Poltica Como Vocao - Max Weber

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MaxWeber APOLTICACOMOVOCAO Traduode Mauricio Tragtenberg Reviso tcnica Oliver T olie :~ UnB FUNDAOUNIVERSIDADEDEBRASluA Reitor Lauro Morhy Vicc-Rdtor Timothy Martio Mulholland EDITORAUNIVERSIDADEDEBRASILlA Diretor AlexandreUma Con.,c/ho Edilorial Presidente ElizabethCanceUi Alexandre Lima, Clarimar Almeida do Valle.HenrykSiewiersk Equpdilorlal Severino Francisco (Supef\1so editorial);RejanedeMeneses (Acompanhamento editorial); Ana FI.viaMagalhes e YanaPalankof (Preparao deoriginais ereviso); Mrcio Duarte (Projeto grfico. capa e editorao eletrnica); Raimunda Dias (Emendas);ElmanoRodrigues Pinheiro(Superviso grfica) Copyright o 2003 by Editora Universidade deBrasllia.pelatraduo Ttulooriginal:PolitikaIs&ruI Impresso no Brasil Direitos exclusivos paraesta ediO: EditoraUniversidadedeBraslia SCS Q. 02. B1ocoC. N"7B Ed. OK, 2" andar 70300-500- Brasilia-DF Te!: (Oxxl)22-6B74 Fax: (Oxx61) 225-5611 e-mail: editora@unb.br Toclos 06 direiros reservados.Nenhuma parte desta publicao podet. ser armazenada ou reproduzida por qualquer meio sem a autorizao por escrito da Edirora. ficha cataiogrfica elaborada pela Biblioteca Central da Universidade de Braslia Weber, Max W375A politiea como vocao I Max Weber; traduo deMaurcio Tragtenberg.- Bras1.lia: Editora Universidade de Brasilia,2003. BOp. Traduo de: Politik aIs Beruf ISBN 85,230-0721-0 1.Teoria Poltica. I.Tragtenberg, Srgio. 11.Titulo. CDU 32.001 MAXWEBER- Po/itikaisBeruf (A pol1tca como vocao) in Gesammelte Politische Schriften(Escritos polticos reunidos) V"- -k.\4 Cvv 1... D 0'0\)t>1:;, G',Sol....'( \:;>Vi;) II LtCi :3b 19 eil LO ( "6 r -""-)(, \\\b2..J '-'-{ +=Fc 1-1 /",''" ., 1_, / inevitvelqueessaconferncia,paraa. qualfui convidado pelossenhores,osdecepcioneem mui, tos sentidos. A expectativa de todos que euadote uma posio a respeito dos problemasneos.Issosacontecerdeummodopuramente formal na concluso, quando eu abordar certos pro' blemas a respeito do significado da ao poltica no contextodaatividadehumanaglobal,razopela qual ficaeliminada qualquer indagao referente a que pol1ticadevemosseguir ouqual contedo de' vemos conferir ao nosso agir poltico. Tais questes nadatmavercomoquemeproponhoatratar nesta ocasio: o que significa a poltica como voca, o e o que isso pode significar? Passemos aotema que nos interessa, O que compreendemos por polltica? O conceito demasiadamente amplo e incorpora todos os tiMAXWEBER+pos deatividade decomandoindependente.Falamos dapolticamonetriadosbancos,dapol1ticade descontos do Rdchsbank, da poltica de umto durante uma greve; tambm pertinentese pol1tica educacional de uma comunidade rural ou urbana, pltica do presidente de uma o e, finalmente, poltica de uma esposa prudente queprocuraguiarseumarido.Inicialmente,devo esclarecer que nossasreflexesno se fundamentam num conceito to amplo de poltica. Desejamos no momento entender por pol1tica apenas a direo oua influnciasobre a direodeuma associao poltica, ou seja, de um Estado. Porm, o que uma associao poltica do ponto de vista sociolgico? O que um Estado?camente, no podemosdefinir umEstadoa partir docontudodoquefaz.Nohnenhumatarefa que 1:l'l!laassociaopolticanotenhaemalgum momentotomadonasmos,mastambmma de que pudssemos dizer que foi sempre {; 1va dessas associaes denominadas pol1ticas e hoje emdiasodesignadascomoEstados,ouqueram historicamente as antecessoras do Estado /demo.Em'ltimainstncia,oEstadomoderno /pode ser definido pelos meios peculiares que lhe so prprios, como peculiar a toda associao polltica: /'o uso da fora fsica.na APOLTICACOMOVOCAO+fora", declarou Trotsky em Brest,Litovsk. De fato, de uma afirmao correta. Seinexistissemestruturassociaisfundadasna violnci, teria sido eliminado o conceito de Estado e emergiria uma situao que mais adequadamente designaramos como anarquia, no sentido especfico da palavra. Naturalmente, a fora no se constitui no meio nico do Estado - ningum jamais o afirmaria -, porm a fora num elemento especfio do Estado. Na poca atual, a relao entre violncia e Estado profundamente prxima. No passado, . socaes to diferenciadas - comeando pelalia- utilizaram como instrumento de poder a fora fsicacomoalgointeiramente normal.Entretanto, atualmente,devemosdizer queumEstadopma comunidadehumanaqueseatribui(com xito)o monoplio legtimo da violncia fsica,nos limites de um territrio definido. Observem que o territriotui uma das caractersticas do Estado.No perodo contemporneo, o direito ao emprego da coao ca assumido por outras instituies medida que oEstadoopermita.Considera-seoEstadocomo fontenicadodireitoderecorrerfora.Conseqentemente, para ns, poltica constitui o conjunto de esforos tendentes a participar da diviso doder,influenciandosuadiviso,sejaentre Estados, seja entre grupos num Estado. 8 9J MAXWEBER+ Tal definio corresponde ao uso quotidiano do conceito. Quando se afirma que um problema poltico ou que um ministro de um gabinete ouum oficial um funcionrio poltico, ou quando se afirma que umadecisopoliticamente determinada,faz-serefelirncia ao fato de existirem interesses na distribuio, 11na manuteno ou na transferncia do poder, fatoresI decisivosna soluo daquela questo,nadeterminao da deciso ou no mbito de atuao do funcionrio.Os_napolticaaspiram aopoder ou como meio para atingir outros fins, abstratos ou individuais, ou como poder pelo poder,para desfrutar da sensao de status que ele proporciona. comoasinstituies politicasqueoprecederamhistoricamente,oEstadoumarelaode seuspela violncia ,consideradalegItima).Pa@ que os_minados devemadosp.oderesdominante4Dal as seguintes perguntas: quando e por que obedecem oshomens?Ora,emquejustificaOes ntrlnsecas ou extrnsecas se baseia essa dominao? . Parainiciarmos, em princIpio existem trs tificaes.internas como fundamentos da legitimado Em primeiro lugar, a autoridade do passadoeterno,ouseja,doscostumesconsagrados por meio de validade imemorial e da disposio de APOLTICACOMOVOCAAo+ respeit-los. a dominaetotradicional patriarca oupelo prncipe patrimonial deoutrora. H tambm a autoridade em que se fundamdeduo(ca.rismaLEssadominaotemcomofundamento a esoaisnarevelao.noherosmoouemoutras qualdadesde... Essaadominaocarismtica,talcomoexer-chefeguerreiro deito, pelo governante empossado "por plebiscito, pelo grande demagogo e pelo chefe de um partido poltico.Finalmente, temos a domina .inpostapor me,iofundadana . crena da.validade do estatuto legal e da competncia funcionalbaseadanormasnidas.Essaadominaoexercida servi.4or do .t:,dos o.s detentores do. poder . a ele assemelhados. Supe-se na realidade que a obedincia dos s determinada pelo temor ou pela esperana temor da vingana exercida pelos poderes mgicos ou daquele que exerce o poder ou pela esperana de recompensa neste ounoutro mundo.Interesses dos mais diversificados podem condicionar a obedincia. Posteriormente, voltaremos a esse assunto. T odava, aoconsiderarmososfundamentosdelegitimaeto 10 II MAXWEBER+dessaobedincia, sem dvida deparamos com esses trs tipos puros que indicamos: domnao tradicional, carismtica elegal. formas legitimaoesua justificao '. interna so profundamente significativas para apreenso da estrutura de domnao. Na realidade, trstipospuros raramente.so enontrados. Hoje,no possvel nosocuparmosdasvariantes, dastransiesedascombinaesprofundamente complexas desses tipos puros, seu estudo pertence cincia poltica em geral. .,;:O poder fundado na submisso ao carisma purarmentepessoaloquenosinteressatratar nomomento. a base da idia de uma vocai!ona suaV" expresso mais alta. A devoo ao profeta portador de um carisma, ao dirigente da guerra, ou ao demagogo que age na sia_ouno Parlamento significa que so chamados in paraconduzir oshomens.Oshomens obedecem por causa dadepositamnos seus dirigentes e no em razo dos costumes ou. de um estatuto. Se o carisma for mais do que o to da conjuntura, o dirigente certamente viver pela causa dos subordinados e procurar realizar sua obra. ./ a pessoa e suas qualidades de chefia que orien-------- { tam a devoo APOLTICACOMOVOCAAo+A lideranacarismticaapareceuemtodasas pocas histricas e em todos os lugares.Nopassado, apareceu por um lado na figurado mgico e do profeta, por outro lado na figurado chefe guerreiro ousobaformadeumgruponaqualidadedeli condottiere.Nsestamosinteressadosnahegemonia exercida pelo demagogo livre, que emergiu na cidade-Estado.Porm, ele striunfouno Ocidente. sobretudonasregiesmediterrneas.Almdo mais, a hegemonia poltica na formade chefe de par-parlamentar nasceu nq espao do Estado constitucional, tipico do Ocidente . _-DTais polticos orientados por uma vocai!o no so de modo algum asnicas figurasdeterminantes na luta politica pelo poder.Q. meiosde que dispem os polticos so o fator decisiw. C9.!!:!2.Is foras po- ,.. lticasconseguem suauma pergunta dequalquer tipo de . domnao. valendo para a domnaao politica em todasassuasformas,sejaelatradicional, legalou carismtica. T od' dominao organizada que pretenqa man- v tercertaCQlltiI1!!idadeadministrativarequeruma direcionadaobedinciaqueles que pretendam ser depositrios do podl;;:rfegltimo. Por outro lado, em virtude desse tipo' de obedincia, adominao pressupeo da-.., 13 -+MAXWEBER+{queles necessriosel!1casode utilzaSO daflsica.Portanto, a dominao organizada requer \lm controle doburocrtico e da existnjainstrumentQ.s materiais de administrao. O pessoal burocrtico que representa no mbito externo a organiza!Qo poltica, corno em qualquer outra organizao, noseencontra vinculadoa quemdetm opoder somente por meio das concepes de legitimidade dequetratamos,mas eIDJunoqc_ prestgio social emateriais. Feudos dos vassalos, m:rl>endas dos funcionrios . patrimoniais, v_encimentos dos servidores pblicos modernos, as honras dos cavaleiros, o priyilgjo dos . proprietrios de terras e odo funcionrio pblico constituem seus salrios. Alm disso, o que funcionrios burocrticos aos detentores do poder(o medgvantagws.Isso tambm valepara a dominao carismtica:numa guerra, h glrias e riquezas para os seguidores; os adeptosdodemagogorecebemdespojos- isto,a explorao dos dominados por me