Capital social: de elemento da cultura cívica à política ...· economia, a sociologia e a ciência

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Encontro Internacional Participao, Democracia e Polticas Pblicas:

aproximando agenda e agentes.

23 a 25 de abril de 2013, UNESP, Araraquara (SP).

Capital social: de elemento da cultura cvica poltica de

governo.

Andr Galindo da Costa1 Universidade de So Paulo,

andregalindo@usp.br.

1 Andr Galindo da Costa bacharel em Administrao Pblica pela UNESP de Araraquara,

Licenciado em Administrao pela FATEC-SP, professor nas disciplinas de gesto, contabilidade e metodologia na ETESP do Centro Paula Souza e cursa ps-graduao em nvel de mestrado no programa em Mudana Social e Participao Poltica na Escola de Artes Cincias e Humanidades (EACH) da Universidade e So Paulo (USP).

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Resumo

O conceito de capital social foi aclamado na dcada de 1990 como um possvel

remdio para a revitalizao da sociedade civil frente a um contexto de

polticas neoliberais. Recebeu destaque a partir das obras de Robert Putnam e

dos incentivos do Banco Mundial para a sua gerao em pases em

desenvolvimento. Esse artigo tenta apresentar as principais rotas traadas pelo

termo ao longo do sculo XX de forma a mostrar que para alm do furor criado

em torno de sua capacidade de resolver problemas o conceito ainda apresenta

potencial terico importante na atualidade. Para cumprir seu objetivo so

apresentados autores de diversos campos do conhecimento, como a

economia, a sociologia e a cincia poltica. O trabalho tambm acrescenta

discusso uma nova forma de olhar para o capital social a partir do potencial de

cria-lo atravs das instituies pblicas.

Introduo

Esse artigo revisita um conceito muito aclamado na dcada de 1990,

quase que visto como um remdio para todos os males sociais, e que entrou

em descrdito nos anos 2000 devido s crticas sobre sua limitao. Este o

conceito de capital social. Para alm de um desejo iminente da boa sociedade

e do bom governo se bem delimitado e qualificado capital social pode ser um

importante instrumento para o desenvolvimento da democracia em pases que

adotaram regimes polticos democrticos recentemente. Alm do mais pode

trazer eficincia e eficcia s instituies sociais, polticas e organizaes

econmicas.

No segundo captulo desse trabalho, que recebe o ttulo de Capital

Social enquanto conceito das cincias sociais ovacionado na dcada de 1990,

tento apresentar a construo terica e histrica do termo que surge ainda no

incio do sculo XX. Passando por importantes tericos das cincias sociais

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como Coleman e Bourdieu o conceito recebe reconhecimento pblico a partir

das obras sobre as diferenas regionais entre o sul e o norte da Itlia de Robert

Putnam. O Banco mundial teve tambm papel importante nos anos 1990 na

disseminao da expresso, j que se utilizou dele como mecanismo de

elaborao de polticas de desenvolvimento local em pases em

desenvolvimento.

O terceiro captulo recebe o nome de A crtica abordagem

reducionista e limitada ao primeiro mundo da teoria do capital social e nos

mostra como o conceito em menos de uma dcada vai de heri a vilo das

cincias sociais. Pautadas em obras como as de Tarrow (1996) e Skocpol

(1999) temos uma forte crtica viso de Putnam de considerar o capital social

como um elemento cultural fatalista e de no levar em conta o Estado e as

polticas de governo como instrumento til ao incentivo ou bloqueio dessa

forma de capital. Baquero (2003) faz a crtica na medida em que reivindica a

reinveno do conceito a realidade latino-americana.

No quarto captulo intitulado como O capital social como poltica de

governo: acrescentando uma nova varivel exgena mostro as tendncias

mais recentes tentaram apresentar o papel do Estado na promoo de capital

social seja atravs do desenho institucional seja atravs de polticas pblicas.

Nesse instante ganha importncia o conceito de estrutura de oportunidade

poltica de Sidney Tarrow.

Por fim apresento minhas consideraes finais a partir de um

levantamento da importncia do conceito como forma de delinear polticas de

governo e auxiliar na construo democrtica em pases com uma cultura

poltica predominantemente autoritria, como o caso do Brasil.

Capital social enquanto conceito das cincias sociais ovacionado na

dcada de 1990.

Algo muito aclamado durante a dcada de 1990 por instituies polticas,

econmicas, de ensino e de pesquisa foi o capital social. Sua notoriedade

esteve relacionada ateno que o Banco Mundial deu a ele explorando-o

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como instrumento til a superao da pobreza e motivando setores menos

favorecidos a participarem e beneficiarem-se dos processos de

desenvolvimento. Monasterio (2000) afirma que questes polticas e retricas

foram responsveis pela rpida disseminao do termo, j Araujo (2010)

aponta como nesse perodo o capital social apresentou-se como um antidoto

mgico contra todas as mazelas sociais, quase que como uma panaceia2.

Esse carter, quase que de superpoderes, dado ao capital social acaba

por desqualifica-lo e tirar o seu verdadeiro potencial enquanto conceito terico

til para a anlise, o entendimento e a proposta de interveno na realidade

social. Conforme Araujo (2010, p.7):

O conceito de capital social, se mal apreendido, superdimensionado

ou focado de maneira messinica, pode tambm vir a ser

desqualificado. Defendo aqui a ideia de que, minimamente bem

definido e valorizado, ele pode se constituir em importante

instrumento conceitual e prtico para a consolidao de polticas

pblicas, para o desenvolvimento sustentado e para a revitalizao

da sociedade civil e da democracia.

Para Frey (2003) o conceito de capital social ganha fora em um mundo

onde h uma crescente economia globalizada sob a lgica do mercado e do

lucro imediato, dos modelos de democracia liberal sem muita legitimidade e de

um Estado enfraquecido. Alves e Viscarra (2012) entendem que essa

conjuntura, que eles denominam como de polticas neoliberais, foi favorvel

para gerar a queda da confiana interpessoal, o isolamento dos indivduos, a

fragmentao de redes sociais, a desconfiana institucional, a apatia e

indiferena pela poltica e a busca por solues individuais para problemas

coletivos.

Assim, a ateno dos cientistas sociais dirige-se para atores alm do

Estado e do mercado como forma de soluo para as mazelas sociais geradas.

Isso se pauta em uma suposta oportunidade de emancipao da sociedade e

dos cidados e na superao das desigualdades sociais e de poder, sendo o

2 Panaceia representa um remdio para todos os males, mas que no fundo adquiri a conotao

de um remdio que nada cura. Esse conceito est associado mitologia grega.

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capital social uma ferramenta til para auxiliar a comunidade e o governo na

resoluo de problemas (FREY, 2003).

O capital social tem sua origem na ideia de que o envolvimento e a

participao em grupos podem ter consequncias positivas para o indivduo e

para a comunidade. Isso nos remete a dois tericos clssicos da sociologia:

Durkhein que aponta que a vida em grupo pode ser um antdoto para a anomia

e a autodestruio e Marx que v a importncia de uma classe mobilizada e

eficaz em detrimento de uma classe atomizada (PORTES, 1998).

Fernandes (2002) mostra como o termo passou por um processo raro

nas cincias sociais j que durante o sculo XX foi inventado pelo menos seis

vezes. O primeiro registro que se tem do seu uso foi em 1916 pelo educador

Lyda Judson Hanifan que detectou uma relao entre aumento da pobreza e a

diminuio da sociabilidade em centros comunitrios de escolas rurais. Na

dcada de 1950, John Seeley junto com um grupo de socilogos canadenses

usou o termo capital social para demonstrar como o pertencimento a

associaes e clubes ajudavam no acesso a bens simblicos.

Em 1961 a urbanista Jane Jacobs se voltou ao capital social para relatar

como slidas redes informais de sociabilidade nas metrpoles ajudavam as

polticas de segurana pblica. Em 1970 o economista Glenn Loury e o

socilogo Ivan Light utilizaram-se da expresso para apresentar como a

incapacidade em confiar e cooperar eram perversidades da escravido nos

Estados Unidos e que isso ainda resultava em problemas de desenvolvimento

econmico nas comunidades afro-americanas (Fernandes, 2002).

O capital social vem definitivamente ganhar importncia no meio

acadmico e cientifico nos anos 1980 nas suas duas ltimas invenes,

atravs do socilogo francs Pierre Bourdieu e do socilogo americano James

Coleman. Enquanto o primeiro o apontou como agregador de recursos reais ou

potenciais que se tinha acesso ao se pertencer a determinadas instituies ou

grupos o segundo viu o capital social pela perspectiva de normas sociais e

tambm pela sua funo em permitir gerar bens que na sua ausncia no

seriam possveis.

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Quando se pensa em capital social uma questo a qual se remete o

fato de existirem diferentes formas de capital. Para alm da ideia de capit