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  • 172 Rev. TST, Braslia, vol. 82, no 4, out/dez 2016

    ORGANIZAES SINDICAIS E UNITRIAS NOS LOCAIS DE TRABALHO: UM ENSAIO DE

    RECONSTRUO DO DIREITO COLETIVO DO TRABALHO

    Marcus de Oliveira Kaufmann*

    1 PINCELADAS DE UM FRACASSO

    A superao da discusso acerca da imploso do sistema da unicidade sindical, que obstrui a efetivao larga do princpio maior, do direito humano fundamentalizado, da liberdade sindical, j por demais co-nhecida. , em verdade, quase inglria, muito explorada e, por tudo, cansativa.

    J no surpreende a constatao de que o Brasil convive e mantm um sistema esquizofrnico, embora muitos partcipes do movimento sindical ainda empunhem a bandeira da unicidade imposta de cima para baixo, ao mesmo tempo em que, curiosamente, a produo cientfica atual, quando ocorre, seja majoritariamente favorvel superao do longevo modelo.

    No modelo de unicidade imposto, o Brasil vive e tenta administrar um monoplio sindical catico porque, a despeito daquele modelo, artificial, milhares de sindicatos, detentores de mera representao legal e formal, uma vez que sobreviveram ao procedimento administrativo do pedido de registro sindical perante o Ministrio do Trabalho1, lanam-se representao privada de categorias sem que tenham condies mnimas de represent-las a contento, afastados que esto das bases e, portanto, distantes que esto dos locais de

    * Doutor e mestre em Direito das Relaes Sociais (Direito do Trabalho) pela Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo (PUC-SP); bacharel em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Braslia (FD/UnB); membro efetivo do Instituto Brasileiro de Direito Social Cesarino Jnior (IBDSCJ) e da Academia Brasiliense de Direito do Trabalho (ABRADT); advogado.

    1 Nos termos do art. 2, inciso IV, da Medida Provisria (MP) n 726/2016 (Dirio Oficial da Unio DOU 12.05.2015, com retificao no DOU 19.05.2016). Essa Medida Provisria foi convertida na Lei n 13.341/2016, que disps, em seu art. 2, inciso III, o seguinte:

    Art. 2 Ficam transformados: (...) III o Ministrio do Trabalho e Previdncia Social em Ministrio do Trabalho;

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    trabalho, os centros de gravidade por onde deveriam transitar qualquer tentativa de construo de verdadeiras e fortes representatividades materiais sindicais.

    O menosprezo do atual Direito Coletivo do Trabalho proximidade entre as entidades sindicais e os locais de trabalho um dado importante ilustrador da curiosa realidade sindical brasileira, que, a despeito da unicidade, impulsiona uma pluralidade de fato de entidades sindicais que se multiplicam exponen-cialmente nessa estrutura que pressuporia poucos, e controlados, sindicatos, fenmeno fomentado pela previso constitucional de uma no interferncia estatal na vida associativa e pela facilidade com que categorias, econmicas e/ou profissionais, so inventadas, sempre pensadas como um dado a posteriori da constituio de determinado ente sindical.

    Antes da Constituio Federal de 1988, o Poder Pblico exigia condies para o enquadramento sindical, uma vez que a ideia de categoria, nos termos do quadro anexo do art. 577 da Consolidao das Leis do Trabalho (CLT), se constitua em um mero dado cadastral fornecido a priori, um instrumento hbil, nas palavras de Arion Sayo Romita, para reduzir o sindicato impotncia sem que se tornasse necessrio proibir a sua prpria existncia2. Aps a Constitui-o Federal de 1988, a ideia de categoria passou a ser um dado meramente construdo, e no dado, a posteriori, em conformidade com a exteriorizao da autonomia sindical decorrente do art. 8, inciso I, da Constituio Federal.

    Antes de 1988, o Poder Executivo era o protagonista, pela interferncia estatal, em toda a organizao do enquadramento sindical. Aps 1988, todos os embates sindicais, de conflitos de representao disciplina acerca da vigncia das normas coletivas por exemplo, passou a contar com o protagonismo do Poder Judicirio, em um momento em que o sistema de unicidade passou a ser estranhamente aberto criao de novos sindicatos.

    E o protagonismo se pretendeu ser exercido por vrias instncias judi-cirias com vises acerca do Direito Sindical distintas; e os sindicatos, presos a um modelo artificial que os torna dependentes da regulao estatal, a tudo observam inertes, pasmos, sem ao e sem reao, tenham eles, ou no, ver-dadeira representatividade sindical. Se sindicatos so, passaram pelo cadastro prvio do Ministrio do Trabalho, para a aquisio da personalidade jurdica sindical, o que no quer dizer que detenham representatividade material sindi-cal, que uma noo mais ligada legitimidade para a ao sindical em nome de determinado grupo de representados. Sindicatos possuem representao

    2 A des(organizao) sindical brasileira. Revista Legislao do Trabalho, So Paulo, LTr, v. 71, n. 6, jun. 2007, p. 666-675, p. 669.

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    formal sindical, pelo simples fato de existirem juridicamente como tais, porta-dores de personalidade jurdica sindical. Sindicatos com representao formal adquiriram, juridicamente, a certido de nascimento para o trfego no mundo jurdico. Sindicatos com representatividade material sindical, ao contrrio, no a adquirem como a mera representao formal, mas a conquistaram a partir da proximidade para com os seus representados, pela confluncia de interesses, pelo amlgama criado entre a ao sindical e as aspiraes, interesses e direitos que se forjam a partir das bases, dos locais de trabalho, de baixo para cima.

    O Poder Judicirio, que, no modelo imposto, levado a discutir artifi-cialidades, como o prazo de vigncia de normas coletivas, assunto que deveria estar afastado da interferncia judiciria por ser de livre trato se se trata de plena autonomia privada coletiva, acaba, ao fim, s debatendo e julgando representa-es formais, mormente em disputas de representao sindical, sem levar em considerao a participao das bases, aquilo que se constri de baixo para cima.

    O cenrio sindical brasileiro, que prestigia as representaes formais em detrimento de verdadeiras representatividades materiais, detecta que, no siste-ma de unicidade, cada vez mais, mais sindicatos representam menos pessoas, cada vez mais desinteressadas na vida associativa, no limite do desemprego, automaticamente sujeitas dada representao formal sem testarem, em liber-dade, a representatividade de certas entidades, submetidas ao monoplio da representao formal sem possibilidade de oposio ou de escolha.

    O modelo brasileiro, que j abandonou, ao que as dcadas j ilustram, a discusso entre a prevalncia da liberdade em detrimento da unicidade imposta, ainda no enfrentou o problema da aferio de verdadeiras representatividades sindicais em detrimento das meramente formais de carimbo3 ou ditas pelegas. Se ainda o modelo nacional encontra-se nas agruras de decidir o que tiver que decidir em matria coletiva com defeitos e agruras na identificao do que seria melhor entre a mera representao formal e a verdadeira representatividade material, sem ter superado o vis ditatorial pela no integrao, ao ordenamento constitucional e em sua plenitude, do princpio da plena liberdade sindical, vive-se uma progressiva runa normativa, o fracasso do Direito Coletivo do Trabalho.

    O estratagema montado, desde a dcada e dos anos 1930, sabe-se muito bem, foi a de transferir o conflito originrio entre capital e trabalho para o inte-rior da burocracia estatal e suas estruturas4, esvaziando-o em seu bero natural,

    3 CASTRO, Antonio Escosteguy. Trabalho, tecnologia e globalizao: a necessidade de uma reforma sindical no Brasil. So Paulo: LTr, 2006. p. 159.

    4 CARDOSO, Adalberto Moreira. Sindicatos, trabalhadores e a coqueluche neoliberal: a Era Vargas acabou?. Rio de Janeiro: Fundao Getulio Vargas, 1999. p. 28-29. Bem caractersticas do intento

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    no seio das fbricas do ainda dbil industrialismo brasileiro, o que se deu por meio da Justia do Trabalho, detentora do poder normativo.

    Diante dessas circunstncias, o governo Vargas combinou concesso de direitos e represso poltica. Criou direitos individuais de proteo do traba-lhador (limitao da jornada de trabalho, frias), j adquiridos pela luta dos sindicatos ento livres do pr-1930, mas fulminou o movimento coletivo de trabalhadores ao rechaar o desenvolvimento de relaes coletivas de trabalho verdadeiramente livres e bem estruturadas em conformidade com a autonomia privada coletiva, uma vez que os entes sindicais estavam submetidos estrutura oficial de dominao.

    A prpria figura da data-base, de vinculao das pautas sindicais ao calendrio oficial, obrigava as movimentaes coletivas a no se manterem afastadas do controle estatal, com o que se criou, no Brasil, uma necessidade histrica de, principalmente no mbito coletivo, submeter os conflitos ao crivo jurisdicional.

    A estratgia brasileira em linha com a lgica da ento explorao ca-pitalista embrionria, perspicaz e inteligente pelo mito de Vargas, de um lado aperfeioava progressivamente a legislao trabalhista por meio de atos de c-pula, tutelares no mbito do Direito Individual do Trabalho, com inspirao na produo legislativa de pases de cariz providencial; e, de outro lado, no mbito do Direito Coletivo do Trabalho, regulava, mincia, as associaes sindicais, tornando-as dependentes da estrutura estatal, desvinculando-as de suas bases.

    Independentes das massas revoltosas, os sindicatos poderiam se manter e sobreviver em decorrncia da bondosa fonte de custeio da contribuio sin-dical oficial, que inibe a concorrncia entre sindicatos e incentiva a lenincia em relao s necessidades da