cascudos e chimangos 1876 1884

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Text of cascudos e chimangos 1876 1884

IntroduoDa minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo... Por isso a minha aldeia to grande como outra terra qualquer

Fernando Pessoa A imprensa que estudamos tratava da aldeia, mas muito mais do Imprio, e no era s emissora de informaes, mas em medida proporcional uma receptora. Portanto, no podemos dizer que pesquisamos a histria de So Joo del-Rei, pois devido s nossas principais fontes no respeitamos as fronteiras dessa cidade. Estudamos sim a histria poltica, com os limites imprecisos dos peridicos oitocentistas publicados em So Joo del-Rei. Um estudo detalhado desses peridicos um estudo dos crculos polticos que os publicavam, de suas culturas polticas, das sociabilidades em que se envolviam, das lutas em que participavam e de suas transformaes internas. Guardadas as devidas propores, esses crculos nos lembram os encontrados por Agulhon na Frana, que se reuniam periodicamente para ler os peridicos. Tambm no Brasil, os crculos eram as autenticas clulas de base dos partidos polticos, em uma poca em que no h que duvidar os partidos propriamente ditos no existiam como organizao ou no tinham seno uma organizao embrionria.1 No se trata de crculos que somente liam jornais que assinavam, mas que recebiam, por permuta2, folhas de todo o pas e do exterior, na leitura das quais se informavam sobre a situao do Imprio e do mundo. Tratamos dos peridicos enquanto centros e espaos de sociabilidades, vivos quase. Maurice Agulhon demonstrou suficientemente a importncia dos estudos das sociabilidades, tanto em seu nmero, em suas profundas ligaes com a luta poltica, quanto em seus formatos internos e suas mutaes para o entendimento da histria francesa. Da imprensa podemos dizer o mesmo que Ridolfi disse sobre as associaes, que so um privilegiati canale di accoglienza e di circolazione del'discorso politico'che essa alimenta incessamente.31 2

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AGULHON, Maurice. Historia Vagabunda. Mxico: Instituto Mora. 1994. Pg. 24-34. Permuta era o termo usado pelas folhas para definirem o hbito civilizado de enviar exemplares gratuitamente para dezenas ou centenas de outras tipografias e receber em troca exemplares dos peridicos nessas publicados. RIDOLFI. Apud MORELL, Jordi Canal i. El concepto de sociabilidad en la historiografia contempornea

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Devido a esse mesmo raciocnio, a imprensa no a nica forma de sociabilidade que estudamos, pois a partir dela chegamos s associaes, aos partidos e s formas tradicionais de sociabilidade informal, como manifestaes cvicas diversas. Sobretudo entre partidos e peridicos as relaes eram umbilicais, impossibilitando-nos de abordar um assunto sem tratar do outro, pois mesmo as folhas que no eram ligadas a partidos ressentiam-se abertamente de uma imprensa partidarizada, e os crculos partidrios sem folhas nos deixaram pouqussimas fontes. Tambm pesquisamos as culturas polticas de que as folhas eram vetores e a gramtica do poder em que estavam mergulhadas4. Note-se que tratamos no plural das culturas polticas, o que se relaciona muito bem com nossa fonte principal, a imprensa, sobretudo a peridica, que um importante meio de construo de culturas polticas especficas, ou seja, empiricamente verificveis e de interesse historiogrfico5. Por outro lado, usamos gramtica do poder no singular, pois alm de culturas polticas especficas, diferentes e adversrias, todos os que fazem parte da vida poltica em uma determinada poca e local precisam conhecer um mesmo repertrio poltico e intelectual, coisas comuns aos adversrios mais renhidos, uma cultura poltica que permeia as diferentes culturas polticas, a lngua comum em que debatem, uma gramtica do poder, uma espcie de gramtica da vida pblica, qual os atores devem conformar suas experincias e suas atividades para fazerem sentido6. Como culturas polticas especficas, em cada crculo que chegou a publicar uma folha que foi preservada procuramos tudo o que Serge Berstein indica como seus componentes:uma base filosfica ou doutrinal, a maior parte das vezes expressa sob a forma de uma vulgata acessvel ao maior nmero, uma leitura comum e normativa do passado histrico com conotao positiva ou negativa com os grandes perodos do passado, uma viso institucional que traduz no plano da organizao poltica do Estado os dados filosficos ou histricos precedentes, uma concepo da sociedade ideal tal como a vem os detentores dessa cultura e, para exprimir o todo, um discurso codificado em que o vocabulrio utilizado, as palavras-chave, as frmulas repetitivas so portadoras de significao, enquanto ritos e smbolos desempenhavam, ao nvel do gesto e da representao visual, o mesmo papel(Francia, Italia y Espaa). In: Siglo XIX nueva poca. Nmero 13. Mxico: 1993. Pg. 19. Traduzimos livremente como: Privilegiados canais de acolhimento e circulao do discurso poltico ao qual alimenta incessantemente. CEFAI, Daniel. Exprience, culture et politique. In: CEFAI, Daniel (org) Cultures politiques. Paris: Presses Universitaires de France. 2001. Pginas 93-117. SILVA, Wlamir. A imprensa e a pedagogia liberal na provncia de Minas Gerais. In: NEVES, Lcia Maria Bastos P. MOREL, Marco. FERREIRA, Tania Maria Bessone da C. Histria e Imprensa: Representaes culturais e prticas de poder. Rio de Janeiro: Faperj: DP$A editora. 2006. Pg. 39. CEFAI, Daniel. Op Cit. Pg. 94.

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significante.7

Estudamos diferentes culturas polticas, pois entre 1876 e 1884 existiam suficientemente organizados para manter folhas peridicas dois campos bem opostos, mas ambos mergulhados em uma gramtica do poder, que estava sempre em disputa, era lugar e objeto dos conflitos sociais, pois:Efetivamente, nenhuma cultura e, por conseguinte, nenhum poder podem ser deduzidos de qualquer princpio universal fsico, biolgico ou espiritual, - visto no estarem ligados por qualquer espcie de relao interna natureza das coisas ou natureza humana, ...Qualquer sociedade precisa de imaginar e inventar a legitimidade que atribui ao poder. 8

Nota-se que de forma alguma nos interessa se as afirmaes de uma folha eram verdades ou mentiras, mesmo por que tambm as inverdades tm papel histrico indispensvel organizao social, uma vez que la mentira que se imponga, esto es, que no sea descubierta, constituye, indudablemente, un medio de realizar cierta superioridad espiritual, aplicndola a la direccin y sumisin de los menos avisados.9 Por fim, estudamos os escritores, leitores, anunciantes, vtimas e beneficiados dos peridicos, que definimos como atores polticos citados nas fontes.10 Por vezes utilizaremos simplesmente o termo como eram chamados na poca, ou seja, chefes desse ou daquele partido, anunciantes dessa ou daquela folha. Nosso mtodo inspirado nas biografias coletivas11, para conjuntos de nomes12 de componentes dos crculos polticos, mas no chegamos a fazer propriamente prosoprografias. E de certa maneira, esse mesmo mtodo aplicamos aos anunciantes de cada folha. Assim, os jornais so fontes para suas prprias histrias13, mas no somente. As histrias dos peridicos nos permitem uma histria social da poltica, como preferimos7

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BERSTEIN, Serge. A cultura poltica. In RIOUX, Jean-Pierre & SIRINELLI, Jean-Franois (org.) Para uma histria cultural. Lisboa: Estampa, 1998. BACZKO, Bronislaw. Imaginao social. In: Enciclopdia Einandi. V. 5. Imprensa Nacional Casa da Moeda. 1985. Pg. 310. SIMMEL, Georg. Estudios sobre las formas de socializacin. Madrid: Alianza Editorial. 1986. Pg. 363-364. Fazemos nossa essa considerao de Marco Morel O termo elite, se usado de forma abusiva historicamente, torna-se impreciso, pode elidir nuanas, complexidades e at contradies. In: MOREL, Marco. As transformaes dos espaos pblicos: imprensa, atores polticos e sociabilidades na Cidade Imperial (1820-1840). So Paulo: Hucitec, 2005. Pg. 171. STONE, Lawrence. Prosopography. In: Dedalus, journal of the American Academy of Arts and Sciences. 1971. N. 1. GINZBURG, Carlo. A micro-histria e outros ensaios. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 1989. Pg. 169-178. CAPELATO, Maria Helena R. Imprensa e Histria do Brasil. So Paulo, Contexto, Ed. da USP. 1988.

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chamar o que atualmente pode ser tratada como a nova histria poltica. Os peridicos ento publicados em So Joo del-Rei so nossa fonte mais numerosa e rica, e so tambm objeto de nossa pesquisa, pois eram produtos dos crculos polticos que estudamos, de forma que precisamos ter sobre eles uma noo precisa, preparando o leitor para os captulos seguintes. esse nosso primeiro captulo. Em seguida, entramos propriamente no debate sobre os partidos polticos e a poltica antes desta entrar em crise em 1884, com trs captulos, um tratando do que os conservadores14 falavam de seu prprio partido, outro do que falavam do partido liberal, mais um em que os liberais nos informam sobre seu prprio partido e sobre o adversrio. Depois, dois captulos tratam da reforma eleitoral de 1881 e da crise poltica de 1884, muito interligadas. Em outras palavras, so trs partes, a primeira o captulo dedicado a uma viso geral da imprensa so-joanense durante o Imprio, a segunda so os trs captulos dedicados aos partidos monrquicos e a terceira so os dois captulos em que observamos essa imprensa e esses partidos posicionando-se sobre as mais importantes questes de sua poca. O leitor poder notar que os documentos citados esto com o portugus atual. Tnhamos que optar entre utilizar a grafia da poca, ou coletar dados com mais rapidez e em maior quantidade. No tivemos dvidas, pois esse no um trabalho dedicado a estudar a lngua. Ademais, a grafia atual descansa o leitor. Contudo, no tocamos na pontuao, o que, a nosso ver, alteraria os significados, nem nos nomes prprios de pessoas e folhas. Verso final aps modificaes sugeridas pela banca. 28 de Setembro de 2008, So Joo del-Rei.

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Em todo esse trabalho utilizamos aspas quando nos referimos aos partidos, como conservador e liberal, a no ser