Www.periodicos.ufgd.Edu.br Index

Embed Size (px)

Text of Www.periodicos.ufgd.Edu.br Index

  • DIREITO E JUSTIA: DA PR-HISTRIA CONTEMPORANEIDADE

    Ftima de Lourdes Ferreira Liuti*

    Alcemir da Silva Moraes**

    * Professora Doutora e Coordenadora do Curso de Direito daUniversidade Estadual de Mato Grosso do Sul Unidade de Navira.

    E-mail: fliuti@uems.br

    ** Pesquisador, extensionista e discente do 5 ano do Curso de Direito daUniversidade Estadual de Mato Grosso do Sul Unidade de Navira; estagi-

    rio da Defensoria Pblica Estadual na urbe de Navira;membro do Instituto Brasileiro de Direitos Humanos e

    Sociedade Brasileira de Estudos Clssicos.E-mail: alcemirmoraes@yahoo.com.br

    RESUMO: O conhecimento da evoluo histrica alarga a compreen-so do homem como ser que constri seu tempo; ajuda-nos a compreen-der o que podemos ser e fazer. Assim, pretendemos com este trabalhoapresentar uma viso panormica sobre a evoluo da concepo dejustia no pensamento jurdico. Trata-se de uma pesquisa bibliogrficaque tem por objetivo, descrever, de forma cronolgica e sucinta, as mu-danas de paradigmas da Pr-histria at a Idade Contempornea abor-dando os principais movimentos e autores.Palavras-chave: Histria; Direito; Justia.

    RESUMEN: Conocimiento del desarrollo histrico ampla la comprensindel hombre como ser que construye su tiempo, nos ayudan a entender loque puede ser y hacer. Por lo tanto, hacemos este trabajo con una visingeneral sobre la evolucin del concepto de justicia en el pensamientojurdico. Esta es una investigacin bibliogrfica que tiene por objetodescribir, en orden cronolgico y brevemente sobre los cambios de losparadigmas de la prehistoria a la Edad Contempornea, que abarcan losprincipales movimientos y autores.Palabras clave: Historia; Derecho; Justicia.

    INTRODUOVidere, Dourados, MS, ano 1, n. 2, p. 101-122, jul./dez. 2009.

  • Videre, Dourados, MS, ano 1, n. 2, jul./dez. 2009102

    Faculdade de Direito

    A idia de justia certamente o ponto de partidano apenas para a Histria do Direito, como tambmpara o despertar da reflexo tica, nos primeirostempos da vida histrica. Desde as sociedades maisprimitivas, sempre houve a preocupao de instaurarnormas e fixar princpios que asseguram no apenasa ordem, como tambm a sobrevivncia dos gruposhumanos. (PISSARRA E FABBRINI, 2007, p. VII).

    O conhecimento da evoluo histrica alarga-nos a compreensodo homem enquanto ser que constri seu tempo, ajudando-nos a compre-ender o que podemos ser e fazer. Mas o passado no se repete em ter-mos absolutos e, por isso, as solues de ontem no servem para os pro-blemas de hoje, sem um processo de recriao que considere as mudan-as nas condies polticas, econmicas e culturais.

    Em se tratando de histria, sempre h de se pesquisar e buscar algoainda no explorado, uma vez que o historiador, quando pesquisa, no um homem isolado de sua poca, no h como se desvencilhar de seuspreconceitos, de suas crenas, de suas ideias, de sua poca. Por isso,mesmo que tente ser imparcial e mais preciso possvel, ao fazer suasanlises e reflexes, no neutro. Fazendo concluir Cotrim (1999, p. 9)que a histria que ele escreve est ligada histria que ele vive.

    Assim, no h cultura jurdica ou cientfica, no mundo atual, quepossa limitar-se ao estudo de um determinado conceito ou objeto seminvestigar sua histria, origens e influncias. O estudo da histria da evo-luo do direito faz-se necessrio na medida em que queiramos nos situarno tempo e no espao para orientar o presente.

    1 PR-HISTRIA

    Na Pr-histria, para garantir sua sobrevivncia, o homem teve deaprender a cooperar e a se organizar socialmente. Da eficincia dessacooperao dependia sua sobrevivncia. Com o incio das aglomeraeshumanas, na Pr-histria, o homem iniciou, ainda que, embrionariamente,uma organizao social. Dessa organizao, Pissarra e Fabbrini (2007, p.VII) comentam que:

    Primeiro, os homens descobriram suas diferenasindividuais. Depois, notaram ser impossvel fundarsobre essas diferenas suas normas de conduta. Efoi assim que chegaram a descobrir a necessidade

  • Universidade Federal da Grande Dourados

    Videre, Dourados, MS, ano 1, n. 2, jul./dez. 2009 103

    de buscar um princpio que ficasse acima dessasdiferenas. Dessa forma, a noo de justia surgiuda necessidade de instaurar normas capazes noapenas de fixar os limites do uso da fora e do exer-ccio do poder, como tambm de restabelecer o equi-lbrio nas relaes entre pessoas.

    Estas regras, na lio de Jean-Jacques Rousseau (1999) em suaobra O contrato social, surgiram de um consenso estabelecido entre aspessoas, com vistas na cessao das arbitrariedades, da desigualdade eno uso desmedido da fora. Assim, a vontade geral, representada pelopacto social, garante a condio de igualdade entre os homens, porque capaz de manter entre eles o assentamento das diferenas. Vejamos:

    Suponhamos os homens chegando quele pontoem que os obstculos prejudiciais sua conserva-o no estado de natureza sobrepujam, pela resis-tncia, as foras de que cada indivduo dispe paramanter-se nesse estado. Ento, esse estado primiti-vo j no pode subsistir, e o gnero humano, se nomudasse de modo de vida, pereceria.Ora, como os homens no podem engendrar novasforas, mas somente unir e orientar as j existentes,no tm eles outro meio de conservar-se seno for-mando, por agregao, um conjunto de foras, quepossa sobrepujar a resistncia, impedindo-as paraum s mvel, levando-as a operar em concerto.Essa soma de foras s pode nascer do concurso demuitos: sendo, porm, a fora e a liberdade de cadaindivduo os instrumentos primordiais de sua con-servao [...]. (ROUSSEAU, 1999, p. 69).

    Como comenta Bittar (2002), O contrato social um divisor deguas entre o estado de natureza e o estado cvico no qual vivem os sereshumanos. algo artificial e convencionalmente se pactua formar, o qued surgimento a uma pessoa que no se confunde com os indivduos queo compe. o Estado, que nas expresses utilizadas por Rousseau personne publique (pessoa pblica) formada por um corps collectif(corpo coletivo).

    Ao longo da histria do homem, nos deparamos com a edio denormas para ordenar a convivncia social, com o fim de tornar a vida emsociedade ou em comunidade mais harmnica, mesmo que essas normas,na maioria das vezes, se resumissem na vontade do mais forte.

    O Direito, por ser um fenmeno social, encontra-se presente onde

  • Videre, Dourados, MS, ano 1, n. 2, jul./dez. 2009104

    Faculdade de Direito

    houver sociedade. O prprio surgimento do direito confunde-se com osurgimento da sociedade. Direito no se confunde com leis escritas, mes-mo que na maioria dos pases o direito escrito (positivado). Desse modo,embora desconhea as leis existentes na Pr-histria, no significa queno houvesse direito, ainda que exercido pela fora, logo, a concepo dejustia era traduzida em fora.

    2 IDADE ANTIGA

    A concepo de justia da Idade Antiga foi marcada pelo conhecidoCdigo de Hamurbi que, em sntese, pregava o olho por olho, dente pordente. Hamurbi, soberano do Antigo Imprio Babilnico, conhecidopelo cdigo que leva seu nome, um dos primeiros em todo o mundo. Men-ciona Divalte Garcia Figueira (2002, p. 28) que muito diferente dos cdi-gos atuais, os juzes mesopotmicos no eram obrigados a seguir seusartigos; sua principal funo era mostrar a justia e o poder do rei.

    Para mostrar o poder do rei, necessrio era o uso da fora. Porm,devido fora humana que, por vezes, utilizada para os mais fortes seimporem diante dos mais fracos, a justia acaba sendo inaplicada, aindamais, quando h interesse individual inserido no contexto, mas Plato (1999)considera que a fora a negao da justia. No entanto, sem o uso dafora, a humanidade jamais teria sido capaz de descobrir o que justia ecomo se deve agir para ser justo.

    Dessa forma, notou Plato que a ideia de justia para o aspectomaterial preciso encontrar fora e acima do interesse individual.

    Para isso, o filsofo idealista, se assim podemos dizer, desenvolveuvrias concepes de justia:

    A primeira destas formulaes racionais de como ajustia pode ser definida bastante modesta: serjusto falar a verdade. [...] Face ao carter poucoabrangente desta primeira definio, logo aparece asegunda: ser justo devolver o que alheio, naqual persiste a referncia ao carter tico da condu-ta individual, em sua relao com o outro mas tra-zendo o conceito de justia para o plano das coisasmateriais. na terceira definio que a relao social aparece,quando Plato substitui o vnculo entre os indiv-duos por um vnculo efetivamente social, ao dizerque ser justo dar a cada um o que lhe devido.

  • Universidade Federal da Grande Dourados

    Videre, Dourados, MS, ano 1, n. 2, jul./dez. 2009 105

    [...]Na quarta definio, Plato j estabelece uma claraaproximao entre o social e a idia de bem, ao dizerque justia consiste em fazer o bem aos amigos efazer o mal aos inimigos. [...] Neste ponto, j apare-ce a inteno de buscar um objeto universal (o beme o mal) para a vontade humana. o que comea a semanifestar na quinta definio: justo fazer bem aoamigo bom e fazer mal ao inimigo mau. (PISSARRAe FABBRINI, 2007, p. 24, grifos do autor).

    Entretanto, passvel de questionamento so as duas ltimas concep-es, pois no se pode ser justo e, ao mesmo tempo, causar dano a ou-trem. preciso definir o que bem ou mal, bom e mau no contexto gregoem que a cidadania era um privilgio de homens eleitos para o falar e ofazer, portanto, as mulheres, os escravos e os artesos eram excludosnaturalmente pelos deuses e aceito como verdade.

    Plato inicia a reflexo sobre justia e sua utilidade, deixando, apartir da, o plano ideal para partir para o real, que em sua concepo ointeresse dos indivduos, como fator de aglutinao social a formaodas cidades nasce das necessidades humanas.

    Nesse ponto, continua Pissarra e Fabbrini (2007, p. 28):

    Partindo da realidade, Plato inicia a construo deuma sociedade ideal. Como todas as cidades reais,esta cidade ideal ter sua fora extrada