Reflexões sobre Homeopatia, História e Epistemologia - Jorge Storace

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    12-Jun-2015

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This study aims to investigate Homeopathys scientific matter, through a Historical analysis, where the medical, scientific and philosofical origins of homeopathic concepts are reviewed; and through an epistemological analysis, where Homeopathy is reviewed compared to Philosophy of Sciences evolution by means of its most considerable tendencies and respective philosophers (inductivism and Bacon, conventionalism and Poincar, positivism and Russell, falsifiability and Popper, scientific research programmes and Lakatos, paradigm and Kuhn, relativism and Feyerabend, complexity and Morin). A presente dissertao tem por objetivo investigar a questo da cientificidade da Homeopatia, utilizando para isso uma anlise histrica, onde so revistas as origens mdicas, cientficas e filosficas dos conceitos homeopticos; e uma anlise epistemolgica, onde a Homeopatia revista luz da evoluo da Filosofia da Cincia, atravs de algumas de suas vertentes mais relevantes e respectivos filsofos representativos (Bacon e o indutivismo, Poincar e o convencionalismo, Russell e o positivismo, Popper e o falsificacionismo, Lakatos e os programas de pesquisa cientfica, Kuhn e os paradigmas, Feyerabend e o relativismo, Morin e a complexidade).

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Reflexes sobre Homeopatia, Histria e Epistemologia

Jorge Eduardo de Oliveira Storace

Dissertao apresentada em cumprimento parcial s exigncias do Mestrado Profissionalizante em Homeopatia da Faculdade de Cincias da Sade / Instituto Brasileiro de Estudos Homeopticos, para obteno do grau de Mestre Orientadora: Profa. Dra. Clia Maria Cabral Piva Senna

FACIS/IBEHE

So Paulo, 2001

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Banca Examinadora: ___________________________________________ Prof.(a) Dr.(a) ___________________________________________ Prof.(a) Dr.(a) ___________________________________________ Prof.(a) Dr.(a)

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Este trabalho dedicado memria de minha av Adalgisa e, em especial, meu av Lauro Jorge de Oliveira, homeopatista idealista, que manteve acesa e soube transmitir a chama de fecundas idias.

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... todos os gneros de pensamento, inclusive o matemtico, so abstraes que no abarcam, e nem poderiam faz-lo, a realidade inteira. Diferentes gneros de pensamento e abstrao podem, juntos, dar-nos um melhor reflexo da realidade. Cada um por si tem seus prprios limites, mas juntos podem levar o nosso entendimento da realidade mais longe do que cada um isoladamente... Temos de explorar de modo criativo uma nova noo de cincia, apropriada ao tempo presente... O nosso objetivo lanar um pouco de luz na natureza da criatividade e sobre como podemos aliment-la, no s na cincia, como na sociedade e na vida de cada indivduo. David Bohm

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Agradeo a meus pais Maria Lusa e Giorgio, e meus tios Lygia e Verany, pelo suporte e carinho; a minha filha Fernanda pela pacincia e ateno; aos amigos Jos Bachur, Jos Romo, Jorge Gribov, Lus Salama e Marina Pedroso pelo apoio e comentrios; a Carlos Brunini e professores, especialmente Ana Maria Martins e Marcelo Pustiglione, pelo incentivo e motivao; aos colegas de curso pela alegria e companhia; e a Moacir Lacerda por seu engenho e arte.

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RESUMO

A presente dissertao investiga os fundamentos das crticas cientificidade da Homeopatia, utilizando para isso uma anlise histrica, onde so revistas as origens mdicas, cientficas e filosficas dos conceitos homeopticos; e uma anlise epistemolgica, onde a Homeopatia revista luz da evoluo da Filosofia da Cincia, atravs de algumas de suas vertentes mais relevantes e respectivos filsofos representativos (indutivismo e Bacon, convencionalismo e Poincar, positivismo e Russell, falsificacionismo e Popper, programas de pesquisa cientfica e Lakatos, paradigmas e Kuhn, relativismo e Feyerabend, complexidade e Morin).

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ABSTRACT

This study aims to investigate Homeopathys scientific matter, through a Historical analysis, where the medical, scientific and philosofical origins of homeopathic concepts are reviewed; and through an epistemological analysis, where Homeopathy is reviewed compared to Philosophy of Sciences evolution by means of its most considerable tendencies and respective philosophers (inductivism and Bacon, conventionalism and Poincar, positivism and Russell, falsifiability and Popper, scientific research programmes and Lakatos, paradigm and Kuhn, relativism and Feyerabend, complexity and Morin).

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LISTA DE FIGURAS

1. Organograma Histrico-Epistemolgico..........................................................7 a 9 2. Caravaggio, Tom, o Incrdulo, aprox. 1600 [GOMBRICH, 1985]......................22 3. Turner, Comeo da Cor, 1819 [BOCKEMHL, 1993].........................................29 4. Mondrian, Composio com Vermelho, Amarelo, Azul e Preto, 1921 [DEICHER,1995]..................................................................................................35 5. Escher, Belveder, 1958 [ERNST, 1991]..............................................................39 6. Kandinsky, Riscas Pretas I, 1913 [DCHTING, 1992].. .....................................46 7. Magritte, Decalcomania, 1966 [PAQUET, 1995].................................................51 8. Lichtenstein, Paisagem com Figuras e Arco-ris, 1980 [HENDRICKSON, 1994]......................................................................................58 9. Mir, A Poetisa, 1940 [ERBEN, 1993].................................................................65

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SUMRIO

1. Introduo..............................................................................................................1 2. Homeopatia e Histria...........................................................................................5 2.1. Organograma Histrico-Epistemolgico..........................................................7 2.2. Insero Histrica da Homeopatia.................................................................10 3. Homeopatia e Epistemologia................................................................................19 3.1 Indutivismo Bacon........................................................................................22 3.2 Convencionalismo Poincar.........................................................................29 3.3 Positivismo Russell......................................................................................35 3.4 Falsificacionismo Popper.............................................................................39 3.5 Programas de Pesquisa Lakatos.................................................................46 3.6 Paradigmas Kuhn........................................................................................51 3.7 Relativismo Feyerabend..............................................................................58 3.8 Complexidade Morin....................................................................................65 4. Concluses...........................................................................................................71 5. Referncias Bibliogrficas....................................................................................75

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1. INTRODUO

A Homeopatia, originalmente desenvolvida no sculo XVIII na Alemanha por Samuel Hahnemann (1755-1843) hoje uma prtica mdica relativamente difundida no mundo, no sem muitas polmicas, disputas e crticas que a acompanham desde seu incio. Ela foi e exercida por mdicos, em alguns lugares por prticos, e utilizada pela populao de distintos pases com diferentes culturas, como Inglaterra, EUA, Frana, Alemanha, ndia, Mxico, Argentina e Brasil, restringindo-se aos exemplos mais destacados. Mais especificamente no Brasil1, sua histria, desde a introduo no pas no sculo XIX atravs de Benoit Mure (1809-1958) at a atualidade, pode ser dividida em 6 fases: implantao, expanso, resistncia, urea, decadncia e retomada social [LUZ, 1996]. Ao longo de todas essas fases, assim como desde sua origem europia, a Homeopatia buscou sua legitimidade como saber, dos aspectos filosficos at a busca por uma institucionalizao acadmica. No perodo mais recente, desde a dcada de 1970 at a atualidade, a Homeopatia ressurge no contexto das ento chamadas Medicinas alternativas, no curso de uma revoluo contracultural poltica e social que diagnosticou uma crise na Medicina oficial, manifestada pelos seus altos custos econmicos, grande iatrogenia e baixa eficcia no atendimento populao scio-economicamente menos favorecida, representando o oposto destas caractersticas [LUZ, 1996].

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Atualmente so 15000 mdicos homeopatas (6,5% do total e mdicos no pas) contra 300 na dcada de 80, 1600 farmcias homeopticas contra 10 na dcada de 70, 9 milhes de usurios estimados, dados da Associao Mdica Homeoptica Brasileira, 2001 [ORLANDI, 2001].

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Ainda assim, seu estatuto como saber seguidamente questionado por parte da Medicina e Cincia estabelecidas. O fato de atualizar-se sua descrio como uma Medicina no-convencional ou complementar configura melhor a questo, uma vez que a Homeopatia no mais propriamente uma alternativa em um sentido contracultural, pois alm de uma prtica oficializada (1980), tambm uma especialidade oficial (1990) [LUZ, 1996]. Torna-se explcito que a oposio se d agora, como sempre se deu, entre uma prtica convencional e outra no-convencional. Definir-se ento a antiga Medicina oficial como convencional bastante razovel. A Medicina convencional tambm descrita como cientfica ou, mais recentemente, Medicina baseada em evidncias. Estas trs definies so usualmente tomadas como sinnimos, o que permite que se reformule suas proposies da seguinte maneira: se a Medicina convencional cientfica porque baseada em evidncias (cientficas), uma Medicina no-convencional como a Homeopatia no pode ser. Em outras palavras, a Cincia, tomada como sinnimo da verdade, baseada na assim chamada conveno cientfica, instncia definidora do que ou no saber qualificado. Alguns exemplos tornam clara a questo: no primeiro deles, uma anlise histrica dialtica em conjunto com uma anlise epistemolgica bachelardiana levam R. L. Novaes, mdico, a concluir pela ... no-cientificidade da proposio homeoptica, por uma aparente ineficcia de sua prtica [NOVAES, 1989]. Apesar de conceder que seu estatuto de ... fato concreto e histrico... (torna-a) objeto de anlise e conhecimento... (sendo) sempre possvel se considerar que a ausncia de uma explicao cientfica nem sempre e necessariamente anula de forma absoluta a positividade de fenmenos decorrentes de uma interveno [idem].

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J M. Bunge, filsofo e epistemlogo contemporneo, eloqente na sua definio de pseudocincia: ... o caso da astrologia, homeopatia e outras pseudocincias: fcil refut-las empiricamente, mas no as consideramos cientficas porque so incompatveis com o conhecimento cientfico [BUNGE, 1987]. Por ltimo R. Sabatini, outro mdico, aqui no papel de formador de opinio atravs da mdia, pergunta e responde se ... A Homeopatia Cincia? Ou um culto? Uma seita?... a Medicina homeoptica anseia ser Cincia...ento, se quer ser Cincia, procure seguir os paradigmas da Cincia... existem alguns