IMAGEM E RESISTÊNCIA NA ÁFRICA: NELSON MANDELA E 3].pdf · the anti-colonial actions and initiatives

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  • ESCRITAS Vol.6 n.2 (2014) ISSN 2238-7188 p. 93-110

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    IMAGEM E RESISTNCIA NA FRICA: NELSON MANDELA E O CONTEXTO DE LIBERTAO SUL-

    AFRICANO

    IMAGEAND RESISTANCE IN AFRICA:

    NELSON MANDELA AND THE SOUTHAFRICAN LIBERATION

    CONTEXT

    Felipe Paiva

    RESUMO

    O presente trabalho pretende realizar uma discusso terica em torno do

    conceito de resistncia tal como definido e problematizado pelas tendncias

    historiogrficas que abordam as aes e iniciativas anticoloniais no

    continente africano. Para tanto, ser feito uso da imagem enquanto principal

    fonte para a anlise. Norteando-se pelo discurso imagtico que os

    Movimentos de Libertao Nacional faziam se si, sobretudo no que concerne

    ao caso especfico Sul-Africano, busca-se demarcar melhor os contornos

    tericos do conceito de resistncia.

    PALAVRAS-CHAVE: Histria da frica, Resistncia, Historiografia,

    Imagem.

    ABSTRACT

    This work aims at triggering a theoretical discussion about the concept of

    resistance as defined and questioned by historiographical trends that address

    the anti-colonial actions and initiatives in Africa. Accordingly, images will be

    used as the main source for the analysis. Guided by the imagery concept that

    the National Liberation Movements conveys of themselves, especially

    regarding the South African case, we intend to better demarcate the

    theoretical boundaries of the concept of resistance.

    KEYWORDS: History of Africa, Resistance, Historiography, Image.

    Mestrando em Histria Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). E-mail: paiva.his@gmail.com.

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    Introduo

    Os Movimentos de Libertao que encabearam as lutas anticoloniais em solo

    africano fizeram-se valer, de maneira geral, de um discurso que tentava vincular as

    reivindicaes nacionalistas com a histria pregressa da oposio expanso colonial.

    A esta oposio chamou-se genericamente de resistncia. Concomitantemente, o termo

    foi inserido no vocabulrio de anlise historiogrfico. A historiografia sobre o perodo

    colonial passou a problematizar a resistncia estabelecendo tanto tipologias de aes e

    iniciativas anticoloniais, como propondo uma temporalidade que lhes seria prpria.

    Neste sentido, duas demarcaes tericas amplas se fazem presentes. De um

    lado h uma tendncia que preza pela continuidade entre as iniciativas anticoloniais

    datadas dos primeiros anos da colonizao fins do sculo XIX e primeira metade do

    XX e as modernas lutas nacionalistas encabeadas pelos Movimentos de Libertao.

    Por outro lado, existe uma linha argumentativa que trata estes momentos como ruptura.

    Entretanto, a utilizao de fontes para o estudo e discusso terica acerca da

    resistncia ainda muito restrita aos registros convencionais: esplio de campanhas

    militares e arquivos de movimentos polticos, especialmente. Pouco se analisa a imagem

    que essa resistncia suscita; seu discurso imagtico.1

    Ao analisar a imagem que os Movimentos de Libertao Nacional faziam de si

    prprios, atentando para os modos como esta imagem foi instrumentalizada enquanto

    meio de inserir capital poltico em suas narrativas de oposio ao colonialismo,

    possvel elucidar no somente aspectos conjunturais do processo de independncia

    africano, mas, tambm, a prpria teoria da resistncia, sobretudo no que toca sua

    questo mais delicada: seu regime de temporalidade.

    1 At o momento o autor desconhece um estudo que relacione, especificamente, imagem e resistncia.

    Apesar de muitos trabalhos se utilizarem da fotografia, ou da imagem em sentido mais amplo, estas

    aparecem somente enquanto ilustrao do texto escrito e no como fonte principal a ser analisada.

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    O conceito de resistncia no contexto africano

    A noo de resistncia se estabelece enquanto conceito historiogrfico para o

    estudo do perodo colonial na frica entre meados de 1960 e a partir de 1970 consolida-

    se definitivamente.2Por esta poca ainda estavam em curso alguns dos conflitos pela

    libertao nacional em solo africano, a exemplo das ento colnias portuguesas

    Angola, Moambique e Guin-Bissau.

    Nesse momento havia uma necessidade premente de colocar estes conflitos de

    libertao em uma perspectiva mais ampla ao mesmo tempo em que tambm se fazia

    necessrio devolver ao africano o carter de agente da sua prpria histria. Para essas

    duas tarefas a ideia de resistncia mostrava-se como resposta imediata.

    A historiografia passa, ento, a ficar dominada por estudos sobre a resistncia

    africana ao imperialismo europeu e ao domnio colonial. Como salientam Leroy Vail e

    Landeg White: The rise of mass nationalism in postwar Africa led historians to ransack

    the past for earlier leaders who might have served as role models for the anti-colonial

    struggle, and resistance became nationalisms historical dimension (1986, p. 193).

    A onda de conflitos libertadores levou, em grande medida, os historiadores a

    explicarem tais conflitos recorrendo ao passado, realando o africano como agente

    histrico e, portanto, resistindo expanso colonial mais efetiva, j a partir de finais do

    sculo XIX.

    Por esta ptica os movimentos nacionalistas surgidos na segunda metade do

    sculo XX manifestadamente se inspiraram nas lembranas de um passado heroico

    (RANGER, 2012, p. 65) Grifo meu. Muitos historiadores buscaram traar uma

    continuidade entre as primeiras oposies anticoloniais e as guerras de libertao

    nacional. Entretanto, para uma parcela da historiografia no h ligao entre a

    resistncia e as lutas de libertao encabeadas por movimentos nacionalistas.

    Esta ltima tendncia est representada especialmente por Henri Brunschwig e

    Edward Steinhart.Para o primeiro o fenmeno da resistncia estaria vinculado aos laos

    tnicos: La resistance, eneffet, paraltintimementliee a lethnie. Et cette ethnie, si

    difficile a definir et si constante, pourrait bien etre specifique de lAfrique noire, de

    2 Apesar de a primeira apario do termo,com referncia Histria da frica que conseguimos encontrar,

    datar dos anos de 1920 em NORMAN, Leys. Kenya. Londres: The Hogarth Press, 1924.

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    forma que os movimentos nacionalistas estariam em outro plano organizativo em que as

    ideologias importes dOccident, et assez souples elles-mmes, assez ambigies pour

    pouvoir sadapter aux peuples et aux circonstances(1974, p. 64, 61). Segundo Terence

    Ranger tal argumento parte da premissa de que o nacionalismo moderno uma

    manifestao da tendncia ao centralismo da inovao e adoo de grandes projetos,

    o que significa que pertence a uma tradio diametralmente oposta da resistncia

    (2012, p. 66).

    O outro autor a propor um argumento dissociativo, Edward Steinhart, salienta

    que tratar a resistncia como precursora das guerras de libertao nacional seria dar

    legitimidade aos numerosos regimes autoritrios que se instalaram em vrios pases

    africanos no ps-independncia e consolidar uma espcie de mito

    nacionalistaautoritrio:Insteadofexamininganti-colonialresistance,

    protestandliberationmovementsthroughthedistortinglensofnationalistmythology, we

    must create a better myth, onebettersuitedtointerpretingthe reality ofAfricanprotest

    (1993, p. 362). Steinhart parece querer, afirma Ranger, reivindicar a herana das

    resistncias para a oposio radical ao autoritarismo nos novos Estados nacionais da

    frica (2012, p. 66).

    O argumento mais persuasivo para contrapor a essas teses e defender o vnculo

    entre libertao nacional e resistncia anticolonial vem de Allen Isaacman. Partindo do

    caso moambicano, Isaacman defende que as lutas camponesas de meados do sc. XIX

    acabaram por ser o germe da contestao que desembocaria na formao da FRELIMO

    (Frente de Libertao Nacional de Moambique), um moderno movimento nacionalista

    que encabeou a guerra de libertao:

    A natureza do apelo, expressa em termos anticoloniais, e o alcance da aliana

    que este apelo tornou possvel, sugerem que a rebelio de 1917 ocupou uma

    posio de transio entre as formas primitivas de resistncia africana e as

    guerras de libertao de meados do sculo XX. [...]. A revolta de 1917

    constitui a culminao da longa tradio de resistncia zambeziana e

    simultaneamente se torna precursora da recente luta de libertao (1979, p.

    288, 290). Grifos Meus.

    Essa percepo longa, linear e indiscutvel de tal temporalidade acaba dando

    lugar a expresses que, aos olhos de hoje, tendem a parecer panfletrias, implicando o

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    uso de adjetivos positivos para caracterizar os resistentes (como fez Ranger em citao

    acima, ao afirmar que as independncias se inspiraram em um passado herico). Alm

    disso, acaba subsistindo neste tipo de argumentao uma viso teleolgica do processo

    histrico.

    Entretanto, possvel pensar em um vnculo entre resistncia e libertao

    nacional sem a ideia de linearidade embutida no argumento continusta da longa

    tradio