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Liliana Andreia Fernandes da Cunha FATORES QUE INFLUENCIAM AS DECISÕES JUDICIAIS NO CRIME DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONJUGAL Mestrado em Criminologia Trabalho realizado sob a orientação do Professor Doutor Jorge Quintas 2014

FATORES QUE INFLUENCIAM AS DECISÕES JUDICIAIS NO CRIME … · 2 Resumo A crescente visibilidade que o crime de violência doméstica conjugal alcançou na sociedade, o aumento de

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  • Liliana Andreia Fernandes da Cunha

    FATORES QUE INFLUENCIAM AS DECISES JUDICIAIS

    NO CRIME DE VIOLNCIA DOMSTICA CONJUGAL

    Mestrado em Criminologia

    Trabalho realizado sob a orientao do

    Professor Doutor Jorge Quintas

    2014

  • 2

    Resumo

    A crescente visibilidade que o crime de violncia domstica conjugal alcanou na

    sociedade, o aumento de casos relatados e a discrepncia existente entre o nmero de casos

    denunciados polcia e os casos julgados, tornou relevante a identificao dos fatores

    associados s decises do Ministrio Pblico e do Tribunal.

    A presente dissertao pretendeu dar um contributo nesse sentido, apresentando como

    principal objetivo de estudo a identificao dos fatores que influenciam as decises judiciais.

    Para esse efeito, recorreu-se anlise documental de 186 processos de violncia domstica

    conjugal iniciados no Departamento de Investigao e Ao Penal (DIAP) da cidade do Porto.

    A partir da literatura revista, identificou-se dois grupos de fatores relacionados com as

    decises judiciais, designadamente fatores legais e extralegais; representados em cinco

    categorias: (i) caractersticas do ofensor; (ii) caractersticas da vtima; (iii) caractersticas

    familiares; (iv) caractersticas do crime; e (v) caractersticas do processo criminal. Cada uma

    das categorias constituda por um conjunto de variveis identificadas pela literatura

    cientfica como sendo associadas s decises judiciais.

    Os resultados sugerem que a deciso de acusao/suspenso e a deciso de condenao so

    influenciados tanto por fatores legais como extralegais, destacando-se a cooperao da vtima,

    a existncia de testemunhas, o registo criminal do ofensor e o uso de armas por serem as

    caractersticas que mais significativamente influenciam as decises judiciais.

    Palavras-chave: violncia conjugal; violncia domstica; acusao; condenao; fatores

    legais e extralegais.

  • 3

    Abstract

    The increased visibility of domestic violence has reached in society, the increase of

    reported cases and the discrepancy between the numbers of cases reported to the police and

    convictions, has become relevant to identify the factors associated with prosecutors charging

    decisions and court outcomes.

    This dissertation aims to contribute in this direction, with the main objective of identifying

    the factors that influence judicial decisions. The data collection was carried by analyzing 186

    cases of domestic violence started in the Departamento de Investigao e Ao Penal (DIAP)

    of Oporto.

    Based on the literature reviewed, were identified two groups of factors related to judicial

    decisions, including legal and extralegal factors, which are represented in five categories: (i)

    offenders characteristics; (ii) victims characteristics; (iii) familys relationship; (iv) crimes

    characteristics; (v) criminal case.

    The results suggest that the prosecutors charging decisions and court outcomes are

    influenced by both legal and extralegal factors, highlighting the victim cooperation, the

    presence of witnesses, offenders prior criminal record and the use of weapons by being the

    characteristics that had significantly effect on judicial decisions.

    Key-words: conjugal violence; domestic violence; prosecution; conviction; legal and

    extralegal factors.

  • 4

    Agradecimentos

    As primeiras palavras de agradecimento dirigem-se ao meu orientador, Professor Doutor

    Jorge Quintas, pela constante disponibilidade e apoio prestado ao longo deste ano, pelas

    crticas construtivas e estmulo intelectual, fundamentais para o desenvolvimento deste

    trabalho.

    Ao Professor Doutor Pedro Sousa pelo esclarecimento de dvidas e sugestes prestadas.

    Ao Departamento de Investigao e Ao Penal do Porto, em particular Dr. Teresa

    Morais e s restantes procuradoras; e aos Tribunais do Bolho e de S. Joo Novo pela

    recetividade demonstrada a esta investigao e um especial agradecimento ao Sr. Pombo e

    Dr. Maria Jos pela incansvel disponibilidade e a forma acolhedora com que sempre me

    receberam.

    Mariana Pinho e ao Bruno Alves, pelo acompanhamento numa primeira fase desta

    investigao, no contexto do trabalho mais amplo de investigao realizada pela Escola de

    Criminologia relativamente avaliao do programa Um Passo Mais.

    Finalmente, um enorme obrigado ao Rodrigo e minha me, Maria, pela fora e apoio que

    demonstraram ao longo destes dois anos de Mestrado, incentivando-me sempre a continuar

    mesmo quando as saudades apertavam.

  • 5

    NDICE GERAL

    Introduo 8

    PARTE I Enquadramento terico ................................................................................. 10

    Captulo 1 Delimitao de conceitos ............................................................................. 10

    Captulo 2 Resposta do sistema de justia criminal ao fenmeno da violncia

    domstica conjugal ............................................................................................................ 12

    1. A criminalizao da violncia domstica conjugal ................................................ 12

    2. O reconhecimento da violncia domstica conjugal como problema social ......... 15

    3. As medidas adotadas pelo sistema de justia criminal .......................................... 19

    Captulo 3 A violncia domstica conjugal em Portugal ............................................. 27

    1. A criminalizao da violncia domstica conjugal ................................................ 27

    2. Dados estatsticos e estudos de investigao portugueses ..................................... 33

    Captulo 4 As decises judiciais ..................................................................................... 36

    1. Perspetivas tericas ................................................................................................ 36

    2. Fatores que afetam as decises judiciais ................................................................ 39

    2.1. Fatores legais .................................................................................................... 40

    2.2. Fatores extralegais ............................................................................................ 45

    PARTE II Estudo Emprico ........................................................................................... 57

    Captulo 1 Metodologia .................................................................................................. 57

    1. Objetivos do estudo ............................................................................................... 57

    2. Amostra .................................................................................................................. 57

    3. Instrumento de recolha de dados ............................................................................ 59

    4. Procedimentos ........................................................................................................ 64

    Captulo 2 - Resultados ..................................................................................................... 66

    1. Deciso do Ministrio Pblico ............................................................................... 66

    1.1. Taxa de acusao/suspenso ........................................................................... 66

  • 6

    1.2. Caracterizao da vtima e do ofensor ................................................................... 67

    1.3. Caracterizao do crime ................................................................................. 70

    1.4. Caracterizao do processo ............................................................................ 72

    1.5. Fatores que influenciam a deciso do Ministrio Pblico .............................. 76

    2. Deciso do Tribunal ............................................................................................... 82

    2.1. Taxas de condenao e absolvio ................................................................. 82

    2.2. Caracterizao da vtima e ofensor ................................................................ 83

    2.3. Caracterizao do crime ......................................................................................... 85

    2.4. Caracterizao do processo ............................................................................ 87

    2.5. Fatores que influenciam a deciso do Tribunal .............................................. 91

    Captulo 3 - Discusso dos resultados .............................................................................. 96

    Captulo 4 - Concluso .................................................................................................... 103

    Referncias bibliogrficas..105

    Anexos117

  • 7

    ndice de Grficos

    Grfico 1. Evoluo do n de denncias registadas pelas autoridades policiais e os

    processos findos nos tribunais de 1 instncia por crime de violncia domstica conjugal e

    anlogos.. 33

    ndice de Tabelas

    Tabela 1. Despacho proferido pelo DIAP (N = 100 a) ........................................................ 67

    Tabela 2. Caractersticas demogrficas da vtima e do ofensor (N = 186) .......................... 68

    Tabela 3. Denncias registadas do ofensor (N= 186) .......................................................... 69

    Tabela 4. Caractersticas do crime (N = 186) ...................................................................... 71

    Tabela 5. Caractersticas do processo em fase de Inqurito (N = 186) ............................... 74

    Tabela 6. Durao do processo criminal em fase de inqurito em meses (N = 186) a ........ 76

    Tabela 7. Relao entre caractersticas da vtima e do ofensor e a deciso de

    acusao/suspenso (N = 186) ............................................................................................. 77

    Tabela 8. Relao entre caractersticas do crime e a deciso de acusao/suspenso

    (N = 186) ............................................................................................................................. 79

    Tabela 9. Relao entre caractersticas do processo e a deciso de acusao/suspenso

    (N = 186) ............................................................................................................................. 81

    Tabela 10. Sentena (N = 71) .............................................................................................. 83

    Tabela 11. Caractersticas demogrficas da vtima e do ofensor (N = 71) .......................... 84

    Tabela 12. Caractersticas do crime (N = 71) ...................................................................... 86

    Tabela 13. Caractersticas do processo em fase de Inqurito (N = 71) ............................... 88

    Tabela 14. Caractersticas do julgamento (N = 71) a ........................................................... 89

    Tabela 15. Durao do processo criminal em meses (N = 71) ............................................ 91

    Tabela 16. Relao entre caractersticas da vtima e do ofensor e a deciso de condenar

    (N = 71) ............................................................................................................................... 92

    Tabela 17. Relao entre caractersticas do incidente e a deciso de condenar (N = 71) .... 93

    Tabela 18. Relao entre caractersticas do processo e a deciso de condenar (N = 71) .... 95

  • 8

    Introduo

    A presente dissertao, desenvolvida no mbito do Mestrado em Criminologia da

    Faculdade de Direito da Universidade do Porto, pretendeu identificar os fatores que

    influenciam as decises judiciais no crime de violncia domstica conjugal.

    Esta investigao insere-se num trabalho mais amplo de investigao da Escola de

    Criminologia, que encontra-se no presente momento a avaliar um programa, sob a designao

    Um Passo Mais, dirigido aos crimes de violncia domstica e de maus tratos, promovido

    pelo DIAP do Porto e em colaborao com a PSP.

    Procedeu-se reviso da literatura que permitiu identificar os principais fatores associados

    s decises do magistrado do Ministrio Pblico e s decises do magistrado judicial. A partir

    da anlise das teorias explicativas da tomada de deciso destes profissionais (Albonetti, 1986,

    1987; Steffensmeier, Ulmer e Kramer, 1998), identificaram-se dois grandes grupos de fatores,

    nomeadamente os fatores legais, que se encontram fundamentados na lei; e os fatores

    extralegais, derivados de juzos e atribuies subjetivas.

    Dentro destas duas categorias de fatores, a literatura identifica diversas variveis

    associadas s decises judiciais, podendo estas serem reconduzidas essencialmente a 5

    categorias: (i) caractersticas da vtima; (ii) caractersticas do ofensor; (iii) caractersticas

    familiares; (iv) caractersticas do crime; (v) caractersticas do processo criminal.

    Para a realizao desta investigao, usmos como metodologia a anlise documental,

    constituindo a amostra um total de 186 processos iniciados no DIAP do Porto. A informao

    foi recolhida atravs da grelha de anlise de processos judiciais, construda para esse efeito e

    procedeu-se posteriormente codificao e transposio para o software SPSS statistics v.21,

    onde se efetuou o tratamento estatstico dos dados.

    Relativamente estrutura, este trabalho composto por duas partes o enquadramento

    terico e o estudo emprico.

    No enquadramento terico feita a reviso do estado de arte. Assim, o captulo 1 procurou

    fazer uma delimitao de conceitos. O captulo 2 e 3 procuraram fazer uma anlise histrica

    sobre o fenmeno da violncia domstica conjugal, identificando as principais causas e

    entraves para a criminalizao deste crime e as solues adotadas que pretenderam combat-

    lo. O captulo 2 visou uma perspetiva ao nvel mundial deste fenmeno, sendo que uma vez

    que a literatura essencialmente anglo-saxnica, incidir particularmente sobre os EUA e o

  • 9

    captulo 3 procurou uma perspetiva ao nvel nacional, centrando-se por isso nos

    acontecimentos ocorridos em Portugal.

    Finalmente, no captulo 4 identifica-se as principais teorias explicativas da tomada de

    deciso dos magistrados e a identificao das principais caractersticas relevantes para essa

    deciso, fazendo uma abordagem aos crimes em geral e depois centrando-se especificamente

    no crime de violncia domstica conjugal.

    Na segunda parte que envolve o estudo emprico feita a apresentao da metodologia

    utilizada, da amostra selecionada, do instrumento escolhido e dos procedimentos que foram

    necessrios para a concretizao desta investigao.

    De seguida so apresentados os resultados da investigao, procedendo-se identificao

    das taxas das decises judiciais, caracterizao da amostra e identificao dos fatores

    significativamente relacionados com essas mesmas decises. Posteriormente feita a

    discusso dos resultados fazendo-se uma comparao entre os dados obtidos e a literatura

    revista, identificando-se possveis interpretaes para os resultados obtidos.

    Finalmente, na concluso so referidos os aspetos mais importantes do estudo, as

    limitaes enfrentadas ao longo da investigao e so sugeridas recomendaes futuras para a

    pesquisa cientfica nesta rea.

  • 10

    Parte I Enquadramento terico

    Captulo 1 Delimitao de conceitos

    O conceito de violncia domstica no definido uniformemente nem existem critrios

    objetivos que permitam adotar um entendimento comum sobre o fenmeno. Existe uma

    diversidade de conceitos diferentes na literatura cientfica, mais ou menos abrangentes e

    incluindo mais ou menos comportamentos considerados como pertencentes a este fenmeno.

    Igualmente, no um fenmeno que atinja apenas um grupo especfico de vtimas, abrange

    mulheres, homens, crianas e idosos.

    Na presente investigao iremo-nos focar apenas na violncia praticada entre casais ou

    parceiros ntimos, por ser esta a modalidade mais praticada e consequentemente a que

    apresenta mais visibilidade na sociedade. Contudo, esta especificao no torna a tarefa de

    delimitar este conceito mais fcil, pois mesmo aqui parece existir uma diversidade de termos.

    At aos anos 70 este fenmeno era identificado como domestic disturbance ou family

    disputes'', entre os anos 70 e 80, momento temporal em que este fenmeno comeou a

    adquirir voz na sociedade, os autores comearam por apelid-lo por battered woman; wife-

    beating e marital violence e domestic violence e, mais recentemente, intimate partner

    violence.

    Assim, por exemplo, o termo battered woman foi inicialmente utilizado na Gr-Bretanha

    pelo movimento das mulheres para transmitir a experincia de violncia persistente e severa

    praticada contra as mulheres, referindo-se apenas agresso fsica (Dias, 2004). O termo

    wife-beating e marital violence limitam os sujeitos, aplicando-se apenas aos parceiros

    formalmente casados. O conceito domestic violence, derivado do latim domus que significa

    casa, caracteriza a violncia ocorrida no seio da famlia, abrangendo diversos tipos de

    violncia e no incluindo apenas o relacionamento entre sujeitos casados ou vtimas

    exclusivamente do sexo feminino.

    Na literatura cientfica mais recente o termo domestic violence e intimate partner

    violence so os conceitos mais utilizados para caracterizar a violncia entre casais (por

    exemplo, Buzawa, 2009; Maxweel, 2009; Garner, 2009). Em Portugal o termo violncia

    domstica utilizado por alguns autores para falar apenas da violncia perpetrada entre

    casais ou parceiros ntimos (por exemplo, Cunha e Gonalves, 2011).

  • 11

    Neste estudo preferimos o conceito violncia domstica conjugal, uma submodalidade do

    conceito mais amplo de violncia domstica previsto no Cdigo Penal Portugus, que retrata

    especificamente s relaes entre cnjuges e parceiros ntimos.

    J dentro dos comportamentos que so abrangidos por este conceito, a literatura revista

    inclui diversos atos para caracterizar este fenmeno. De um modo geral, abrange ameaas e a

    prtica de violncia fsica, sexual ou abuso psicolgico (Payne, 2010).

    Ao nvel da literatura portuguesa, por exemplo, Magalhes (2012) caracteriza a violncia

    domstica como qualquer forma de comportamento fsico e/ou emocional, no acidental e

    inadequado, resultante de disfunes e/ou carncias nas relaes interpessoais, num contexto

    de uma relao de dependncia por parte da vtima (fsica, emocional e/ou psicolgica), e de

    confiana e poder (arbitrariamente exercido) por parte do abusador () .

    J Manita (2005) define como comportamento violento continuado ou um padro de

    controlo coercivo exercido, direta ou indiretamente, sobre qualquer pessoa que habite no

    mesmo agregado familiar, ou que, mesmo no-coabitando, seja seu companheiro ou ex-

    companheiro, e que resulte em danos fsicos, sexuais, emocionais, psicolgicos, imposio de

    isolamento social ou de privao econmica, ou vise dominar o outro, faz-lo sentir-se

    subordinado, incompetente, sem valor, ou viver num clima de medo.

    No seio da legislao, o II Plano Nacional Contra a Violncia Domstica definiu-a como

    () toda a violncia fsica, sexual ou psicolgica que ocorra em ambiente familiar e que

    inclui, embora no se limitando a maus tratos, abuso sexual de mulheres, e crianas, violao

    entre cnjuges, crimes passionais, mutilao sexual feminina e outras prticas nefastas,

    incesto, amelas, privao arbitrria de liberdade e explorao sexual e econmica.

    Em concluso, para efeitos do presente estudo, escolhemos o conceito violncia domstica

    conjugal, incluindo qualquer tipo de violncia praticada entre cnjuges, ex-cnjuges,

    companheiros e ex-companheiros, habitando ou no no mesmo agregado familiar e que

    mantm ou mantiveram uma relao ntima e que provoquem dano ou sofrimento

    significativo.

  • 12

    Captulo 2 Resposta do sistema de justia criminal ao fenmeno da violncia

    domstica conjugal

    1. A criminalizao da violncia domstica conjugal

    O foco atual da sociedade em relao criminalizao da violncia domstica conjugal e

    atuao do sistema de justia criminal no combate a este crime um fenmeno recente. No

    entanto, a literatura cientfica, particularmente anglo-saxnica, indica que a tentativa de

    combater este fenmeno remonta j ao sculo XIX.

    Assim, por exemplo, em Tennessee, nos EUA, por volta de 1850 era criada uma lei contra

    o abuso de mulheres casadas1 (Pleck, 1989). Em Inglaterra a lei foi alterada em 1880 para

    permitir que a mulher habitualmente agredida pelo marido ao ponto de pr em perigo a sua

    vida pudesse separar-se dele, embora no autorizasse o divrcio (Martin, 1976).

    Todavia, o conceito de famlia originado na Roma Antiga, assente no princpio patria

    potestas, que significava em latim o poder do pai e que atribua ao marido o poder de

    disciplinar a mulher sempre que esta revelasse comportamentos inapropriados, permanecia

    profundamente enraizado nas sociedades. De igual forma, a cultura anglo-saxnica reforava

    a ideia de que o marido e a esposa tornam-se numa s pessoa atravs do casamento, ficando

    suspensa a existncia legal da mulher durante o casamento. Apenas em algumas

    circunstncias a lei deixava de considerar o marido e mulher um s, considerando a mulher

    como inferior ao homem e autorizando o marido a disciplinar a esposa sempre que fosse

    necessrio e para que este no tivesse que responder mais tarde em nome da mulher

    (Blackstone, 1753). A nica limitao que existia no poder de disciplinar conferido ao marido

    era a chamada rule of thumb, estando o marido autorizado a bater na mulher desde que a

    vara no fosse mais grossa que o polegar e ficando apenas proibido de causar danos graves ou

    provocar a morte (Martin, 1976; e Archer, 1989). Em Frana, o Cdigo Napolenico (1804)

    estabelecia que as mulheres deveriam ser agredidas todos os dias (Martim, 1976).

    J no incio do sculo XX, a agresso esposa era considerada ilegal por todos os EUA

    (Hanna, 1996), no entanto, o sistema de justia criminal optava pela no aplicao da lei.

    Os autores apontam como principal causa para a no aplicao da lei o entendimento

    segundo o qual a violncia domstica constitua um assunto privado, influenciado pelas

    teorias liberais que entendiam que o Estado deveria desempenhar um papel mnimo na

    1 Alguns autores sugerem que a primeira lei americana contra o abuso de mulheres casadas surgiu em 1641

    na colnia de Massachusetts, proibindo o marido de bater na esposa a menos que fosse em legtima defesa

    (Pleck, 1989; Sewell, 1989).

  • 13

    regulao das questes da unidade familiar, de forma a maximizar a autonomia e capacidade

    de autorrealizao individual (Bailey, 2010).

    Por outro lado, a existncia de vrios mitos tais como o de que a violncia domstica

    constitua um comportamento relativamente raro; que era praticada por indivduos com

    perturbaes psquicas ou com problemas de abuso de substncias; que ocorria apenas em

    famlias com fracos recursos socioeconmicos; e que as mulheres vtimas de violncia

    domstica gostavam das agresses e eram as responsveis porque provocavam a situao

    levaram a uma constante negligncia da sociedade em relao gravidade desta problemtica

    (Gelles e Straus, 1988; Pagelow, 1997).

    Assim, as foras policiais adotavam uma poltica de no interveno em casos de violncia

    domstica. A resposta tpica da polcia consistia em separar as partes envolvidas para resolver

    a crise imediata e restaurar a ordem. As detenes eram extremamente raras, entre a dcada de

    70 e 80 a taxa de deteno variava entre 3% e 15% (Berk e Loseke, 1981; Bell, 1984; Smith e

    Klein, 1984; Worden e Pollitz, 1984; Dutton, 1987; Holmes e Bibel, 1988); e eram muitas

    vezes consequncia das atitudes e comportamentos do agressor para com os agentes, sendo

    utilizada como uma forma de expressar autoridade e no propriamente com o intudo de o

    agressor responder criminalmente ou proteger a vtima (Oppenlander, 1982; Buzawa e

    Hirschel, 2009). Existia inclusive manuais de treino policial instruindo os novatos que a

    deteno deveria ser usada sempre como ltimo recurso (International Association of Chiefs

    of Police, 1967, cit. in Parnas, 1967; Elliot, 1989; Sherman, 1992; e Fagan 1996). E muitas

    vezes a polcia respondia tardiamente a um pedido de ajuda de forma propositada na

    esperana que o problema fosse resolvido antes de chegarem ou que o agressor j no se

    encontrasse no local (Oppenlander, 1982 e Zorza, 1992).

    Igualmente, existia a tendncia entre procuradores e juzes de no prosseguirem

    criminalmente com os casos de violncia domstica. Entendiam que no era adequado a

    utilizao do direito penal para a resoluo deste problema por considerarem que a violncia

    domstica no era um verdadeiro crime mas sim uma mera disputa ou distrbio familiar e,

    sendo a famlia sagrada deveria ser feito tudo o que fosse possvel para preservar a sua

    privacidade e mant-la unida (Martin, 1976; Lerman, 1981; Rowe, 1985; Archer, 1989). Por

    outro lado, vigorava o entendimento de que em muitos casos a violncia era provocada pela

    vtima, pelo que adotavam uma postura de compreenso com o ato violento praticado pelo

    marido (Fields, 1978; Lerman, 1981; e Hart, 1993).

  • 14

    Os procuradores indicavam como principal causa para a falta de acusaes a recusa das

    mulheres em apresentar queixa, o pedido posterior para retirar a queixa ou a recusa de

    testemunhar em tribunal (Parnas, 1971; Fields, 1978). Tal acontecimento poderia resultar do

    receio da vtima em sofrer represlias do agressor; da reconciliao com o marido ou pela

    pouca ou nenhuma informao recebida sobre o funcionamento do sistema de justia

    criminal, no entanto, em alguns casos eram os prprios procuradores que desencorajavam

    deliberadamente as vtimas a apresentar queixa ou a prosseguir com a acusao (Martim,

    1976; e Lerman, 1981; Hart, 1993; Goodman e Epstein, 2011).

    Segundo Parnas (1973), quando os procuradores decidiam no ignorar os casos optavam

    por uma soluo rpida de forma a encerrar o caso o mais rpido possvel (cit. in Fields, 1978;

    Davis, Smith, Nickles, 1997; e Davis, Smith, Taylor, 2003).

    Assim, tal como os polcias adotavam polticas de no deteno, utilizando-a apenas como

    ltimo recurso, tambm os procuradores tinham polticas de no acusao optando pela

    aplicao de diversion programs para manter os casos de violncia familiar fora dos

    tribunais, preferindo esta medida s sanes punitivas tradicionais por considerarem-nas

    demasiados duras para as disputas familiares (Maxwell, Robinson e Klein, 2009). Os

    diversion programs poderiam passar por ameaar o agressor que seria preso se continuasse

    a agredir a esposa ou encaminhar o casal para um centro de mediao comunitria (Fields,

    1978).

    J os juzes, geralmente adiavam a audincia o mximo de tempo possvel na esperana

    que as partes resolvessem o problema e quando chegava a audincia aconselhavam a vtima a

    esquecer o conflito e a reconciliar-se com o marido; ordenavam o aconselhamento

    matrimonial; encaminhavam o agressor para os servios sociais ou tratamento psiquitrico ou

    emitiam uma peace bond2 (Martim, 1976; Fields, 1978; e Maxwell, Robinson e Klein,

    2009). Nos casos em que no era possvel o entendimento entre o casal, o juiz via sempre no

    divrcio a soluo para o problema familiar, por isso, aconselhava a vtima a divorciar-se e

    encerrava o processo criminal (Fields, 1978).

    Detinham sempre alguma relutncia em impor sanes graves e at intermdias, por

    recearem as consequncias derivadas da aplicao de sanes, como a remoo da figura do

    pai, a perda do emprego ou a reduo do oramento da famlia, considerando que a aplicao

    2 Peace bond consistia no pagamento de uma quantia para assegurar ou incentivar o agressor a manter a

    paz, isto , a no agredir novamente a vtima (Martim, 1976).

  • 15

    de uma sano poderia originar mais consequncias para a unidade da famlia do que

    propriamente o crime (Parnas, 1971).

    Em geral, o sistema de justia criminal era percebido como insensvel problemtica da

    violncia domstica e s necessidades das vtimas. A recusa dos polcias em deter o agressor e

    dos procuradores e juzes em prosseguir e julgar criminalmente mostravam vtima e

    sociedade em geral que a violncia familiar no era um verdadeiro crime e dava permisso ao

    agressor para continuar o seu comportamento violento.

    2. O reconhecimento da violncia domstica conjugal como problema social

    O primeiro grande passo para o reconhecimento da violncia domstica conjugal como

    problema social foi dado durante os anos 60 do sculo XX com o surgimento dos movimentos

    feministas, caracterizados pela partilha de experincias pessoais das vtimas, permitindo-lhes

    conhecer as semelhanas das suas experincias e a forma sistemtica como eram tratadas na

    sociedade. Inicialmente estes movimentos concentraram-se na problemtica das agresses

    sexuais, mas depressa perceberem que a violncia contra as mulheres era perpetrada

    principalmente pelo seu parceiro ou marido (Buzawa e Hirschel, 2009). Ao compartilharem

    histrias de abuso com outras mulheres, as vtimas de violncia domstica constataram que o

    problema no estava relacionado com os seus defeitos pessoais, mas sim com o estatuto

    poltico dos homens e mulheres em geral, constituindo este o primeiro passo para o

    movimento de libertao das mulheres, criado para agir contra as estruturas polticas que

    permitiam que as mulheres fossem vtimas de violncia.

    Tal como refere Blackman (1989, p. 10), as feminist activists moved the problem from the

    taboo to the talk about, new notions of justice were advocated, and the inalienable rights of

    women () were emphasized.

    Uma das ativistas feministas a destacar ser Carol Hanisch que ficou conhecida pela

    clebre frase the personal is political (1970), proclamando que os problemas pessoais so

    problemas polticos (cit. in Hanisch, 2006), no bastando uma soluo pessoal de alterao de

    comportamentos em casa para resolver o problema familiar, era necessrio uma soluo

    poltica. Ops-se assim dicotomia entre domnio pblico e privado, defendendo que o

    problema da violncia praticado pelos maridos contra as mulheres deveria ser alvo de

    interveno por parte do Estado.

    A sensibilizao destes grupos para o fenmeno da violncia domstica inspirou criao

    de abrigos para vtimas durante o movimento das mulheres agredidas.

  • 16

    A ativista Erin Pizzey foi a responsvel pela criao, em 1971, do primeiro abrigo3 de

    mulheres agredidas em Inglaterra. Inicialmente o que comeou por ser um centro de

    aconselhamento para mulheres casadas levou constatao de que a maioria das mulheres era

    agredida pelos seus maridos. As mulheres vtimas de violncia perpetrada pelos seus maridos

    encontravam nas casas de abrigo o refgio e proteo imediata que lhes era negada pela

    polcia. Passados trs anos, Pizzey publicou o livro "Scream Quietly or the Neighbors Will

    Hear", onde relatou experincias de mulheres vtimas de violncia, tornando este problema

    visvel na sociedade e demonstrando que o sistema de justia criminal falhava em assegurar

    proteo s vtimas (cit. in Tierney, 1982; Rowe, 1985; Gelles e Straus, 1988). No mesmo

    ano, mas do outro lado do Atlntico, era publicado "Wife Beating: Crime and No Punishment"

    por Schwartz e Mills, demonstrando que a recusa constante da polcia em ajudar as mulheres

    agredidas tambm era um problema que ocorria nos EUA (Fields, 1978). A par das casas de

    abrigo foram tambm criadas linhas de apoio telefnico para fornecer apoio s mulheres

    agredidas em momentos de crise (Tierney, 1982).

    Se, num primeiro momento, o movimento das mulheres agredidas focou a sua ateno na

    criao de programas e no fornecimento de recursos para as mulheres enfrentarem as

    realidades sociais e econmicas que as impediam de abandonar as relaes abusivas; mais

    tarde, concentrou-se no sistema de justia criminal, uma vez que apesar de j ser uma conduta

    criminalizada verificava-se uma falta de aplicao das leis contra os homens que batiam nas

    mulheres.

    As ativistas feministas designaram esta recusa de fazer cumprir a lei como um sintoma de

    valores patriarcais e uma ferramenta para manter o domnio do gnero, passando a focar a sua

    ateno nas questes de desigualdade e nas atitudes sociais patriarcais (Bailey, 2010),

    exercendo presso poltica para a criao de novas solues ao nvel legislativo e adoo de

    comportamentos mais agressivos por parte da polcia (Tierney, 1982; Sherman e Berk, 1984a,

    1984b; Fagan, 1996). Censuraram, em especial, as polticas de no interveno criminal

    adotadas pelo sistema de justia criminal, que transmitiam a ideia de que a violncia

    domstica era tolerada; e o uso da mediao com instrumento de interveno, porque ignorava

    o perigo que as mulheres corriam ao permanecerem nas relaes abusivas e assumia igual

    culpa entre as partes (Erez, 2002 e Buzawa e Hirschel, 2009).

    3 Existe alguma controvrsia quanto primeira casa de abrigo criada nos EUA, alguns autores referem que a

    primeira surgiu na Califrnia, em 1964 (Gelles, 1988), enquanto outros referem que foi apenas em 1973 que

    surgiu o primeiro abrigo para mulheres agredidas em Arizona (Tierney, 1982).

  • 17

    Por outro lado, o fracasso do sistema de justia criminal em proporcionar proteo e s

    mulheres agredidas comeou a ganhar a ateno pblica atravs da instaurao de diversos

    processos judiciais contra a polcia e procuradores e juntamente com a sua divulgao na

    comunicao social (Zorza, 1992; Buzawa e Buzawa, 1993; Buzawa e Hirschel, 2009).

    Para alm da presso poltica exercida pelo movimento das mulheres agredidas e o receio

    de mais aes judiciais intentadas contra os departamentos policiais, outros acontecimentos

    foram determinantes para esta mudana.

    O surgimento de estudos empricos durante essa poca serviram para corroborar com o

    defendido pelo movimento das mulheres agredidas e tiveram extrema importncia para

    convencer os decisores polticos e o pblico em geral de que a mesma era ampla o suficiente

    para ser considerada como problema social legtimo, especialmente por a definio de

    problema social exigir um comportamento prejudicial para um nmero significativo de

    pessoas. A National Incidence Survey constatou que em 1/4 dos lares familiares as mulheres

    eram vtimas de violncia domstica, demonstrando que o problema da violncia domstica

    era mais comum na sociedade do que se pensava (Straus et al., 1980 cit in. Gelles, 1985 e

    Fagan, 1996).

    Outros estudos demonstraram que as formas de interveno efetuadas pela polcia em

    casos de incidentes domsticos no eram eficazes a prevenir a prtica de crimes futuros. Por

    exemplo, Bannon e Wilt em 1974 conduziram um estudo com o Departamento da Polcia de

    Missouri e descobriram que em cerca de 85% dos homicdios a polcia respondeu pelo menos

    uma vez a chamadas de distrbios domsticos no mesmo local onde ocorreu o homicdio e

    entre o espao temporal de dois anos precedentes ao mesmo evento; e em 50% dos casos

    respondeu cinco ou mais vezes. E em Detroit foram obtidos resultados semelhantes, 62% dos

    homicdios familiares envolveram incidentes anteriores intervencionados pela polcia (cit. in

    Fields, 1978; Sherman e Berk, 1984; Holder, 2001).

    Durante a mesma poca cresceu a doutrina do nothing works, iniciada por Martinson em

    1974 aps analisar a eficcia de vrios programas de reabilitao de infratores e concluir que,

    com poucas e isoladas excees, no havia evidncias empricas que mostrassem que a

    reabilitao tivesse efeitos significativos sobre a reincidncia. Esta doutrina teve repercusses

    nas polticas pblicas, uma vez que se os programas no funcionavam no havia justificao

    para investir recursos nos mesmos, passando a soluo a voltar-se para a implementao de

    novas leis mais severas e reforando a capacidade de punir por parte da polcia para deter o

    crime atravs do cumprimento da lei (Buzawa e Hirschel, 2009).

  • 18

    Estudos relativos compreenso do fenmeno da violncia domstica comearam tambm

    a ganhar ateno, por exemplo The Battered Women escrito por Leonor Walker em 1979,

    descreve a sndrome da mulher agredida desenvolvido atravs do ciclo de agresso,

    enumerado em trs fases: a fase da construo de tenso, caracterizada por insultos verbais,

    ameaas e incidentes menores; a fase de agresso aguda, onde ocorre a descarga incontrolvel

    de tenso, a mais violenta e perigosa podendo provocar leses graves e at a morte; e a fase

    amorosa contrita, em que o agressor percebe que foi longe demais e promete mulher que no

    voltar a ser violento, convencendo-a a continuar a viver consigo. Eventualmente, a fase da

    calma seguida novamente por um lento acumular de tenso, voltando a repetir-se

    ciclicamente. O sndroma da mulher batida permitiu uma melhor compreenso deste

    fenmeno e acabou com alguns mitos que existiam em relao ao abuso de mulheres,

    nomeadamente a vtima ser a responsvel pela situao porque provocava o agressor e de que

    gostava das agresses, (Walker, 1974; cit. in Gelles e Straus, 1988; Archer, 1989).

    A experincia de Minneapolis efetuada entre 1981 e 1982 foi o primeiro estudo sobre os

    efeitos da deteno e indicada pelos autores como um dos acontecimentos mais importantes

    para a alterao de polticas (Gelles, 1988; Elliot; 1989; Buzawa e Buzawa, 1993, 1996;

    Fagan, 1996; Pagelow, 1997; Holder, 2001; Goodman e Epstein, 2011). Este estudo decorreu

    ao longo de seis meses e analisou as diferentes formas de interveno adotadas pela polcia

    nos casos de violncia domstica, nomeadamente a deteno, a mediao ou

    acompanhamento do indivduo para fora do local, a partir dos registos oficiais da polcia e de

    entrevistas com as vtimas. Os resultados demonstraram que a deteno era a interveno com

    mais sucesso em impedir a ocorrncia de novos incidentes, quer na anlise dos registos

    oficiais da polcia quer na anlise das entrevistas com as vtimas. No primeiro caso registou-

    se novas intervenes da polcia em apenas 10% dos casos em que houve deteno, em

    comparao com os 19% no caso da mediao e 24% nos casos de abandono do local por

    algumas horas. J no caso das entrevistas s vtimas, novas intervenes policiais foram

    necessrias em 19% dos casos de deteno, em comparao com 37% nos casos de mediao

    e 33% nos casos de abandono do local (Sherman e Berk, 1984a, 1984b).

    Esta experincia levou a replicaes em cinco outras cidades, no entanto, nem todas

    alcanaram concluses semelhantes, em Omaha, Milwaukee e Charlotte os estudos relataram

    que as detenes aumentavam significativamente a violncia subsequente, em comparao

    com aqueles que eram detidos, enquanto nas outras duas cidades (Colorado Springs e Miami)

    as concluses foram semelhantes experincia de Minneapolis, ou seja, que a deteno

  • 19

    dissuade novos incidentes (Sherman, 1992; Zorza, 1992; Buzawa e Buzawa, 1993; Fagan,

    1996; Pagelow, 1997)4.

    Apesar da divergncia de concluses sobre os efeitos da deteno, o estudo de Sherman e

    Berk em 1984 fomentou a aplicao de polticas a favor da deteno ao eleg-la como meio

    de interveno mais indicado para a maioria dos casos de violncia domstica.

    No mesmo ano, a Procuradoria-Geral dos EUA apoiou as concluses do estudo de

    Minneapolis e recomendou a adoo de polticas pr-deteno para a violncia domstica em

    todo o pas (U.S. Attorney General, 1984, cit. in Gelles, 1988; Fagan, 1996; e Hanna, 1996).

    Uma pesquisa nacional feita por telefone antes da publicao do estudo de Minneapolis

    determinou que apenas 10% dos departamentos da polcia em todo o pas incentivavam a

    aplicao da deteno em casos de violncia domstica; passados apenas dois anos, uma nova

    pesquisa registou um aumento para 43% (Sherman, 1989, 1992).

    Em consequncia da presso poltica exercida pelo movimento feminista, os processos

    judiciais contra os departamentos policiais por negligncia e falha em garantir igual proteo

    s vtimas de violncia domstica e as descobertas provenientes dos estudos empricos, em

    especial a reportada pelo estudo de Minneapolis originou um movimento nacional para a

    implementao de novas polticas como resposta aos casos de violncia domstica.

    3. As medidas adotadas pelo sistema de justia criminal

    A partir dos meados da dcada de 1980, vrios Estados dos EUA adotaram polticas a favor

    da deteno de forma a diminuir a discricionariedade dada polcia atravs da promulgao

    de leis prevendo a deteno como meio de interveno obrigatria nos casos de violncia

    domstica ou pelo menos como resposta preferencial nos casos em que haja causa provvel

    (Erez, 2002; Hirschel e Faggiani, 2012).

    Alguns estudos referem que apesar de a lei impor a deteno em casos de violncia

    domstica, a polcia ainda exerce um poder discricionrio e nem sempre usa a deteno como

    resposta. Por exemplo, Ferraro (1989) estudou a polcia de Phoenix, em Arizona, trs semanas

    aps a adoo da poltica de pr-deteno e registou detenes em apenas 18% dos casos de

    violncia domstica, demonstrando que a poltica adotada pelos departamentos policiais

    apenas um dos fatores que influencia a tomada de deciso do agente da polcia em casos de

    4 Estudos mais recentes sobre a dissuaso da deteno sugerem que esta mais eficaz a produzir um efeito

    dissuasor quando acompanhada pela acusao, condenao e uma punio adequada ao agressor (Steinman,

    1991, Ford e Regoli, 1993; Tolman e Weisz, 1995; Wooldredge e Thistlethwaite, 2001).

  • 20

    violncia familiar. A autora aponta como fatores influenciadores da deciso a interpretao

    subjetiva da lei, alguns agentes consideram que para haver causa provvel para deteno basta

    a presena de leses visveis, danos materiais na casa, presena de armas ou existncia de

    testemunhas, enquanto para outros agentes os ferimentos ligeiros, danos materiais na casa e a

    existncia de crianas como testemunhas no so suficientes para criar causa provvel para

    deter o agressor. Tambm fatores ideolgicos ou crenas dos polcias em relao s mulheres

    agredidas, tais como ser escolha das vtimas permanecerem nas relaes abusivas;

    consideraes prticas, tais como a quantidade de trabalho envolvido no processamento de

    uma deteno que poderia ser despendido no combate a outros crimes, so fatores que afetam

    a deciso de deter os agressores (Ferraro, 1989). J na dcada de 90 novos estudos

    comprovaram um aumento nas taxas de deteno, por exemplo, em Bourg e Stock (1994),

    Buzawa e Austin (1993), Mignon e Holmes (1995) e Robinson e Chandek (2000) as taxas de

    deteno atingiram, respetivamente, 28,8%, 29,4%, 33,2% e 36,2%.

    Um estudo mais recente realizado por Hirschel, et. al. (2007) determinou uma taxa de

    deteno de 37% de detenes, sendo que nos Estados onde existem leis de deteno

    obrigatria ou como meio prefervel de interveno apresentam taxas de deteno

    significativamente maiores em comparao com os Estados em que a lei atribui poder

    discricionrio ao agente policial na escolha do meio de interveno. No entanto, os casos de

    violncia domstica em Estados com leis de deteno obrigatria eram menos propensos a

    resultar em condenao do que os casos que ocorrem em Estados onde as leis atribuem poder

    discricionrio polcia.

    A literatura cientfica aponta tambm consequncias negativas da implementao de

    polticas a favor da deteno, designadamente um aumento de duplas detenes, isto ,

    deteno simultnea do agressor e da vtima (Jordan, 2004; Martin, 1997), apesar de estudos

    revelarem que a maioria dos agressores do sexo feminino eram vtimas de violncia e que

    usavam meios fsicos como forma de defesa contra os seus agressores (Saunders, 1995). Em

    resposta a esta situao, alguns Estados acrescentaram na lei que prev a deteno em casos

    de violncia domstica a identificao e deteno apenas do agressor primrio (Holmes, 1988;

    Connolly, Huzurbazar e Routh-McGee, 2000). Ainda assim, os polcias tendem a aplicar

    dupla deteno nos casos em que difcil identificar o agressor primrio ou quando ambas as

    partes apresentam ferimentos ligeiros (Mignon, 1995).

    A par desse aumento de duplas detenes verificou-se tambm um decrscimo no nmero

    de chamadas a reportar violncia domstica, Martin (1997) sugere que o medo da dupla

  • 21

    deteno desencoraja as vtimas a relatar os abusos; e estudos revelaram que esse receio um

    dos motivos mais invocados pelas vtimas para no voltar a pedir ajuda da polcia (por

    exemplo, Johnson, 2007).

    Em Hirschel et. al. (2007) demonstrado que as leis de deteno obrigatria aumentaram

    significativamente a probabilidade de dupla deteno, enquanto as leis que apenas

    determinam a preferncia da deteno como meio de interveno policial no produzem um

    impacto significativo sobre a probabilidade de dupla deteno. Por outro lado, nos Estados

    onde existem leis ou polticas para a identificao do agressor primrio apresentaram taxas

    inferiores de dupla deteno em comparao com o nico Estado onde no existia leis ou

    instrues de identificao do agressor primrio, sendo esse o que detinha de longe a taxa de

    dupla deteno mais alta.

    As polticas a favor da deteno aumentaram a taxa de deteno em casos de violncia

    domstica, no entanto, parece no ter tido qualquer influncia para o aumento das taxas de

    acusao e condenao (Davis, Smith e Nickles, 1997; Buzawa, 1999). Na realidade, o

    aumento do nmero de detenes resultou num aumento de casos rejeitados pelo Ministrio

    Pblico, por exemplo, no estudo de Rauma (1984) 51,7% dos casos foram arquivados pelo

    procurador, em 37,7% dos casos foi aplicado um diversion program5 e apenas 10,6%

    resultaram em acusaes remetidas para tribunal para julgamento. Davis e Smith (1995)

    detetaram uma taxa de 80% de casos rejeitados em Milwaukee, referindo mesmo que as

    polticas a favor da deteno simplesmente transferiram o poder discricionrio da polcia para

    as mos dos procuradores.

    A literatura aponta como principal motivo para esta baixa taxa de acusao a falta de

    cooperao da vtima (Hanna, 1996; Davis, Smith e Nickles, 1997; Bui, 2001). Vrios estudos

    referem que quase metade das vtimas entrevistadas no deseja procedimento criminal contra

    o agressor (Buzawa, et. al., 1999; Smith, Davis, Nickles e Davies, 2001; e Hartley e

    Frohmann, 2003). Sendo a vtima geralmente a nica testemunha da violncia domstica, j

    que este tipo de violncia perpetrada frequentemente entre quatro paredes, quando a mesma

    recusa-se a testemunhar torna menos provvel a condenao do seu agressor.

    5 Constitui uma alternativa acusao ou condenao, semelhante liberdade condicional, impondo

    certas restries ou regras de conduta, por exemplo programas de reabilitao e reparao atravs de

    indemnizao da vtima. um instrumento utilizado pelos procuradores para obterem uma confisso de culpa

    sem terem que ir a julgamento ou uma forma de convencerem as vtimas a cooperarem (Rauma, 1984). Este

    programa suspende o julgamento por um determinado perodo de tempo, se durante esse tempo o ru cumprir

    com as injunes o incidente fica fora do registo criminal do ru, caso contrrio volta a tribunal para ser julgado

    por esse crime.

  • 22

    sugerido como causas para a falta de cooperao da vtima a situao de dependncia

    econmica da vtima; a reconciliao com o agressor; o pouco ou nenhum apoio fornecido

    pelo sistema de justia criminal, o que leva perda de interesse da vtima; e o medo de

    represlias por parte do agressor originado pelo sentimento de que o sistema de justia no a

    protegeu adequadamente (Hart, 1993, Corsilles, 1994; Bui, 2001). J outros referem que a

    partir do momento em que o agressor detido e a vtima obtm uma providncia cautelar,

    muitas das vtimas perdem a motivao para cooperar com o processo por j se sentirem

    seguras (Davis, Smith e Nickles, 1997).

    Para solucionar este problema, foram implementadas novas polticas na tentativa de

    facilitar o julgamento dos casos de violncia domstica e de responsabilizar mais agressores

    pelo seu comportamento violento atravs do processo criminal. Em vrios Estados foi

    aplicada a poltica no-drop charges, que permite ao procurador prosseguir com o caso mesmo

    quando a vtima deixa de querer prosseguir com a queixa (Corsilles, 1994; Bui,2001).

    Esta poltica foi pioneira em Duluth e San Diego nos finais da dcada de 80 e apoiou-se

    essencialmente na recolha de outras evidncias probatrias para alm do testemunho da

    vtima para garantir que os processos pudessem ser acusados mesmo quando a vtima

    recusasse cooperar, tais como as gravaes da chamada de emergncia efetuada pela vtima,

    as fotos das leses, os relatrios mdicos e as declaraes de testemunhas.

    Os tericos subdividem esta poltica em duas categorias, a hard no-drop, que consiste em o

    procurador prosseguir com o caso, podendo mesmo intimar a vtima para depor e ordenar

    mandado de conduo quando esta no comparecer em tribunal, caso o processo no possa ser

    provado sem o seu testemunho; e a poltica soft no-drop, que em vez de forar a vtima a

    participar no processo criminal, fornece servios de apoio destinados a acompanhar as vtimas

    durante todo o processo criminal, mantendo-as informadas sobre a ao judicial e prestando

    apoio jurdico bem como emocional, incentivando a mesma a continuar com o processo

    (Hanna, 1996).

    Para os defensores da poltica no-drop charges estas foram eficazes para diminuir as taxas

    de rejeio dos casos, alguns relatrios iniciais indicaram uma descida para taxas entre os

    10% e 35% em comparao com 50% a 80% nos Estados que no adotaram estas polticas; e

    facilitaram a cooperao das vtimas, variando a taxa entre os 65% e os 95% (Corsilles,

    1994). Os autores referem ainda que esta poltica foi essencial para garantir a segurana das

    mulheres, porque reduzem a probabilidade de violncia futura em comparao com a

    possibilidade de desistncia (Lerman, 1981; Corsilles, 1994). Ora, se existir a possibilidade da

  • 23

    vtima retirar a queixa ento o agressor ir usar a violncia como meio para forar a vtima a

    retirar a queixa, por isso, se no existir essa possibilidade o uso de violncia no servir para

    nenhum fim e s ir reforar mais a acusao contra si. Por outro lado, o processo de acusao

    pode ser uma ferramenta invocada pela vtima atravs da ameaa de instaurao de processo

    criminal para deter novos atos de violncia, se for permitido a desistncia do processo

    criminal a ameaa no seria eficaz o suficiente para deter o homem, uma vez que este poderia

    obrig-la a retirar a acusao. Para alm de que o crime de violncia domestica considerado

    um crime contra a ordem pblica e no apenas um crime individual contra a vtima. Assim

    quando um indivduo viola uma lei penal que criminaliza a violncia domstica comete um

    delito censurvel pela sociedade e, por isso, agindo o Estado no interesse da comunidade deve

    punir o agressor para restabelecer a ordem, pelo que a desistncia do processo no deve ser

    uma faculdade da vtima (Buzawa e Buzawa, 1996).

    Esta poltica limita ainda o poder de discricionariedade dos procuradores quanto rejeio

    de casos. Era comum estes magistrados justificarem a taxa elevada de casos rejeitados por a

    vtima no cooperar, com a nova poltica s podero justificar a rejeio de um caso se no

    existir provas suficientes para condenar o agressor em tribunal (Corsilles, 1994). Por outro

    lado, limitando o nmero de casos que so rejeitados levar a um aumento da taxa de

    acusaes. Estudos comprovam esse aumento na taxa de acusaes, por exemplo, um estudo

    de Smith et. al. (2001) realizado em quatro cidades que adotaram polticas no-drop charges

    (Omaha, Everett, Klamath Falls e San Diego) determinou um aumento considervel nas taxas

    de acusao de, respetivamente, 69%, 76%, 91% e 97%. Em Milwaukee aps a adoo da

    poltica de deduo de acusao sem o apoio da vtima, a taxa de acusao passou dos 20%

    para os 60% (Davis e Smith, 1995). Finalmente, do ponto de vista de dissuaso geral, se as

    vtimas no tiverem a possibilidade de retirar a acusao, transmite-se a ideia que uma vez

    apresentada queixa contra o agressor este ser inevitavelmente levado a julgamento (Lerman,

    1981).

    Os crticos, por sua vez, entendem que a poltica de no-drop charges poder ter um efeito

    indesejvel, nomeadamente diminuir a taxa de denncias deste crime, a vtima pode pensar

    duas vezes antes de pedir ajuda sabendo que se reportar o crime ir perder o controlo do

    processo. Por outro lado, esta poltica no facilitou a cooperao, muito pelo contrrio, pois

    estudos indicam que cerca de metade das vtimas optam por no cooperar (Mcleod, 1983, Bui,

    2001) e uma vtima que no deseje cooperar ser uma fraca testemunha e, consequentemente,

    a probabilidade do agressor ser condenado ser baixa (Buzawa e Buzawa, 1996).

  • 24

    A principal crtica apontada pela doutrina ser prejudicial para a vtima, para alm de

    limitar a sua liberdade de escolha, pode impedir a concretizao dos objetivos que a vtima

    visou alcanar com a apresentao da queixa. A possibilidade de apresentar e posteriormente

    desistir da queixa pode ser usada como um recurso pela vtima para gerir o conflito com o

    parceiro, usando a ameaa de prosseguir com queixa como um mecanismo para fazer o

    agressor cessar com a violncia (Ford, 1991). Esta teoria foi comprovada pelo estudo

    realizado em Indianapolis ao demonstrar que a ameaa de acusao por parte da vtima

    apresentava efeitos dissuasores, levantando a questo do empowerment da vtima (Ford,

    1993). Finalmente, outros referem que o aumento na taxa de acusaes ser apenas um efeito

    provisrio, quando os advogados de defesa passarem a aceitar a nova poltica que prescinde a

    cooperao da vtima passaro a negociar com os procuradores alterativas ao julgamento e as

    taxas de acusao diminuiro novamente (Smith et. al., 2001).

    Para alm da implementao desta poltica no drop charges, foram criadas unidades

    especializadas de procuradores e tribunais especializados para o julgamento exclusivo de

    crimes de violncia domstica, ambos especializados unicamente para a perseguio deste

    crime e com formao adicional sobre a problemtica da violncia domstica, criados com o

    objetivo de reduzir o tempo que um processo criminal demora at ser julgado, na esperana de

    reduzir a possibilidade de os agressores ameaarem as vtimas e de as vtimas mudarem de

    ideias e desistirem da acusao (Davis, Smith e Nickles, 1997).

    Milwaukee foi uma das primeiras cidades a criar um tribunal especializado em violncia

    domstica em 1994 e no espao de uma dcada passou a existir mais de 200 tribunais por

    todos os EUA (Harley e Frohmann, 2003). A criao de postos de trabalho de advogados para

    as vtimas tambm revelou-se uma medida importante, na medida em que mantm contacto

    regular com a vtima para prevenir novas ofensas, informar do estado do processo e sugerir

    servios de apoio.

    As unidades especializadas de procuradores e tribunais revelaram um aumento

    significativo nas taxas de acusao e condenao. Em Buzawa et. al. (1999) referido que a

    unidade especializada de procuradores apresentava uma taxa de 70% de acusaes. No

    estudo de Henning e Feder (2005), resultaram acusaes em cerca de 79% dos casos em que

    ocorreram detenes e dentro desses 70,5% foram condenados no tribunal especializado. Em

    Davis (1998), a taxa de acusao foi de 59% e dentro desses 62% resultaram em condenaes.

  • 25

    A implementao de polticas mais severas recebeu vrias crticas por parte de alguns

    autores, em especial a partir da dcada de 90, que sugeriram que a soluo para o combate

    deste problema no se encontrava na punio, mas sim na preveno e no tratamento.

    semelhana da deteno, o efeito dissuasor da acusao e condenao extremamente

    controverso. Ventura e Davis (2004) sugerem que os infratores que recebem penas mais

    graves, nomeadamente priso e liberdade condicional so os menos propensos a reincidir.

    Mais tarde, Wooldredge, e Thistlethwaite (2002) abrangeram aqueles que foram absolvidos do

    processo e os que no chegaram a ser alvo de acusao por parte do Ministrio Pblico e

    concluram que as probabilidades de reincidncia eram significativamente maiores para

    aqueles que no sofreram queixas, sugerindo a existncia de um efeito dissuasor da

    interveno formal. As mesmas concluses sobre a existncia de um efeito dissuasor na

    acusao esto presentes em Ford e Regoli (1993) e Tolman e Weisz (1995). Outros estudos

    apresentam concluses contrrias, sugerindo que as acusaes e condenaes no dissuadem,

    por si s, a prtica de novas ofensas, por exemplo, Davis, Smith e Nickles (1998); Buzawa, et.

    al. (1999); Gross et. al. (2000); e Hirschel et. al (2007). Alguns autores afirmam que priso

    ou liberdade condicional deve seguir-se a aplicao de um programa de tratamento para que

    seja eficaz o efeito de dissuaso (Syers e Edleson, 1992; Gross et. al., 2000).

    De particular destaque foi tambm o Duluth Domestic Abuse Intervention Project, que

    props um conjunto de novas prticas pioneiras para intervir sobre a violncia, baseando-se

    num modelo de interveno na comunidade, apresentando como principal objetivo a

    coordenao de diversas instituies, designadamente a polcia, Ministrio Pblico, servios

    de sade, casas de abrigo para mulheres e servios de liberdade condicional; e tendo como

    principal preocupao garantir a segurana da vtima. Este projeto compreendeu ainda uma

    implementao de um programa de interveno para agressores, baseado na roda do poder e

    do controlo, assente na conceo terica da violncia enquanto estratgia utlizada para

    controlar o comportamento dos outros e que afirma que a violncia diz respeito a um padro

    de comportamentos e no a meros incidentes isolados de abuso ou a exploses de raiva

    (Manita, 2005).

    Alguns autores sugerem que este programa assinalou uma mudana essencial na resposta

    do sistema de justia criminal ao mudar o foco de interveno da vtima para o agressor,

    sugerindo ainda que este melhorou a capacidade do sistema de justia em dissuadir os

    agressores (Pence, 1983).

  • 26

    Os programas de reabilitao destinados a ofensores de violncia tornaram-se uma sano

    frequentemente aplicada pelos tribunais e classificam-se sobretudo em dois tipos de

    programas: o modelo feminista psico-educacional, que defende que a principal causa da

    violncia domstica a ideologia patriarcal e a sano social implcita de que os homens tm

    o poder de controlar as mulheres, no faz diagnsticos nem intervenes, atua atravs da

    conscientizao de comportamentos de igualdade; e o modelo cognitivo-comportamental, que

    d principal importncia violncia, tendo por isso como principal objetivo ensinar os

    infratores a adotar comportamentos no violentos atravs, por exemplo, de tcnicas de

    controlo da raiva.

    Em relao sua eficcia, por exemplo, Coulter e VandeWeerd (2009) analisaram um

    programa de interveno para os ofensores de violncia domstica que atende no s s

    necessidades da maioria dos infratores como tambm aos subtipos que exigem servios

    tpicos por apresentarem caractersticas especiais, tais como terem presenciado episdios de

    violncia em criana ou possurem um distrbio mental grave e concluram que o programa

    apresentou resultados muito positivos ao nvel da taxa de reincidncia. E, de um modo geral,

    alguns estudos de meta-anlise determinaram que a interveno de programas apresenta um

    efeito positivo, ainda que reduzido, sobre a reincidncia futura dos participantes (Babcock,

    Green e Robie, 2004).

    O reconhecimento da violncia domstica como problema social merecedor de interveno

    por parte do sistema de justia criminal tardou a emergir, mas a partir do momento em que a

    sociedade tomou conscincia da dimenso do problema adotou medidas para combater este

    fenmeno atravs da implementao de reformas legislativas e da consciencializao social e

    poltica para a gravidade deste crime. E se at algumas dcadas atrs a maioria dos pases

    tendia a negligenciar a existncia deste problema, atualmente podemos afirmar que o combate

    problemtica da violncia domstica uma prioridade.

  • 27

    Captulo 3 A violncia domstica conjugal em Portugal

    1. A criminalizao da violncia domstica conjugal

    semelhana do que sucedia nos Estados Unidos da Amrica e na Europa Ocidental, por

    influncia do patria potestae, a violncia domstica conjugal constituda um fenmeno social

    recorrente, fazendo parte da histria da famlia portuguesa (Dias, 2004) e as desigualdades de

    gnero encontravam-se expressamente previstas na lei.

    Assim, por exemplo, as Ordenaes Filipas (1603) autorizavam o homem casado a matar a

    mulher quando esta cometesse adultrio:

    E no smente poder o marido matar sua mulher e o adultero, que achar com ella em

    adulterio, mas ainda os pode licitamente matar, sendo certo que lhe commettero

    adultrio () (Livro 5, Titulo XXXVIII).

    No Cdigo Seabra (1867), primeiro cdigo civil portugus, permaneciam os casos de

    negao de direitos e a desigualdade por motivo de sexo. A mulher casada no era autorizada

    a praticar qualquer ato sem a devida autorizao do marido e a este competia a administrao

    de todos os bens da esposa. Era estabelecido expressamente na lei a funo de cada um no

    seio da famlia:

    Ao marido compete especialmente a obrigao de defender a pessoa e os bens da

    mulher e a esta a obrigao de prestar obedincia ao marido (artigo 1185).

    Em 1910, a implementao da Repblica viria a proporcionar a reviso do Cdigo Civil

    nas partes referentes s mulheres, instituindo a lei do divrcio, estabelecendo a igualdade de

    direitos civis e polticos entre homens e mulheres. As mulheres viram assim as suas

    aspiraes concretizadas, podendo administrar os seus prprios bens sem consentimento do

    marido e exercer o direito de voto. Contudo, a instaurao do regime ditatorial em 1926 e a

    posterior implementao do Estado Novo viriam assinalar um retrocesso no que toca aos

    direitos adquiridos pelas mulheres.

    O Estado Novo constituiu um regime ditatorial caracterizado pelo autoritarismo, onde os

    cidados no tinham uma participao significativa na tomada de decises do Estado. A

    famlia era vista como uma entidade, como um todo que deve ser controlado pelo Estado e

    que responde s preocupaes e s necessidades do bem coletivo (Wall, 2010). semelhana

    de outros regimes autoritrios da poca, possua lemas para mostrar a sua ideologia e

    doutrina, tal como "Deus, Ptria, Famlia" ou a mulher para a famlia, a mulher para o lar,

  • 28

    sendo o homem o chefe de famlia e a mulher uma esposa carinhosa e submissa e uma me

    sacrificada e virtuosa.

    Durante este perodo verificou-se um retrocesso no que respeita evoluo legal ocorrida

    com a instaurao da Repblica em 1910, as mulheres deixaram de poder viajar para fora do

    pas, administrar os bens sem consentimento do marido e estabeleceu-se que quem casava

    pela Igreja Catlica renunciava ao direito do divrcio.

    A Constituio de 1933 e o Cdigo Civil de 1966 sublinharam um modelo de famlia

    assente no casamento legtimo, no estatuto subordinado da mulher, na desigualdade

    profunda entre cnjuges, assente numa hierarquia rgida de autoridade e poder do sexo

    masculino sob o sexo feminino. A Constituio de 1933 declara a igualdade dos cidados

    perante a lei, salvas quanto mulher devido s diferenas resultantes da sua natureza e do

    bem da famlia (Wall, 2010).

    O marido era considerado como o chefe de famlia, a lei atribua-lhe legalmente todos os

    direitos de representar a esposa e decidir os seus atos. Este papel de chefe de famlia,

    representante da autoridade e guardio da moral no seio da famlia, exigia o respeito

    inquestionvel e a obedincia imediata dos outros, que tem o poder de deciso sobre os

    destinos da famlia e de cada um dos seus membros, assim como o poder de sancionar os

    comportamentos desviantes, castigando e punindo, mas sem infligir maus-tratos excessivos e

    indiscriminados. Assim a violncia domstica conjugal era tolerada no mbito do exerccio da

    funo disciplinadora do chefe de famlia e considerada um assunto de foro privado, no

    exigindo por isso a interveno por parte do Estado (Wall, 2010).

    Apesar desta forte opresso, as mulheres manifestaram-se na luta pelos seus ideais durante

    o perodo de ditadura, como o caso do Movimento Democrtico de Mulheres, que lutava,

    em situao de clandestinidade, pela igualdade de direitos das mulheres em todos os sectores

    da vida pblica e privada. Todavia, tratou-se de um feminismo fragilizado pelo contexto

    social e poltico que o remeteu durante demasiado tempo para a clandestinidade, no tendo

    por isso qualquer expresso ou impacto na sociedade (Tavares, 2008).

    Seria apenas nos anos 70, em consequncia da Revoluo do 25 de Abril de 1974, que

    Portugal iria assistir a mudanas radicais nas polticas da famlia. A Constituio de 1976

    extinguiu a figura do pater familae e o estatuto subordinado da mulher, consagrando o

    princpio de igualdade, reconhecendo as mulheres como integralmente iguais no trabalho, na

    famlia e na participao poltica. O quarto livro do Cdigo Civil (1966), relativo ao direito da

  • 29

    famlia, sofreu uma alterao substancial visando aplicar os novos princpios constitucionais

    de igualdade e cooperao entre os cnjuges.

    Simultaneamente, aps a conquista da liberdade com o 25 de Abril de 1974, eclodiram

    diversas associaes femininas, como exemplo o Movimento de Libertao de Mulheres

    (MLM) e a Unio de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR). Todavia, o foco central das

    lutas feministas em Portugal foi, durante trs dcadas, a despenalizao do aborto (Tavares,

    2008). E apesar de a violncia contra as mulheres comear, na dcada de 80, a emergir na

    prpria agenda de algumas associaes feministas como uma prioridade, esta reivindicao s

    teve verdadeiro eco pblico nos finais da dcada de 1990.

    Verifica-se assim que a criminalizao da violncia domstica conjugal em Portugal foi um

    processo lento comparativamente a outros pases europeus, devido, em grande parte, aos

    quarenta e oito anos de ditadura (1926-1974), que contriburam para um atraso em Portugal

    relativamente a adoo de respostas necessrias para combater a violncia domstica

    conjugal.

    Foi apenas no incio da dcada de 80 que a violncia domstica conjugal passou a ser

    considerada como um problema social. Dias (2000) aponta como fatores conducentes

    identificao da violncia domstica como problema social a maior sensibilidade e

    intolerncia social face aos comportamentos violentos; a criao de Organizaes No

    Governamentais, que atravs das suas estratgias de apoio e interveno conferiram alguma

    visibilidade violncia conjugal; e a visibilidade conferida por parte dos meios de

    comunicao social, originando assim uma maior sensibilizao pblica para este problema.

    Por outro lado, a agenda europeia institucional da igualdade de gnero foi fundamental,

    pois efetuou algumas recomendaes internacionais neste domnio. A definio internacional

    da violncia contra as mulheres como violao de direitos humanos desencadeou um processo

    de profunda transformao social e no espao de pouco mais do que uma dcada o

    enquadramento legal da violncia domstica observou uma profunda transformao (Lisboa,

    et. al., 2009).

    Assim, em 1982, o Cdigo Penal consagrou pela primeira vez no seu artigo 153 o crime

    de maus-tratos ao cnjuge na ordem jurdica portuguesa, apesar de ser uma verso adaptada

    de uma proposta inicial onde esta problemtica no era considerada6. Nesta verso originria

    do Cdigo Penal, o crime de violncia domstica era consagrado como crime pblico, o que

    6 A proposta de reforma inicial visava apenas regular os maus tratos a crianas e a sobrecarga de menores e

    de subordinados (Leite, 2010).

  • 30

    significa que o procedimento criminal no estava dependente de queixa por parte da vtima,

    bastando uma denncia ou o conhecimento do crime para que o Ministrio Pblico

    promovesse o processo.

    Em 1991, entrou em vigor a Lei n. 61/91, de 13 de Agosto, constituindo a primeira lei

    destinada a prevenir a violncia e proteger as mulheres vtimas, atribuindo responsabilidade

    ao Estado na execuo de medidas para o desenvolvimento de mecanismos de preveno e

    apoio e para a criao de associao de proteo e apoio a mulheres vtimas de crime,

    constituiu este o avano mais significativo ao nvel do tratamento autnomo das mulheres

    vtimas de violncia.

    As alteraes introduzidas no Cdigo Penal atravs do Decreto-Lei n48/95, de 15 de

    Maro, previram a aplicao de pena de priso aos crimes de maus-tratos fsicos ou psquicos

    infligidos pelo cnjuge ou quem com ele conviver em relaes anlogas s dos cnjuges e

    passou a ser crime semi-pblico, ficando o procedimento criminal dependente de

    apresentao de queixa por parte da vtima.

    Em 1998, atravs da Lei n.65/98, de 2 de Setembro, o crime passou a intitular-se de maus

    tratos e infraes de regras de segurana e passou ser um crime semi-pblico mitigado,

    atribuindo-se ao Ministrio Pblico a faculdade de dar incio ao processo penal quando o

    interesse da vtima o determinasse, mantendo ainda assim a vtima o poder de se opor ao

    prosseguimento do processo at deduo da acusao.

    Finalmente, a Lei n. 7/2000, de 27 de Maio, veio estabelecer a quinta alterao ao Cdigo

    Penal estabelecendo novamente a natureza pblica da violncia contra cnjuge ou a quem

    com ele conviver em condies anlogas e previu a aplicao da pena acessria de proibio

    de contato com a vtima, incluindo o afastamento da residncia da vtima.

    A reforma mais significativa surgiu com a Lei n 59/2007, de 4 de Setembro. Em primeiro

    lugar, separou a violncia domstica dos maus tratos e da violao das regras de segurana,

    passando assim a existir uma diversidade de tipos legais de crimes e a regular-se

    autonomamente no artigo 152 do Cdigo Penal. Alargou o mbito de situaes abrangidas e

    de sujeitos, incluindo ao seu mbito de aplicao a unio de facto htero e homossexual, a

    ascendentes em 1 grau e a ex-cnjuges ou ex-unidos de facto, no exigindo por isso a

    coabitao entre o casal; e elencou uma enumerao exemplificativa de atos considerados

    como violncia domstica incluindo castigos corporais, privaes de liberdade e ofensas

    sexuais. Estabeleceu a no reiterao dos atos, o que veio facilitar a deciso dos tribunais,

    acabando assim com o entendimento adotado na jurisprudncia de que seria o carter

  • 31

    reiterado que caraterizava o ato como violncia domstica. Ainda assim, alguns autores

    sugerem que a jurisprudncia continua a utilizar o critrio de reiterao em casos de dvida

    (Leite, 2010), outros referem que a jurisprudncia considera este critrio como um fator

    indispensvel na avaliao de um caso de violncia domstica, argumentando que, caso

    contrrio, caminhar-se-ia para a banalizao do tipo legal (Duarte, 2011, p.6).

    Igualmente relevante foi a entrada em vigor da Lei n 112/2009, de 16 de Setembro,

    aplicvel preveno de violncia domstica e proteo e assistncia das suas vtimas. Esta

    lei veio aperfeioar o regime de deteno nas situaes de flagrante delito e fora dele,

    orientado pela necessidade de afastar o agressor da vtima para impedir a repetio criminosa.

    Regula ainda as medidas de coao urgentes, criadas com o objetivo de fazer cessar a situao

    de perigo em que se encontra a vtima, incluindo para alm da pena acessria de proibio de

    contacto com a vtima, o afastamento da residncia da mesma, a proibio de uso e porte de

    armas e a obrigao de frequncia de programas especficos de preveno da violncia

    domstica. Aumentou ainda a moldura penal da pena acessria, que passou a ser de 6 meses a

    5 anos e promoveu ainda a aplicao de meios tcnicos de controlo distncia, com o

    objetivo de garantir a eficcia das medidas de coao. Assim, a Lei n 112/2009 ampliou as

    possibilidades de aplicao das medidas de coao, nomeadamente recorrendo a meios

    tcnicos de controlo distncia e introduzindo o carcter de urgncia na aplicao das

    medidas de coao.

    Em suma, a criminalizao da violncia domstica no Cdigo Penal portugus processou-

    se no sentido de ampliao do conceito, quer ao nvel de pessoas envolvidas como vtimas e

    ofensores quer ao nvel da definio dos crimes associados violncia domstica, bem como

    ao nvel do agravamento de penas relacionadas com este crime (Lisboa, et. al, 2009). Atravs

    destas anlise, constamos que ao longo dos anos o legislador tem demonstrado uma maior

    ateno problemtica da violncia domstica, preocupando-se em aperfeioar

    constantemente o seu regime jurdico de forma a garantir um maior efeito preventivo geral e

    especial.

    De particular importncia foi o surgimento, a partir de meados dos anos de 1990, das

    Organizaes No Governamentais (ONG), sendo de destacar a Unio de Mulheres

    Alternativa e Resposta (UMAR), a Associao de Mulheres contra a Violncia Domstica

    (AMCV) e a Associao Portuguesa de Apoio Vtima (APAV), que pelas suas estratgias de

    interveno e apoio s vtimas conferiram visibilidade a este fenmeno, sendo graas

    presso exercida por estas organizaes que surgiu a Lei n. 107/99, de 3 de Agosto, visando

  • 32

    promover a criao de uma rede pblica de casas de apoio a mulheres vtimas de violncia,

    permitindo o surgimento em 2000 das primeiras casas de abrigo para vtimas de violncia

    domstica em Portugal.

    Importa ainda destacar a Resoluo do Conselho de Ministros n. 55/99, que criou o I

    Plano Nacional contra a Violncia Domstica. Trata-se de um plano destinado s vtimas

    particularmente vulnerveis violncia domstica, nomeadamente as crianas, as mulheres e

    os idosos, e que j vai no V plano, em vigor entre 2014 e 2017.

    Em 2009, ps-se em prtica a experincia piloto do programa de Vigilncia Eletrnica para

    Agressores Domsticos entre Janeiro de 2009 e Dezembro de 2011, tendo como objetivo

    fiscalizar o cumprimento das medidas de coao impostas aos agressores. Embora este projeto

    contemplasse apenas os distritos do Porto e de Coimbra, os magistrados de outros distritos

    solicitaram a aplicao desta medida. Na experincia piloto verificou-se um aumento na

    adeso a este mecanismo ao longo dos dois anos, constituindo um bom indiciador de uma

    mudana na aplicao destas medidas e da avaliao da gravidade dos casos de violncia

    domstica e do potencial risco que apresentam para as vtimas se ficarem desprotegidas

    (Leite, 2010).

    Atualmente, a fiscalizao por meios tcnicos de controlo distncia da pena acessria de

    proibio de contato com a vtima, podendo incluir ainda o afastamento da residncia ou do

    local de trabalho, foi alargado para todo o pas; e se inicialmente constitua uma faculdade

    atribuda ao juiz pelo artigo 152, n 5 do Cdigo Penal, com a entrada em vigor da Lei n

    19/2013, de 21 de Fevereiro, passou a constituir um verdadeiro dever, isto , atualmente o juiz

    tem o dever de sempre que aplicar uma pena acessria de proibio de contato com a vtima

    requerer a sua fiscalizao por meios tcnicos de controlo distncia, o que revela mais uma

    vez a preocupao do legislador em garantir a proteo das vtimas.

    Igualmente relevante foi o surgimento o PAVD Programa para Agressores de Violncia

    Domstica, no mbito do IV Plano Nacional de combate Violncia Domstica, em vigor

    entre 2011 e 2013, e que estabeleceu a criao de programas de reabilitao para agressores,

    visando a alterao dos esteretipos e das crenas socialmente enraizadas que ajudam a

    perpetuar as condies geradoras e a no mbito aceitao da violncia domstica.

    Este programa foi implementado em 2010-2011 a nvel experimental e os resultados

    revelaram efeitos positivos ao nvel do risco de reincidncia, pois o grupo que frequentou o

    programa registou uma diminuio elevada do risco de violncia (d=.77) face a uma reduo

    ligeira registada no grupo de comparao (d=.14) (Quintas, Fonseca, Sousa e Serra, 2012).

  • 33

    A necessidade da implementao de programas para agressores de violncia domstica j

    era defendida por vrios autores portugueses. Por exemplo, Gonalves (2007) sugeriu que a

    interveno com agressores deve ser abordada a partir de um modelo integrado que contempla

    trs vrtices: a punio, o tratamento e o controlo. Este modelo tem como objetivo principal

    fazer uma avaliao de cada agressor ao nvel do risco e estabelecer um prognstico para o

    seu tratamento. Assim, segundo o mesmo autor, em primeiro lugar, deve-se cessar os

    comportamentos abusivos sobre a vtima atravs da apresentao de queixa polcia, pois o

    medo de ser preso um mtodo eficaz para dissuadir o agressor de prosseguir com

    comportamentos violentos. De seguida, o agressor deve ser submetido a um tratamento

    adaptado em intensidade e durao s necessidades individuais do agressor e, por fim, a um

    controlo ps-tratamento que permita prevenir a repetio de atos abusivos.

    2. Dados estatsticos e estudos de investigao portugueses

    Apesar da evoluo das reformas ao nvel da legislao sobre violncia domstica, da

    implementao de aes de formao e sensibilizao dos agentes de justia e das foras

    policiais e da criao de organizaes de apoio s vtimas, este fenmeno continua a atingir

    uma percentagem considervel da populao em Portugal.

    Grfico 1. Evoluo do n de denncias registadas pelas autoridades policiais e os processos findos nos

    tribunais de 1 instncia por crime de violncia domstica conjugal e anlogos

  • 34

    Analisando o grfico 1 que representa as estatsticas oficiais do nmero de denncias por

    violncia domstica relatadas s autoridades policiais verificamos que o nmero de denncias

    entre 2010 e 2012 so superiores a 20.000 denncias, demonstrando que este fenmeno

    continua a fazer parte da sociedade portuguesa.

    Fazendo uma anlise comparativa entre o nmero de denncias por violncia domstica

    relatadas s autoridades policiais e o nmero de processos findos nos tribunais de 1 instncias

    verificamos que existe uma diferena significativa entre as denncias apresentadas e os casos

    que vo a julgamento.

    O Relatrio de Monitorizao de Violncia Domstica (RMVD) referente ao ano de 2011

    analisa de forma mais aprofundada os dados estatsticos do procedimento criminal. Assim, por

    exemplo, entre Setembro de 2009 e Setembro de 2011 a taxa de acusao do Ministrio

    Pblico foi de 14,8% e 2,7% de suspenses provisrias do processo, restando um total de

    82,5% de casos arquivados.

    J relativamente s sentenas, entre Janeiro de 2010 e Dezembro de 2010, mais de dois

    teros dos casos que foram a julgamento resultaram em condenao (67%), restando 33% de

    absolvio. No tipo de penas aplicadas apenas foi possvel obter informao de 70 casos

    condenados, dos quais a penas mais frequentemente aplicada foi a penas de priso de 1 a 3

    anos, suspensa por igual perodo (82%) e apenas em 4 casos foi aplicada a pena de priso

    efetiva, entre 2 a 3 anos.

    J no que toca s penas acessrias, o RMVD apesar de no fazer referncia a dados

    quantitativos, embora refira a existncia de diversos casos em que o arguido ficou sujeito

    frequncia de programa de preveno da violncia domstica, frequncia de programa de

    tratamento ao lcool e/u drogas e proibio de contactos com a ofendida e ao afastamento da

    residncia da mesma, pelo perodo da pena.

    Importa tambm referir alguns estudos que foram feitos em Portugal e que so

    frequentemente citados, por terem proporcionado uma melhor compreenso do fenmeno da

    violncia domstica conjugal.

    Desde logo, o estudo vanguardista de Silva (1995) intitulado por Entre marido e mulher

    algum meta a colher, onde a autora recolheu um conjunto de dados que ilustraram este

    fenmeno na cidade do Porto na dcada de 1980. As concluses retiradas desse estudo

    revelaram que um quarto das mulheres que recorreram ao Tribunal de Famlia eram vtimas

    de violncia fsica por parte dos maridos ou parceiros (cit. in Dias, 2004).

  • 35

    Igualmente, Pais (1996) realizou um estudo que permitindo-lhe constatar a existncia de

    grandes constrangimentos mudana nos contextos sociais em relao violncia conjugal e

    construir uma tipologia do homicdio conjugal: (i) homicdio maus tratos; (ii) homicdio

    abandono paixo; (iii) homicdio posse-paixo; e (iv) homicdio conflito (cit. in Dias, 2004).

    O primeiro estudo de mbito nacional foi efetuado em 1995 com a aplicao de um

    inqurito nacional violncia contra as mulheres, promovido pela Comisso para a Igualdade

    de Direitos das Mulheres e permitiu ter a primeira viso global da prevalncia do fenmeno

    da violncia contra as mulheres a nvel nacional (Lisboa, Patrcio e Leandro, 2009), com base

    nesse inqurito Loureno, Lisboa e Pais (1997) aprofundaram o conhecimento da realidade

    nacional atravs da contextualizao sociocultural do fenmeno e da anlise das

    caractersticas das vtimas e dos tipos de atos praticados, tirando como concluses que a

    violncia contra as mulheres na sociedade portuguesa fundamentalmente domstica,

    destacando-se a vertente psicolgica e, mais atenuadamente, a fsica.

    Casimiro (2002) estudou as representaes sobre a violncia domstica conjugal,

    determinando que as mulheres do meio social desfavorecido adotam representaes da

    conjugalidade prximas ao modelo tradicional, contribuindo para a aceitao da violncia

    exercida como algo legtimo enquanto as mulheres do grupo social favorecido representam a

    conjugalidade como algo simtrico.

    J no contexto especfico do estudo das prticas judicias quanto ao crime de violncia

    domstica, Martins e Machado (2007) realizaram um estudo sobre as decises judiciais

    atravs da realizao de entrevistas a juzes e constataram que houve significativas mudanas

    no pensamento judicial sobre a violncia domstica conjugal. Ainda assim detetaram a

    influncia das caractersticas individuais dos juzes e de mitos e esteretipos sociais na

    elaborao das decises judiciais, tais como culparem a vtima por ter provocado o ato

    violento. Igualmente, os resultados mostraram que estes profissionais da justia do mais

    relevo violncia fsica e apontam como fatores decisivos para a condenao o registo

    criminal anterior do arguido e o abuso de lcool ou substncias, embora este ltimo no

    constitua entendimento unnime j que para uns seria utilizado como um critrio agravante,

    enquanto para outros seria uma circunstncia atenuadora.

  • 36

    Captulo 4 As decises judiciais

    1. Perspetivas tericas

    No estudo das decises judiciais desenvolveram-se vrias teorias para explicar quais os

    critrios que os procuradores utilizam para decidir acusar ou arquivar um caso e os juzes para

    condenar ou absolver, sendo mais frequentemente citado pela literatura a teoria "avoid

    uncertainty" de Albonetti (1986, 1987) e a teoria focal concerns perspective de

    Steffensmeier, Ulmer e Kramer (1998).

    Os tericos apontam a teoria da escolha racional como o ponto de partida para o

    desenvolvimento de modelos de tomada de deciso. Para uma deciso ser classificada como

    racional, esta deve ser tomada tendo em conta todas as alternativas possveis. No entanto, os

    decisores esto apenas cientes de uma pequena quantidade de alternativas possveis, sendo

    confrontados com a incerteza derivada desse conhecimento incompleto. Esta limitao

    superada pela adoo de modelos de organizao, tais como o estabelecimento de

    procedimentos padro, que absorvem a incerteza atravs da racionalidade limitada, assente

    na premissa da adoo de solues satisfatrias em vez de solues timas. Adotam assim

    uma estratgia de tomada de deciso com base em respostas padronizadas para absorver a

    incerteza, baseadas na suposio de que se funcionaram no passado tambm iro funcionar no

    futuro. Por fim, estas respostas padronizadas so constitudas pelas experincias passadas,

    esteretipos, preconceitos e pontos de vista subjetivos (March e Simon, 1958, cit. in

    Albonetti, 1986, 1987).

    Thompson (1967) acrescentou teoria da averso da incerteza a identificao de duas

    dimenses fundamentais para a organizao de informaes que reduzem e controlam a

    incerteza no momento da deciso, nomeadamente as crenas sobre a relao entre causa e

    efeito e as preferncias entre os possveis resultados que surjam da deciso, sendo em torno

    destas dimenses que os decisores organizam as estratgias para controlar ou, pelo menos,

    minimizar a incerteza (cit. in Albonetti, 1986, 1987).

    Albonetti (1986, 1987), partindo deste raciocnio, afirma que a incapacidade dos

    procuradores em preverem o comportamento dos outros atores do sistema de justia criminal

    na forma como vo processar o caso e o acesso a informao limitada constante no processo

    geram incerteza no momento da deciso.

    Ora, no domnio da preferncia entre os possveis resultados, o re