ele no soltou Kimie quando ela parou de se debater.

    Quando sentiu os braos de Jintaro enlaando a sua cintura, como naquele dia, h quasedois anos, no mesmo lugar da cozinha, Kimie tentou se desvencilhar. Era uma tarde morna etriste de domingo, um cachorro latia ao longe, uma vizinha entoava uma antiga emelanclica cano japonesa. Tentou se desvencilhar porque era mulher honesta. Mas estavacansada. Cansada do trabalho no cafezal. No nascera para empunhar enxada, para colhercaf com as suas mos pequenas. Nascera com a pele branca e fina, no nascera para ficarsob aquele sol de fogo. Era o mesmo sol que brilhava no cu do Japo? Cansada das palavrasduras de Hideo, que lhe cobrava empenho na lavoura, que lhe cobrava talento na cozinha,que a sujeitava na cama, insensvel ao seu cansao. Cansada de Hideo, que lhe dizia para nochorar porque o choro enfraquecia o nimo, que lhe dizia para no chorar porque o choro o

  • enervava. Cansada do silncio de Hideo, que se calava quando ela lhe perguntava algo.Naquela tarde de domingo, que se parecia tanto com ela, o cachorro latindo ao longe, avizinha cantando uma cano triste, Kimie, porque era honesta, tentava se soltar dos braosfortes de Jintaro. Mas estava cansada, e o cansao lhe dava motivos que a sua retido noconseguia mais rejeitar. Ento parou de se debater, ficou quieta, deixou-se conduzir at oquarto de Jintaro, esperou que ele fechasse a cortina que substitua a porta, aproximou-se docolcho de palha e se deitou sem dizer nada. Depois sentiu, primeiro assustada e quasecontente, que Jintaro era mais pesado que Hideo, que Jintaro era maior, que quase amachucava. Mas logo sentiu, feliz, que o peso de Jintaro no lhe pesava, que ele se colocavasuavemente sobre seu corpo, que o seu tamanho, por fim, se ajustava a ela.

    Em seu primeiro inverno no Brasil, Kimie esperou pela neve. Foi o que me chamou aateno. A gnese, genuna, inscrita no passado de ojiichan. A partir dela surgiram osdemais, algumas partes exatas, outras inexatas, pois a escritura do que precisa de papel etinta. As conversas com vov, as entrevistas com tio Hanashiro, as leituras do livro de TomooHanda e a minha mania de arquitetar com palavras: eis a histria.

    Ojiichan disse: Kimichan ficou esperando pela neve em pleno interior de So Paulo. Ojiichan, o que aconteceu quando ela soube que no nevaria?Ele riu. E contou que, no primeiro inverno ou ainda era outono? , quando chegou o

    frio, ela ficava na janela olhando o cu, olhando o cafezal. Se tivesse dito que estavaesperando pela neve, logo a desiludiria.

    Era muito boba, a Kimichan.Era muito quieta, e ele nunca sabia o que estava pensando, o que estava sentindo. Um dia,

    e fazia muito frio nesse dia, quando ela comentou que estava demorando muito para a nevecair, ele riu, riu muito, e ela no entendia por que o marido ria tanto. Jintaro, que estavaperto, foi quem disse:

    Kimichan, aqui no tem neve. No tem neve? Kimichan, vamos trabalhar bastante, vamos voltar ao Japo, e Kimichan poder ver a

    neve novamente.Ela foi janela, girou a taramela e a abriu, mesmo sob os protestos do marido, porque

    fazia muito frio. E ficou l, debruada, com os olhos cheios dgua.Kimie olhava o cafezal coberto pela neve. Ela viu Kimiko correndo entre os ps de caf, e

    Kimiko era uma criana que corria atrs de Tikao, seu irmo, e eram duas crianas quebrincavam. Ela fez uma bola de neve, acertou as costas de Tikao. Ele se virou, disse que apegaria, e agora era ele quem corria atrs dela. Alcanou-a logo, pulou sobre a irm, os doiscaram, comearam a rir. Kimie preferia ficar na janela, observando. Kimiko e Tikao,ajoelhados sobre a neve, acenavam, chamavam-na para a brincadeira. Ela fazia que no comum sinal de cabea. Tambm era bom ficar ali, s vendo. Era o seu jeito de ser feliz.

    Quando as duas crianas desapareceram no meio do cafezal, correndo, ela continuou a

  • olhar. Hideo a chamou: Kimichan, vem pra c, feche a janela, que est frio! J vou, eu j vou.E continuou ali ainda por muito tempo, esquecida do marido.Vov, sentado mesa da cozinha, as mos enrugadas e cheias de manchas escuras,

    trmulas, juntava num montinho as migalhas do po francs que comera no caf da manh.Abriu a garrafa trmica e a virou sobre a xcara, mas no havia mais caf. Ento acendeu umcigarro. Eu o censurei com um ojiichan carinhoso, mas ele no me deu ateno. Suamemria tentava reconstruir a imagem de Kimie na janela:

    Eu fiquei com pena e no insisti mais, fui para o quarto.Durante os trs anos seguintes, no inverno, Kimie sempre se debruava na janela para ver

    a neve sobre o cafezal. No penltimo inverno, um dia, Jintaro se aproximou e, com a vozmuito baixa, pediu-lhe para fechar a janela, disse que ela ficaria doente, que era para semanter forte e ajudar o marido. Kimie ento disse o que jamais dissera a Hideo:

    Estou vendo a neve.Jintaro ficou quieto, sem saber o que dizer e, ao fim de um minuto, decidiu: olhou

    firmemente o cafezal verde, os gros amadurecendo: Kimichan, muito bonito o cafezal coberto pela neve.Ela se virou para ele, um brilho de agradecimento nos olhos: Jintarosan, eu gosto de ficar olhando. E o que v? Vejo os meus irmos brincando, s vezes eles desaparecem atrs de um p de caf, mas

    logo surgem novamente. Quando era criana, quando nevava, meus amigos e eu nos dividamos em dois grupos,

    fazamos guerra de bolinhas de neve. Quando ficvamos cansados, parvamos,descansvamos um pouquinho e fazamos bonecos de neve.

    Por que no vai? Kimichan, no sou mais criana. Agora eu tambm gosto de ficar s olhando.No inverno seguinte, Jintaro no estava mais na fazenda. No fim do ltimo ano agrcola,

    ele acertou as contas com Hideo. Contas difceis, que encerraram definitivamente a amizadedos dois. Era outubro, era primavera, e Jintaro reclamava ressarcimento pelas panelas, peladezena de porcos, pela mesa e pelas cadeiras, tudo comprado em parceria. E o ofur que elefizera, o primeiro da colnia. Hideo respondeu que enviara todo o dinheiro que restara aoJapo, que era ele, Jintaro, quem ia embora, e ia porque queria, e, rindo, nervoso, disse quepoderia levar o ofur nas costas, que poderia levar os porcos para cri-los na cidade de SoPaulo. Por fim, Jintaro se conformou, juntou as notas que Hideo lhe dera, enfiou-as no bolso.Depois guardou seus poemas num canto da mala de papelo que trouxera do Japo, socousuas roupas para que tudo coubesse l dentro e saiu. Na porta da casa, colocou-se diante deKimie, a mo direita segurando a mala, o brao esquerdo ao longo do corpo. Disse paracuidar da sade, que era o mais importante. Que no desanimasse, que um dia ela voltaria

  • com o marido para o Japo, que veria, novamente, a neve cobrindo as cerejeiras e asmontanhas. Disse obrigado, curvou-se trs vezes e subiu na carroa de boi.

    Ela nunca mais o viu. E, no inverno, no abriu mais a janela para ver a neve cair sobre ocafezal. Ia lavoura, ia ao riacho com as outras mulheres para lavar as suas roupas e as deHideo, cozinhava. No ofur, sentia o conforto da gua morna e chorava.

    Uma noite, e era a noite mais fria do ano, Kimie no conseguiu dormir. Estava doente.Tomara os chs de Maria, ficara quieta sob as suas mos enquanto ela rezava aquelas rezasque no entendia, mas no melhorara. De madrugada aumentou a febre. Quis ver a neve.Hideo roncava ao seu lado. Levantou-se, caminhou at a porta da sala e a abriu. A nevecobria a terra. Saiu, correu at o cafezal, correu entre os ps de caf, sentindo a neve cairsobre a sua cabea, sobre os seus ombros. Correu durante muito tempo, estrela doespetculo, abrindo os braos, ela, que sempre preferia ficar na janela. Finalmente, quandose cansou, sentou-se na terra fria. A morte chegou lentamente. H quanto tempo morria?Tranquila, congelada pela neve, congelada pelo sol.

  • 2EM UMA CONVERSA NA SALA DA CASA DO TIO HANASHIRO, REGADA A CAF AGUADO DA TIA TOMIE,OJIICHAN DISSE QUE NAQUELA POCA J NO TINHA CERTEZA DE QUE RETORNARIA AO JAPO.

    Aqueles anos to longnquos se inscreviam no seu presente atravs das lembranas dascartas que recebia do Japo, do casamento com obchan, do arrendamento de um stio com osogro, do nascimento dos filhos. As cartas eram sempre aguardadas com ansiedade, e eraangustiante no saber quando viriam. Elas davam elementos para que ojiichan seguisseelaborando a histria da famlia, que permanecera no Japo, garantiam o aperto dos laosque o prendiam quele pas. Atravs delas sentia a presena dos pais, dos irmos, sobretudoda me, que frequentemente lhe aparecia nos sonhos, s vezes com o semblante triste dadespedida, outras vezes com o sorriso que sempre lhe iluminava o rosto quando ele e seusirmos, ainda crianas, retornavam da escola.

    As cartas ficaram por muito tempo guardadas em uma caixa de papelo, mas se perderamna ltima mudana. Na memria de ojiichan, elas estavam embaralhadas, sem ordemcronolgica, algumas descartadas pelo esquecimento. Uma, especialmente, reeditava-se devez em quando, com pequenas falhas de impresso, que ojiichan procurava corrigir, talvezacrescentando dados para que a sua histria tivesse coerncia.

    Mas eu o escutava com os ouvidos de quem cr.Ojiichan disse que os anos em que trabalhou na Fazenda Ouro Verde lhe ensinaram o que

    precisava saber sobre a cultura do caf, desde a capina para que as ervas daninhas noretirassem da terra os nutrientes necessrios para o cafezal, passando pela colheita, com aderria, a rastelao e a abanao, at a secagem no terreiro de cimento, onde primeiroesparramava os gros por toda a extenso do piso e depois os virava e revirava com o rastelode madeira. Entretanto, os mesmos anos tambm lhe indicaram que fora iludido sobre apossibilidade de se ganhar bastante dinheiro na lavoura cafeeira. Sentia-se desamparado e,como um menino, desejava o colo da me. Jamais cogitou culpar o imperador, que sempreincentivara as viagens dos japoneses para alm-mar. Ele no poderia imaginar que o preodo caf cairia tanto e que a ganncia dos fazendeiros fosse tamanha. Sim, as fazendas de cafenriqueciam, mas somente os proprietrios. No acerto de contas aps cada ano agrcola, oseu lucro ia para os bolsos do patro, pagar as dvidas do armazm, e ento a revolta lhepunha palavras na boca. Falava alto em lngua japonesa, pois s em japons conseguiaesbravejar. Falava que o roubavam e no tinha a quem reclamar, que no viera ao Brasil paraser escravo, que sabia que o sino chamando os colonos para o trabalho era o mesmo que nopassado impunha aos negros cativos horrio para despertar e ir ao cafezal.

    Aps a partida de Jintaro e a morte de Kimie, o administrador da fazenda lhe disse queno poderia ocupar uma casa sozinho, pois isso representaria um desperdcio, que deveria se

  • agregar a uma famlia. Seu contrato seria rescindido se no o fizesse, e ento teria que seaventurar na cidade, procurar um emprego na construo civil ou como empregadodomstico. Sentiu-se humilhado, embora no o admitisse. Disse que trabalharia por trspessoas, o que justificaria permanecer sozinho na casa, mas o administrador se manteveirredutvel. Ento, lamentando a mulher fraca que desposara e o amigo ingrato em quemconfiara, juntou-se aos Mikimura, que eram vizinhos e aproveitavam o seu ofur nos dias defrio. Aborrecido, constrangido, porque era pouco confortvel a situao de agregado, mas nocabisbaixo, j que no era um qualquer, e se era um favor que lhe faziam os Mikimura,tambm era um favor que fazia a eles, pois em dias de capina era homem de empunharenxada s seis horas, quando o capataz tocava o sino chamando ao labor, e larg-la somentequando o sol se punha; era homem de ficar com as mos machucadas na colheita semreclamar, era homem de peneirar horas seguidas sem derrubar um gro de caf.

    Os Mikimura eram uma famlia de quatro pessoas: Toshio, o pai, Aya, a me, Shigueru, ofilho, e Shizue, a filha, todos em idade de trabalhar. Um dia, o pai, que era um bom homem eum homem prtico, chamou Hideo a seu quarto, pois era no quarto que ocorriam asconversas importantes, e lhe falou que lhe queria muito bem. Agradeceu os momentos degozo na banheira, pois no ofur se sentia como se estivesse no Japo. Elogiou o seu empenhono cafezal, depois lamentou a partida de Jintaro e a morte de Kimie, que era uma boamulher, e logo falou de Shizue, lembrou que era dedicada tanto nos afazeres domsticosquanto na lavoura, que no era frgil como Kimie, que estava em idade para se casar, e, semmais preliminares, disse que ele deveria se casar com ela, pois j moravam sob o mesmo teto,que j ouvira comentrios sobre o fato, insinuaes maldosas, e o casamento poria fimquilo. Depois observou que seriam realmente uma famlia, e essa soluo lhe pouparia otrabalho de procurar um marido para ela. Hideo no deu a resposta de imediato, embora jadivinhasse o que Toshio lhe proporia quando ele o chamou para conversarem no quarto.No poderia dizer que sim de imediato, pois, se assim o fizesse, Toshio pensaria que estava disposio, ou, mais que isso, que aquela proposta seria a sua salvao. Tinha seu valor. Disseque precisaria pensar, pois no esperava pela proposta, que a morte da esposa era recente eno pensava em se casar. No era verdade. A proposta de Toshio Mikimura vinha reforaruma sugesto em que pensara mais de uma vez, pois a situao de agregado o punhaacabrunhado. No nascera para ser um Jintaro, viver em casa comandada por outro homem.Embora soubesse que seria genro, sabia, tambm, que genro era muito mais que umagregado. E j se surpreendera observando Shizue na cozinha, rpida na lavagem de panelase pratos, em meio ao cafezal, vigorosa na capinao de ervas daninhas. E era uma moabonita, de rosto com as mas cheias, de olhos brilhantes, como se vissem sempre umanovidade, muito diferente dos olhos de Kimie, que viam o dia como se vissem a noite, queestavam sempre perdidos em alguma imagem do passado. Shizue era baixinha como Kimie,mas pesava mais, seu corpo era robusto, os braos mais grossos. Era uma vantagem.Precisava ao seu lado de uma mulher forte, que no reclamasse do trabalho da capina ou daderria. E no bom para um homem ficar s, pensou, lembrando-se dos conselhos que

  • dava a Jintaro.Ento se casaram ojiichan e obachan em uma cerimnia no terreiro da fazenda. Algum

    entoou o cntico nupcial Takasa, um amigo da famlia fez um longo discurso deapresentao dos noivos, to longo que enervou os poucos convidados, intil porque todosconheciam Hideo e Shizue, mas necessrio porque era sempre assim: algum falava do bomcarter do noivo, de seus pais, que o criaram para ser um homem honesto e fiel aoimperador, de sua dedicao ao trabalho, e das habilidades da noiva na arte culinria, de suadisposio de ser me, da educao primorosa que recebera em sua casa. Depois falou o pai,que agradeceu os presentes e se desculpou pela festa, que era pobre, que no tinha saqucomo gostaria, s tinha limonada e pinga para tomar, que no tinha manj, s mandiocafrita, bolinhos de arroz e um bolo de milho para comer. Os convidados no se importaram,estavam contentes. Eram poucas as oportunidades que havia para se reunirem ecomemorarem algo; acontecia s uma vez por ano o aniversrio do imperador, quando eraimprescindvel se realizar uma grande festa; s uma vez por ano os lavradores tinham o diade Ano-Novo para visitar os amigos ou receb-los, para comer manj e ykan se tivessemsorte. As mulheres beberam limonada, os homens beberam pinga, exageraram, inclusive onoivo, e ento cantaram, pois a embriaguez anulava o acanhamento, e no se importavam sedesafinavam. Aqueles que no cantavam batiam palmas acompanhando o ritmo da cano.Logo os homens estavam abraados, e o pai da noiva comeou a chorar; cantava e chorava, etodos sabiam sabiam porque tambm sentiam que o choro no era somente por causado casamento da filha, que as lgrimas traduziam a falta que sentia do Japo.

    Sogro e genro se tornaram parceiros firmes, ambos empenhados no trabalho,companheiros de longas conversas num banco de tora ao lado da casa nas noites de calor e derodadas de pinga no balco do armazm, o que provocou despeito no filho de um, cunhado dooutro.

    Parece que otchan se esqueceu de que tem um filho queixou-se Shigueru.Toshio riu, retrucou que era uma grande bobagem o que dizia o filho, que era um

    rapazote, lembrou que Hideo era mais velho e experiente, era natural que tivessem mais oque conversar, e que no ficasse despeitado porque, quando uma filha se casava, o pai e ame ganhavam outro filho, e assim seria quando ele, Shigueru, tambm se casasse: a suaesposa seria uma filha.

    Um dia disseram a Hideo que o armazm da fazenda vizinha vendia produtos a um preobem inferior ao da Fazenda Ouro Verde. Conversou sobre o assunto com o sogro, com osoutros colonos, inclusive os italianos e os brasileiros, e marcaram uma reunio com oadministrador, ele como porta-voz, eleito por unanimidade, pois no tinha receio em dizer oque tinha que ser dito, era um lder, e todos o reconheciam como tal. Disse que no lhessobrava quase nada no final do ano agrcola porque precisavam comprar tudo o quenecessitavam no armazm, e os preos eram muito elevados; que na Fazenda Cachoeirinhase comprava acar e querosene quase pela metade do preo; que l tudo custava muito

  • menos. O administrador lhe disse que no lhe interessava o que faziam as outras fazendas eno levaria ao patro uma questo pequena, pois ele tinha muitos problemas com que seocupar, mas que podia garantir que na Ouro Verde no se exploravam os colonos; que ospreos praticados no armazm eram justos; que a fazenda precisava cobrar mais pelosprodutos porque gastava combustvel da caminhonete para ir cidade comprar asmercadorias; que pagava vista e depois vendia fiado, tudo fiado, e isso elevava o valor damercadoria; que assim era a lei do comrcio. Hideo retrucou, disse que aquilo no estavacerto; repetiu em japons: No estava certo. Ento os colonos viram que o administrador seirritava talvez pensasse que Hideo o tivesse xingado , temeram pela sorte do amigo, eum deles disse que compreendiam, repetiu as palavras: a lei do comrcio. Mas Hideoinsistiu, argumentou que a fazenda no precisaria ganhar dinheiro com as vendas doarmazm se j ganhava tanto com o caf, que ele, o administrador, tambm era empregado,e como empregado deveria compreender a situao lamentvel dos colonos. A reao doadministrador foi aquela que se esperava: suas faces ficaram vermelhas, suas moscomearam a tremer, e, com a voz tambm trmula, disse que no era um empregadoqualquer, que no o comparasse a ele, Hideo, ele, sim, um miservel colono japons quepensava ser mais importante do que realmente era. Hideo no entendeu uma palavra eoutra, a lngua portuguesa ainda era difcil para ele. Toshio, ento, aproveitou o brevesilncio que se fez e disse ao administrador que desculpasse o genro, que estava nervoso, eisso fez porque sabia que se a conversa prosseguisse Hideo seria dispensado, e com ele iriamembora a sua filha e o seu neto. Por isso pegou o genro pelo brao: que fossem embora, quede nada adiantaria prosseguir aquela discusso.

    Hideo no se conformou. Em casa disse ao sogro que no poderiam mais se sujeitar a levarvida de escravos, que se seguissem daquele jeito acabariam na mesma situao de Nodasan,que, no conseguindo pagar as dvidas do armazm, fugira com a esposa e os filhos demadrugada. Lembrou que a famlia crescera, agora havia o seu filho Hanashiro, e logo viriamoutros, disse que, como colonos, no conseguiriam economizar dinheiro suficiente pararetornar ao Japo. Toshio sabia que o genro tinha razo, e ento combinaram queprocurariam um stio para arrendar, ficariam somente at o final do ano agrcola na FazendaOuro Verde.

    E assim aconteceu. Arrendaram um pequeno stio, onde no seriam insultados pornenhum fiscal, onde no receberiam ordens. Alm disso, a casa era muito melhor e maior,com as paredes caiadas, o piso de cimento e portas isolando os quartos. Kimie gostaria,pensou Hideo. Prximo casa, havia uma horta abandonada, mas ainda em condies de sercultivada, com um tanque de concreto para armazenar gua e isolada por uma cerca dearame. Embaixo de uma mangueira, a me de Shizue viu uma semiesfera feita de tijolos esustentada por uma estrutura de madeira. Na parte da frente, havia uma pequena boca,atrs, um orifcio. Logo descobriria que era um forno, e nesse forno assaria pes. Haviatambm uma pequena pocilga, onde um porco magro, abandonado pelo antigo arrendatrio,aguardava indolentemente ser alimentado para depois ser sacrificado.

  • Hideo se encarregou de tratar o animal e, dia aps dia, via o seu desenvolvimento. Ele,que nos primeiros tempos no Brasil se enojava com a carne gordurosa do porco e passara malalgumas vezes aps ter se aventurado a com-la, acostumou-se com o seu sabor. Toshio,Shigueru e Shizue tambm haviam se acostumado. Alm da carne, comiam ainda a linguia,que no incio lhes parecia to estranha. Somente a me de Shizue se recusava:

    Isso me d nuseas.Quando acreditou que o animal j tinha tamanho suficiente, Hideo anunciou famlia

    que chegara a hora de comer carne de porco. Mas quem vai mat-lo? quis saber Shizue.Shigueru disse que no sabia como fazer. Eu s sei comer brincou Toshio.Hideo lembrou as vezes em que vira os homens na Fazenda Ouro Verde matando porcos.

    No seria difcil. Est bem, eu me encarrego disso.No domingo todos foram pocilga. Os trs homens pegaram o porco, segurando-o pelas

    patas, e levaram-no para um estrado de madeira que havia sido preparado para aquelemomento. Shigueru segurou as patas traseiras do animal, Toshio pisou nas patas dianteiras esegurou as orelhas para imobiliz-lo melhor, mas o suno era forte, desvencilhava-se dos psdo homem. Ento Shizue se adiantou, disse que ajudaria, segurou com as mos pequenas asduas patas. Hideo pegou a faca, que afiara no dia anterior, e se esforou para lembrar o lugaronde deveria enfi-la. A faca deveria ir direto ao corao, e ento a morte seria rpida. Mas afaca no encontrou o rgo vital. Shizue viu o marido mexendo o instrumento de um ladopara o outro enquanto o animal agonizava, soltando um bramido cavernoso. O desespero doanimal desesperava a todos, principalmente a Hideo, que no queria decepcionar ningum,no queria frustrar a expectativa que criara em torno da ideia de que seria capaz desacrificar o porco facilmente. Por fim, ele retirou a faca ensanguentada, olhou Shizue, quetinha se virado para no ver a agonia do porco, e procurou um outro ponto. Enfiou a facanovamente, agora com mais fora, e a lmina feriu o corao imediatamente.

    Depois foi tudo mais fcil: arrancar as vsceras, separar o toicinho, recolher a banha numagrande lata. As mulheres se encarregaram de levar as tripas ao riacho para lav-las. Maistarde elas mesmas as recheariam para fazer as linguias.

    A famlia trabalhou com empenho no stio, empolgada com as novas condies, todoscheios de esperanas. Mas os anos passaram e o dinheiro que sobrava nunca era suficientepara o retorno ao Japo. Aps a venda da safra, pagava-se o arrendamento ao proprietrio dostio, e novamente, como acontecia na Fazenda Ouro Verde aps o pagamento das dvidas doarmazm, era pouco o que restava. E as despesas aumentavam. Nasceram os outros filhos deHideo e Shizue: Hitoshi, Haruo, Sumie, Hiroshi e Emi. Alguns amigos, que antes eramagressivos com a terra brasileira e com o sol inclemente, pois a agressividade, no incio, era oque traduzia a dor e a decepo, j tinham se conformado em permanecer no Brasil edeixavam de negar o solo estrangeiro, o qual, para Hideo, depois de tantos anos, ainda era

  • novo e inaceitvel.Um dia, Toshio recebeu a notcia de que sua me falecera. Depois um ms ou dois,

    Toshio ainda guardava luto foi a vez de Hideo. Era a carta que, embora desaparecida,acompanhava-o quando se lembrava daquela poca. Era uma carta de duas folhas com letrasborradas de um canto a outro na qual Hideo, depois, adivinhou algumas lgrimas secas ,em que sua irm contava que a me adoecera repentinamente e morrera pouco mais de umasemana aps a primeira crise de dor de cabea e febre. Hideo parou de ler um instante, asletras se embaralharam sobre o papel branco. Os olhos procuraram por um instante as linhasque havia lido para que desmentissem a notcia, mas elas a confirmaram. Ento seguiu:antes de ficar doente, sua me perguntava a todos por que o filho no retornava logo sequando partira dissera que seriam apenas quatro ou cinco anos. Depois, deitada em suacama, dizia que no queria morrer sem rever o filho e, nos ltimos dias, comeou a delirar,acreditava que Hideo ainda era criana, perguntava por que ele no voltava do gakk, pediaa todos que fossem busc-lo porque escurecia e no queria que ficasse pela rua noite.

    Hideo no chorou porque era um homem duro, como era duro o seu pai, como eram durosos homens na terra dos samurais. Estavam quase todos na pequena sala. As crianasconversavam alto, alheias ao que representava a triste expresso que se desenhara no rostodo pai. Toshio perguntou algo o bvio , se eram ms as notcias que vinham do Japo.Shizue intuiu que algum morrera, intuiu que morrera a sogra, de quem Hideo lhe falavasempre como aquela por quem valia todo o sacrifcio em terra estrangeira, mas no dissenada, sabia que deveria aguardar calada que o marido dissesse o que ainda no sabia. Eleno disse nada, embora seu silncio e seus olhos de repente sem brilho j dissessem muito.Dobrou a carta com cuidado e a devolveu ao envelope como se aquele gesto que invertia aao pudesse faz-lo voltar do avesso onde fora lanado. Depois entregou o envelope esposae, ainda calado, saiu.

    Hideo foi horta elaborar o luto com a enxada nas mos. Retornara h uma hora e meiada lavoura, j era noite, mas a lua estava cheia. Hanashiro, que acabara de regar os canteiros,pois era uma de suas tarefas dirias, perguntou se o jantar estava pronto e disse, sem esperarpela resposta, que vira obchan preparando tempura. E correu em direo a casa, sementender por que o pai estava calado. Hideo ergueu a enxada, feriu com fora e raiva a terradura no chovia havia quase dois meses. Ento encheu o regador com a gua do tanque depsito que mantinha cheio porque no tinha preguia de ir ao riacho quantas vezes fossepreciso , molhou a terra, feriu-a mais uma, duas, dezenas ou mais de cem vezes. A terraficou macia e mida. Abriu sulcos e plantou algumas mudas de acelga. A verdura cresceria,como cresceriam os ps de couve, as batatas de inhame, os pintainhos soltos no quintal, ospoucos porcos na pequena pocilga, e as hortalias, os ovos e as carnes alimentariam a suafamlia, que no precisaria comprar muita coisa no armazm. Mesmo assim, no final dacolheita, aps acertar as contas com o proprietrio, sobraria pouco dinheiro. E seguiriaassim, em terra estrangeira, empunhando a enxada, rasgando a terra, fincando mudas.

    Okchan!!!!!!!!!!!

  • Shizue, encolhida numa cadeira, escutou o grito de dor e, ento, teve a certeza.Eu vi ojiichan chorando no meio da horta, solitrio, iluminado pela lua, abraado ao cabo

    de enxada. Depois, mais de meia hora depois, ele limpou o rosto com o brao, pendurou aenxada num suporte da parede e entrou.

  • 3NA ESCOLA RURAL, NA ESTRADA POEIRENTA, RETORNANDO CASA EM MEIO AOS MOLEQUES, NACOLHEITA DE CAF, HARUO ERA JAPONS.

    Diziam assim: aquele do lado do japonesinho.Ou: aquele japons!Ou somente: , japonesinho!Mesmo os seus amigos: , japons, vamos brincar no rio?E Pietro, o italianinho da colnia que no conseguia aprender contas e no era chamado

    de italianinho: , japons, amanh vou at sua casa pra voc me ajudar na tarefa de matemtica.De modo nenhum gostava. Para que servia, ento, o nome? E dizia: No gosto que me chamem de japons, eu sou Haruo.Ento retrucavam: Pois isso mesmo, Haruo nome de japons.Um moleque maior, de 11 ou 12 anos, riu quando ouviu o nome, falou sem maldade: Mas que parece remdio...Era diferente.Haruo era japons: entre as velhas paredes de tbuas caiadas da escola rural, com

    algumas mata-juntas despregadas e outras ainda grudadas por pregos, fincados por negrosque tinham erguido essas paredes para os brancos rezarem, pois antes a escola era umaigreja; nas idas e vindas pela estrada poeirenta, com os ps descalos, que em dias de solquente se defendiam da quentura da terra embrulhados em folhas de mamona, porque erampoucos os que tinham alparcatas, e, em dias de chuva, escorregavam felizes no barro; noscarreadores do cafezal, em brincadeiras de esconde-esconde, em que os meninosprincipiavam a erguer as saias das meninas e buliam rpidos e desajeitados para retornaremlogo ao jogo e nem percebiam que elas, menos ingnuas, escondiam-se atrs de ps de cafbem distantes exatamente para fazerem a ocasio.

    Era diferente. Queria ser igual.Os iguais eram poucos. Por isso precisamos nos manter unidos explicava Hideo ao filho.E um dia, noite, aproveitando a ocasio em que estavam todos os filhos e a esposa

    reunidos, alm do sogro e da sogra, contou a histria. Era uma parbola. Disse que parbolas

  • ensinavam sobre a vida, e aquela era uma parbola de gaijin, mas que continha uma grandeverdade. Era uma histria sobre trs irmos que sempre brigavam. Um dia o pai os chamou elhes mostrou um feixe de varas, dizendo que daria um prmio a quem conseguisse quebr-lo.Cada um dos filhos experimentou, mas ningum conseguiu partir o feixe. Ento o paidesamarrou o feixe e partiu as varas, uma a uma. Depois falou que se os filhos semantivessem unidos seriam fortes e ningum os derrotaria, mas que cada um, sozinho, seriafacilmente vencido.

    Que histria bonita opinou a me. Por isso, nihonjin precisa se manter sempre junto de nihonjin predicou Hideo, que

    nunca dizia por dizer, porque as palavras no foram inventadas para serem desperdiadas. No meio de gaijin, um nihonjin sozinho fraco, uma vara fcil de ser quebrada. Noestamos no Japo, e aqui no Brasil a gente no sabe em quem pode confiar. Mas, se nosmantivermos juntos, seremos um feixe, e ningum poder nos quebrar.

    Haruo ouviu a histria e pensou: Por isso aproveitam. Quando estava sozinho ou s ele eHitoshi no grupo de moleques, os outros cantavam em coro:

    Japons tem cara chata, come queijo com barata.

    Na primeira vez, estava sozinho e tentou se defender, gritando que eram eles que comiambarata, mas os moleques eram muitos e falavam todos ao mesmo tempo, e ento a sua voz seperdia em meio aos japoneses de cara chata, queijos e baratas. Ficou nervoso e chorou, e ochamaram de mulherzinha. Era a pior das ofensas, porque tinha orgulho de ser homem,embora homem ainda no fosse, ele e os outros, e todos sabiam do orgulho de cada um, porisso, na ingnua crueldade de meninos, um dizia ao outro: Mulherzinha. Foi se lamentarcom a me, que o consolou:

    No d ateno a esses moleques! Por que eles dizem que a gente come queijo com barata?Ela riu: Eu no sei, e nem eles devem saber. So crianas, repetem o que ouvem por a.O pai: Sabe por que dizem isso? Porque no tm educao, seus pais no os educaram para

    respeitar os outros. Nihonjin aprende em casa o que certo e o que errado, aprende emcasa que se deve respeitar os outros. O que tm esses moleques inveja de voc, que inteligente e descendente de samurais.

    Para a esposa: Haruo anda muito com gaijin. Gaijin no tem educao, fica inventando coisas feias em

    vez de trabalhar e estudar. Mas talvez seja bom que isso acontea para ele aprender quegaijin no boa companhia.

    Um dia, na escola, a professora disse: Haruo, Hitoshi, vocs no so japoneses, so brasileiros. Vocs no nasceram no Brasil?

  • Pois ento? Quem nasce em Portugal portugus, quem nasce no Japo japons, quemnasce no Brasil brasileiro!

    A professora era loira, inteligente, bonita, boazinha. Parecia um desenho de livro. Seu pailhe dizia que respeitar a professora era um dever, pois era algum que sabia mais que osoutros, e que na sala de aula ele deveria ficar quieto e atento para aprender tudo o que elaensinava. Mas s vezes Haruo ficava embevecido com a sua beleza e ento, embora parecesseestar atento ao que ela dizia, ficava muito interessado nos seus olhos azuis e no seu rosto,que se pareciam com os das princesas de contos de fadas. Porm, quando ela lhe disse queno era japons, no enxergou mais os seus grandes olhos azuis e lembrou que seu paisempre lhe ensinara que era nihonjin, que nihonjin era diferente de gaijin, que cada nihonjinera representante de um povo de tradio milenar. Ento ou seu pai ou a professora estavaequivocado, pois, quando dois diziam coisas diferentes, se um estava certo, o outro estavaerrado, j que no existiam duas verdades diferentes sobre o mesmo tema. No foiexatamente assim que ele pensou, mas o que pensou era algo assim.

    Professora, papai ensinou que ns no somos brasileiros. A gente nihonjin.Hitoshi, que se sentava na carteira de trs, deu-lhe um cutuco: Fique quieto! O que nihonjin, Haruo? quis saber a professora. Nihonjin japons.A professora, ento, com determinao: Haruo, onde nasceu sua me? No Nihon.Algumas crianas riram. Onde? No Nihon, no Japo. Ento a sua me japonesa. E seu pai? Ele tambm nasceu no Japo. Ento ele tambm japons. assim, Haruo: quem nasce na China chins, quem

    nasce na Itlia italiano. Os pais de Francesca nasceram na Itlia e por isso so italianos,mas ela, que filha de italianos, nasceu no Brasil, ento brasileira. Voc nasceu aqui, noBrasil, portanto, voc brasileiro. E voc deve se sentir orgulhoso por ser brasileiro, afinal,por algum motivo seus pais escolheram o Brasil para viver.

    E ela pediu aos outros meninos da sala que no o chamassem mais de japons porquejapons ele no era. Depois todos aprenderam o hino nacional e desenharam a bandeirabrasileira e s no pintaram porque no tinham lpis de cor.

    Na volta da escola, Hitoshi disse ao irmo: Voc besta, voc precisa escutar o que a professora diz e ficar quieto. Na escola voc

    brasileiro, em casa voc nihonjin.Em casa, Haruo esperou que o pai voltasse da lavoura. Estava ansioso para lhe perguntar

    sobre essa histria de ser nihonjin ou burajirujin, mas ficou quieto enquanto Hideo guardava

  • as ferramentas de trabalho e se dirigia ao ofur, porque no adiantava ter pressa,interromper o pai para ser repelido, ser chamado de impertinente. Aguardaria a hora certa,que parecia no chegar, ainda mais para um menino ansioso, que parecia estar semprecorrendo para tirar o pai da forca, assim diziam os gaijins. Por fim, quando esperavam ojantar ser servido, considerou que era o momento, no o mais adequado, porque seu paitorneava com um canivete pedaos de bambu para fazer hashis, e essa era uma tarefa querequeria bastante ateno, pois no deveria restar nenhuma lasca, mnima que fosse, e acircunferncia no final no poderia ser outra que a perfeita, a que se ajustasse mo e aorigor dos olhos. Mas a hora ideal jamais chegaria para um menino iniciar uma conversa como pai, ele sabia, pois os meninos que sempre esperavam que os pais lhe dissessem algo.

    Otchan... Hai. Otchan, sensei disse que eu sou brasileiro. Ohara sensei disse isso? No, a sensei do burajiru gakk.Hideo, que tinha interrompido a sua tarefa de arteso por um momento quando ouviu a

    primeira frase do filho, voltou a tirar lascas do bambu e disse para ele no dar importnciaao que ela dizia.

    As palavras de Hideo e o tom de sua voz indicavam a Haruo que a conversa estavaencerrada, mas o filho era parecido com o pai na persistncia, embora este costumassepersistir no silncio, pois as palavras em grande parte das vezes no tinham serventia;quando no atrapalhavam, provocavam desentendimentos. Haruo ainda se extasiava aodescobrir as novas e as usava para entender o mundo e disciplinar as ideias, que erammuitas, e na cabea ficavam desordenadas como cigarras barulhentas que cantavam aomesmo tempo numa sinfonia maluca.

    Mas no foi otchan quem disse que a gente deve aprender tudo o que a professoraensina?

    Hideo sentiu um tremor de indignao com a impertinncia do filho e ergueu os olhosduros. No estava surpreso, j que conhecia Haruo; ele era assim, um menino queperguntava tudo sobre tudo e no se conformava em saber pela metade. Por isso ficou algunsinstantes quieto, sabedor de que estava diante de um grande problema. Teria que serpersuasivo para convencer o filho, teria que ser duro se houvesse teimosia. Ento explicouprimeiro que a professora tinha razo, j que ele tinha nascido no Brasil. Portanto, nodocumento, na certido de nascimento, ele era brasileiro. Mas era s um papel, e um papelse perde, vira cinza numa fogueira, e ter nascido no Brasil fora uma imposio do destino. Avoz se tornou mais spera, as palavras agora se amontoavam e no diziam tudo que sepropunham a dizer, umas sufocadas pelas outras, algumas sem conseguir parceria. Falou esua voz denunciava a impacincia que j contara muitas vezes sobre os motivos daimigrao, sobre as dificuldades para se arranjar emprego no Japo. Repetiu a histria sobre

  • a viagem, longa e sacrificada viagem em que alguns morreram e foram lanados ao mar. E oque importava era o que ia na alma, no corao.

    E na alma, voc japons. Voc tem o esprito japons. E na cara, tambm. O queadianta voc sair por a dizendo que brasileiro? Todos olham voc e sabem que voc japons.

    Era exatamente assim que pensava: os traos do rosto, o nariz chato, os olhos amendoados,bem como o nome, eram a identidade fsica do japons.

    Seu nome Haruo prosseguiu. Se voc fosse brasileiro, se chamaria Joo,Antonio, Jos...

    Foi ento que Haruo cometeu o desrespeito: Otchan, a cara e o nome eu no posso mudar, mas isso no importa muito. Sensei do

    burajiru gakk disse que todos somos iguais, filhos de Deus, no importa se os olhos sopuxados ou no, se os cabelos so lisos ou enroladinhos, se o menino preto ou japons. Oque importa o que otchan est dizendo: o corao. E eu sinto que meu corao brasileiro.

    Insolente!O tapa atingiu em cheio a face de Haruo. Imediatamente os olhos se encheram de

    lgrimas. Voc quem seu pai quer que voc seja. E voc nihonjin!Hideo respirou fundo para se acalmar e julgar a insolncia. Aps alguns instantes, deu o

    veredicto: Tire a camisa e espere. Vou lhe aplicar o yaito.Retirou-se para o quarto e retornou com um pacote de papel um embrulho amarrotado

    , uma caixa de senk e uma caixa de fsforos. Escondidos atrs da porta da cozinha, Sumiee Hiroshi espiavam, assustados.

    Lentamente, mas com gestos firmes, vigorosos, Hideo abriu o pacote, pegou com o polegare o indicador um pouco dos fiapos secos, fez com eles uma pequena bola, que depois foimodificada para a forma de um cone. Logo fez outra bola, transformada depois em outrocone, pois um era pouco para o desrespeito cometido. Haruo, sem a camisa, antes de recebera ordem, deitou-se de bruos sobre o banco. O pai ajeitou os pequenos cones sobre as costasdo filho e acendeu um incenso. Haruo sentiu primeiro o leve calor do senk se aproximandoda pele e pensou que os seus colegas da escola jamais poderiam saber. Ento percebeu que opai acendia um yaito, depois o outro. Enrijeceu a musculatura das costas. Enquanto os conesse desfaziam e sua pele queimava, Haruo resistia, endurecia o esprito para que o objetivo docastigo no se cumprisse.

    Quando s restaram cinzas, Hideo limpou cuidadosamente as costas do filho e disse: Haruo, voc precisa aprender a ser nihonjin!Sentindo a pele ardendo, Haruo ouvia as palavras do pai e no conseguia entender como

    algum podia aprender a ser nihonjin. A professora lhe disse que se nascia brasileiro ou

  • japons, dependia do pas onde ocorria o nascimento. No era algo que se pudesse aprender.Mas no poderia dizer isso ao pai. Era o que aprendia com o yaito: no poderia dizer ao pai oque ele no queria ouvir.

    No dia seguinte, uma quinta-feira, Hideo extraordinariamente no foi ao cafezal demanh. Aps o caf, vestiu a sua melhor roupa e foi escola se queixar com a professora.Disse-lhe que sabia o que estava escrito na certido de nascimento, que pelas leis e perante ogoverno o filho era brasileiro, mas pediu que no lhe dissesse mais isso, que estava criandoum grande problema em sua casa. A professora, que era pequena, magra e falava num tomde voz apenas suficientemente audvel, no se deixou intimidar pelo modo seguro, quaseautoritrio de Hideo. Explicou que havia um conflito na sala, que Haruo estava se sentindoexcludo, que precisava saber que era to brasileiro quanto os outros e, alm do mais, nopoderia deixar de falar na sala de aula sobre a ptria, sobre patriotismo. Hideo ouviu asexplicaes da professora em silncio respeitoso, pois do pai aprendera que, quando umfalava, o outro escutava, mas logo aproveitou uma pausa dela e produziu sua novaargumentao, agora com mais ateno e mais lentamente, porque no era fcil convenceralgum em uma lngua de que se conheciam poucas palavras, lngua cuja sintaxe era um n.Disse que ela era professora, e como professora deveria compreender que Haruo foraeducado como um japons, e que isso era muito mais importante que ter nascido no Brasil,que o filho, alm de ter a cara de japons, fizera-se japons atravs da aprendizagem dalngua japonesa, que falava melhor que a lngua portuguesa, e da cultura japonesa, o que oqualificava como um japons. Depois acrescentou que Haruo era um menino inquieto, queele teria dificuldades no convvio com os japoneses da colnia e no se adaptaria ao Japoquando a famlia retornasse para l se ela continuasse a insistir que ele era brasileiro. Dissetudo em voz pequena, mais contida que antes. Sabia que no poderia gritar com a professora,pois ela era uma autoridade, e ele estava no Brasil. Lembrou o ditado japons: ao entrar navila, obedea aos que nela moram. Ela disse que ele deveria se orgulhar do filho, que erainteligente e sensvel, e por isso saberia com o tempo distinguir entre o que ela lhe ensinavae o que lhe ensinava o pai, pois tinham razo os dois, e Haruo, ento, era brasileiro e japons,mas que ele, o pai, no insistisse em pedir a ela que no lhe dissesse que era brasileiro.

    A professora no entendeu.Hideo no insistiu mais. Despediu-se educadamente, curvando as costas, mas sem

    cordialidade, porque aquela mulher, tal como a preta que curara Kimie na Fazenda OuroVerde, lembrava-lhe que estava em terra estrangeira e que gaijin, na verdade, era ele.

    Embora o que lhe ia na alma condissesse mais com passos lentos e olhos a acompanhar ocho, Hideo saiu da escola com o corpo ereto e os passos firmes de homem orgulhoso.Atravessou o ptio, imaginou que l Haruo brincava no recreio com os moleques, a maioriagaijins, cruzou a entrada buclica formada por dois grandes ps de flamboyants, com umpequeno banco de tora de grevlea sob cada um deles, e seguiu para o stio. Antes de chegar metade do caminho, tinha decidido cancelar a matrcula de Haruo no burajiru gakk. Nopoderia permitir que a escola o deseducasse, que a professora desmentisse a sua autoridade,

  • que Haruo crescesse se sentindo um gaijin. Mas a estrada, que desde a escola no lhechamara a ateno, pois era apenas um caminho por onde se vai e se vem, pareceu-lhe, derepente, longa e hostil. O sol implacvel, que ainda no aprendera a aceitar na lavoura decaf, agora molhava de suor a sua melhor camisa. E ento a morte da me, o acerto de contascom o proprietrio do stio e o cansao de anos de trabalho em terra alheia pesaram einclinaram um pouco a cabea, retardaram um pouco os passos. Okchan..., pensou oudisse em voz baixa , e ele, que era de pensar simples e direto porque no mundo se nasciapara viver e aprender que dois mais dois so quatro, o vermelho vermelho e ponto final,ainda elaborava a morte da me e no entendia se tinha alguma culpa. No dia anterior ao seuembarque, quando passara na sua casa para se despedir, prometera que voltaria logo combastante dinheiro, pois o Brasil era um pas novo e prspero, com muita terra para aagricultura, e ento ela se orgulharia do filho. A me, que sempre fora contra a ideia deHideo se aventurar em um pas to distante, disse-lhe que fosse ao encontro de seu destino.E morreu treze anos depois, aguardando o filho voltar da escola, como se ainda fosse criana.Quantos anos ainda permaneceria no Brasil? s vezes temia pensar, enfrentar a realidadeque teimava em se impor. Era mais fcil levantar todos os dias muito cedo e trabalharincessantemente no cafezal sem pensar nos anos que j estava ali ou nos anos que aindatrabalharia antes de retornar ao Japo. Retornaria, um dia, ao Japo? Satosan dizia que omelhor era se conformar, tentar construir uma vida no pas que os acolhera e se tornara,afinal, a sua nova terra, fazer as crianas estudarem a lngua portuguesa, que era o nicomodo de garantir que tivessem uma vida melhor no futuro. Satosan parece que est virandogaijin, pensava Hideo. Na colheita ele o via conversando com os colonos italianos, at comnegros e outros brasileiros, rindo, como se fosse um deles. E um dia, no armazm, Satosansentara-se ao seu lado, com certeza para provoc-lo, pois no eram amigos de se sentaremjuntos, e estava bbado, suficientemente embriagado para dizer que fizera amizade com unsgaijins da cidade, gente esclarecida, que lia muitos livros e jornais, diferentes dos ignorantesque viviam no campo, e que esses gaijins lhe tinham dito que o imperador do Japo enganaraos agricultores pobres e os desempregados da cidade, dizendo que deveriam emigrar porquepoderiam ganhar dinheiro rapidamente no Brasil. Mas que, na verdade, era um projeto paraexpulsar a populao pobre, que havia muitos excedentes no pas. Hideo no aguentou ouvirtudo calado, disse que eram mentiras inventadas pelos gaijins ou pelo prprio Satosan, que oprprio imperador havia sido enganado, quando lhe disseram que no Brasil se rastelavadinheiro. Chamou-o de bbado e de traidor da ptria e, vendo que eram inteis as palavras,acabou por empurrar a mesa contra ele, derrubando-o. Enquanto levantavam Satosan, Hideocontinuou: tinha a certeza de que sua ptria era o Japo, de que devia fidelidade aoimperador, que era um ser superior e iluminado. Por isso, na estrada que o conduzia de volta casa, impondo a si a negao da dvida que Satosan depositara em seu pensamento,ratificou a ideia de cancelar a matrcula de Haruo no burajiru gakk. A estrada seguia suacurva, e logo veio uma longa reta, e j se avistava o stio. Passou um carro de boi, cujocondutor, empregado de uma grande fazenda prxima, cumprimentou-o com um aceno de

  • chapu, e depois um Ford, e o carro de boi e o automvel levantaram poeira, que se juntou aosuor inominvel para, como na guerrilha, derrubar a resistncia de Hideo. A camisa oincomodava, no era a camisa de todos os dias, esses, sim, resignados com o sol. A que usavano momento era reservada para ocasies especiais, alguma festa ou algum velrio, e afligia-ot-la grossa, com a poeira grudada pele. E ento foi mudando a ideia, pensou que talveztivesse que manter Haruo no burajiru gakk e depois, ainda, matricular o outro menino e asmeninas, e todos iriam escola aprender a falar, ler e escrever em perfeita lnguaportuguesa e a fazer contas para no serem enganados, para terem xito no futuro. Semquerer, j pensava no futuro em terras brasileiras, talvez na cidade, onde os filhos poderiamexercer alguma profisso mais rentvel que a de lavrador. Todos estudariam, mas e o stio?Todos iriam ao cafezal pela manh e estudariam tarde, exceto na colheita, quando alavoura exigia maior empenho, exceto Hanashiro, que era primognito e tinha que trabalharo dia inteiro para ajudar o pai. Pois ento estava decidido: Haruo continuaria no burajirugakk, e ele pai tem que zelar pela formao do filho diria o contrrio se a professoraseguisse tentando convenc-lo de que era burajirujin, aplicaria quantos yaitos fossemnecessrios para domar o menino, pois ele parecia mesmo um bicho bravo, que no aceitavalao no pescoo.

    E era.Um dia, aps a escola dominical de japons, Ohara sensei foi casa de Hideo se queixar

    de Haruo. Ohara sensei era um homem alto, de ombros largos e uma voz inesperadamenteaguda, o que no o constrangia pelo menos era o que parecia, pois gostava de falar muitoe sempre em voz alta, talvez para exibir a sua fluncia e a sua linguagem erudita, sempreelogiadas. Ele chegou se desculpando, disse que sabia o quanto ojiichan zelava pela educaodos filhos, que Hanashiro era o filho que todos os pais desejavam ter, que Hitoshi eracompenetrado e j sabia escrever vrios kanjis, mas que no podia deixar de denunciar omau comportamento de Haruo, que se no o fizesse estaria sendo negligente, que conhecia asua grande responsabilidade como professor e conselheiro na comunidade japonesa. Disseque meu tio conversava durante as aulas e atrapalhava aqueles que queriam estudar, quefazia desenhos estranhos no caderno enquanto os companheiros realizavam as atividades,desenhos de porcos com asas e homens com rabos e chifres, que mal sabia todos os hiraganas.Hideo se desculpou pelo filho, disse constrangido que no sabia por que era assi