Livro de Receitas - Santuário de Vida Silvestre Vagafogo

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Santurio de Vida Silvestre VagafogoProjeto VagafogoSUMRIO5 7 11 12 16 21 22 25 28 35 41 42 45 49 50 53 59 60 68 75 77 83 84 85 86 89 APRESENTAO O PONTAP INICIAL OS SABORES DA LUZ Uma Certa Guinada Receitinhas do Brunch do Vagafogo DE AROMAS, CORES E SABORES Em Caxambu a Promessa de um Futuro Chutneys e Molhos Picles e Relish Temperos e Conservas BARU BARATA, BARU, CUMBARU Bom Jesus e Terra Nostra: Mistura de Pessoas e Ideias Receitas de Baru LONGE. BEM LONGE... L NAS FURNAS Banana e Sol: O Comeo de uma Vida Melhor Desidratao Solar de Frutas DESPERDCIO. NEM PENSAR! Aproveitamento do Leite Compotas Frutas Cristalizadas Gelias APITO FINAL Algumas Dicas Livros e Revistas Consultados E agora? ROL DE RECEITAS

APRESENTAOA FUNATURA uma Organizao No Governamental (ONG), sem fins lucrativos, declarada de utilidade pblica, que desde a sua criao em julho de 1986, vem se dedicando quase que exclusivamente conservao da biodiversidade do bioma Cerrado, uma das maiores do mundo, que infelizmente vem sofrendo um enorme processo de devastao. Assim sendo, se sente honrada em apresentar este livro, pois participou e ajudou na sua preparao. A FUNATURA acredita que esta publicao valoriza a diversidade do Cerrado, promove o aumento da renda das famlias das comunidades de pequenos agricultores, e divulga a secular culinria goiana. Valoriza a rica biodiversidade do Cerrado, pois estas comunidades produzem e comercializam produtos e subprodutos de origem da flora nativa, pouco conhecidos da nossa gente, induzindo assim sua maior preservao. Ajuda pequenos proprietrios, sitiantes, pees e fazendeiros a ganharem com o beneficiamento, a verticalizao e a comercializao de seus produtos rurais. A culinria goiana enriquecida com novidades, ainda pouco conhecidas das populaes urbanas e de pessoas de outras regies do pas. Assim, alm dos j tradicionais usos na regio do pequi, guariroba, mangaba, jurubeba, caju, jaboticaba, pitanga, goiaba, jatob, araticum, anans, buriti, entre muitas outras espcies, temos novidades como o baru, menos conhecido, e tantas receitas que facilitam e ampliam o uso de muitas espcies nativas ou no, como com o quiabo, a manga, o mamo, o pepino, o tomate, manjerico, etc.

A FUNATURA agradece a criatividade, o empenho e o desprendimento de Evandro Engel Ayer, Ndia Regueira, Edmilson Vasconcelos, Jrgen Tui Gde e Cirley Motta, principais atores deste processo. Acreditamos que iniciativas como esta so bases verdadeiras para o desenvolvimento sustentvel, na dualidade sempre procurada pelos ambientalistas: melhorar o aspecto social das comunidades envolvidas, cuidando de preservar elementos fundamentais para esta melhoria social e para a natureza. Assim sendo, vamos ler o livro, apreciar as deliciosas receitas, conhecer um pouco mais de cozinha e vamos aprender a respeitar nossos ainda abundantes recursos naturais. Maria Tereza Jorge Pdua Presidente da FUNATURA.

O PONTAP INICIALEm 1997, Evandro E. Ayer foi convidado pelo PED (Projeto de Execuo Descentralizada) para dar um curso de conservas, doces e laticnios em quatro municpios, um deles Pirenpolis. Em todos os lugares o curso foi bem aceito e muito apreciado. Vrias pessoas interessaram-se pela continuidade do curso ou na montagem de outros, similares e complementares. Em Pirenpolis, a idia progrediu em combinao com o trabalho comunitrio, que vinha sendo desenvolvido no povoado de Caxambu, pela Dr. Ndia Regueira (mdica sanitarista) e foi estendido para o povoado de Bom Jesus, atravs de Edmilson Vasconcelos (arteso em prata e morador da Terra Nostra) e para a regio de Furnas com Jrgen Tui Gde (agroecologista, morador da Comunidade Omni Om - Vale Dourado). Atravs da FUNATURA (Fundao Pr Natureza) houve o pedido de financiamento ao PPP/GEF (Programa de Pequenos Projetos/Fundo para o Meio Ambiente Mundial) administrado pelo ISPN (Instituto Sociedade Proteo e Natureza) para um projeto de capacitao de pessoal em trs povoados do municpio de Pirenpolis: Caxambu, Bom Jesus e Furnas. E assim foi elaborado o PROJETO VAGAFOGO DE EDUCAO CONTINUADA: FORMAO DE MO DE OBRA PARA ATIVIDADES COOPERATIVADAS E DE PRESERVAO DO MEIO AMBIENTE alicerado nos seguintes princpios: 1. Princpios de trabalho comunitrio, de valorizao da pessoa e da sua produo, na medida da habilidade de cada um. 2. Princpios de solidariedade e de amor (no sentido amplo e profundo do termo, sem pieguice: amor entre as pessoas, amor natureza, amor terra, amor ao trabalho...). 3. Princpios de preservao, de respeito natureza, ao meio ambiente e sua harmonia, ao seu equilbrio necessrio vida, sade e boa alimentao. O projeto foi aprovado para o ano de 1998. Evandro, Ndia, Edmilson e Jrgen deram incio aos encontros da equipe para traar os rumos do projeto e convidaram-me para auxiliar nas tarefas de cronogramar os cursos e encontros, documentar as reunies e administrar as verbas. A coordenao do projeto esteve a cargo de Vernica Theulen, pela FUNATURA, e Evandro, em Pirenpolis. Caxambu, Bom Jesus e Furnas ficaram sob a responsabilidade de Ndia, Edmilson e Jrgen, respectivamente, e foram escolhidos os monitores (moradores dos povoados selecionados) encarregados, inicialmente, de fornecer equipe um perfil de seus vizinhos e fazer o levantamento das famlias integrantes do projeto. Ao todo, mais nove pessoas diretamente envolvidas. A equipe agiria fornecendo cursos nas reas de maior interesse, providenciando todo o material necessrio para a execuo dos mesmos.

A forma de trabalho eleita foi o contato direto dos monitores com seus vizinhos, fazendo a ponte com a equipe, com sede em Pirenpolis. Os cursos seriam desenvolvidos nos locais de maior interesse, por profissionais das reas. Teoricamente tudo bem, mas na prtica... Os monitores no conseguiam os contatos necessrios em tempo hbil, falta de tempo e distncias contriburam para isso. Era preciso todos estarem presentes para maior incentivo e agrupamento das pessoas. Na realidade no era nada fcil trabalhar em grupos e no havia experincia (e muito menos boa aceitao) de trabalho em conjunto (a no ser com uma expectativa de retorno financeiro imediato, claro!) Contudo, a equipe saiu a campo, marcando encontros e cursos para os finais de semana, sempre que possvel, nas vrias localidades. O tempo corria clere, o cronograma inicial se atrasava e a angstia aumentava com a morosidade das aes reais. ( preciso tempo, pacincia e investimento financeiro para trabalhar com as comunidades rurais, especialmente da forma como queramos: sem agresso s pessoas e ao meio ambiente como um todo.) Foi difcil fazer deslanchar. Parecia um motor emperrado que no queria pegar. As coisas aconteciam em compasso lento. No sabamos qual a melhor forma de motivar as comunidades e faz-las partilharem dos nossos ideais. Por outro lado, as pessoas no dispunham de tempo, devido aos seus afazeres. A sada foi transmitir, diretamente, a nossa experincia do dia a dia, o que sabamos e como trabalhvamos, em encontros ocasionais em fins de semana ou em algum almoo programado como dia de festa! Os professores especializados foram os prprios componentes da equipe: Evandro deu cursos sobre laticnios, ensinando a melhorar a qualidade dos queijos, com pasteurizao do leite e tipos diferentes de queijos. Passou sua experincia com conservas doces e salgadas, de frutas e legumes. Ndia, que de h muito vinha trabalhando com o pessoal de Caxambu na produo de conservas doces e salgadas, incentivou o aumento da produo com novas experincias, promoveu a participao do seu pessoal em eventos realizados em Anpolis e Goinia, e o curso do SEBRAE. Edmilson dedicou-se ao baru: trouxe o modelo de cortador feito de foice, que foi largamente confeccionado e distribudo; incentivou a coleta e beneficiamento do baru, para utilizao na alimentao humana. Jrgen deu cursos sobre desidratao de frutas e passou seus conhecimentos de tecnologia adaptada (simples e de baixo custo), orientando a confeco e instalao de secadores solares. E eu mesma, transmitindo a experincia culinria em conservas, massas, biscoitos e aumento do valor nutricional dos alimentos. Estvamos no segundo semestre quando o motor pegou. Mas da engrenou e tudo comeou a se atropelar. (No podamos perder de vista a data marcada para o final do Projeto: dezembro de 1998). Os trs ltimos meses foram movimentados: eventos e encontros em Pirenpolis, Anpolis, Goinia, aumento da produo, programas de TV, comercializao... claro que muitos outros vizinhos ficaram animados e engrossaram as fileiras... Enfim, alguma recompensa! Alguma coisa ficou atrasada (como estas linhas, por exemplo) mas, parece que tudo est comeando agora. O PROJETO VAGAFOGO DE EDUCAO CONTINUADA: FORMAO DE MO DE OBRA PARA ATIVIDADES COOPERATIVADAS E DE PRESERVAO DO MEIO AMBIENTE deu o pontap inicial. O jogo est em andamento... Estas pginas que se seguem contm um breve relato dos nossos encontros e desencontros, das nossas aes, dos ensinamentos ministrados durante os cursos e alguns adendos como colaborao para o enriquecimento da mesa, aproveitando as safras de frutas e hortalias dos quintais e riqueza alimentar que o cerrado oferece. Cirley Motta Professora da PUC de So Paulo (1963 a 1994), sua cidade natal. Preocupada com sade e educao, em Pirenpolis, desde 1979, tem dedicado especial ateno s mes e professoras das comunidades rurais.

Uma Certa Guinada

Ainda morando em Braslia compramos o Vagafogo (1975). Em 1976 mudamos para Pirenpolis e como no havia nenhuma infra-estrutura na roa, tivemos que alugar casa na cidade. Para sobreviver demos aulas de ingls e tambm comeamos a lidar com plantas ornamentais. Por no termos recursos para adquirir os recipientes (vasos) comeamos a elaborar nossos prprios vasos de xaxim e pau-santo (cortia do cerrado). Em 1979, com o dinheiro tomado no Banco do Brasil comeamos a trabalhar a infra-estrutura do Vagafogo comeando pela casa da famlia e tocando, logo de cara, a primeira roa de gros, tambm com emprstimo do Banco do Brasil. Dada a inexperincia de labut