Aculturação Dos Alemães No Brasil Emilio Willems Cap I VI

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Text of Aculturação Dos Alemães No Brasil Emilio Willems Cap I VI

  • IBRASILIANA

    Volume 250

    Direo de

    AMRICO JACOBINA LACOMBE

    Composio e paginao:

    S-Texto Ltda.

    ,"

    EMILIO WILLEMS. Ph. D.Ex.profellor na Unlvcrtldade de 510 Pauloe

    na Eacola de Soclololla e Poltica de 510 Paulo.Profellor emrtc de antropololla naVanderbllt Unlveralt)', Na.hvlllc, EUA

    A ACULTURAODOS

    ALEMES NO BRASILEstudo antropolgico dos imigrantesalemes e seus descendentes no Brasil

    2.a edio, ilustrada,revista e ampliada

    Em convnio com oINSTITUTO NACIONAL DO LIVROMINISTeRIO DA EDUCAO E CULTURA

    COMPANHIA EDITORA NACIONAL - INL/MEC

  • I,

    CAP{TULO I

    ASSIMILAO E ACULTURAO

    A socializao

    A vida social transforma indivduos biologicamente condicio-nados em personalidades. As idias, os costumes, as crenas, osmodos de sentir representam, por assim dizer, a atmosfera em queo indivduo aprende a ser pessoa humana. Embora a naturezahumana seja uma s e as necessidades que dela derivam apresen-tem semelhanas fundamentais, no h negar que as maneiras desatisfaz-Ias possam variar consideravelmente no tempo e no espao.

    O desenvolvimento da personalidade depende da aquisiode certos elementos ou valores culturais (idias, crenas, opinies,conhecimentos, tcnicas etc.), considerados necessrios para reali-zar ajustamentos s condies de uma determinada vida social.

    O ajustamento social do indivduo, a sua socializao, depen-deria, portanto, da incorporao de certos valores culturais napersonalidade. Ou, em outras palavras, a prpria personalidadeseria uma "estrutura" de valores culturais, adquiridos e articuladosentre si em forma de hbitos: '

    "O indivduo incorpora, invariavelmente, na sua prpria per-sonalidade, os desgnios e escopos que acham expresso nas insti-tuies pelas quais a conduta individual est sendo controlada." (1)Valores incorporados significam experincias feitas. medida queas experincias (ou seus resduos) se acumulam, o homem adquiremodos cada vez mais consistentes, de agir e reagir. Estes modosso os hbitos cuja totalidade constitui o que se pode chamarestrutura da personalidade.(2)

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  • o termo "incorporao" j indica que o papel do indivduo,no processo de socializao, no meramente passivo. Cada ex-perincia representa uma contribuio ativa: o indivduo desen-volve atitudes em tomo do valor e este vai adquirindo uma signifi-cao toda pessoal carregada de emoes. Foi provavelmente essaassociao emocional a que William James se referiu escrevendoas seguintes palavras:

    No sentido mais amplo possvel... o eu de um homem 6 a somatotal de tudo quanto ele pode considerar seu, no somente seu corpo eSU," forae fsicas, mas suas vestes e sua casa, .sua esposa e seus filhos, 'sOU!antepassados e amigos, sua reputao e suas obras, suas terras e seus valo-res, seu iate e sua conta no banco. Todas essas coisas propcrconam-lheas mesmas emoes. Se elas crescem e prosperam. ele se sente triunfante.se elas diminuem e definham. ele se sente abatido, no forosamente nomesmo grau por cada coisa, mas da mesma maneira por todas elas. (3)

    Evidentemente, o significado emocional que os valores cultu-rais possuem para os componentes de qualquer sociedade no saumenta a probabilidade de um sistema social funcionar com ummnimo de atritos internos, mas tambm representa uma defesaexterna relativamente eficiente na hiptese de ocorrerem contatoscom sociedades culturalmente diferentes. Pois as relaes emocio-nais que prendem o homem sua cultura no permitem que elejulgue valores estranhos com critrios diversos dos de seu grupo.Surge assim o que se convencionou chamar etnocentrismo, querdizer, uma "viso dos fatos que leva a considerar o prprio grupocomo centro de tudo, e a comparar e avaliar todos os demais comreferncia a ele". (.) O etnocentrismo como atitude emocional clas-sifica valores estranhos de acordo com o grau de diferena que ossepara dos valores prprios, atribuindo o ltimo lugar aos maisdiferentes.t+) Proporcionalmente a essa classificao aumenta oudiminui o preconceito com relao aos representantes humanosde costumes e tradies estranhos.

    Assimilao

    Se o etnocentrismo levanta barreiras a influncias estranhascingindo o grupo de uma couraa destinada a neutralizar o embatede valores provenientes de outras culturas, essas barreiras, no en-tanto, no so intransponveis e, no raro, a couraa est longe deter a eficincia desejada. Mesmo um exame superficial da realidademostra a multiplicidade de casos em que socedadesdferentes emcontato se transformam, perdendo certo nmero de seus elementos

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    (

    culturais e adquirindo novos. Todavia, transformaes culturaispermanecem inexplicveis, enquanto no se examina o comporta-mento dos homens que lhes representam, necessariamente, o subs-trato. O problema que se nos depara seria, portanto, este: quaisso os motivos que induzem o homem a abandonar, em determi-nadas condies, sua atitude etnocntrica diante de valores culturaisestranhos? Partimos de uma observao j feita por Thomas eZnaniecki (6) que "a causa de um valor ou de uma atitude nunca uma atitude ou valor S, mas sempre uma combinao de umaatitude e de um valor". O aparecimento de um valor novo depen-deria. portanto, da formao de uma atitude nova; favorvel integrao do valor. Sob a influncia do valor, a atitude preexistentemodificar-se-ia, assumindo uma feio mais ou menos diferente, (1)Parece que atitudes favorveis aceitao de valores culturais di-ferentes existem sobretudo em pases de emigrao, pois o xodocoletivo ndice de que a estrutura social (8) est em desequilbrio.Os encargos que pesam sobre certas camadas da populao j nocorrespondem s compensaes que a cultura lhes pode oferecer.A sensao de mal-estar coletivo pode abalar o sistema de controleda sociedade em desequilbrio. As situaes de conflito e, comelas, o nmero de desajustamentos multiplicam-se e facilmente des-pertam o desejo de novas experincias. As combinaes de atitudese valores existentes j so inadequadas diante de uma situaoque requer novos ajustamentos baseados nas experincias "desa-, gradveis" que se venham fazendo. :s neste ambiente que nascematitudes potencialmente favorveis aceitao de valores culturaisnovos: modas bizarras, credos religiosos de feio messinica, ideo-logias polticas subversivas, formas exticas, de recreao, e, mor-mente quando h precedentes estabelecidos por pessoas bem suce-didas, o desejo de emigrar como reflexo de uma srie de idiasmais ou menos definidas: liberdade mais ampla, prosperidade eco-nmica, vida aventureira associada. talvez ao sonho de um futurorepatriamento seguido de honrarias e prestgio atualmente inaces-.svel etc. Salientam Thomas e Znaniecki que as novas atitudes p0-dem parecer "criminosas" pessoa que as assume. Preso aindas expectativas tradicionais de seu grupo, o homem, s vezes, nopermite que a mudana de atitude lhe chegue luz da conscinciaou se manifeste em aes, recalcando os seus desejos para o sub-consciente.

    Posta em contato com o novo meio, a atitude prvia, favorvel mudana cultural, define-se pouco a pouco, estabelecendo rela-es emocionais com valores novos medida que estes vo sendoincorporados na personalidade.

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  • Todavia, a realidade complexa e impe algumas observa-es. Se o imigrante estiver isoladamente exp6sito ao impacto dasexpectativas de um grupo totalmente estranho, o ajustamento tor-nar-se- uma questo de sobrevivncia. Da proporo em que oimigrante incorporar os' valores novos, depender o papel que lheser atribudo na sociedade adotiva. ~ intil dizer que tais reajus-tamentos nunca dependem exclusivamente do imigrante, mas emgrande parte da intensidade das atitudes etnocntricas que venha. a encontrar no novo meio.

    O iInigtante isoladC)v-se logo nas ma1has de um neve !iste-ma de controle, estando, ao mesmo tempo, totalmente a salvo dassanes da comunidade originria. Embora encerre a possibilidadede conflitos violentos de personalidade, essa situao sobrema-neira favorvel para abreviar o conflito de lealdades que. a fazemoscilar, durante um tempo varivel, entre os plos representadospor valores culturais mutuamente exclusivos.

    Contudo, muito mais comum, constiturem-se comunidadesrelativamente homogneas de imigrantes. Nesse caso as condiesem que se estbelecem contatos com a cultura do' novo meio sobem diferentes. A disposio de "mudar de vida", acha a sua ex-presso numa escolha de elementos culturais que mais correspon-dam aos desejos previamente existentes. A presso econmce oupoltica a que os imigrantes alemes estavam expostos no sculopassado fez surgir, por exemplo, os ideais de ubi libertas ibi patriae do."homem livre em gleba livre". Da o padro de liberdade indi-vidual encontrado nos pases do Novo Mundo foi imediatamenteaceito e incorporado no patrimnio cultural das comunidades esta-belecidas em solo brasileiro. Essa integrao foi acompanhada daadoo de dois smbolos materiais da liberdade: o cavalo de mon-taria e a arma de fogo. .

    As atitudes-valores novas envolvem, no raro, aceitao com-pulsria de outros valores, imprevistos e indesejveis, pelo menosa princpio. O ideal de "homem livre em gleba livre", por exemplo,o emigrante rstico associava, ainda no pas de origem, a certospadres econmicos, religiosos, recreativos etc. da aldeia europia.Nas colnias do Brasil meridional, no entanto, "homem livre emgleba livre" significa o isolamento espacial em lugar da vida alde,processos agrcolas extensivos a substiturem os intensivos do pasde origem, a ausncia da antiga organizao paroquial altamenteintegrada etc. Essas "privaes" representam, de certa maneira, opreo que o migrante paga pela realizao de seu. ideal. Muitos

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    o consideram demasiadamente caro e no se ajustam nova situa-o. Outros levam longos anos, oscilando entre a nostalgia e odesnimo de um lado e a esperana num futuro melhor por outrolado. Mas medida que os imigrantes ou seus filhos se "habituam"s condies diferentes, vo surgindo novas atitudes-valores, fazen-do com que parea "na