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APONTAMENTOS SOBRE A INFLUÊNCIA RELIGIOSA- PROFISSÃO

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APONTAMENTOS SOBRE A INFLUÊNCIA RELIGIOSA NA ESCOLHA DA PROFISSÃO1

Fabiana Cristina da Silva2 Lidiane Cristine Dutra de Oliveira3

Valéria Nazário da Silva Santos4

RESUMO Este trabalho apresenta uma reflexão acerca da influência dos valores religiosos na escolha dos discentes do Centro Universitário Una/Barreiro pelo curso de Serviço Social e da interferência desses valores nas práticas profissionais dos assistentes sociais. Para tanto, pretendeu-se conhecer o perfil dos graduandos do primeiro e oitavo módulos desta instituição por meio entrevistas. Buscou-se ainda perceber se há uma influência de valores religiosos como a caridade e a ajuda ao próximo nas intenções interventivas por meio de práticas fundamentadas, por exemplo, no âmbito da política de Assistência Social. Posto isso, procura-se compreender se os graduandos a concebem como ajuda ou a visualizam na perspectiva de política pública se distanciando de uma ótica fundamentada pelos valores religiosos. Os resultados apontam que na atualidade há influência dos valores religiosos na escolha do curso e que, na prática, ainda é perceptível a sua prevalência. No entanto, sem desconsiderar a religiosidade dos discentes e dos profissionais, considera-se que cabe a eles propor um distanciamento na prática dos seus valores pessoais e religiosos, mesmo não se acreditando que existe neutralidade na atuação. Portanto, a partir dessa postura, espera-se que o profissional reflita sobre o atual Projeto Ético-Político do Serviço Social reafirmando uma proposta de comprometimento do Serviço Social para com a busca pela garantia de direitos dos sujeitos de sua atuação e a promoção da cidadania. Palavras-chave: Serviço Social crítico, Religião, Discentes de Serviço Social.

1 Este artigo é resultado de uma pesquisa elaborada para o Trabalho de Conclusão de Curso das referidas autoras, como requisito para obtenção do título de bacharel no curso de Serviço Social do Centro Universitário Una. 2 Este artigo é resultado de uma pesquisa elaborada para o Trabalho de Conclusão de Curso das referidas autoras, como requisito para obtenção do título de bacharel no curso de Serviço Social do Centro Universitário Una. 3 Graduada em Serviço Social pelo Centro Universitário Una. 4 Graduada em Serviço Social pelo Centro Universitário Una.

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INTRODUÇÃO

Este trabalho discute a possível influência dos valores religiosos, como a caridade e

a ajuda, na escolha dos discentes pelo curso de Serviço Social do Centro Universitário

Una/Barreiro e nas intenções interventivas por meio de práticas fundamentadas, por

exemplo, no âmbito da política de Assistência Social.

O estudo de tal temática torna-se relevante por existirem, até o presente momento,

poucas produções teóricas acerca do perfil profissional dos assistentes sociais e,

principalmente, dos graduandos de tal curso. Essa afirmativa pode ser percebida quando se

constata que “[...] na literatura nacional, o perfil dos assistentes sociais não despertou

interesse nem mesmo entre seus próprios membros. Poucos são os estudos que chegaram a

ter algum destaque ao tratar do tema” (SIMÕES, 2009, p.35).

Nessa pesquisa optou-se pela concepção teórica marxista, uma vez que se percebe

uma interlocução da mesma corrente de pensamento com o Serviço Social, o que

possibilitou uma nova configuração na profissão e na atuação dos assistentes sociais. Isso

resultou na afirmação de um debate crítico em torno do Projeto Ético-Político profissional,

direcionando o Serviço Social para uma intervenção voltada para a viabilização de direitos

sociais e de políticas em busca da defesa da cidadania.

Como forma de viabilizar o estudo, realizou-se um trabalho de campo no Centro

Universitário UNA no campus Barreiro, em Belo Horizonte. O referido trabalho de campo

ocorreu nos meses de outubro e novembro de 2010. Isso resultou nessa pesquisa que

compreendeu o período de 2010 a 2012. Os sujeitos envolvidos no trabalho de campo foram

discentes ingressantes e concluintes do curso de Serviço Social, regularmente matriculados

no período noturno dessa instituição de ensino.

A pesquisa teve um caráter quantitativo e qualitativo, sendo também utilizados

como instrumentais o questionário e as entrevistas. Optou-se pela aplicação de uma

entrevista semi-estruturada e direta com o auxílio da técnica de grupo focal. Como forma de

garantir o sigilo absoluto sobre as informações prestadas pelos sujeitos da pesquisa - sigilo

este resguardado pela Resolução 196/96 - foram criados nomes substitutos para as

entrevistadas. Os nomes utilizados para as entrevistadas do primeiro módulo foram Violeta,

Margarida e Rosa. Já para as entrevistadas do oitavo módulo foram utilizados os nomes

Hortência, Acácia, Magnólia e Girassol.

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1. Conservadorismo e renovação no Serviço Social

Historicamente, o Serviço Social, como profissão inserida na divisão sócio-técnica

do trabalho, teve início em meados do século XVIII na Europa. Com a Revolução Industrial,

ocorrida inicialmente na Inglaterra, a introdução da figura dos operários aliada à

generalização do trabalho assalariado, assim como de diversas formas de exploração,

contribuiu para a concentração dos meios de produção e do lucro nas mãos da classe

burguesa. Conforme Martinelli (1991), as relações sociais se alteraram, o mundo ocidental

dividiu-se entre classe dominante composta pela burguesia e classe subalterna representada

pelos trabalhadores assalariados.

Dessa forma, constataram-se péssimas condições de trabalho e de habitação para a

classe operária e, em meio a essa contextualização, originou-se também o chamado exército

industrial de reserva que se constituía num grande contingente de desempregados como

resultado do desenvolvimento das forças produtivas. A exploração desse sistema tornou

possível à classe trabalhadora desenvolver capacidades ideológicas com o intuito de criarem

organizações de luta contra essa dominação.

Iamamoto e Carvalho (2007) assinalam que o ingresso dessa classe no contexto

político fez com que emergisse uma nova configuração da chamada “questão social”5, a qual

deu origem à profissão do Serviço Social como estratégia utilizada pela Burguesia, Estado e

Igreja para controlar tais manifestações que ameaçavam a ordem societária.

Como assinala Martinelli (1991), no ano de 1869, surgem em Londres os primeiros

agentes sociais que atuavam no âmbito da caridade e da assistência como auxiliadores no

processo de dominação e controle social. No Brasil, as bases para o surgimento da profissão

não foram diferentes. Inspirada no Serviço Social europeu e, majoritariamente composto por

mulheres, a origem da profissão se deu na década de 1930 - período em que se finalizou a

5 Conforme os autores mencionados, “[...] a questão social não é senão as expressões do processo de formação e desenvolvimento da classe operária e de seu ingresso no cenário político da sociedade, exigindo seu reconhecimento como classe por parte do empresariado e do Estado. É a manifestação, no cotidiano da vida social, da contradição entre o proletariado e a burguesia, a qual passa a exigir outros tipos de intervenção, mais além da caridade e da repressão” (IAMAMOTO e CARVALHO, 2007, p.77). O autor Castel (2000) lembra ter sido em 1830 a primeira vez que a expressão “Questão Social” se apresentou como conceito para ilustrar a relação contraditória entre o capitalismo e o proletariado, ou seja, a questão social engloba todos os problemas sociais que surgiram logo após a Revolução Industrial, são expressões negativas decorrentes do capitalismo.

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República Velha dando início ao governo de Getúlio Vargas, caracterizado como paternalista

e populista.

Conforme Iamamoto e Carvalho (2007), assim como no contexto internacional, a

gênese do Serviço Social foi marcada por uma formação teórico-metodológica conservadora.

Nesse sentido, exerciam ações emergenciais e assistencialistas no âmbito da caridade e da

filantropia, em decorrência da grande influência dos valores e dogmas da Igreja Católica a

qual teve atuação direta na formação desses profissionais.

Segundo os autores mencionados, no período do surgimento das escolas de Serviço

Social, para ser um assistente social eram exigidas diversas características das pessoas que

exerceriam a profissão; o profissional deveria ser uma pessoa íntegra moralmente; ter um

preparo técnico; ter um grande sentimento de amor ao próximo; solicitar-se pelas injustiças

sociais, pela miséria e serem dotados de vontade. Inspirada no movimento de reinserção

social da Igreja Católica, em 1936 teve-se a criação da Escola de Serviço Social de São Paulo,

em 1937 e em 1938 a Escola de Serviço Social do Rio de Janeiro.

De acordo com Iamamoto (2007), em meados dos anos 1940 e 1950, o Estado passa

a intervir nos processos de regulação social por meio de políticas públicas sociais. Nesse

cenário, é possível visualizar também a expansão de instituições sócio-assistenciais estatais,

paraestatais e autárquicas. Essas instituições possibilitaram ampliar o mercado de trabalho

para os assistentes sociais fazendo com que o Estado e a burguesia legitimassem e

institucionalizasse o Serviço Social o qual se transformou em um dos instrumentos para

executar as políticas públicas sociais.

Conforme Andrade (2008), no Brasil e na América Latina, as ações profissionais

sofreram influência norte-americana, incorporando as teorias estrutural-funcionalistas e de

metodologias de intervenção, como por exemplo, o Serviço Social de Caso, de Grupo e de

Comunidade. Nessas teorias não havia a preocupação de analisar a realidade como um todo,

não se questionava o motivo de uma sociedade composta pela desigualdade social e o

indivíduo era tido como responsável pela situação social em que se encontrava. Assim,

buscava-se que esses indivíduos estabelecessem entre si relações de ajuda mútua.

Essa contextualização da profissão sofre mudanças e, conforme Iamamoto (2007), a

partir dos meados da década de 1960 se inicia o chamado Movimento de Reconceituação do

Serviço Social. Trata-se de um processo de ruptura com a sua gênese conservadora,

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ocasionando uma revisão crítica da base teórico-metodológico, ético-político e técnico-

operativo da profissão.

Netto (2009) pontua importantes acontecimentos que ocorreram nesse processo de

consolidação da renovação da profissão e destaca três direções desse movimento. A

primeira delas ocorreu nos meados da década de 1960 e norteou-se num viés modernizador

da profissão. Na década de 1970, ocorreu a segunda direção apontada pelo autor como

reatualização do conservadorismo, compreendida como articulação entre as bases

conservadoras que legitimaram o Serviço Social e alguns elementos integrantes da teoria

crítica marxista. A terceira direção também se dá na década de 1970 e refere-se à intenção

de ruptura com o Serviço Social tradicional.

Outro importante acontecimento histórico ilustrou os novos posicionamentos

adotados pelos profissionais do Serviço Social. Ocorrido no ano de 1979 o III Congresso

Brasileiro de Assistentes Sociais reafirmou a perspectiva renovadora da profissão e significou

esse processo de conscientização crítica profissional. Conforme Guerra (2009), o referido

congresso conhecido como “Congresso da Virada” diferenciou-se dos anteriores realizados

respectivamente nos anos de 1947 e 1961 marcados por discussões limitadas e

conservadoras.

Salienta-se que este Congresso significou um marco simbólico nesse processo de

conscientização crítica do Serviço Social, no entanto, tal reatualização se afirma

concretamente no Projeto-Ético-Político do Serviço Social. De acordo com Netto (1999), a

construção desse projeto, o qual conquistou a sua hegemonia no início dos anos 1990, se

deu a partir do envolvimento da categoria em diversos espaços de debates, discussão e

articulação entre os profissionais. O Código de Ética de 1993 foi resultado dessa renovação e

significou um avanço teórico e político e ainda representou um novo rumo na trajetória do

Serviço Social no Brasil.

2. Serviço Social e religião

Os acontecimentos históricos no Serviço Social que lhe atribuíram um caráter crítico

fizeram com que a profissão direcionasse novas bases para a sua fundamentação. Dessa

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forma, nas décadas que se procederam, 1980 e 1990, o Serviço Social progrediu no que diz

respeito ao seu acervo ético-político, teórico-metodológico e técnico-operativo.

Tal progresso, nesse momento, se faz possível pela efetiva interlocução da teoria

social marxista com o Serviço Social, trazendo uma nova configuração do fazer profissional

aos assistentes sociais. De acordo com Mathis e Santana (2009), tal aproximação resulta em

meados da década de 1990 na afirmação de um debate em torno do Projeto Ético-Político

profissional de caráter progressista o qual, atualmente, reflete sobre tensões e lutas

derivadas de projetos societários antagônicos.

Faz-se necessário retomar a temática dessa pesquisa após contextualizar a profissão

na sua trajetória conservadora ao Movimento de Reconceituação. Assim, torna-se

imprescindível apresentar a religião e sua influência no campo das relações sociais, a partir

de uma análise marxista. Nesse sentido, a religião pode ser compreendida como uma

perspectiva ideológica, ou seja, ela é tida como um mecanismo de controle e alienação dos

sujeitos, que por meio do imaginário religioso são induzidos a aceitar as adversidades sociais

de forma pacífica acreditando que serão recompensados futuramente numa outra esfera

espiritual, ou então, entende o sofrimento como uma forma de punição dos pecados

cometidos.

Com isso, entende-se que “a religiosidade consiste em substituir o mundo real (o

mundo sem espírito) por um mundo imaginário (o mundo com espírito). Essa substituição do

real pelo imaginário é a grande tarefa da ideologia e por isso ela anestesia como o ópio”

(CHAUI, 1991, p.107-108).

A discussão acerca da possibilidade dos valores religiosos influenciarem ou não as

práticas profissionais dos assistentes sociais, principalmente os valores da Igreja Católica que

estaria relacionada diretamente ao surgimento do Serviço Social, remetendo também à

percepção do poder que a Igreja tem em influenciar a vida das pessoas em diversos aspectos

por meio de sua teoria e pelo uso da fé.

Firmo (2009) esclarece que apesar de existir tal processo de dominação exercido

pela Igreja, pode-se dizer que muitos indivíduos que são dominados pela alienação,

constroem seu paradigma oficial e seus próprios sistemas religiosos de contestação como

forma de se posicionarem contrários ao que já se encontrava tão consolidado pela história.

O autor exemplifica tal fato com o movimento denominado Teologia da Libertação, surgido

nos anos 1960 na América Latina. Esse movimento foi criado por membros progressistas da

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Igreja Católica que acreditam na divindade religiosa como fonte de libertação e

transformação e não como forma de controle e dominação, valores esses que por muitos

anos tiveram influência na formação profissional dos assistentes sociais.

Betto (2008) acrescenta que o Movimento em questão considera que os excluídos

socialmente devem atuar como sujeitos históricos e ativos no processo de transformação

societária. Com isso, ressalta que a fé dos pobres deve ser refletida e compreendida a partir

do seu envolvimento nas questões religiosas, estabelecendo assim uma relação horizontal

entre a Igreja e os fiéis. Entretanto, cabe destacar que, apesar da relevância que tal doutrina

representou no contexto social no que se refere à contestação da ordem vigente, se

constitui como uma ala da Igreja Católica e compartilha parte de seus valores e dogmas. E

mesmo, possuindo uma atuação mais crítica perante as manifestações da questão social tal

movimento se difere da atual configuração do Serviço Social.

3. Doutrinas religiosas e prática profissional

Nas entrevistas realizadas com as discentes, dentre outras análises, verificou-se as

religiões Católica, Protestante e Espírita como declaradas pelas mesmas. Ao se discutir a

respeito da doutrina das religiões, entende-se que existe na maioria delas uma concepção de

ajuda ao próximo, de caridade, do fazer bem às pessoas e foi visto que a origem do Serviço

Social esteve vinculada a esses valores. Simões (2009) também compartilha tal idéia e

elucida que “[...] as especificidades da composição religiosa entre os assistentes sociais é

uma decorrência da relação existente entre cada uma das religiões e a assistência social”

(SIMÕES, 2009, p.109). Cabe ressaltar que o autor menciona a assistência social a partir da

perspectiva utilizada pelo senso comum que a interpreta como caridade e filantropia.

Conforme Sposati (2007), em meio aos ambientes públicos e privados, a política de

Assistência Social também é permeada por práticas, pautadas nos princípios presentes nas

religiões, que a descaracterizam como direito. Salienta-se que a trajetória da prática de

assistência, até que se constituísse como política e consequentemente como um direito

garantido pela Constituição de 1988, perpassa a história do Serviço Social e da Igreja Católica

que tinha desde seus primórdios ações pautadas na ajuda, na caridade, na benemerência –

características próprias da assistência – e que deu base à formação da profissão.

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Nota-se que independente da religião que se reporte, seus princípios e dogmas

perpassam, seja no senso comum ou entre o próprio ambiente profissional, uma relação

com o Serviço Social remetendo à profissão uma imagem de ser a efetivação da prática do

bem e da caridade. Isso dificulta a reafirmação proposta pelo movimento de reatualização

profissional. No entanto, compreende-se ser delicada a discussão visto que engloba valores

dos discentes e também dos profissionais. Valores estes já enraizados, ainda que sejam

colocados em questionamento a partir da formação acadêmica do curso.

A partir disso foi questionado às graduandas do primeiro módulo se suas

orientações religiosas contribuíram na opção pelo curso de Serviço Social. Foi analisado

pelos relatos que para a maioria existe essa interferência, pois, percebeu-se nas falas a

vinculação da profissão com as noções de caridade e de assistencialismo. De acordo com

Rosa [...] “a religião influenciou muito porque eu sou espírita e a gente trabalha muito com a

caridade” (ENTREVISTADA ROSA, primeiro módulo).

Percebe-se que as idéias sobre o Serviço Social são acrescidas de concepções

equivocadas por alunos que iniciam o curso, no sentido de associá-lo à caridade, apesar de

que não se espera que adentrem ao curso com uma visão diferenciada desta devido, às

vezes, ao entendimento conservador que a sociedade ainda tem sobre a profissão.

Dessa forma, Simões (2007) afirma que os valores religiosos são motivadores

marcantes para o ingresso na profissão tendo a idéia de fazer o bem, de ajuda ao próximo e

da busca da justiça social. Entretanto, percebeu-se pelas entrevistadas do oitavo módulo

que tais valores não influenciaram na escolha do curso, apesar de declararam que possuem

algum tipo de religião. Entende-se que esta negação na declaração das graduandas do oitavo

módulo pode ser possível devido à interferência do processo de amadurecimento em

relação ao conteúdo teórico adquirido na vivência acadêmica.

De acordo ainda com Simões (2007), percebe-se que os valores religiosos agregados

pelas graduandas advêm de fatores inerentes a elas como a formação cultural e os

processos de socialização vivenciados. Para tanto, Belotti (2004) explica que para lidar com a

religião nesse sentido cultural é importante afastar-se de um conceito restrito de religião

buscando compreendê-la de forma mais ampla. A autora ainda entende que se deve buscar

entender o significado que as diferentes crenças e práticas religiosas possuem para quem as

adotam e dessa forma, a autora menciona que dentro da História Cultural, a religião é

concebida como algo que é construído historicamente.

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Sendo assim, torna-se compreensível que as discentes que tiveram vinculação com

alguma doutrina religiosa acabem associando certos preceitos com características da

profissão, até mesmo porque cabe relembrar que o surgimento do Serviço Social teve

influência direta do catolicismo. No entanto, entende-se que tal fato não se relaciona e não

justifica uma atuação profissional pautada em práticas conservadoras e direcionada numa

ótica de caridade e ajuda, visto que a concepção do curso, a partir de sua perspectiva crítica,

aponta para outros horizontes guiados por um compromisso ético com as classes

subalternas.

Com isso, outro aspecto abordado na entrevista com as graduandas de ambos os

módulos foi a possível influência da religião na futura atuação profissional, fator que

exemplifica os conflitos existentes na atuação do Serviço Social. Nesse sentido, é necessário

entender se e como os valores religiosos são colocados em prática pelos profissionais. Nesse

sentido, Simões (2005) argumenta que associar o sentido entre religiosos e a prática dos

assistentes sociais é um fato que se torna cada vez mais claro e constitutivo do Serviço

Social.

Nas entrevistas foi abordada essa questão da instrumentalização desses valores

religiosos nas práticas profissionais e percebeu-se que houve divergências nas informações

prestadas até mesmo entre as alunas do mesmo módulo. A entrevistada Violeta relata que

“[...] vai ter determinados momentos que a minha religião vai ajudar, principalmente em se

tratando da pessoa que precisar de um apoio espiritual, eu acho que eu vou poder ajudar

um pouco mais além da profissão [...]” (ENTREVISTADA VIOLETA, primeiro módulo).

Observa-se que o comentário em questão expressa determinadas visões de mundo,

nas quais a religião serve como fio condutor que descreve e prescreve a forma do indivíduo

agir na profissão. Tal fato torna-se reprovado e temido à medida que embasa a atuação do

profissional por meio de seus valores morais e religiosos tornando sua prática assistencialista

e fundamentada pela ajuda. Além disso, corre-se o risco do profissional julgar-se superior

aos sujeitos de seu trabalho, estabelecendo assim uma relação verticalizada e hierárquica ao

considerar seus valores como corretos em comparação com os valores dos indivíduos por ele

atendidos.

No entanto, como foi comentado, entre as próprias colegas há distinção de

pensamentos. A entrevistada Rosa relatou que buscará a neutralidade na sua atuação

profissional, tentando atender ao “cliente” independente de sua religião. Cabe destacar que

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a neutralidade relatada pela entrevistada supracitada remete à idéia de que os

conhecimentos científicos são imparciais não existindo interesses e juízos de valor implícitos.

Contudo, sabe-se que as interações sociais estabelecidas entre os profissionais e os sujeitos

de direitos são dotados de elementos objetivos e subjetivos. Assim sendo, não é possível se

estabelecer uma atuação profissional neutra.

Já no oitavo módulo todas as entrevistadas declararam que as suas respectivas

opções religiosas não influenciarão durante o seu exercício profissional como descreve a

entrevistada Hortência: “[...] nós trabalhamos com noção de direito, então, nós não

podemos, é, julgar e muito menos querer que o direito nosso seja do outro e que o do outro

seja nosso. Temos que respeitar as diferenças” (ENTREVISTADA HORTÊNCIA, oitavo módulo).

A dicotomia entre os relatos das alunas entrevistadas não excluem a discussão dos

embasamentos do Serviço Social pelas mesmas, ou seja, a religiosidade presente em seus

princípios não elimina a possibilidade de uma prática crítica. Conforme Loewenberg (1988,

apud Simões, 2005), compreender os valores e a imparcialidade do profissional na atuação

implica reconhecer que esses valores são componentes das decisões práticas dos

profissionais e é preciso entender que a adoção de valores na intervenção é feita, algumas

vezes, até mesmo de modo inconsciente pelos assistentes sociais. Sendo assim, Simões

(2005) reafirma que é importante que o profissional crie mecanismos de autocontrole para

que não haja influência dos seus valores para com os usuários dos serviços sociais.

4. Contemporaneidade do Serviço Social e valores religiosos: do respeito aos discentes e

profissionais à reflexão crítica de sua prática

Ressalta-se que não se busca construir uma recriminação ou aversão à religiosidade

dos graduandos ou dos assistentes sociais. Simões (2005) também compartilha desse

argumento ao destacar que identificar os valores religiosos dos profissionais com a profissão

não se constitui essencialmente em um problema, mas sim, saber lidar com esses valores na

prática sem torná-la uma convenção religiosa.

Entende-se então, ser necessário compreender que o assistente social assim como

qualquer outro ser é constituído por elementos de um processo social e cultural –

argumento novamente apresentado - onde detém sua subjetividade afetada por fatores

diretos e indiretos a ele. Assim, não se espera que o assistente social elimine os elementos

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que fazem parte de sua composição como ser social. Embasa-se nas idéias de Machado

(2011) que acredita que a formação profissional do assistente social não antecede o seu

modo de ser. O autor explica que o ethos profissional6 se determina por meio de sua

formação sócio-histórica e que cabe considerar esse processo o qual ultrapassa os

horizontes acadêmicos.

Por isso, acredita-se ser difícil haver total neutralidade na sua prática profissional.

De acordo com Barroco (2006), é impossível não existir influências de nossas concepções

morais e subjetivas no exercício profissional, o que não significa que tais concepções

determinarão nossas ações. Para tanto, Santos (2010) elucida que como forma de

possibilitar um distanciamento desses valores na prática profissional, existe a ética que se

incube de refletir os valores e a moral e que deve estar presente em qualquer tomada de

decisão.

Portanto, indaga-se se o graduando, em especial do oitavo módulo e nem tanto o

do primeiro módulo, é capaz de analisar a conjuntura histórica da profissão remetendo-a a

atual proposta do Serviço Social. Questiona-se se o graduando do curso reflete sobre as

conseqüências profissionais que o seu conteúdo subjetivo possa provocar caso se sobressaia

ao agir ético. Também se pergunta em que medida o assistente social realiza uma

ponderação no cotidiano sobre a sua atuação; como esse profissional avalia suas práticas e

instrumentais de trabalho; como percebe os sujeitos e as políticas públicas sociais que

demandam sua atuação; de que forma compreende a dinâmica da realidade na qual se

insere; que visão possui sobre os impactos dos seus valores, sejam morais ou religiosos, sob

o exercício profissional e como propõe uma atuação que busque se distanciar dessa

interferência.

Contudo procura-se, devido constatar que na atualidade há influência dos valores

religiosos na escolha do curso e que na prática ainda é perceptível a sua prevalência,

apresentar aos graduandos e profissionais a importância de seu acervo subjetivo. Com isso,

busca-se eliminar uma perspectiva que visualize de forma negativa esses sujeitos como se os

assistentes sociais tivessem que se abster de determinadas experiências vivenciadas em suas

vidas, antes de iniciarem o curso.

6 O autor define o ethos profissional como uma atividade reflexiva da ação do assistente social no seu âmbito profissional e desenvolve uma discussão desse ethos enquanto a constituição do ser que ultrapassa sua formação profissional.

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Portanto, ressalta-se que se defende um Serviço Social que contribua, de fato, para

promoção da autonomia e empoderamento dos sujeitos sociais, a fim de participarem

ativamente no processo de construção de uma sociedade mais igualitária e democrática. E

que proponha aos profissionais uma base que busque dialogar não só acerca das próprias

contradições do sistema, mas principalmente, as divergências encontradas dentro do

próprio âmbito profissional.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Verificou-se que as religiões elencadas nas entrevistas têm uma relação com as

concepções de ajuda, benevolência e caridade, o que caracterizava a atuação dos assistentes

sociais na origem da profissão. Tais concepções também estiveram presentes no contexto

dos primórdios da Assistência Social o que, na atualidade, contribui para dificultar a

compreensão da mesma como política pública e direito do cidadão que dela necessitar.

Ao abordar a questão da religiosidade das discentes e dos profissionais, não se

pretendeu criticar negativamente os seus valores, uma vez que se compreende que o sujeito

é dotado de uma subjetividade constituída por fatores exteriores e por uma formação

cultural. No entanto, defende-se que é preciso saber lidar com esses valores na prática sem

torná-los parte do arcabouço técnico-operativo.

Constatou-se que pelas discentes do primeiro módulo não existe discernimento

entre concepções religiosas e o Serviço Social, apesar de que é compreensível pelo fato de

não terem vivenciado o processo de formação acadêmica. Contudo, as graduandas do oitavo

módulo situam a profissão num contexto crítico e afirmam não existir influência dos dogmas

religiosos nas futuras intervenções.

Portanto, constata-se que na atualidade há influência dos valores religiosos na

escolha do curso e que na prática ainda é perceptível a sua prevalência. Caso a atuação seja

embasada em concepções religiosas, o exercício profissional do assistente social estará

sujeito a um retrocesso aproximando-se novamente da sua caracterização embrionária.

Dessa forma, torna-se visível a relevância de discussões na categoria em torno da

fundamentação contemporânea de sua prática, a qual preconiza um profissional direcionado

a um projeto de transformação social. Entende-se ser necessário ainda que o profissional

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reflita sobre o atual Projeto Ético Político reafirmando, assim, uma proposta de

comprometimento do Serviço Social para com a classe trabalhadora.

A partir disso, espera-se que o graduando e o assistente social cogitem sobre as

conseqüências profissionais que o seu conteúdo subjetivo possa provocar, caso se

sobressaia ao agir ético. Isso porque o curso possibilita um arcabouço teórico-metodológico

que proporcione a esse profissional adquirir alternativas de intervenção que não se limitem

às práticas cristalizadas pelos precursores da profissão.

Defende-se que deve existir no espaço da profissão uma compreensão pelo

processo de formação do graduando anterior a seu processo de amadurecimento

acadêmico, fato este que não deixa de considerar a complexidade do seu contexto. Entende-

se que assim, compreendendo o próprio universo discente e profissional, facilita a

compreensão do caráter contraditório do Serviço Social em atuar na mediação entre

capitalismo e classe trabalhadora.

Em suma, por meio dessas reflexões percebeu-se que as dimensões de competência

contemporânea do Serviço Social englobadas na discussão da instrumentalidade, caso sejam

influenciadas pela presença dos valores religiosos dos profissionais, terão seu fundamento

afetado por aspectos que atribuem às ações dos assistentes sociais um caráter conservador

e distanciado de perspectivas direcionadas à busca pela garantia de direitos, portanto,

distante do nosso Projeto Ético Político.

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REFERÊNCIAS

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