Rompendo o seculo

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Text of Rompendo o seculo

  • 1. 2010 Rompendo o sculo: uma aventura entre vanguardas literrias no Brasil, Mxico, Portugal e Espanha Resumo: Este texto analisa comparativamente poemas brasileiros, mexicanos, portugueses e espanhis da transio do sculo XIX para o XX, buscando compreender continuidades e rupturas, e reavaliar conceitos clssicos no estudo das vanguardas ibero-americanas, tais como o de modernismo. Resum: Ce document analyse comparativement plusieurs pomes de Brsil, Mexique, Portugal et Espagne de la transition du XIXe au XXe, cherchant comprendre les continuits et les ruptures, et rvaluer des concepts classiques de ltude des avant-gardes dAmrique-ibrique; par exemple, modernisme. Palavras-chave: modernismo; vanguarda; Ibero-Amrica, produo potica, estudos comparados. Mots-cls: modernisme, avant-gard, Amrique-ibrique, production potique, tudes comparatives. Ana Luiza de Oliveira Duarte Ferreira analod@gmail.com Historiadora Doutoranda pelo PROLAM/USP 2010
  • 2. 2 Introduo O presente texto corresponde a um esforo comparativo inicial entreprodues poticas brasileiras, portuguesas, mexicanas e espanholas (1) nofinal do sculo XIX, e (2) no incio do sculo XX. Tem-se estes momentos,respectivamente, como (1) antecedente direto, e (2) desabrochar das ditasvanguardas, nos mais diversos pases do mundo. A inteno aqui perceberatravs da anlise de poemas, em que medida os novos poetas rompem comos velhos, na Ibero-Amrica (especialmente no Brasil e no Mxico) e naPennsula Ibrica. Em minha dissertao de Mestrado abordei tal objeto tangencialmente,porque buscava compreender o universo intelectual em que se haviam formadodois dos mais importantes ensastas ibero-americanos Srgio Buarque deHolanda, autor de Razes do Brasil (1936); e Samuel Ramos, autor de El perfildel hombre y la cultura en Mxico (1934). Naquele momento pude identificarque ambos viveram a gestao e os primeiros passos dos ditos movimentosvanguardistas em seus pases. Esbocei, pois, um panorama das versesapresentadas pelos mais diversos historiadores acerca das maneiras como serelacionaram (intelectual e socialmente) artistas, pensadores e pesquisadoresbrasileiros e mexicanos que, nas dcadas de 1920-1930, compartilharam ideaise posturas de vanguarda.i Era meu propsito perceber que tipo de viso nossos literatos eensastas ligados s vanguardas apresentavam acerca da herana legadapelos colonizadores ibricos (portugueses, no caso do Brasil; e espanhis, nocaso do Mxico) para a constituio de modos de vida outros (americanos).Assim, analisei manifestos de Oswald de Andrade e Manuel Maples Arce;poemas de Manuel Bandeira e Xavier Villaurrutia; Razes... e El perfil.., porquepretendia perceber ali construes e juzos que seus autores estariamconferindo ao papel de lusos e hispnicos nas experincias histricasvivenciadas/ pensadas por brasileiros e mexicanos. No texto que ora apresento, a proposta dar incio a uma abordagemum tanto distinta: agora pretendo perceber possveis relaes entre a poesia devanguarda brasileira e a poesia de vanguarda de Portugal... assim como entre
  • 3. 3a poesia de vanguarda mexicana e a poesia de vanguarda da Espanha(sempre comparativamente). Parto do princpio de que tais relaes podem noter ocorrido s claras; ento aponto semelhanas e diferenas na forma deabordar e em temas abordados em poesias do Brasil e do Mxico, de Portugale Espanha. Mais uma diferena deve ser notada entre o presente texto e asreflexes que apresentei em minha dissertao: aqui me debruo sobre umconjunto de poemas consideravelmente maior. Ao longo deste texto o leitor pode atentar para o fato de que seria degrande interesse desdobrar minha abordagem e investigar, por exemplo, emhoje relativamente acessveis epistolrios dos cones da vanguarda em nossocontinente e no alm-mar, as redes e contatos estabelecidas efetivamenteentre eles. Outras fontes possveis seriam: dirios, exemplares de revistas ejornais publicados na poca, registros cartoriais (como matrculas em cursos,documentos de extradio, da experincia de um ou outro como diplomata).Essa justamente uma de minhas intenes; isto , as reflexes queapresento aqui ho de servir de base para novas apreciaes e novos artigos. Que fique bem claro, portanto: considero que minhas proposiesesboadas no presente artigo so proposies ainda iniciais, e por issomesmo pouco pretensiosas. Porm, creio que, aos olhos de todo e qualquerbrasileiro interessado na literatura, na histria e nos modos de viver e sentiribero-americanos, este trabalho ser tomado como relevante. O inventrio degrupos, de grandes nomes, e de grandes obras que aqui proponhoconstruir, sobretudo as extenses para as literaturas do Mxico e da Espanha,tende a ser pouco explorado e conhecido no Brasil. Inspira-me, aqui, o clssico trabalho de Antonio Candido Formao daliteratura brasileira: momentos decisivos. claro que meu objeto distintodaqueles tomados pelo crtico paulista (como sabido, os dois volumes doreferido livro dedicam-se ao Arcadismo e ao Romantismo brasileiros).Evidentemente meu instrumental terico tambm menos articulado, e minhasreflexes menos ambiciosas. Porm, a paixo que nos move a mesma numdos famosos prefcios a Formao..., Candido escreve: o presente livro
  • 4. 4sobretudo um estudo de obras; a sua validade deve ser encarada em funodo que traz ou deixa de trazer a este respeito (p. 15); noutro, declara: estelivro (...), embora fiel ao esprito crtico, cheio de carinho e apreo [por nossasletras], procurando despertar o desejo de penetrar nas obras como em algovivo, indispensvel para formar nossa sensibilidade e viso de mundo(CANDIDO: p. 10). Neste diapaso, devo dizer que por perceber o comparativismo comoum mtodo que nos viabiliza uma maior criticidade e complexidadeinterpretativa que dele me sirvo. Tomo ento como referncia o clebre artigode Richard Morse, Quatro poetas americanos: uma cama-de-gatos, no qual socontrapostos Mrio de Andrade e T. S. Eliot, Oswald de Andrade e WillianCarlos Willians; e no qual o autor prope que a poesia de vanguarda foi e referncia bsica para a tomada de conscincia latino-americana em nossosculo (MORSE: 34). E o fato que o inventrio que aqui apresento nos permite repensarsignificados e valores atribudos de maneira mecnica a noes acadmicasto correntemente usadas, tais como parnasianismo, simbolismo,vanguarda, e sobretudo modernismo. Trabalhando inmeros poemas,escritos por autores de nacionalidades distintas, poderemos perceber taisconceitos de maneira mais complexa e menos esquemtica. Por fim, parafraseando o filsofo Roberto Machado diria que: em nossasuniversidades, defende-se o rigor, mas ousa-se pouco. O que mais se precisana [academia] brasileira de coragem. Esse [artigo] [em contraposio] maistemtico do que monogrfico. (...) No um [artigo] de especialista. (...)Certamente [] incmodo saber que [falo] sobre [poetas] que um colega meuestuda h 40 anos. Mas foi uma opo que fiz. Minha ambio intelectual [porora] ser mais extensa do que profunda. Porque seno voc aprofunda muitoum detalhe e perde a dimenso geral, tornando-se incapaz de fazer inter-relaes conceituais.ii1. Revisando as produes parnasiana e simbolista na lngua portuguesa
  • 5. 5 Ao se estudar as vanguardas preciso, antes de mais, delimitar o quese compreende por tal termo. Uma maneira comum de defini-las por suaradicalidade; ento, para se compreender os movimentos literriosvanguardistas, de certa maneira faz-se mister conhecer as concepespoticas contra as quais estariam lutando. Sabe-se que no Brasil da segunda dcada do sculo XX o grupo deescritores que se dedicou a apresentar novas concepes para a Literaturaautodenominou-se modernista. comum se dizer que muitos dessesintelectuais haviam sido, em determinado momento de sua formao,seguidores dos princpios simbolistas, e que, nutrindo uma perspectiva mais emais radical (em termos de escrita, e de viso crtica sobre a sociedadebrasileira), teriam vindo a irromper-se contra os parnasianos. Talvez por isso ainda que, como veremos, em muitos pontos aspoesias escritas por um e outro grupo coincidam os movimentos literriossimbolismo e parnasianismo sejam correntemente vistos, por nsbrasileiros, como antitticos. De um lado estariam os responsveis por umaproduo sensvel, crtica, bomia e, em alguns casos, debochada (portanto,mais autntica, mais abrasileirada); de outro, o mau-gosto, a alienao, oelitismo caracterstico dos expoentes da Academia Brasileira de Letras. Pode-se dizer que nos poemas de Olavo Bilac (1865-1918)iii, expoentemximo do parnasianismo brasileiro, h lugares-comuns que se repetem demaneira exaustiva: os movimentos das folhas das rvores ou das asas dospssaros; o desabrochar das flores; a noite, o luar, o cosmo, a trilha seguidapelos astros; a aurora e o crepsculo; as estaes do ano tudo issointerferindo num sutil fluxo natural da vida. As paisagens bilacianas sempre soapresentadas com nfase em aspectos exticos, mas pouco brasileiros;tampouco Bilac aborda as cidades, no Brasil daquele perodo em francocrescimento. O passado referncia de felicidade, de bem estar, de um tempo emque o eu movia-se por sentimentos profundos e delicados. Esta atmosferaidlica descrita muitas vezes por meio de contrastes