O Leviata Thomas Hobbes

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O Leviata

Text of O Leviata Thomas Hobbes

  • THOMAS HOBBES DE MALMESBURY

    LEVIAT ou

    MATRIA, FORMA E PODER DE UM ESTADO ECLESISTICO E CIVIL

    Traduo de Joo Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva

  • AO MEU MUI ESTIMADO AMIGOSr. francis Godolphin De Godolphin

    Estimado Senhor,

    Aprouve a vosso mui merecedor irmo, Sr. Sidney Godolphin, quando era ainda vivo,considerar dignos de ateno a meus estudos, e alm disso privilegiar-me, conforme sabeis,com testemunhos efetivos de sua boa opinio, testemunhos que em si mesmos j eramgrandes, e maiores eram ainda dado o merecimento de sua pessoa. Pois de todas as virtudesque a homem dado ter, seja a servio de Deus, seja a servio de seu pas, da sociedade civil,ou da amizade particular, nenhuma deixava de manifestamente se revelar em sua conversao,no que fossem adquiridas por necessidade ou constitussem uma afetao de momento, masporque lhe eram inerentes, e rebrilhavam na generosa constituio de sua natureza. portantoem sinal de honra e gratido para com ele, e de devoo para convosco, que humildemente vosdedico este meu discurso sobre o Estado. Ignoro como o mundo ir receb-lo, ou como poderrefletir-se naqueles que parecem ser-lhe favorveis. Pois apertado entre aqueles que de umlado se batem por uma excessiva liberdade, e do outro por uma excessiva autoridade, difcilpassar sem ferimento por entre as lanas de ambos os lados. No entanto, creio que o esforopara aprimorar o poder civil no dever ser pelo poder civil condenado, nem pode supor-seque os particulares, ao repreend-lo, declarem julgar demasiado grande esse poder. Alm domais, no dos homens no poder que falo, e sim (em abstrato) da sede do poder (tal comoaquelas simples e imparciais criaturas no Capitlio de Roma, que com seu rudo defendiam osque l dentro estavam, no porque fossem quem eram, mas apenas porque l se encontravam),sem ofender ningum, creio, a no ser os de fora, ou os de dentro (se de tal espcie os houver)que lhes sejam favorveis. O que talvez possa ser tomado como ofensa so certos textos dasSagradas Escrituras, por mim usados com uma finalidade diferente da que geralmente poroutros visada. Mas fi-lo com a devida submisso, e tambm, dado meu assunto, porque talera necessrio. Pois eles so as fortificaes avanadas do inimigo, de onde este ameaa opoder civil. E se apesar disto verificardes que meu trabalho atacado por todos, talvez vosapraza desculpar-me, dizendo que sou um homem que ama suas prprias opinies, queacredito em tudo o que digo, que honrei vosso irmo, como vos honro a vs, e nisso me apoieipara assumir o ttulo (sem vosso conhecimento) de ser, como sou,

    Senhor, Vosso mui humilde e mui obediente servidor THO. HOBBES Paris, 15/25 de abril de1651.

  • INTRODUODo mesmo modo que tantas outras coisas, a natureza (a arte mediante a qual Deus fez egoverna o mundo) imitada pela arte dos homens tambm nisto: que lhe possvel fazer umanimal artificial. Pois vendo que a vida no mais do que um movimento dos membros, cujoincio ocorre em alguma parte principal interna, por que no poderamos dizer que todos osautmatos (mquinas que se movem a si mesmas por meio de molas, tal como um relgio)possuem uma vida artificial? Pois o que o coraro, seno uma mola; e os nervos, senooutras tantas cordas; e as juntas, seno outras tantas rodas, imprimindo movimento ao corpointeiro, tal como foi projetado pelo Artfice? E a arte vai mais longe ainda, imitando aquelacriatura racional, a mais excelente obra da natureza, o Homem. Porque pela arte criadoaquele grande Leviat a que se chama Estado, ou Cidade (em latim Civitas), que no senoum homem artificial, embora de maior estatura e fora do que o homem natural, para cujaproteo e defesa foi projetado. E no qual a soberania uma alma artificial, pois d vida emovimento ao corpo inteiro; os magistrados e outros funcionrios judiciais ou executivos,juntas artificiais; a recompensa e o castigo (pelos quais, ligados ao trono da soberania, todasas juntas e membros so levados a cumprir seu dever) so os nervos, que fazem o mesmo nocorpo natural; a riqueza e prosperidade de todos os membros individuais so a fora; SalusPopuli (a segurana do povo) seu objetivo; os conselheiros, atravs dos quais todas as coisasque necessita saber lhe so sugeridas, so a memria; a justia e as leis, uma razo e umavontade artificiais; a concrdia a sade; a sedio a doena; e a guerra civil a morte. Porltimo, os pactos e convenes mediante os quais as partes deste Corpo Poltico foram criadas,reunidas e unificadas assemelham-se quele Fiat, ao Faamos o homem proferido por Deus naCriao.

    Para descrever a natureza deste homem artificial, examinarei: Primeiro, sua matria, e seuartfice; ambos os quais so o homem.

    Segundo, como, e atravs de que convenes feito; quais so os direitos e o justo poder ouautoridade de um soberano; e o que o preserva e o desagrega.

    Terceiro, o que um Estado Cristo.

    Quarto, o que o Reino das Trevas.

    Relativamente ao primeiro aspecto, h um ditado que ultimamente tem sido muito usado: quea sabedoria no se adquire pela leitura dos livros, mas do homem. Em consequncia do queaquelas pessoas que regra geral so incapazes de apresentar outras provas de sua sabedoria,comprazem-se em mostrar o que pensam ter lido nos homens, atravs de impiedosas censurasque fazem umas s outras, por trs das costas.

    Mas h um outro ditado que ultimamente no tem sido compreendido, graas ao qual oshomens poderiam realmente aprender a ler-se uns aos outros, se se dessem ao trabalho defaz-lo: isto , Nosce te ipsum, L-te a ti mesmo. O que no pretendia ter sentido, atualmente

  • habitual, de pr cobro brbara conduta dos detentores do poder para com seus inferiores, oude levar homens de baixa estirpe a um comportamento insolente para com seus superiores.Pretendia ensinar-nos que, a partir da semelhana entre os pensamentos e paixes dosdiferentes homens, quem quer que olhe para dentro de si mesmo, e examine o que faz quandopensa, opina, raciocina, espera, receia, etc., e por que motivos o faz, poder por esse meio ler econhecer quais so os pensamentos e paixes de todos os outros homens, em circunstnciasidnticas. Refiro-me semelhana das paixes, que so as mesmas em todos os homens,desejo, medo, esperana, etc., e no semelhana dos objetos das paixes, que so as coisasdesejadas, temidas, esperadas, etc. Quanto a estas ltimas, a constituio individual e aeducao de cada um so to variveis, e so to fceis de ocultar a nosso conhecimento, queos caracteres do corao humano, emaranhados e confusos como so, devido dissimulao, mentira, ao fingimento e s doutrinas errneas, s se tornam legveis para quem investiga oscoraes. E, embora por vezes descubramos os desgnios dos homens atravs de suas aes,tentar faz-lo sem compar-las com as nossas, distinguindo todas as circunstncias capazes dealterar o caso, o mesmo que decifrar sem ter uma chave, e deixar-se as mais das vezesenganar, quer por excesso de confiana ou por excesso de desconfiana, conforme aquele quel seja um bom ou um mau homem.

    Mas mesmo que um homem seja capaz de ler perfeitamente um outro atravs de suas aes,isso servir-lhe- apenas com seus conhecidos, que so muito poucos. Aquele que vai governaruma nao inteira deve ler, em si mesmo, no este ou aquele indivduo em particular, mas ognero humano. O que coisa difcil, mais ainda do que aprender qualquer lngua ou qualquercincia, mas ainda assim, depois de eu ter exposto claramente e de maneira ordenada minhaprpria leitura, o trabalho que a outros caber ser apenas verificar se no encontram o mesmoem si prprios. Pois esta espcie de doutrina no admite outra demonstrao.

  • PRIMEIRA PARTEDO HOMEM

  • CAPTULO IDa sensao

    No que se refere aos pensamentos do homem, consider-los-ei primeiro isoladamente, edepois em cadeia, ou dependentes uns dos outros. Isoladamente, cada um deles umarepresentao ou aparncia de alguma qualidade, ou outro acidente de um corpo exterior a ns,o que comumente se chama um objeto. O qual objeto atua nos olhos, nos ouvidos, e em outraspartes do corpo do homem, e pela forma diversa como atua produz aparncias diversas.

    A origem de todas elas aquilo que denominamos sensao (pois no h nenhuma concepono esprito do homem, que primeiro no tenha sido originada, total ou parcialmente, nosrgos dos sentidos). O resto deriva daquela origem.

    Para o que agora nos ocupa, no muito necessrio conhecer a causa natural da sensao, eescrevi largamente sobre o assunto em outro lugar. Contudo, para preencher cada parte do meupresente mtodo, repetirei aqui rapidamente o que foi dito.

    A causa da sensao o corpo exterior, ou objeto, que pressiona o rgo prprio de cadasentido, ou de forma imediata, como no gosto e tato, ou de forma mediata, como na vista, noouvido, e no cheiro; a qual presso, pela mediao dos nervos, e outras cordas e membranas docorpo, prolongada para dentro em direo ao crebro e corao, causa ali uma resistncia, oucontrapresso, ou esforo do corao, para se transmitir; cujo esforo, porque para fora, pareceser de algum modo exterior.

    E a esta aparncia, ou iluso, que os homens chamam sensao; e consiste, no que se refere viso, numa luz, ou cor figurada; em relao ao ouvido, num som, em relao ao olfato, numcheiro, em relao lngua e paladar, num sabor, e, em relao ao resto do corpo, em frio,calor, dureza, macieza, e outras qualidades, tantas quantas discernimos pelo sentir. Todas estasqualidades denominadas sensveis esto no objeto que as causa, mas so muitos osmovimentos da matria que pressionam nossos rgos de maneira diversa. Tambm em ns,que somos pressionados, elas nada mais so do que movimentos diversos (pois o movimentonada produz seno o movimento). Mas sua aparncia para ns iluso, quer quando estamosacordados quer quando estamos sonhando. E do mesmo modo que pressionar, esfregar, oubater nos olhos nos faz supor uma luz, e pressionar o ouvido produz um som, tambm oscorpos que vemos ou ouvimos produzem o mesmo efeito pela sua