Espiral 45

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    13-Jun-2015

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<ul><li> 1. espiral daANO xiI - fraternitas movimentN.ternit vimento boletim da associao fraternitas movimentoN. 45 outubrO/dezeMBRO - outubrO/dezeMBROde 2011 Uma histria de NATALfERNANDO fLIXEla faz anos no Natal. Gosta de receber presentes,mas o que a atrai mais so as figuras do prespio. E ele era muito importante para eles?um dia perguntou aos pais: Porque que os Magos Foi. Mas quer dizer ainda mais coisas. Quando os magosesto de joelhos? se ajoelharam diante de Jesus tinham a certeza de que aquele menino era instrumento de Deus, presena de Deus. Por issoEla fazia 8 anos. Nasceu a 26 de Dezembro, e, mais uma adoraram-no. isso o que significa adorar.vez, tinha prendas a dobrar. O pai prosseguiu:Mas aquilo de que ela gostava mesmo era de ajudar os por isso que, quando vamos igreja, nos ajoelhamos:pais a fazer o prespio, a colocar as figuras. E, no prespioporque estamos na presena de Deus. E olhamos para Eledeles, havia muitas figuras, as tradicionais e outras que a ima- com muito carinho, com muita ternura. Dizemos-Lhe palavrasginao e o contexto dos tempos atuais impunham, tipo can- doces, falamos-Lhe da nossa vida.tores, estrelas de cinema, clrigos, bispos, o Papa, e at polti- E a me continuou a ensinar a Mariana:cos... Os magos fizeram uma grande viagem s para seEles l sabiam o porqu. encontrarem com Jesus, porque sabiam que o Menino traziaOs reis magos, sim, os reis magos, eram os mais adapta-alegria, paz. Eles, que partiram de um pas estrangeiro, sabiamdos: um era o Papa, outro era um politico e outro - surpresa que aquele menino fazia com que todas as pessoas, todos os- tinha as feies do pai. povos se tratassem por irmos.Ela, um desses dias, olhando para as figuras originais dos E o pai acrescentou:reis magos, que no iam montados nos camelos, mas dois Isto quer dizer que ajoelhar-se e adorar tambm signifi-estavam de joelhos e um permanecia em p, caminhando,ca servir, ajudar os outros. Mais tarde, quando Jesus tinha 30perguntou aos pais:anos, tambm Ele se ps de joelhos. Antes de comerem a Porque que os reis magos estavam de joelhos? que foi a ltima ceia, Jesus lavou os ps aos discpulos. E, paraA me respondeu: isso, ajoelhou-Se diante deles. Ora, os discpulos no eram Porque foram ao prespio para adorar o Menino Jesus. mais importantes do que Jesus, mas como Ele queria servi-Ela j tinha ouvido dizer que os reis eram pessoas impor-los com todo o corao, tomou essa posio. Jesus gostavatantes. Ouviu-o nas histrias que a me lhe contava. Por isso, tanto deles que, para manifestar esse amor, disps-Se a fazermostrou-se perplexa: de tudo, at a ajoelhar-se diante deles, para os aliviar do peso Mas, se eram reis, porque esto de joelhos diante de umdo dia, lavando-lhes os ps.beb?E a me concluiu:O pai retorquiu, docemente: Ou seja, os magos prostraram-se diante de Jesus por- Bem... Dizemos que eles eram reis, mas, na verdade,que O reconheciam como muito importante, porque envia-no eram. Eram pessoas importantes, sim. Eram estudiosos.do por Deus, porque era Deus mesmo. E eles viram DeusConheciam as estrelas do cu e interpretavam a mensagemnaquele beb pobre, nascido de uma famlia humilde. E oque se dizia que os astros tinham. Foi a olhar o cu que desco-mais bonito de tudo que reconheceram Deus onde nin-briram uma estrela nova e concluram que ia nascer um meni-gum suspeitava que Ele estivesse. Depois, Jesus, ao lavar osno muito importante, um rei. ps aos discpulos, mostrou que Deus pode ser aquilo queE a me explicou de outro modo:no imaginamos que podia ser: aquele que serve.Mas o pai Quando tu nasceste, eu e o teu pai passvamos horas aainda acrescentou:olhar para ti, muitas vezes de joelhos. Sabes porqu? Porque Por isso ns tambm nos ajoelhamos para ajudar a avtu eras a coisinha mais importante para mim e para o teu pai.quando quer trocar de sapatos, ou no capaz de apanhar Ento, os magos ajoelharam-se diante de Jesus porque alguma coisa. Aprendemos com Jesus a servir o prximo.</li></ul><p> 2. fraternitas fraternitternitas 2 espiral Mulher(es) na sociedade e na Igreja O QUE MUDOU? O QUE FALTA MUDAR? A Este foi o tema do Encontroconteceu no sbado 1 desociedade tradicionalista com laivos de Nacional da Associao outubro, no Seminrio do modernidade. A partir da revoluo de Fraternitas Movimento, que seVerbo Divino. Este tema1974, as mudanas acontecem a um realizou em Ftima, de 30 de comeou por ser trabalhado ao nvel de ritmo acelerado. Neste cenrio setembro a 2 de outubro.quatro pequenos grupos. Participaram 33migratrio, as mulheres ficam no Conduziu a vertente terica das palestras e os trabalhos empessoas: 29 scios - 9 casais e 11 singles e continente e tomam atitudes deDra Teresa Martinho grupo a Dr a Teresa Mar tinho4 no associados 1 casal e 2 singles protagonismo e liderana na famlia, nasoldy, doutor oradaTeologia Toldy, dout or ada em Teologia (mulheres).tarefas fora de casa (campos, ), nos Teologia Feminiseminista) (rea da Teologia F eminis ta) pelaPrimeiramente, debateu-se: Quaismltiplos afazeres no espao pblico. Philosophisch- foram as mudanas a que assistimos naConsequncias: TheologischeHochschuleSanktSOCIEDADE. Como que isso afetou- (Re)Adaptaes do desempenho Georgen (Frankfurt/Alemanha),tanto homens como mulheres, na minha do papel de gnero. Mestre Teologia (ramo Mes tre em Teologia (r amo deperspectiva, seguindo-se o plenrio,- Permuta de ideias, conceitos, Sist Teologia Sis t emtica) pela com a partilha de reflexes sob avalores entre as sociedades. Universidade Catlicaorientao magistral desta primeira eMas as mudanas mais significativas Portuguesa, Licenciada em Univer ersidade Teologia pela Univ er sidade nica teloga portuguesa. Constituir aoperam-se, de facto, ao nvel do papel Catlica Portuguesa. Ps-parte I. Depois tratou-se com idntico da mulher. Considerando universos ditos doutorada pelo Centro de Estudos figurino pedaggico a temtica aplicadamasculino e feminino e o fluxo para a Sociais da Universidade de IGREJA, sendo agora a parte II.entrada no universo que, normalmente, Coimbra. Docente em regime de no o seu, as mulheres caminham mais exclusividade na Universidade I. MUDANAS EM PORTUGAL velozmente que os homens. Eis alguns Fernando Pessoa (Porto), onde A partir dos anos 1960, htpicos de/para anlise da situao, ensina nas reas da tica, dos movimentos de pessoas significativos particularmente em PORTUGAL: Estudos de Gnero e da para as colnias para outros pasesNo ENSINO Na dcada dos anos Cidadania. Coordenadora doeuropeus e fluxos migratrios internos,1960, h muito mais analfabetas mulheres Mestrado em Cidadania e Responsabilidade Social da do campo para a cidade. Era umado que homens. Universidade Fernando Pessoa. Vice-Presidente da Comisso de tica da mesma instituio. Urtlia Silva Urtlia SilvNOTA PRVIAO que se segue no so, nempretendem ser, apenas as concluses.Trata-se de um registo trabalhado combase nessas partilhas inter e intragrupais,nos frutos - j amadurecidos -distribudos pelas intervenes da Teresae na altura saboreados, nas sementespor si lanadas. Cuidada a sementeiradurante dois meses e buscando outrosfrutos escritos seus, especialmente paraa parte II, e de outros autores para aparte I, deu a colheita que se segue. Estouconsciente de que, tratando deste campocultivado, no cuidei de muitas sementes 3. fraternitasfraternit ternitas l espiral3Conquista do 25 de Abril: homem que ganhava,democratizao do acesso assegurava o sustento daUniversidade, que constitui umfamlia. Uma margem dilatadaimportante progresso. A de mulheres trabalhava noseducao, ao nvel escolar, campos frente daspermitiu uma ascenso social, exploraes.ascenso social esta que se Havia um elevado nmeroverificou rapidamente numade mes solteiras e de filhosgerao.ilegtimos.Ocorre a massificao Nas INTERAESescolar que tarda no nosso Pas,ENTRE AS CLASSESrelativamente a outros pases SOCIAIS No existiaeuropeus. As mulheres entrampermeabilidade. As mudanasem mais elevada percentagem foram significativas, mase alcanam mais xitos, poisatualmente continua a sersabem captar os proventos desse havia uma circulao da roupa e livrospouco representativa.processo de ensino-aprendizagem.escolares dos irmos mais velhos para Nos ASPETOS SOCIAIS queGrandes mudanas da educao: asos irmos mais novos. Verifica-se agora contriburam para a EMANCIPAOrelaes de gnero mudaramuma delimitao muito maior, ou at da MULHER Por exemplo, a plularadicalmente, havendo uma maior um estabelecimento de fronteiras da contracetiva que comeou a seraproximao das trajetriassexuais de pertena de cada irmo, bem definido, comercializada em Portugal em 1962. Ahomens e de mulheres. do espao (quartos, ). Paralelamente taxa de fecundidade comea a baixar.No ESPAO DOMSTICO vo crescendo certos meios sociais em O que que justifica a procura social,Considerando as tarefas domsticas, a Portugal de excluso e de pobreza, onde outrora, essencialmente por parte das(maior) utilizao de mquinas encorajouas pessoas, homens e mulheres semulheres e depois num crescendo poros homens para a lida da casa. Eamontoam parte dos casais? Famlias de 4 filhosouve-se, muitas vezes, por parte dasNo MODELO DE CONJUGALI- outrora eram reduzidas, hoje somulheres: Ele ajuda. Ora, se ajuda, DADE ideal O homem era o chefeconsideradas numerosas. At j com 3!...no corresponsvel um estatutode famlia, a autoridade mxima. AE fica uma questo: A mulherdiferente!... mulher dependia do seu marido. Pormoderna , ou deve ser, polivalente?!...Na PARENTALIDADE Houveex., a mulher necessitava de autorizao Sugiro como bibliografia: Histriauma alterao to grande de valores que para sair do pas. mulher associava-da Vida Privada, ltimo volume daa deciso de ter filhos particular ese, especificamente, o mundo dos afetos:srie com o mesmo nome, direo decontinuadamente ponderada. Outrora, ao cuidar da casa, dos filhos OJos Mattoso. II. MUDANAS NA IGREJA funo litrgica e pastoral, no exerccio experincia feminina tem recebido uma Aproveitando o livro Histria dado poder e tomada de decises.certa interpretao masculinaVida Privada, acabado de citar, a partir - H carismas especficos nasdos anos 1960, a sociedade portuguesa mulheres. O que falta mudar na Igreja?caracterizada de dualista, onde havia - Discursos/palavras da Bblia e da A situao da mulher na Igreja queuma manta tradicional com algunshierarquia da Igreja que subjugam astem uma histria complexa e que incluirasges de modernidade (que tinham amulheres, de poder. tanto a discriminao quanto aver com as reas urbanas), movendo-se Das palavras ditas por ns sobre esta promooAsituaodenum pas pobre, pequeno e catlico, temtica do Encontro: marginalizao da mulher na Igreja quecomea a MUDAR. O que mudou na Igreja? inadmissvel, um escndalo... Do Encontro - No registando todas Ser um espao de liberdade (enorme) preciso denunciar que, entre osas respostas/afirmaes nas partilhas,embora com bloqueios cargos/quadros na hierarquia/igrejaredundaram nesta tentativa de sntese:Sinais de mudana, que devem serinstitucionalizada h uma ausncia - Presena/ausncia da mulher na reconhecidos e valorizados Mas, se (absoluta) de representao das mulhe-Igreja (hierrquica), na Palavra, nos tudo isso deva constituir um facto ares, que devem ser entendidos comoMinistrios (inclusive o ordenado), nasalientar, no podemos esquecer que a SERVIOS 4. fraternitas fraternitternitas4espiralE no plenrio, as achegas da mltiplas opresses (1992). Os textos 2. Interpretaes cannicas eorientadora foram esclarecedoras,bblicos e as interpretaes a que os silenciamento das mulheres aresultando para mim, numa tramamesmos foram sujeitos ao longo dosviolncia das palavrascomplexa. A utilizao da suasculos constituram uma pea Seria longa a lista de textos bblicosterminologia especfica e adequada importante do discurso kyrirquico, que descrevem actos de violncia sobrelevou-me a n rascunhos para este para utilizar a expresso de Fiorenza mulheres. Mas to ou mais relevantes doapontamento escrito, optando ento pela(1994). Parece existir, realmente, um que os textos bblicos que descrevembusca e consulta de bibliografia/cnone da opresso, que, nas religiesactos violentos sobre as mulheres foramartigosseus, que divulgo:monotestas, passa pelos livros sagradosos textos que foram utilizados ao longo- DEUS E A PALAVRA DE e pelas suas interpretaes e dos sculos (e continuam a ser) paraDEUS NA TEOLOGIA reinterpretaes por parte das instncias legitimar o silenciamento (frequente-FEMINISTA (1998), Lisboa: Edemissoras dos discursos oficiais (sempremente violento) das mulheres, invocandoPaulinas, [14x 21, 472 pp,14,50]. masculinas!). O patriarcado no a sua pretensa inferioridade em relao( Obra pioneira e que revela grande compreendido nos termos de um ao homem, inferioridade essacoragem ); sistema sexual binrio, mas sim comoestabelecida pela prpria criao,- A VIOLNCIA E O PODER uma complexa estrutura piramidal de portanto natural, j que no pode serDA(S) PALAVRA(S): Ao corpo - a mulher- aRELIGIO CRIST E AS comandar a cabea - oMULHERES Revista Crtica homem. O que est emde Cincias Socias (do CES), 89, causa a hierarquizao,Junho de 2010: 171-183.inspirada na 1 Carta de S.Decidi ento partilhar Paulo os Corntios (11, 3),excertos deste artigocujos cortesonde se diz que a a cabeaesto traduzidos por (),de todo o homem Cristo,estando disposio de quem a cabea da mulher omo solicitar na ntegra. homem, e a cabea deNa smula: () FalaremosCristo Deus.de discursos de poder. MasEst criada aquela quetambm da possibilidade de ser a matriz da excluso dasoutros discursos, de formas de mulheres. De facto, elaempowerment subalternas, a resulta de uma teologia quepartir dos sem poder. Nestefoi desenvolvendo pro-segundo aspecto, dar-se-gressivamente toda umaparticularmente relevncia aodomnio poltico e de subordinao, reflexo antropolgica centrada napensamento e teloga feminista estratificada segundo taxonomias de temtica da imagem e semelhana comElisabeth ShsslerFiorenza, que sexo, raa, classe, religio e cultura. Deus e do pecado original. Estareferenciou vrias vezes no plenrio e queMas o cnone tambm pode ser lidocontribui decisivamente para uma visono texto aparecer apenas como numa outra perspectiva. sabido que ada mulher com ser inferior e tentadora,Fiorenza.libertao dos vus impostos pela semelhana de Eva. Associada a umaPalavras chave: antropologia tradio androcntrica crist conheceubiologia e estratificao social aristo-teolgica; hermenutica feminista; um momento decisivo nas lutas pelatlicas, esta cosmoviso empurrou amulheres; religio crist; teologiaabolio da escravatura, por exemplo. maioria das mulheres para o domniofeminista. Ora o cnone bblico desempenhou um do privado, do lar, e para os papis papel decisivo nessa luta, ainda que se sociais relacionados com ele, universo1. Violncia e cnonepossa dizer, simultaneamente, que a nico onde seria possvel manter o seuFiorenza chama a ateno para aquilo fora mais poderosa na manuteno daesprito e o seu corpo inferiores eque ela considera ser a produo de umasubmisso da mulher era a religio. Aspecaminosos resguardados da perdioideologia religiosa ba...</p>