27
28 Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017 A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E NACIONAL ANTES E APÓS À REFORMA TRABALHISTA Beatriz Mariotti Azevedo 1 Daniel Scapellato Pereira Rodrigues 2 ThaniggiaPetzold Fonseca 3 RESUMO: A presente pesquisa tem como objetivo analisar a liberdade sindical, tendo como base o plano nacional e internacional. Para tanto, o estudo inicialmente apresentará o contexto histórico na perspectiva nacional, apresentando as principais normas e princípios que regulam esse instituto trabalhista. Após, será desenvolvida a liberdade sindical no plano internacional, mostrando o seu surgimento e evolução no mundo. Bem como, fará uma análise da Convenção nº 87da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e sua não ratificação pelo Brasil, e a Convenção nº 98, igualmente, analisando a sua ratificação pelo Brasil. Por fim, será exposto o projeto de Lei nº 6.787-B de 2016, que altera a Consolidação das Leis do Trabalho, no que tange a liberdade sindical. PALAVRAS-CHAVE: Liberdade Sindical. Plano Nacional e Internacional. Reforma Trabalhista. Constitucionalidade. ABSTRACT: This research aims to analyze the union freedom, based 1 Acadêmica do curso de Direito do IESI/FENORD. 2 Mestre em Ciências das Religiões, especialista em Direito do Trabalho, professor de Direito do Trabalho do IESI/FENORD. 3 Mestra em Ciências das Religiões, especialista em Direito do Consumidor, professora de Tópicos de Direito Penal e Processo Penal e de Direito Empresarial do IESI/FENORD.

A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

  • Upload
    others

  • View
    1

  • Download
    0

Embed Size (px)

Citation preview

Page 1: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

28 Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017

A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA

INTERNACIONAL E NACIONAL ANTES E APÓS À

REFORMA TRABALHISTA

Beatriz Mariotti Azevedo1

Daniel Scapellato Pereira Rodrigues2

ThaniggiaPetzold Fonseca3

RESUMO: A presente pesquisa tem como objetivo analisar a liberdade

sindical, tendo como base o plano nacional e internacional. Para tanto,

o estudo inicialmente apresentará o contexto histórico na perspectiva

nacional, apresentando as principais normas e princípios que regulam

esse instituto trabalhista. Após, será desenvolvida a liberdade sindical

no plano internacional, mostrando o seu surgimento e evolução no

mundo. Bem como, fará uma análise da Convenção nº 87da

Organização Internacional do Trabalho (OIT) e sua não ratificação pelo

Brasil, e a Convenção nº 98, igualmente, analisando a sua ratificação

pelo Brasil. Por fim, será exposto o projeto de Lei nº 6.787-B de 2016,

que altera a Consolidação das Leis do Trabalho, no que tange a

liberdade sindical.

PALAVRAS-CHAVE: Liberdade Sindical. Plano Nacional e

Internacional. Reforma Trabalhista. Constitucionalidade.

ABSTRACT: This research aims to analyze the union freedom, based

1 Acadêmica do curso de Direito do IESI/FENORD. 2 Mestre em Ciências das Religiões, especialista em Direito do Trabalho, professor

de Direito do Trabalho do IESI/FENORD. 3 Mestra em Ciências das Religiões, especialista em Direito do Consumidor,

professora de Tópicos de Direito Penal e Processo Penal e de Direito Empresarial

do IESI/FENORD.

Page 2: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

29

Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017 29

on the national and internation context. Therefore, first of all, this study

will present the historical context in the national perspective, presenting

the rules and principles that are mains and regulate this labor institute.

Then, will be developed the union freedom on the internation context,

showing your emergence and evolution in the world. As well as, will be

analyzed the Convention nº 87, of the International Labour

Organization (ILO) and your non-ratification by Brazil, and the

Convention nº 98, also your non-ratification by Brazil. Finally, it will

be exposed the Law Project nº 6.787-B of 2016, wich changes the

Consolidation of Labor Law, in relation to union freedom.

KEYWORDS: Union Freedom. National and Internation Context.

Labor Reform. Constitutionality.

1 INTRODUÇÃO

A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores

em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito de

associação prevista na Constituição Federal.

Assim, a Carta Magna de 1988 dispõe sobre a liberdade

profissional ou sindical no artigo 8º, no capítulo II – Dos Direitos

Sociais, estabelecendo a liberdade de constituição, administração e

atuação dos sindicatos.

Por outro lado, dispõe da liberdade sindical de forma

relativa, haja vista que impõe restrições por conta da permissão à

unicidade sindical e vedação da pluralidade de sindicatos, que nos

quais, consistem na proibição de criar mais de um sindicato de categoria

Page 3: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

30 Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017

profissional ou econômica, em qualquer grau, em uma mesma base

territorial.

Entretanto, essa previsão da legislação brasileira vai de

encontro com a liberdade sindical no plano internacional, uma vez que

a Convenção nº 87 da Organização Internacional do Trabalho,

estabelece a plena liberdade sindical, que embora não imponha o

pluralismo sindical, determina que o sistema legal dos países que a

ratificaram faculte aos empregadores e trabalhadores, se desejarem, a

constituição de outro (s) sindicato (s) da mesma categoria, profissão ou

ofício, na mesma base territorial já existente.

Dessa forma, percebe-se claramente que há conflitos de

interesses, em que de um lado, tem a liberdade relativa devido à

unicidade sindical e a exigência compulsória da contribuição sindical e

de outro tem a Convenção Internacional dispondo de forma implícita a

pluralidade sindical, considerando a liberdade de associação como

fundamental para o desenvolvimento sindical democrático.

Entretanto, o Brasil não pôde ratificar tal preceito, uma vez

que a Constituição Federal de 1988 em seu artigo 8º, II, veda a criação

de mais de uma organização sindical, na mesma base territorial, não

podendo ser inferior à área de um Município.

Diante de tal dilema, o Brasil é criticado por não ter

ratificado a Convenção nº 87 da OIT, que prevê a plena liberdade

sindical, de forma a consagrar o modelo de pluralidade sindical, ao

Page 4: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

31

Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017 31

permitir que os trabalhadores e empregadores possam criar mais de um

sindicato por categoria em uma mesma base territorial, da forma que

acharem mais conveniente.

Por outro lado, com o projeto de Lei nº 6.787- B de 2016

que altera a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), no que diz

respeito à eleição de representante para a classe ou categoria de

trabalhadores nas empresas acima de 200 empregados, não

suprimindo, contudo, a função do sindicato daquela determinada

classe, conforme preleciona o artigo 510- A ao E da CLT. Bem como,

estabelece que a negociação coletiva estabelecer disposições que

prevaleçam sobre a lei, nos termos do 611-A da CLT.

Mediante o exposto, a presente pesquisa traz o seguinte

questionamento, “É lícito permitir a prevalência da negociação coletiva

em face da legislação trabalhista, sem instituir de forma plena, a

liberdade sindical?”

Para tanto, objetiva-se com esse estudo, analisar a

perspectiva da liberdade sindical, sob o plano nacional e internacional,

bem como as alterações ocorridas com a recente reforma trabalhista

brasileira.

Metodologia: Os documentos utilizados para a pesquisa

foram livros de grandes autores, cujas obras possibilitam uma maior

compreensão acerca da liberdade sindical. Também foram analisadas

as Convenções nº 87 e 98 da Organização Internacional do Trabalho

Page 5: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

32 Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017

(OIT), além da análise do projeto de Lei nº 6.787-B de 2016 que altera

a Consolidação das Leis do Trabalho, bem como aos comentários de

pesquisadores e doutrinadores especificamente no que concernem as

alterações sobre a liberdade sindical.

2 LIBERDADE SINDICAL NO PLANO NACIONAL

Na época do império, segundo Luiz Carlos Vieira (2013, p.

16), o Brasil era, predominantemente, agrícola e o ambiente em que se

concentravam os trabalhadores eram rurais, havendo poucas pessoas

habitando a área urbana, portanto, não havia meios suficientes para

organizar movimentos sindicais para proteger os direitos da classe

operária.

Entretanto, ainda segundo Vieira (2013, p. 16), no início do

século XIX, os primeiros movimentos sindicais brasileiros cruzaram

com as corporações de ofício, que impulsionaram as organizações dos

companheiros para enfrentarem os mestres, detentores de poder e

monopólio do capital.

Assim, as primeiras formas de coordenações foram

iniciadas por operários urbanos mais instruídos: Liga Operária, em

1870; Liga Operária dos Socorros Mútuos, em 1872; e União Operária,

em 1880, que nos quais, eram semelhantes aos sindicatos com objetivo

de reivindicar direitos dos trabalhadores, influenciados pelos

estrangeiros que migraram para o nosso país (PEGO, 2012, p. 32)

Page 6: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

33

Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017 33

Contudo, segundo Vieira (2013, p. 17), essas associações

eram criticadas pelo fato de que qualquer pessoa, ainda que estranha à

atividade desenvolvida pelos trabalhadores, poderia realizar inscrição

ao quadro da organização, prejudicando, assim, o objetivo da

organização de ser corporativa e solidária da profissão ou atividade do

operário.

Entretanto, por ser uma forma de organização, era o início

para a formação de uma organização sindical futuramente madura, uma

vez que, os trabalhadores estavam mais voltados a defender seus

direitos trabalhistas, no tocante a melhorias salariais, jornada menor,

realização de greves, mesmo sendo proibidas com a Constituição de

1924.

Mas, no início de 1903, o sindicalismo começou a receber

tratamento formal, sendo considerados como a primeira fase do

sindicalismo no Brasil, com os Decretos 979 e 1.637 de 1903, conforme

será exposto a seguir.

2.1 NORMAS CONSTITUCIONAIS

Os citados decretos foram os primeiros que permitiram que

se iniciasse a primeira fase que regulamentou os direitos sindicais,

entretanto, permitiam que o Estado interviesse nos sindicatos, bem

como preponderava os interesses dos patrões.

Segundo Luiz Carlos Vieira (2013):

Page 7: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

34 Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017

O Decreto nº 979, de 1903, elaborado por conta de o

Brasil ser um país essencialmente agrícola, teve como

objetivo permitir aos trabalhadores rurais organizarem-

se em forma de sindicatos, com a finalidade de obtenção

de créditos agrícolas (VIEIRA, 2013, p. 19).

Porém, a terminologia de sindicato, no ano de 1903, tornou-

se comum, alcançando plano nacional.

Por outro lado, no ano de 1906, foi inaugurado o primeiro

congresso operário brasileiro, no Rio de Janeiro, que teve como tema o

surgimento dos sindicatos e alavancou o movimento sindical.

Sendo assim, por conta do referido congresso, segundo

Pego (2012, p. 33), foi fundada a Federação das Associações de Classe

que, mais tarde, se transformou em Federação Operária Regional

Brasileira.

No ano de 1919, o Brasil assinou o Tratado de Versalhes e

filiou-se à Organização Internacional do Trabalho (OIT), ocasionando,

por consequente maior proteção aos direitos dos trabalhadores, uma vez

que obrigava os Países a seguirem as recomendações dos referidos

documentos.

Vale ressaltar também, que em 1930, segundo Vieira (2013,

p. 20) época em que Getúlio Vargas conquistou o poder político, e, na

área trabalhista, houve a elaboração de diversas leis, principalmente,

regulando as atividades dos sindicatos, em razão das reformas sociais e

da atuação do Estado, ainda, muito intervencionista.

Page 8: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

35

Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017 35

Em 1932, foi promulgado o Decreto nº 21.761, que deu

legitimidade aos sindicatos, assim como às demais associações de

patrões ou empregados, para negociar. Nesse sentido, Vieira (20113, p.

27) afirma que os níveis de negociação também foram ampliados, sendo

possível o estabelecimento do procedimento de negociação coletiva nos

estatutos deliberados em assembleia pelos interessados.

Por sua vez, a Constituição de 1934, adotou o princípio

jurídico da completa autonomia dos sindicatos, assegurando, pela única

vez no plano nacional, a pluralidade sindical e promoveu o

reconhecimento da negociação coletiva, nos seus artigos 120, 121 e

122.

Posteriormente, a liberdade sindical foi inserida nas

Constituições de 1937, 1946, 1967 e na Emenda Constitucional nº 01

de 1969, mas com limitação que impedia o pleno exercício sindical.

A Consolidação das Leis do Trabalho, aprovada pelo

Decreto-lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, foi pouco inovadora no

âmbito das relações coletivas, apenas fazendo pequenas alterações nos

Decretos expedidos após a Constituição de 1937.

Contudo, segundo Sayonara Grillo (2008, p. 183) a CLT/43

manteve, a concepção corporativista de sindicato, declarou a liberdade

de associação sindical ou profissional, mas não constitucionalizou

princípios fulcrais como a autonomia e a liberdade sindical.

Page 9: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

36 Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017

Por fim, com a Constituição Federal de 1988, proporcionou

um avanço para a abertura sindical no Brasil, tendo em vista que

efetivou a democracia e a reorganização jurídica brasileira, pois aboliu

a interferência do Estado na administração sindical, ao estabelecer, no

seu artigo 8º, que a organização sindical é livre.

Todavia, Nascimento (2008, p. 136), defende que o sistema

de organização sindical é contraditório, haja vista que tenta combinar a

liberdade sindical com a unidade sindical imposta por lei e a

contribuição sindical oficial.

Sendo assim, a partir desse momento os sindicatos são

livres e não estão mais subordinados ao Estado.

Logo, a intervenção estatal na administração dos sindicatos

desaparece com a Constituição Federal de 1988 e o Estado não poderá

intervir na organização sindical, determinando a forma de criação e

estrutura.

3 LIBERDADE SINDICAL NO PLANO INTERNACIONAL

Acerca do momento histórico do surgimento do

sindicalismo, significativa parte da doutrina divide o desenvolvimento

do sindicalismo em três períodos, quais sejam, fase da proibição, fase

da tolerância e fase do reconhecimento.

Amauri Mascaro Nascimento (2008, p. 70) considera que a

Revolução Francesa e o Liberalismo foram as primeiras manifestações

Page 10: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

37

Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017 37

no sentido de proibir a coligação de pessoas. Isso porque, o liberalismo

da Revolução Francesa postulava que a liberdade individual era tolhida

quando um homem se submetia ao predomínio da vontade grupal,

conforme ocorria nas associações. Logo, esse movimento sustentava

que a liberdade individual se contrapunha ao Estado, sendo

incompatível com a existência desse corpo intermediário, qual seja, a

associação.

Para o aludido autor:

A política de proibição de associações foi a medida que

ocasionou o surgimento do sindicalismo, uma vez que a

extinção de corporações de ofício possibilitou que os

representantes dos trabalhadores buscassem outras

formas de satisfação de seus interesses

(NASCIMENTO, 2008, p. 71).

Em contrapartida, o início da chamada fase de tolerância ou

de afirmação, mostra que o passar do tempo apenas consolidou a

organização e a luta dos trabalhadores, quedando ineficazes as políticas

restritivas de sindicalização. Assim, a postura do Estado foi se alterando

e a associação, embora ainda não fosse reconhecida como direito,

deixou de ser considerada um delito.

Esta fase pode ser marcada cronologicamente com a

supressão do delito de coalizão pela Inglaterra em 1824. Antonio Ojeda

Page 11: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

38 Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017

Avilés preleciona que o pioneirismo inglês foi seguido pela França

(1864), Alemanha (1869), Holanda (1872) e Itália (1890).

Nesse sentido, Mascaro (2008) nos ensina que neste

período as organizações sindicais, apesar de não terem reconhecimento

legal, já eram entes de fato. Ressalta, ainda, que apenas em um segundo

momento, o Estado aprovou leis que autorizassem o direito de

associação sindical.

Por fim, a fase de reconhecimento surgiu, uma vez que a

mera condescendência do Estado com as associações não foi suficiente

para acompanhar a evolução do sindicalismo, que cada vez mais

ocupava um papel importante nas relações sociais, caracterizada pelo

reconhecimento estatal da figura dos sindicatos.

Assim, de acordo com Guedes (2014, p. 22) este

reconhecimento se deu em duas dimensões de acordo com a postura do

Estado. Em alguns países, o reconhecimento ocorreu sob o controle

estatal e nos demais, o sindicalismo foi reconhecido com liberdade.

Mascaro (2008) pontua que:

Em 1824, na Inglaterra, foi aprovado um projeto dando

existência legal aos sindicatos. Destarte, em 1834, foi

fundada a União dos Grandes Sindicatos Nacionais

Consolidados, que reuniu mais de meio milhão de

obreiros e dirigiu o movimento cartista, assim

denominado uma vez que as reivindicações por mais

direitos eram feitas através de cartas, elaboradas pelas

associações sindicais (NASCIMENTO, 2008, p. 72).

Page 12: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

39

Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017 39

Já em 1871, ocorreu a publicação do Trade Unions Acts,

considerado o mais antigo do mundo e, portanto, também precursor do

movimento sindical. Nele, houve a congregação dos dois tipos

principais de sindicato, isto é, os sindicatos por profissão (craft unions)

e os sindicatos por indústria (industrial unions).

Na Alemanha, os sindicatos também começaram a surgir

com a revogação das leis que proibiam as associações. Entretanto, o

direito de associação só foi reconhecido constitucionalmente em 1919,

com a Constituição de Weimar.

Por outro lado, no sindicalismo italiano, a Carta del Lavoro

inspirou vários países, entre eles o Brasil. Essa carta foi aprovada pelo

Gran Consiglio fascista, em 1939, e, em que pese não se tratar de lei no

sentido formal, traçou as diretrizes para coordenar as leis sobre

providência e assistência dos trabalhadores, regulando assim as

relações trabalhistas.

Logo, grande parte dos direitos conferidos pela

Consolidação de Leis Trabalhistas (CLT) foi copiada daquela Carta,

que no qual, possui caráter corporativista regulador, ou seja, o Estado,

ao mesmo tempo que conferia direitos aos trabalhadores, trazia os

sindicatos para perto de si com o fito de controlar sua atividade e

impedir seu desenvolvimento.

Page 13: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

40 Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017

3.1 CONVENÇÃO Nº 87 DA ORGANIZAÇÃO INTERNACIO-

CIONAL DO TRABALHO

A Organização Internacional do Trabalho define a

liberdade de associação como fundamental para o desenvolvimento

sindical democrático, estabelecendo princípios específicos que

norteiam a organização sindical.

Dessa forma, segundo Vieira (2013, p. 62) a Convenção nº

87 da OIT traz os princípios relacionados à organização sindical, tendo

em vista que estão inseridas em seu texto garantias universais de

organização e funcionamento dos sindicatos.

Além disso, prevê a autonomia sindical no momento em

que garante aos trabalhadores e empregadores o direito de constituir

organizações, sem a necessidade de prévia autorização do poder

público. Bem como declara a liberdade de administração dos sindicatos,

ao estabelecer que estas entidades serão administradas por seus próprios

estatutos, elaborados por seus associados. (CONCEIÇÃO, 2013, p.

137).

Ademais, ainda segundo Paloma de Miranda Moutinho da

Conceição (2013):

A Convenção nº 87 consagra o modelo de pluralidade

sindical, ao permitir que os trabalhadores e

empregadores podem criar mais de um sindicato por

categoria em uma mesma base territorial, da forma que

acharem mais conveniente. Ainda garante a liberdade

Page 14: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

41

Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017 41

individual de filiação ou não filiação. (CONCEIÇÃO,

2013, p. 137)

Nesse sentido, cumpre ressaltar que a Convenção nº 87 da

OIT é direcionada aos governos pelo fato de determinar que o Estado

não interfira nas organizações sindicais.

Diante de todo exposto, a referida Convenção, por outro

lado, não foi ratificada pelo Brasil, até mesmo em função da

Constituição Federal, em seu artigo 8 º, estabelecer a existência do

sindicato único e contribuição sindical determinada por lei, sendo,

portanto, posições incompatíveis com a referida regra internacional.

Dessa forma, Jéssica Maria Sabino Guedes (2014),

questiona:

Parece ao leitor, ao menos, um contrassenso, criado pelo

legislador originário, inserir a liberdade sindical no

Capítulo II “Dos Direitos Sociais”, dentro do Título II

“Dos Direitos e Garantias Fundamentais”, e condicioná-

lo a unicidade sindical. Afinal, como se admitir que em

um Estado Democrático de Direito as pessoas possam

eleger seus representantes no Governo, mas não possam

escolher o sindicato que mais o represente? (GUEDES,

2014, p. 36).

Sendo assim, a OIT defende um modelo de organização

sindical plural, assim como a sociedade também o é. Entretanto, o

pluralismo, conforme elucidado anteriormente, nunca foi buscado ou

Page 15: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

42 Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017

visto com bons olhos pelos autores sociais que poderiam defender sua

implementação no Brasil.

Conforme, Pinto (2007) o presidente Eurico Gaspar Dutra

em 1945, remeteu ao Congresso Nacional, o pedido de autorização para

a ratificação da Convenção nº 87.

Contudo, ao ultrapassar a análise do plano normativo, a

realidade nos demonstra a mitigação da unicidade sindical, na medida

que cada vez mais há a criação de novas entidades, a partir de

desmembramentos, especificações e fragmentações dentro de uma

mesma categoria. Isso, segundo Guedes (2014, p. 38), demonstra que o

sistema de unicidade sindical proposto pela CLT já se encontra em fraco

descompasso com as inúmeras associações sindicais pulverizadas

existentes no plano fático.

Nesse diapasão, Jéssica Maria Sabino Guedes (2014, p. 38)

preleciona que tanto a 8ª Turma do Tribunal Superior do Trabalho,

quanto o Supremo Tribunal Federal reconhecem legalidade em

desdobramento de sindicatos, não ferindo a unicidade sindical a criação

de um sindicato com área menor, ou seja, o desmembramento do

sindicato específico em relação à associação sindical mais abrangente à

que outrora se encontrava filiado. Abrindo, portanto, novas portas para

o exercício da liberdade sindical dentro de um sindicato mais

representativo.

Page 16: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

43

Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017 43

Diante de todo o exposto, percebe-se claramente que o

Brasil caminha em direção a um modelo sindical plural, apesar dos

resquícios existentes contra esse sistema, haja vista a mitigação

paulatina, mas constante, do princípio da unicidade sindical.

3.2 CONVENÇÃO Nº 98 DA ORGANIZAÇÃO INTERNACIO-

NAL DO TRABALHO

A Convenção nº 98 da OIT estabelece sobre o direito de

sindicalização e negociação coletiva, sendo que é uma norma jurídica

vigente com status de Lei ordinária, uma vez que foi ratificada pelo

Brasil.

Cumpre ressaltar que essa Convenção assegura aos

trabalhadores dos Estados Signatários a proteção contra atos de

discriminação com relação ao seu emprego, que pode ser observado nos

seus artigos 1º e 2º:

Art. 1 — 1. Os trabalhadores deverão gozar de proteção

adequada contra quaisquer atos atentatórios à liberdade

sindical em matéria de emprego.

2. Tal proteção deverá, particularmente, aplicar-se a atos

destinados a:

a) subordinar o emprego de um trabalhador à condição

de não se filiar a um sindicato ou deixar de fazer parte

de um sindicato;

b) dispensar um trabalhador ou prejudicá-lo, por

qualquer modo, em virtude de sua filiação a um sindicato

ou de sua participação em atividades sindicais, fora das

horas de trabalho ou com o consentimento do

Page 17: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

44 Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017

empregador, durante as mesmas horas. (BRASIL,

CONVENÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO

Nº 98, 1948).

Dessa forma, percebe-se que há no Brasil, norma jurídica

que prevê a prática de atos antissindicalista.

Entretanto, conforme Cláudio Santos da Silva (2007, p.03)

apesar de a liberdade sindical haver sido consagrada por todas as

organizações internacionais as quais o Brasil integra (Declaração

Universal dos Direitos Humanos, de 1948, art. XIII, parágrafo 4;

Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem da

Organização dos Estados Americanos, de 1948, art. XXII; os Pactos

Internacionais sobre Direitos Civis e Políticos e dos Direitos

Econômicos, Sociais e Culturais, de 1966; a Convenção Americana

sobre Direitos Humanos, art. 16), a realidade das relações sindicais

brasileiras apontam para uma sistemática violação desse princípio e

direito fundamental, o que leva ao constrangimento de ser “condenado”

na OIT.

Diante do exposto, percebe-se que mesmo tendo o Brasil

ratificado a Convenção 98, esses princípios e normas que alicerçam o

Direito do Trabalho continuam a ser desrespeitados em nosso país,

como pode ser observado quando há demissão de um trabalhador ou o

empregado prejudicá-lo de outra maneira por sua filiação a um

sindicato.

Page 18: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

45

Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017 45

Entretanto, conforme será analisado a seguir, a liberdade

sindical nos termos da Constituição Federal de 1988, e na Consolidação

das Leis do Trabalho foram alterados com o projeto de Lei nº 6.787-B

de 2016, conhecido como reforma trabalhista.

4 LIBERDADE SINDICAL SOB A ÓTICA DA REFORMA

TRABALHISTA

A Lei Complementar nº 6.787-B de 2016, acrescentou ao

texto da Consolidação das Leis do Trabalho os artigos 510- A ao 510-

E, os quais estabelecem essencialmente a eleição de representante dos

trabalhadores:

Art. 510-A. Nas empresas com mais de duzentos

empregados, é assegurada a eleição de uma comissão

para representá-los, com a finalidade de promover-lhes

o entendimento direto com os empregadores.

§ 1o A comissão será composta:

I - nas empresas com mais de duzentos e até três mil

empregados, por três membros;

II - nas empresas com mais de três mil e até cinco mil

empregados, por cinco membros;

III - nas empresas com mais de cinco mil empregados,

por sete membros. (BRASIL, CONSOLIDAÇÃO DAS

LEIS DO TRABALHO, 1943).

Deve-se ressaltar, por oportuno que muito embora criem

um representante para a classe ou categoria de trabalhadores nas

Page 19: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

46 Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017

empresas acima de 200 empregados, esses representantes não suprirão

a função do sindicato daquela determinada classe, nos termos do art.

510-E:

Art. 510-E. A comissão de representantes dos

empregados não substituirá a função do sindicato de

defender os direitos e os interesses coletivos ou

individuais da categoria, inclusive em questões judiciais

ou administrativas, hipótese em que será obrigatória a

participação dos sindicatos em negociações coletivas de

trabalho(BRASIL, CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS DO

TRABALHO, 1943).

Sendo assim, percebe-se que agora tem um representante

dos trabalhadores apto para conversar diretamente com o empregador,

sem que substitua, contudo, a função do sindicato.

Por outro lado, deve-se considerar que uma das principais

propostas que integram a reforma trabalhista é no sentido de a

negociação coletiva estabelecer disposições que prevaleçam sobre a

lei, conforme preceitua o artigo 611-A acrescentado com o projeto de

Lei 6.787-B de 2016.

Art. 611-A. A convenção coletiva e o acordo coletivo

de trabalho, observados os incisos III e VI do caput do

art. 8º da Constituição, têm prevalência sobre a lei

quando, entre outros, dispuserem sobre:

I - pacto quanto à jornada de trabalho, observados os

limites constitucionais;

II - banco de horas anual;

Page 20: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

47

Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017 47

III - intervalo intrajornada, respeitado o limite mínimo

de trinta minutos para jornadas superiores a seis horas;

IV - adesão ao Programa Seguro-Emprego (PSE), de que

trata a Lei no 13.189, de 19 de novembro de 2015;

V - plano de cargos, salários e funções compatíveis com

a condição pessoal do empregado, bem como

identificação dos cargos que se enquadram como

funções de confiança;

VI - regulamento empresarial;

VII - representante dos trabalhadores no local de

trabalho;

VIII - teletrabalho, regime de sobreaviso, e trabalho

intermitente;

IX - remuneração por produtividade, incluídas as

gorjetas percebidas pelo empregado, e remuneração por

desempenho individual;

X - modalidade de registro de jornada de trabalho;

XI - troca do dia de feriado;

XII - enquadramento do grau de insalubridade e

prorrogação de jornada em locais insalubres, incluída a

possibilidade de contratação de perícia, afastada a

licença prévia das autoridades competentes do

Ministério do Trabalho, desde que respeitadas, na

integralidade, as normas de saúde, higiene e segurança

do trabalho previstas em lei ou em normas

regulamentadoras do Ministério do Trabalho;

XIV - prêmios de incentivo em bens ou serviços,

eventualmente concedidos em programas de incentivo;

XV - participação nos lucros ou resultados da

empresa.

Garcia (2017, p. 02) defende que é evidente que as normas

coletivas negociadas, quando preveem direitos de forma mais

favorável aos trabalhadores, são plenamente aplicáveis, em

consonância com a determinação constitucional de melhoria de suas

condições sociais (art. 7º, caput, da Constituição da República).

Page 21: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

48 Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017

Entretanto, os doutrinadores trabalhistas discutem se a

convenção e o acordo coletivo, reconhecidos e integrantes do catálogo

de direitos fundamentais sociais (art. 7º, inciso XXVI, da Constituição

Federal de 1988), podem estabelecer de forma menos benéfica aos

empregados do que o disposto na legislação trabalhista.

Nesse aspecto, segundo Gustavo Filipe Barbosa Garcia

(2017, p. 02) é importante registrar que a Constituição da República

prevê as hipóteses em que, de forma excepcional e justificada, em

situações de crise econômica, admite-se a flexibilização das condições

de trabalho, envolvendo redução de salário, jornada de trabalho e

turnos ininterruptos de revezamento (art. 7º, incisos VI, XIII e XIV),

com o objetivo de proteção ao emprego.

O fato é que algo nesse aspecto apenas tem condições de

ser legitimamente defendido em sistemas de plena liberdade sindical.

Entretanto, não é o que ocorre no Brasil, em que se adota a unicidade

sindical, o qual, apenas se admite um único sindicato que represente

certa categoria em determinada base territorial, não por escolha dos

interessados, mas sim por imposição legal e constitucional, nos termos

do artigo 8º da Constituição Federal de 1988.

Dessa forma, consoante Garcia (2017, p. 03) a negociação

coletiva de trabalho realizada por sindicato único não possui

legitimidade democrática para dispor de forma contrária à lei, em

prejuízo dos trabalhadores, mesmo porque estes não têm assegurada a

Page 22: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

49

Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017 49

liberdade sindical de constituir e se filiar a outras entidades sindicais

concorrentes, relativas à mesma atividade desenvolvida na base

territorial.

Portanto, é manifestamente insustentável pretender que a

norma coletiva negociada disponha sobre condições de trabalho em

patamar inferior ao legal, fora das hipóteses admitidas

na Constituição, por meio de entidades sindicais.

Sendo assim, não há como se admitir que a convenção e o

acordo coletivo estabeleçam direitos em patamar inferior ao legal, e

isso se aplique a empregados que nem sequer se filiaram à entidade

sindical envolvida, ou mesmo que não tiveram a possibilidade de se

associar a sindicato diverso, em razão da ausência de

representatividade e legitimidade do ente pactuante que caracteriza o

sistema de unicidade sindical.

Desse modo, nota-se que esse tema ainda é mais recente

devido à reforma trabalhista, e os doutrinadores ainda discutem acerca

do assunto ao argumento de que antes de se propor a prevalência da

negociação coletiva em face da legislação trabalhista, deve-se instituir

de forma plena, a liberdade sindical, como requisito para a

legitimidade democrática do que vier a ser autonomamente pactuado.

Contudo, antes de chegar à pacificação sobre a liberdade

sindical, deve-se ter como primórdio que o sindicato tem como

premissa a representação do interesse coletivo daquela classe ou

Page 23: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

50 Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017

categoria de trabalhadores, para que, após atingir o interesse de todos,

analisem se o que estão negociando, não está desrespeitando o

ordenamento constitucional pátrio no seu artigo 8º, uma vez que, é

precursor da liberdade de associação profissional ou sindical.

5 CONCLUSÃO

À luz de todo o exposto, buscou- se discutir a liberdade

sindical no plano nacional e internacional, uma vez que no Brasil a

Constituição Federal no seu artigo 8º preceitua o princípio da unicidade

sindical, por outro lado, as Convenções Internacionais do Trabalho, os

quais, estabelecem princípios que norteiam os países signatários para a

proteção dos trabalhadores, defendem o princípio da pluralidade

sindical, mais específico com a Convenção nº 87 da OIT.

Entretanto, o Brasil não ratificou tal Convenção, motivo

pelo qual é criticado, por defender em seu texto constitucional, no título

dos Direitos e Garantias Fundamentais, o princípio da unicidade

sindical, o qual, estabelece no inciso II, do artigo 8º, vedação à criação

de mais de uma organização sindical, na mesma base territorial, não

podendo ser inferior à área de um Município.

Assim, é o que se pretende com o presente trabalho, mostrar

o conflito de interesses, em que de um lado, tem a liberdade relativa

devido à unicidade sindical e de outro tem a Convenção Internacional

dispondo de forma implícita a pluralidade sindical, considerando a

Page 24: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

51

Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017 51

liberdade de associação como fundamental para o desenvolvimento

sindical democrático.

Portanto, é de grande relevância a compreensão da

liberdade sindical sob o plano nacional e internacional, bem como uma

análise nos termos da reforma trabalhista, ocasionada pelo Projeto de

Lei 6.787-B de 2016.

Assim, mostra-se de extrema necessidade refletir sobre as

alterações, no que tange à eleição de representante para a classe ou

categoria de trabalhadores nas empresas acima de 200 empregados,

sem substituir, contudo, a função do sindicato daquela determinada

classe, nos termos do art. 510-E da Consolidação das Leis do

Trabalho.

Bem como, deve-se refletir sobre a hipótese de a

negociação coletiva estabelecer disposições que prevaleçam sobre a

lei, sendo defendido doutrinariamente como pressuposto da mitigação

ao princípio da unicidade sindical, devendo ser declarado, portanto,

forma plena da liberdade sindical.

Diante de todo o exposto, concluo que seja necessário antes

de chegar à pacificação sobre a liberdade sindical, a concepção acerca

dos objetivos do sindicato, que no qual, tem como premissa a

representação do interesse coletivo daquela classe ou categoria de

trabalhadores. Logo, é preciso, primordialmente, atingir o interesse de

todos, analisando se os que estão negociando, não estão

Page 25: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

52 Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017

desrespeitando o ordenamento constitucional pátrio no seu artigo 8º,

uma vez que, é precursor da liberdade de associação profissional ou

sindical.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa

do Brasil:

promulgadaem05deoutubrode1988.Brasília,DF:Senado,1988.Disponí

velem:<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituic

ao.htm> Acesso em: 20 de dez.2017.

BRASIL, Decreto – Lei nº 5.452. Aprova a Consolidação das Leis do

Trabalho. Brasília, DF: Senado, 1943. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del5452.htm>.

Acesso em: 15 de jan. de 2018.

BRASIL, Projeto – Lei nº 6.787- B. Altera a Consolidação das Leis

do Trabalho (CLT), aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de

maio de 1943, e as Leis nºs 6.019, de 3 de janeiro de 1974, 8.036, de

11 de maio de 1990, e 8.212, de 24 de julho de 1991, a fim de

adequar a legislação às novas relações de trabalho. Brasília, DF:

Senado, 2016. Disponível

em:<http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra

?codteor=1550864&filename=Tramitacao-PL+6787/2016>. Acesso

em: 20 de dez. de 2017.

BRASIL, Convenção nº 87 da Organização Internacional do

Trabalho. Convenção sobre a Liberdade Sindical e a Proteção do

Page 26: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

53

Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017 53

Direito Sindical. Brasília, DF: Senado, 1948. Disponível

em:<http://www.oitbrasil.org.br/sites/default/files/topic/union_freedo

m/doc/convention_87_171.pdf>. Acesso em: 20 de dez. de 2017.

BRASIL, Convenção nº 98 da Organização Internacional do

Trabalho. Sobre a aplicação dos princípios do Direito de

Sindicalização e Negociação Coletiva. Brasília, DF: Senado, 1949.

Disponível em:

<http://www.oitbrasil.org.br/sites/default/files/topic/union_freedom/d

oc/convention_98_171.pdf>. Acesso em: 15 de jan. de 2018.

CONCEIÇÃO. Paloma de Miranda Moutinho da. A Liberdade

sindical no Brasil: A dialética da unicidade sindical prevista na

Constituição Federal de 1988 e a Convenção nº 87 da Organização

Internacional do Trabalho. Lisboa: Faculdade de Direito da

Universidade de Lisboa, 2013. p. 137. Disponível em:

<http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/11441/1/ulfd127247_tese.pd

f>. Acesso em: 16 de dez. de 2017.

GARCIA, Gustavo Filipe Barbosa. Liberdade Sindical e Reforma

Trabalhista. São Paulo: JusBrasil, 2017. p. 02 – 03. Disponível em:

<https://genjuridico.jusbrasil.com.br/artigos/472267571/liberdade-

sindical-e-reforma-trabalhista>. Acesso em: 12 de fev. de 2018.

GUEDES, Jéssica Maria Sabino. O princípio da liberdade sindical e o

sindicato único: Uma análise do modelo de organização brasileiro.

Brasília: Universidade de Brasília, 2014, p. 20; 36- 38.

NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Compêdio de Direito Sindical.

5. ed. São Paulo: Ltr, 2008, p. 70 - 71; 136.

PEGO, Adriano. Iniciação ao Direito do Trabalho. 36. ed. São

Paulo: LTR, 2012, p. 32 - 33.

Page 27: A LIBERDADE SINDICAL: UMA PERSPECTIVA INTERNACIONAL E ... · A liberdade sindical consiste no direito dos trabalhadores em constituir as organizações sindicais, fazendo jus do direito

54 Águia Acadêmica - Revista Científica dos Discentes da FENORD - julho/2017

PINTO, Almir Pazzianotto. O Estado de São Paulo. Publicado em

24/02/2007. Disponível

em:<http://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/325660/noti

cia.htm?sequence=1>Acesso em: 15 de fev. de 2018.

SILVA, Cláudio Santos da.Convenção 98 da OIT não é respeitada por

sindicatos no Brasil. São Paulo: Revista Consultor Jurídico, 2007. p.

03. Disponível em: <https://www.conjur.com.br/2007-nov-

03/convencao_98_oit_nao_respeitada_sindicatos>. Acesso em: 12 de

fev. de 2018.

SILVA, Sayonara Grillo Coutinho Leonardo da. Relações Coletivas

de Trabalho: Configurações Institucionais no Brasil

Contemporâneo. São Paulo: LTR, 2008, P. 183.

VIEIRA, Luiz Carlos. Liberdade Sindical: uma perspectiva sobre a

Convenção 87 da OIT. São Paulo: Faculdade Integradas Antônio

Eufrásio de Toledo, 2013. p. 16 – 20; 27; 62. Disponível em:

<http://intertemas.unitoledo.br/revista/index.php/Juridica/article/view

Article/4674>. Acesso em: 16 de dez. de 2017.