Platão em 90 minutos

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  • 1. Titulo original:Plato in 90 minutes Traduo autorizada da primeira edio inglesa,publicada em 1996 por Constable,de Londres, Inglaterra Copyright 1996, Paul StrathernCopyright 1997 da edio em lngua portuguesa: Jorge Zahar Editor Ltda.rua Mxico 31 sobreloja20031-144 Rio de Janeiro, RJ tel: (21) 2240-0226 / fax: (21) 2262-5123 e-mail: jze@zahar.com.br site: www.zahar.com.br Todos os direitos reservados.A reproduo no-autorizada desta publicao, no todo ou em parte, constitui violao dos direitos autorais. (Lei 9.610/98) Projeto grfico: Ana Paula TavaresIlustrao: LulaCIP-Brasil. Catalogao-na-fonteSindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.Strathern, PaulS891pPlato (428-348 a.C.) em 90 minutos / Paul Strat-hern; traduo, Maria Helena Geordane; consultoria,Danilo Marcondes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1997. (Filsofos em 90 minutos)Traduo de: Plato in 90 minutes ISBN 85-7110-415-81. Plato, 428-348 a.C. 2. Filosofia grega. I. Ttulo.II. Srie.CDD - 18497-1107CDU-K38)

2. SUMARIO Introduo erazes de suas idias 7Vida e obra 13 Posfcio 43Citaes-chave 47 Cronologia de datas significativasda filosofia 57 3. INTRODUO E RAZESDE SUAS IDIAS Plato foi a runa da filosofia ou, pelo menos, assim nos querem fazer acreditar alguns pensadores mo- dernos. De acordo tanto com Nietzsche quanto com Heidegger, a filosofia jamais se recuperou das refle- xes de Scrates e Plato no sculo V a.C. A filosofia existia h menos de duzentos anos e, sob muitos aspectos, mal comeara. Mas, ao que parece, foi a que ela se perdeu. Scrates nada escreveu, e a maior parte do que sabemos sobre ele vem do personagem quase hist- rico que aparece nos dilogos de Plato. Muitas vezes difcil saber quando esse personagem est lanando as idias expressas pelo Scrates real ou simplesmen- te agindo como um porta-voz das idias de Plato. De qualquer modo, no entanto, essa figura diferia 7 4. PLATO EM 90 MINUTOS radicalmente dos filsofos que o haviam precedido (conhecidos com freqncia como pr-socrticos).De que maneira, ento, Scrates e Plato arruina- ram a filosofia antes que ela tivesse propriamente comeado? Aparentemente cometeram o erro_dejia- t-la como uma investigao racional. A introduo da anlise e do argumento irrefutvel destruiu tudo. Qual era, porm, essa preciosa tradio pr-socr- tica destruda pela introduo da razo? Entre os filsofos pr-socrticos estavam alguns brilhantes excntricos que formulavam todo tipo de questes profundas: "O que a realidade?", "O que a existncia?", "O que o ser?". Muitas dessas pergun- tas permanecem sem resposta dos filsofos at os dias atuais (inclusive os filsofos modernos que se recu- sam a entrar no jogo, declarando que tais perguntas simplesmente no deviam ser feitas). O mais interessante (e mais estranho) dos pr-so- crticos foi, de longe, Pitgoras, hoje mais conhecido por seu teorema que iguala a soma dos quadrados dos catetos de um tringulo reto ao quadrado de sua hipotenusa. Por sculos a fio esse teorema propor- cionou a muitos o primeiro entendimento genuno 8 5. INTRODUO RAZES DE SUAS IDIASda matemtica - o de que jamais entendero mate- mtica. Foi Pitgoras quem influenciou Plato de modo mais intenso, e a ele que devemos recorrer como fonte de muitas das idias platnicas. Pitgoras era mais do que um mero filsofo. Tambm conseguiu conciliar os papis de lder reli- gioso, matemtico, mstico e especialista em nutri- o. Essa grande faanha intelectual iria deixar mar- cas em suas idias filosficas. Pitgoras nasceu em Samos por volta de 580 a.C, mas fugiu da tirania local para fundar sua escola de religio-filosofia-nutrio e matemtica na colnia grega de Crotona, no sul da Itlia. Ali expediu uma longa lista de regras para seus alunos-discpulos-ms- ticos-gourmets. Entre outras proibies, era-Ihes ve- dado comer vagem ou corao, ser o primeiro a cortar o po ou permitir que andorinhas fizessem ninhos em seus tetos - e em nenhuma circunstncia poderia qualquer um deles comer seu prprio ca- chorro. Segundo Aristteles, Pitgoras ainda encon- trou tempo para realizar alguns milagres - embora Aristteles, de maneira pouco caracterstica, no fornea detalhes especficos. Na opinio de Bertrand9 6. PLATO EM 90 MINUTOSRussell, Pitgoras era uma combinao de Einstein e da sra. Eddy (a fundadora da Cincia Crist). Infelizmente, a impressionante gama de creden- ciais de Pitgoras no conseguiu impressionar os cidados de Crotona, que finalmente se cansaram da situao e o obrigaram a fugir mais uma vez. Esta- beleceu-se um pouco mais abaixo, em Metaponto, onde morreu em torno de 500 a.C. Seus ensinamen- tos floresceriam por outros cem anos aproximada- mente, difundidos por todo o sul da Itlia e pela Grcia por seus discpulos mstico-matemticos. Foi assim que Plato veio a ouvir falar dele. Assim como Scrates, Pitgoras tomou a precau- o de nada registrar por escrito. Seus preceitos somente chegaram a ns atravs das obras de seus discpulos, que agora sabemos terem sido os respon- sveis por grande parte da mistura de pensamento, prtica, matemtica, filosofia e loucura, que hoje rotulamos de pitagorismo. Na realidade, quase no se tem dvida de que o famoso teorema a respeito do quadrado da hipotenusa no foi descoberto pelo prprio Pitgoras. (O que no deixa de ser estimu- lante para os no-matemticos, uma vez que isso10 7. INTRODUO E RAZES DE SUAS IDIASsignifica que Pitgoras tampouco entendia o teore- ma de Pitgoras.) Plato estava destinado a ser profundamente in- fluenciado pelo famoso dito "Tudo nmero", cha- ve do pensamento puramente filosfico de Pitgo- ras, que era to profundo quanto poderoso. Pitgoras acreditava que, para alm do mundo confuso das aparncias, existia um mundo abstrato e harmonioso dos nmeros. Essa concepo de nmero, de fato, estava mais prxima daquilo que chamaramos de "forma". Os objetos materiais no eram compostos de matria, mas consistiam, em ltima instncia, nas formas das quais derivavam. O mundo ideal dos nmeros (ou formas) era repleto de harmonia e mais real do que o assim chamado mundo real. Foi Pit- goras, ou os pitagricos, que descobriu a conexo entre o nmero e a harmonia musical. luz dessa descoberta, a teoria das formas (ou dos nmeros) no parece to forada. Assim como no parece to forada luz da moderna fsica subatmica, que prontamente recorre ao nmero e descrio da forma, em vez de buscar definies de substncia.11 8. PLATO EM 90 MINUTOSEsse pensamento insubstancial era uma caracte- rstica freqente do pensamento pr-socrtico. He- rclito, discpulo de Pitgoras, por exemplo, acredi- tava que tudo era fluxo, e declarava: "No se pode entrar duas vezes no mesmo rio." E, no entanto, curiosamente, isso se distancia do puramente for- mal, antecipando o pensamento de outro pr-socr- tico, Demcrito. Foi este quem insistiu que o uni- verso composto de tomos, concluso a que chegou bem mais de dois mil anos antes que os cientistas modernos decidissem que talvez estivesse certo. Os filsofos tambm levaram mais ou menos o mesmo tempo para concluir o mesmo que o jnico pr-so- crtico Xenfanes, que declarou candidamente: "Nenhum homem conhece, ou conhecer algum dia, a verdade acerca dos deuses e de tudo; porque mesmo que algum, por acaso, dissesse toda a verda- de, no obstante, no a reconheceramos." Essa afir- mao perigosamente semelhante aos pontos de vista expressos no sculo XX por Wittgenstein. Foi essa a rica e variada tradio filosfica da qual surgiu Plato.12 9. -VIDA E OBRA Plato era um famoso atleta, e o nome pelo qual o conhecemos hoje era o que usava na arena. Plato significa "largo" ou "plano": supe-se, nesse caso, a primeira acepo, em aluso a seus ombros, embora algumas fontes insistam que seu apelido referia-se sua testa (mais uma vez, supe-se a primeira acep- o). Ao nascer, em 428 a.C, recebeu o nome de Arstocles. Nasceu em Atenas, ou na ilha de Egina, distante apenas doze milhas do litoral de Atenas, no golfo Sarnico, em uma das grandes famlias polti- cas de Atenas. Seu pai, Aristo, era descendente de Codro, o ltimo rei de Atenas, e sua me tinha como ascendente o grande legislador ateniense Slon. Como qualquer membro brilhante de uma fam- lia poltica, as primeiras ambies de Plato residiam em outras reas. Foi premiado duas vezes como 13 10. PLATO EM 90 MINUTOSlutador nos Jogos stmicos, mas parece no ter con- seguido chegar s Olimpadas em Olmpia. Decidiu ento tentar tornar-se um grande poeta trgico, mas no impressionou os juizes em nenhuma das princi- pais competies. Derrotado na tentativa de ganhar um ouro olmpico ou de tornar-se uma estrela lite- rria, estava quase resignado a se transformar em mero estadista. Numa ltima cartada, decidiu expe- rimentar a filosofia e partiu para ouvir Scrates.Foi amor primeira vista. Pelos nove anos seguin- tes Plato sentou-se aos ps de seu mestre, absorven- do tudo o que podia de suas idias. Os combativos mtodos de ensino de Scrates levaram-no a se dar conta de seu plen tempo em que abriam seus olhos s possibilidades ocultas do assunto. Ainda assim, a despeito de haver encontrado sua verdadeira especialidade, Plato ain da se sentia tentado a se tornar um apstata e a entrar para a poltica. Felizmente, foi dissuadido dessa aber- rao pelo comportamento dos polticos atenienses. Quando os Trinta Tiranos tomaram o poder, aps a Guerra do Peloponeso, dois dos lderes (Crtias e Crmides) eram seus parentes prximos. O reino de14 11. VIDA E OBRAterror que se seguiu podia ter inspirado um jovem Stalin ou um Maquiavel, mas no impressionou Plato. Os democratas tomaram ento o poder, e dois anos depois seu querido mestre foi julgado por acusaes forjadas e condenado morte. Aos olhos de Plato, a democracia estava tingida com as mes- mas cores da tirania. A ntima associao de Plato com Scrates o colocava em posio perigosa e, para sua prpria segurana, ele foi forado a sair de Atenas. Assim comeou seus Wanderjahre, que durariam pelos pr- ximos doze anos. Depois de aprender tudo o que pde aos ps de seu mestre, aprenderia agora com o mundo. Mas o mundo no era to vasto naqueles dias e, dur