Nick Bostrom - Dignidade pós humana

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Em Defesa da Dignidade Ps-HumanaNICK BOSTROM Faculdade de Filosofia, Universidade de Oxford

(2005). Em defesa da Dignidade Ps-Humana. Bioethics, v. 19, n. 3, p. 202-214. www.nickbostrom.com

Traduo: Brunello Stancioli (Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG), Daniel Mendes Ribeiro, Anna Rettore, Nara Pereira Carvalho.

RESUMO. Posies sobre a tica das tecnologias de melhoramento humano podem ser (grosseiramente) caracterizadas como variando do transumanismo ao

bioconservadorismo. Transumanistas acreditam que as tecnologias de melhoramento humano deveriam ser largamente disponibilizadas, que indivduos deveriam ter amplo poder de escolha sobre quais dessas tecnologias desejam aplicar a si prprios, e que os pais deveriam ter normalmente o direito de escolher melhoramentos para os seus futuros filhos. Bioconservadores (dentre os quais esto autores bem diversos como Leon Kass, Francis Fukuyama, George Annas, Wesley Smith, Jeremy Rifkin e Bill McKibben) geralmente se opem ao uso da tecnologia para modificar a natureza humana. Uma ideia central do bioconservadorismo a de que as tecnologias de melhoramento humano iro minar a nossa dignidade humana. Para prevenir um escorrego ladeira abaixo nesse declive escorregadio1 em direo a um estado ps-humano que seria, em ltima anlise, rebaixado, os bioconservadores muitas vezes defendem proibies abrangentes de melhoramentos humanos que poderiam ser vistos comopromissores. Este artigo distingue dois temores comuns sobre o ps-humano e argumenta pela importncia de um conceito de dignidade que seja inclusivo o suficiente para tambm se aplicar aos muitos seres psN. T. Manteve-se, aqui, traduo literal da expresso slippery slope (declive escorregadio). Comumente utilizada em debates ticos, a expresso, de sentido figurado, indica uma situao na qual a permisso de uma dada conduta, tida como eticamente limtrofe, pode facilitar ou tornar inevitvel a adoo de outras condutas semelhantes, mas que eticamente no seriam permissveis. No Brasil, tal situao pode ser descrita pelo ditado popular Em porteira que passa um boi, passa uma boiada.1

humanos possveis. Reconhecer a possibilidade de uma dignidade ps-humana enfraquece uma importante objeo contra o melhoramento humano e remove um duplo critrio distorcido do nosso campo de viso moral.

Transumanistas vs. Bioconservadores

O transumanismo um movimento no precisamente definido, que se desenvolveu gradualmente nas ltimas duas dcadas e que pode ser visto como produto do humanismo secular e do Iluminismo. Sustenta que a atual natureza humana aprimorvel atravs do uso da cincia aplicada e de outros mtodos racionais, que podem tornar possvel o aumento da longevidade da vida humana, estender as nossas capacidades fsicas e intelectuais e nos dar um maior controle sobre os nossos estados mentais e humores.2 As tecnologias em questo incluem no apenas as atuais, como a engenharia gentica e a tecnologia da informao, mas tambm antecipaes de desenvolvimentos futuros, como a realidade virtual totalmente imersvel, as mquinas nanotecnolgicas e a inteligncia artificial. Os transumanistas promovem a viso de que as tecnologias de melhoramento humano deveriam ser largamente disponibilizadas, de que os indivduos deveriam ter amplo poder de escolha acerca de quais dessas tecnologias iro aplicar a si prprios (liberdade morfolgica), e de que os pais deveriam ter normalmente o poder de decidir quais tecnologias reprodutivas usar na concepo de seus filhos (liberdade reprodutiva).3 Os transumanistas acreditam que, embora haja riscos que precisem ser identificados e evitados, as tecnologias de melhoramento humano iro oferecer um potencial enorme para usos extremamente valiosos e benficos para a humanidade. A longo prazo, possvel que tais melhoramentos transformem-nos, ou os nossos descendentes, em seres pshumanos, os quais poderiam ter uma longevidade de vida em plena sade indefinida, faculdades intelectuais muito maiores do que as de qualquer ser humano atual e talvez

Bostrom, N. et al. 2003. The Transhumanist FAQ, v. 2.1. World Transhumanist Association. Disponvel em: . 3 Bostrom, N. 2004. Human Genetic Enhancements: A Transhumanist Perspective. Journal of Value Inquiry, [a publicar].2

modalidades e sensibilidades inteiramente novas assim como a habilidade de controlar as prprias emoes. A abordagem mais inteligente diante dessas perspectivas, argumentam os transumanistas, abraar o progresso tecnolgico, ao mesmo tempo defendendo fortemente os direitos humanos e a escolha individual, e agindo especificamente contra ameaas concretas, tais como abusos de armas biolgicas por parte de militares ou terroristas, e contra efeitos colaterais sociais e ambientais indesejados. Em oposio a essa viso transumanista, tem-se o campo bioconservador, que argumenta contra o uso da tecnologia para modificar a natureza humana. Autores bioconservadores proeminentes incluem Leon Kass, Francis Fukuyuama, George Annas, Wesley Smith, Jeremy Rifkin e Bill McKibben. Uma das preocupaes centrais dos bioconservadores a de que tecnologias de melhoramento humano poderiam ser desumanizantes. A preocupao, que j foi expressa de vrias maneiras, a de que essas tecnologias possam minar a nossa dignidade humana ou inadvertidamente erodir algo que profundamente valioso a respeito de ser humano, mas que difcil de ser colocado em palavras ou de se levar em conta em uma anlise de custo e benefcio. Em alguns casos (e.g. Leon Kass), esse desconforto parece derivar de sentimentos religiosos ou criptoreligiosos, enquanto em outros (e.g. Francis Fukuyama), parece estar assentado em bases seculares. A melhor forma de tratar a questo, argumentam esses bioconservadores, implementarem-se proibies globais de categorias inteiras dessas promissoras

tecnologias de melhoramento humano para prevenir um escorrego ladeira abaixo nesse declive escorregadio4 que cai em direo a um estado ps-humano que , em ltima anlise, rebaixado. Embora qualquer descrio breve necessariamente ignore nuances significativas que diferenciam os autores dentro dos dois campos, acredito, no obstante, que a caracterizao que realizei acima ressalta uma linha principal de fissura em um dos grandes debates do nosso tempo: como deveramos olhar para o futuro da humanidade e se deveramos tentar usar a tecnologia para tornar-nos mais que humanos. Este artigo ir distinguir dois temores comuns sobre o ps-humano e argumentar que ambos so parcialmente infundados, mas que, na medida em que eles tambm correspondem a riscos reais, h solues melhores do que simplesmente tentar implementarem-se proibies amplas do uso de certos tipos de tecnologia. Irei realizar alguns comentrios sobre o

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Cf. nota 1.

conceito de dignidade, o qual, segundo creem alguns bioconservadores, estaria ameaado pela chegada de tecnologias de melhoramento humano, e sugerir que precisamos reconhecer que no s humanos na sua forma atual, mas tambm ps-humanos poderiam ter dignidade.

Dois temores sobre o ps-humano

O prospecto da ps-humanidade temido por pelo menos duas razes. Uma a de que o estado de ser ps-humano poderia, por si s, ser degradante, de forma que, ao nos tornarmos ps-humanos, estaramos prejudicando a ns mesmos. A outra a de que pshumanos poderiam representar uma ameaa aos humanos comuns. (Irei distinguir uma terceira razo possvel, a de que o desenvolvimento de ps-humanos poderia ofender um ser supernatural.) O bioeticista mais proeminente a salientar a primeira razo Leon Kass:A maioria das ddivas concedidas pela natureza possuem as suas prprias naturezas, especficas da espcie: so cada uma de um dado tipo. Baratas e humanos igualmente recebem ddivas, mas tm naturezas diferenciadas. Transformar um homem em uma barata como no precisamos de Kafka para nos mostrar seria desumanizante. Tentar tornar um homem em algo mais do que um homem poderia tambm o ser. Precisamos mais do que uma apreciao genrica pelas ddivas da natureza. Precisamos ter uma particular considerao e respeito pela ddiva especial que a nossa prpria natureza dada.5

Os transumanistas contra-argumentam que as ddivas da natureza so, por vezes, envenenadas, e que no deveriam ser sempre aceitas. Cncer, malria, demncia, envelhecimento, fome, sofrimento desnecessrio, deficincias cognitivas so algumas das ddivas que sabiamente rejeitamos. Nossas prprias naturezas especificadas pela espcie so uma rica fonte de muito do que completamente irrespeitvel e inaceitvel suscetibilidade a doenas, assassinato, estupro, genocdio, trapaa, tortura, racismo. Os horrores da natureza em geral e da nossa prpria natureza em particular so to bemKass, L. 2003. Ageless Bodies, Happy Souls: Biotechnology and the Pursuit of Perfection. The New Atlantis, 1.5

documentados6 que estupeficante que algum to distinto como Leon Kass esteja ainda, nos dias de hoje, tentado a depender do natural como guia para o que desejvel ou normativamente correto. Deveramos ser gratos aos nossos ancestrais por no terem sido arrebatados pelo sentimento de Kass, ou estaramos ainda catando piolhos das costas uns dos outros. Ao invs de prestar deferncia ordem natural, os transumanistas sustentam que podemos legitimamente reformar ns mesmos e as nossas naturezas de acordo com valores humanos e aspiraes pessoais. Mesmo se se rejeita a natureza como critrio geral do que bom, como o fazem a maioria das pessoas sensatas hoje em dia, ainda se poderia, obviamente, reconhecer que formas especficas de se modificar a natureza humana sejam degradantes. Nem toda mudana um progresso. Nem todas as intervenes tecnolgicas bem-intencionadas na natureza humana seriam, de modo geral, benficas. Kass, entretanto, vai bem alm desses trusmos quando declara que a desumanizao absoluta o que nos espera como o resultado inevitvel de obtermos o domnio tecnolgico sobre a nossa prpria natureza:

a conquista tcnica final da sua prpria natureza quase c