A Universidade, a Empresa e a Pesquisa

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  • A Universidade, a Empresa e a Pesquisa1 Carlos H. de Brito Cruz

    Reitor, Unicamp

    Sumrio

    Analisamos as atividades de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) realizadas no Brasil, focalizando a ateno no

    papel de cada uma das instituies: universidade, empresa e governo. Para isto analisamos o pessoal envolvido

    em P&D no pas, os investimentos realizados e alguns resultados facilmente documentveis como o nmero de

    publicaes cientficas e de patentes realizadas. Verifica-se que, enquanto a capacidade brasileira de fazer Cincia

    tem crescido, aumentando sua penetrao internacional, a capacidade de fazer Tecnologia est ainda aqum das

    possibilidades. Destacamos que o principal desafio estrutural para o sistema brasileiro de P&D aquele de se

    levar atividades de P&D para dentro das empresas, transformando-as em verdadeiros motores da inovao

    tecnolgica no pas.

    1 Este artigo foi preparado para o seminrio Brasil em Desenvolvimento, organizado pelo Instituto de Economia da UFRJ e uma verso atualizada e ampliada do artigo com mesmo ttulo publicado na Revista Humanidades, 45 pp.15-29 (UnB, 1999).

  • univ-empr-pesq-rev102003a.doc; 08/01/04 1

    A Universidade, a Empresa e a Pesquisa que o pas precisa2 Carlos H. de Brito Cruz

    Reitor, Unicamp

    "A cincia est destinada a desempenhar um papel cada vez mais preponderante na

    produo industrial. E as naes que deixarem de entender essa lio ho inevitavelmente

    de ser relegadas posio de naes escravas: cortadoras de lenha e carregadoras de

    gua para os povos mais esclarecidos" (Lord Rutherford, citado no documento Cincia e

    Pesquisa Contribuio de Homens do Laboratrio e da Ctedra Magna Assemblia

    Constituinte de So Paulo, que props a criao da Fapesp em 1947)1

    O conhecimento, que sempre foi um dos principais insumos para a gerao de riqueza e bem estar social,

    passou a ser reconhecido como tal a partir da revoluo da informao trazida pela Internet. Alan

    Greenspan, presidente do Federal Reserve dos Estados Unidos, tem destacado que os avanos

    tecnolgicos dos ltimos anos, que permitiram s indstrias norte-americanas operar com maior

    produtividade, contribuindo para a maior prosperidade j experimentada pelo mundo"2. David Landes, o

    autor de A Riqueza e a Pobreza das Naes, destaca o valor do conhecimento mais contundentemente em

    entrevista Veja3, referindo-se necessidade de um pas ter criadores de conhecimento para se

    desenvolver: Se voc no tiver crebros, est acabado.

    A capacidade de uma nao de gerar conhecimento e converter conhecimento em riqueza e

    desenvolvimento social depende da ao de alguns agentes institucionais geradores e aplicadores de

    conhecimento. Os principais agentes que compem um sistema nacional de gerao e apropriao de

    conhecimento so empresas, universidades e o governo. Qual o papel que se deve esperar de cada um, e

    qual o papel desempenhado por eles no Brasil, so as perguntas para as quais tento, neste artigo,

    contribuir respostas, mesmo que parciais.

    No Brasil o debate em torno da importncia das atividades de pesquisa cientfica e tecnolgica tem,

    historicamente, ficado restrito ao ambiente acadmico. Este fato, por si s, j um indicador da principal

    distoro que os dados abaixo evidenciam, qual seja: em nosso pas a quase totalidade da atividade de

    pesquisa e desenvolvimento ocorre em ambiente acadmico ou instituies governamentais. Ao focalizar-se

    a ateno quase que exclusivamente no componente acadmico do sistema, deixa-se de lado aquele que

    o componente capaz de transformar cincia em riqueza, que o setor empresarial. Recentemente iniciativas

    como as da ANPEI (Associao Nacional para Pesquisa em Empresas), da ANPROTEC e da CNI, atravs

    2 Este artigo foi preparado para o seminrio Brasil em Desenvolvimento, organizado pelo Instituto de Economia da UFRJ e uma verso atualizada e ampliada do artigo com mesmo ttulo publicado na Revista Humanidades, 45 pp.15-29 (UnB, 1999).

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    do Instituto Euvaldo Lodi, tem alargado o horizonte da discusso incorporando progressivamente agentes

    ligados ao setor empresarial. De particular importncia nos ltimos anos foi a adoo pelo MCT, desde 1999,

    de uma estratgia para a poltica nacional para C&T que inclui, com destaque, a promoo de atividades de

    P&D em empresas. Esta nova estratgia implementada tem tido ampla aceitao no meio acadmico e

    empresarial, demonstrando j os primeiros resultados prticos.

    Neste artigo analisamos alguns componentes do Sistema Brasileiro de Cincia e Tecnologia, buscando

    determinar:

    a quantidade de pessoas efetivamente envolvidas em atividades de P&D e a natureza das instituies

    onde estas pessoas desenvolvem suas atividades de P&D, classificadas como universidades, institutos

    de pesquisa e empresas e as conseqncias da distribuio de pessoal existente;

    o perfil de investimentos nacionais em P&D, de acordo com a natureza da instituio que cobre o

    dispndio;

    que papel deve-se esperar da universidade e da empresa na realizao do desenvolvimento

    tecnolgico.

    Para auxiliar a avaliao dos dados apresentados, apresentamos sempre que possvel comparaes com

    dados internacionais, atravs das quais podemos avaliar e aferir a situao relativa do Brasil em termos de

    competitividade e insero internacional.

    Finalmente apontamos uma possvel estratgia para se elevar os dispndios nacionais em P&D para a casa

    dos 2% do PIB, um objetivo muito defendido nos debates sobre as polticas para C&T no Brasil.

    Crescimento econmico e as idias Razes histricas talvez no sejam suficientes para explicar por que algumas sociedades

    conseguiram, no espao de umas poucas dcadas, sair da pobreza e mover-se em direo a uma relativa

    riqueza, enquanto outras seguem patinando no charco de economias pouco eficientes ou at mesmo

    conhecem a experincia do empobrecimento depois de um perodo de prosperidade.

    Charles I. Jones4, economista da Universidade de Stanford, prefere colocar a questo em outros

    termos: Por que algumas economias desenvolvem infra-estruturas que so extremamente propcias

    produo e outras no?. A resposta de Jones quase uma tautologia, mas dificilmente deixar de fazer

    sentido: as sociedades desenvolvidas simplesmente investem mais no conhecimento, e as pessoas que

    integram a parte produtiva dessas sociedades destinam muito mais tempo ao aprendizado de novas tcnicas

    e tecnologias.

    Por isso, para alm de razes histricas e h quem apele at para as climticas , no h

    nenhum determinismo na maneira pela qual as naes mais avanadas chegaram a seu alto grau de

    desenvolvimento, abundncia e bem-estar. Para Jones, uma vez que entre em jogo o fator conhecimento, h

    sempre a promessa implcita de que a vitalidade [do crescimento econmico] esteja apenas adormecida nas

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    regies mais pobres do mundo.

    O incio do sculo 21 nos mostra, escancaradamente, que o conhecimento a base do

    desenvolvimento. Dcadas atrs, em pases como o nosso, se acreditava que vantagens comparativas

    como terra, clima e baixos salrios podiam ser instrumentos de atrao de investimentos e de

    desenvolvimento. No mais assim. Hoje o mundo reconhece que, alm de capital e trabalho, o insumo

    fundamental para a criao de riqueza o conhecimento.

    O advento da Internet e da Teia Mundial (a World Wide Web) abriu as portas da informao e tornou

    bvio o primado da cincia, da tecnologia e da cultura como elementos fundamentais para o

    desenvolvimento econmico e social. J sabiam disso os chineses do sculo XIV, poca em que a China

    chegou a ser a sociedade tecnologicamente mais avanada do mundo graas a um incomparvel domnio

    das tcnicas de manufatura no campo da nutica, da tecelagem, da impresso, da fundio e outros. Foi

    tambm graas pesquisa sistemtica e ao conhecimento acumulado na rea da navegao ocenica que

    Portugal, uma pequena comunidade de dois milhes de habitantes cujo governo tinha a pretenso de

    dominar o comrcio de especiarias, chegou altura de tornar-se uma das naes mais poderosas dos

    sculos XV e XVI. Que essas naes tenham perdido sua hegemonia tecnolgica ao longo dos sculos,

    como Portugal, ou mesmo abruptamente, como a China, outra histria que pode ter a ver, segundo Jones,

    com a falta de instituies que apoiassem a capacidade empreendedora.

    David Landes, historiador do desenvolvimento econmico, destaca em seu A Riqueza e a Pobreza

    das Naes, que a inveno da inveno, isto , a sistematizao do mtodo cientfico e da atividade de

    pesquisa a partir do sculo 18, foi um dos grandes ingredientes necessrios para a existncia de uma

    revoluo industrial na Europa, e para o desenvolvimento que se seguiu.

    Tornaram-se mais ricos os pases que souberam criar um ambiente propcio criao e

    disseminao do conhecimento e a sua aplicao na produo. Ou, no dizer de Landes: "Instituies e

    cultura primeiro; a seguir o dinheiro, mas, desde o princpio e cada vez mais, o fator essencial e

    recompensador cabia ao conhecimento."

    A inveno da inveno no sculo XVIII foi seguida pela descoberta da inveno na segunda

    metade do sculo XIX. A nascente indstria qumica alem percebeu por volta de 1870 que para o

    desenvolvimento do seus negcios e a manuteno de sua competitividade era necessrio que a empresa