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Almanaque Paulo Freire

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Text of Almanaque Paulo Freire

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  • Conta Freire que queria ser cantor, viver de msica, sair cantando para as gentes e com elas. De certa forma, Paulo Freire

    mesmo um cantor. Melhor, um cantador da palavra criada,

    intencionada e cultivada desde o povo, do contexto social, brasileiro ou

    universal, como o so Guimares Rosa, Chico Buarque, Augusto Boal,

    Thiago de Mello, Jorge Amado, Geraldo Vandr, Gilberto Gil, Patativa

    do Assar, Ariano Suassuna, Henfil, dentre outros tantos, por ele

    admirados. E canta a msica da luta. Queria ser lembrado por isso.

    Canta a esperana. Canta, com amor ardente, a autonomia,

    a libertao, a justia social, o dilogo e a criao,

    na educao e na vida.

  • AlfabetizaoCrculo de cultura

    ConhecimentoConscientizao

    Cultura Dilogo

    Curiosidade Educaotica Humanizao

    LiberdadePoliticidade

    Esperana

    ALMANAQUE HISTRICOCoordenao GeralMercado Cultural

    Coordenao de ProduoFlvia Diab

    Coordenao de AdministraoClo Assis

    Coordenao PedaggicaJason MafraSonia Couto

    Textos e Atividades LdicasJos Eustquio RomoMaria Jos ValeSandra Cristina Gorni BenedettiSonia Maria Gonalves Jorge

    ConsultoriaAlpio CasaliLisete ArelaroMoacir GadottiRicardo HascheVera Barreto

    CuradoriaAna Maria Arajo FreireLutgardes Costa FreireInstituto Paulo Freire

    ProduoMaria OliveiraNomia Inohan

    Reviso de TextosBeatriz de Paoli

    ImagensAcervo Ana Maria Arajo Freire, Acervo Filhos Paulo Freire, Acervo Instituto Paulo Freire

    Projeto Grfico e DiagramaoMiriam Lerner

    CapaLula Ricardi XYZ Design

    PROJETO MEMRIA 2005

    Paulo Freire Educar para Transformar

    Fundao Banco do Brasil

    PresidenteJacques de Oliveira Pena

    Diretor Executivo de Desenvolvimento SocialAlmir Paraca Cristvo Cardoso

    Diretor de Tecnologia Social e CulturaLuis Fumio Iwata

    AssessoraMaria Helena Langoni Stein

    Petrobras

    PresidenteJos Sergio Gabrielli

    Gerente Executivo de Comunicao InstitucionalWilson Santarosa

    Gerente de Comunicao NacionalLuis Fernando Nery

    Coordenadores do Projeto MemriaJanice DiasLenart Nascimento Filho

    Instituto Paulo Freire

    Diretor GeralMoacir Gadotti

    Diretores Pedaggicosngela AntunesPaulo Roberto Padilha

    Diretora de Relaes InstitucionaisSalete Valesan Camba

    Coordenadores do Projeto MemriaJason MafraSonia Couto

    ColaboradoresAnderson AlencarAlex RibeiroFlander Calixto

    Paulo Freire CIDADO BRASILEIRODE VOLTA DOCNCIA

    48 a 52

    COMO SECRETRIO MUNICIPAL DE EDUCAO DE SO PAULO 51

    LTIMOS ESCRITOS58

    REPERCUSSES E HOMENAGENS61 a 64

    SUMRIO

    Paulo Freire CIDADO DO MUNDONA BOLVIA E NO CHILE

    32 a 38

    NOS ESTADOS UNIDOS E NA SUA39 a 42

    NA FRICA43 a 47

    Paulo Freire CIDADO NORDESTINOINFNCIA

    5 a 11

    ADOLESCNCIA12 a 16

    JUVENTUDE E IDADE ADULTA17 a 31

    UtopiaDADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAO NA PUBLICAO (CIP)V149c Vale, Maria JosPaulo Freire, educar para transformar: almanaque histrico / Maria

    Jos Vale, Sonia Maria Gonalves Jorge, Sandra Benedetti. So Paulo: Mercado Cultural,2005.

    64 p.

    ISBN 85-98757-04-7Projeto Memria Paulo Freire educar para transformar

    1. Educao 2. Freire, Paulo Biografia 3. Freire, Paulo Vida e obra. I. Jorge, Snia Maria Gonalves II. Benedetti, Sandra III. Ttulo

    CDD 21.ed. 370.92

  • ABLIO ADALBERTO BENTO CARLOS DANILO ELGIO ERNESTO FREDERICO GETLIOHOMERO IVAN JOO LEANDRO FREDERICO GETLIO JOO PEDRO REINALDOSEBASTIO TANCREDO VINCIUS WILSON ZACARIAS ADRIANA BETINA CRISTIANEDIANA EUGNIA FLORA GISELA HELENA IARA JOANA LUCIANA MARINA NICOLE OLIN-DA NELSON TAMARA VANESSA ZILDA ABLIO ADALBERTO BENTO CARLOS DANILOELGIO ERNESTO FREDERICO GETLIO HOMERO IVAN JOO LEANDRO MANUEL NOELOLEGRIO PEDRO REINALDO SEBASTIO TANCREDO VINCIUS WILSON ZACARIASANDREA TODOS OS NOMES DO MUNDO FLORA GISELA HELENA IARA JOANALUCIANA MARINA NICOLE OLINDA PATRCIA ROSA SARITA TAMARA VANESSA ZILDAABLIO ADALBERTO BENTO CARLOS DANILO ELGIO ERNESTO FREDERICO GETLIOHOMERO IVAN JOO LEANDRO MANUEL NOEL OLEGRIO PEDRO REINALDO SEBASTIOTANCREDO VINCIUS WILSON ZACARIAS ADRIANA BETINA CRISTIANE DIANAEUGNIA FLORA GISELA HELENA IARA JOANA LUCIANA MARINA NICOLE OLIN-DA PATRCIA ROSA SARITA TAMARA VANESSA ZILDA ABLIO ADALBERTO BENTO

    EDUCAR PARA TRANSFORMAR Paulo Freire Paulo Freire EDUCAR PARA TRANSFORMAR

    Voc sabia ?

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    ???

    Nomes e significadosPaulo: de pequena estatura (latim)

    Reglus Regulus: pequeno rei (latim)Freire: irmo, frei (do latim frater e

    posteriormente do francs frre)

    CIDADO NORDESTINO

    O nome, nas culturas ocidentais, a principal referncia de identidade que o ser humano conquista.O nome de cada um inalienvel, imprescritvel, inestimvel, imutvel, irrenuncivel,intransfervel, intransmissvel e ubquo.Tente relacionar os termos acima com seus significados: No pode ser cedido para outro No possvel estimar o seu valor No pode ser vendido ou comprado Pertence tanto ao direito pblico quanto ao privado No se pode abrir mo dele Em geral, no pode ser mudado No se herda No se perde por desuso e no se adquire por usucapio

    I Genoma atravs do genoma que se podemapear como se desenvolve e funciona

    um ser vivo. O genoma pode ser chamado de seu Mapa Gentico.

    Com variaes individuais, o genoma transmitido de gerao a gerao e

    permite reconstruir a rvore genealgica de todo

    ser vivo.

    RVORE GENEALGICAPor suas ramificaes naturais, tanto das razes quanto dosgalhos, a rvore tem sido o elemento natural utilizado pa-ra simbolizar visualmente uma famlia, seus componentese suas relaes de ascendncia e de descendncia.

    Ascendentes de Paulo Freire

    conhecendo maisp

    Em 19 de setembro de 1921,numa segunda-feira, nascia em Recife (PE) Paulo Freire, o quarto filho do militar Joa-quim Temstocles Freire, que estava muito enfermo. Segundo sua me, Edeltrudes Ne-ves Freire, quase que o Paulinho seria rfo ao nascer.

    O seu nome completo PAULO REGLUS NEVES FREIRE.O pai de Paulo queria homenage-lo com o no-me Regulus, mas, por um erro do cartrio, seunome ficou sendo Reglus.

    "O nome de um homem no comouma capa que lhe est sobre os om-bros, pendente, e que pode ser tira-da ou arrancada a bel-prazer, masuma pea de vesturio perfeitamenteadaptada ou, como a pele, que cresceujunto com ele; ela no pode ser arrancadasem causar dor tambm ao homem."

    Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)

    Paulo Freire com um ano de idade.

    Ilustrao: Fabiano Silva

    PAULOFREIRE

    A mangueira teve significado espe-cial para Paulo Freire. Foi som-bra das mangueiras, rabiscando ocho com gravetos, auxiliado pelospais, que iniciou sua alfabetizao.

    CecilianoDemtrio

    Freire

    MariaAnsiaFreire

    Jos XavierBarreto

    das Neves

    EdeltrudesNevesFreire

    JoaquimTemstocles

    Freire

    AdozindaFloresNeves

    Regulus tambm o nome da estrela AlfaLeonis, a estrela mais brilhante da constelao deLeo, que representa o leo morto por Hrculesem um de seus doze trabalhos. Ela pode ser vistaao longo da Via Lctea no hemisfrio norte.

    4

    Paulo Freire com sua primeira esposa, Elza, filhos, genros e netos.

    5

  • O nome Pernambuco indgena e quer di-zer mar furado, devido formao rochosaque acompanha a sua costa.

    Paulo Freire EDUCAR PARA TRANSFORMAR EDUCAR PARA TRANSFORMAR Paulo Freire

    PernambucoSituado na regio Nordeste, o estado dePernambuco tem uma rea de 98.281 km2, mais18,2 km2 do arquiplago Fernando de Noronha.Possui 184 municpios, que se distribuem em trsgrandes regies geoeconmicas: Litoral/Zona daMata, Agreste e Serto.

    A FORA DA UNIOEm muitas cidades de Pernambuco, o arte-sanato uma grande fora econmica. Ascermicas de Tracunham, os bordados dePassira, as esculturas em madeira de Ibimi-rim, as tapearias de Lagoa do Carro, asrendas de Poo e a cermica figurativa deCaruaru, entre outros, so exemplos do ta-lento de um povo que descobriu nesse tra-balho a unio dos esforos de homens e mu-lheres de todas as idades e a garantia desubsistncia. O sistema de cooperativa abriucaminho para a sua arte e hoje o artesanatoda regio comercializado nos grandes cen-tros consumidores do pas e at no exterior.

    O Frevo um ritmo genuinamente pernambucano. A palavra frevo nasceu da linguagem simples

    do povo e vem de ferver, que as pessoas pronunciavam frever. Significava efervescncia,

    agitao. H diferentes modalidades: Frevo-de-Rua, Frevo-Cano e Frevo-de-Bloco.

    conhecendo mais p O FREVO

    Esta uma pgina do Livro do Beb de Paulo Freire, que foi batiza-do na Igreja Catlica.

    Cada religio tem o seu jeito de celebrar o nascimentoEntre os muulmanos, costume o pai recitar o azan no ouvido do recm-nascido. Trata-se de uma pre-

    ce que exprime os conceitos da religio.

    No Judasmo, as crianas so levadas sinagoga e l recebem o seu nome diante da Tor, o livro

    sagrado dos israelitas.

    Os hindus praticam um ritual de banhar os filhos e de escrever com mel, em sua lngua, a expresso

    OM, slaba sagrada que representa o som da criao.

    Ekomojade (dia de dar o nome) a cerimnia que se faz ao recm-nascido no Candombl, onde se

    declara qual orix reger o destino da criana, que recebe um nome religioso africano.

    O padre catlico abenoa a criana com o sinal da cruz, unta-lhe o peito com leo e derrama gua

    benta sobre sua cabea, durante o batismo.

    Por acreditar que o batismo deve ser uma opo voluntria, os evanglicos de vrias denominaes

    s batizam as crianas aps os nove anos de idade, sendo imersas completamente na gua, como Jesus

    foi batizado.

    Muito festejado pelos indgenas, o nascimento possui tradies diferentes em cada nao. Para os Karaj,

    so os pais que mudam de nome quando nasce um filho, passando a chamar-se pai de... ou me de....

    Curioso, no?

    conhecendo mais

    Maracatu, uma das expresses artsticas mais conhecidas de Pernambuco.

    Pernambuco

    Acima: bandeira de PernambucoAbaixo: Recife, capital de Pernambuco

    Livro do Beb

    O Livro do Beb um misto de lbum defotografias e relatos de acontecimentos impor-tantes na vida de um recm-nascido.

    uma forma carinhosa de registrar o de-senvolvimento de uma criana e de concretizaros sentimentos de amor e de carinho dos pais.

    QUE LUGAR ESSE?

    6 7

  • Por meio das brincadeiras as crian-as desenvolvem saberes, resolvemconflitos, experimentam sensaes,lidam com diferentes sentimentos eaprendem a conviver e a cooperarcom um grupo.

    Pense rpido e diga depressa:Trs pratos de trigo para trs tristes tigres.

    Num ninho de mafagafos, trs mafagafinhosh. Quem desamafagafar os mafagafinhos, bomdesamafagafinhador ser.

    O que , o que ?Todos tm, mas ningum fica com ela...

    Por que o gato mia para a lua e a lua no miapara o gato?

    EDUCAR PARA TRANSFORMAR Paulo Freire

    Paulo Freire dizia que seu pai lhe cantavacanes de ninar. Seu filho Lutgardes se lem-bra da Modinha que o pai lhe cantavaquando criana.

    Olho a rosa na janela/Sonho um sonho pequeninoSe eu pudesse ser menino (...)Ai, amor, eu vou morrer/ Buscando o teu amor.Modinha: composio de Srgio Bittencour t fragmentos.

    De nossas lembranas mais remotas, surgem os

    sons dos versinhos rimados, das slabas finais prolon-

    gadas, do ritmo lento e sussurrado das cantigas de

    ninar. Dessa memria afetiva aparece, talvez, ntido

    tambm, o vulto da pessoa que assim nos embalava

    e o contexto de fundo.

    Para muitos de ns, esse, talvez, tenha sido o pri-

    meiro gnero literrio de nossas vidas, seguido pelas

    cantigas de roda. No Brasil so famosas as cantigas que

    falam do Tutu-Maramb, do Bicho-Papo, da

    Cuca, do Pavo, do Boi da Cara Preta. Estudos re-

    velam que a me preta, escrava, cantava para os seus

    filhos e para os filhos dos donos da casa grande esse

    canto, ora doce, melanclico e lento, ora povoado de

    seres aterrorizantes, que amedrontam a criana que

    no quer dormir. O bicho-papo Tutu de origem

    africana. A Cuca e o Pavo, de origem portuguesa.

    A cantiga infantil de horror apresenta uma lio a

    ser aprendida de modo didtico direto.

    A msica e o desenvolvimento da crianaO saber popular sempre valorizou a pre-

    sena da msica na vida das pessoas e pesqui-sas cientficas comprovam a importncia damsica no desenvolvimento humano. Delaspodemos pinar algumas concluses:

    Ainda no tero materno, o feto desenvolvereaes a estmulos sonoros. Os recm-nas-cidos tendem a permanecer mais calmos quan-do expostos a uma melodia serena e ficammais alertas com msicas mais aceleradas.

    Ouvir msica clssica lenta facilita a con-centrao e a aprendizagem. A prtica cons-tante da msica, no manejo de um instrumen-to, ou na apreciao interativa, potencializa amemria, o raciocnio lgico e abstrato, aorientao espacial.

    As cantigas de roda nos inserem no nossogrupo social e contribuem na socializao dascrianas. As cantigas tratam de temas belos evivenciais, falam de amor/desamor, de ale-gria/tristeza, disputas e papis sociais aju-dam a criana na elaborao deemoes e a se prepa-rar para a vida.

    Paulo Freire EDUCAR PARA TRANSFORMAR

    Pular corda Brincadeiras de roda Carnia ou Pula Sela Bambol Esconde-esconde

    conhecendo mais p

    RD

    Cantigas de nina rQual a sua lembrana pessoal mais antiga?

    So lembranas de acalantos?Voc conhece alguma cantiga de ninar?

    Algum a cantava para voc?

    T

    LX, x, x, pavoSai de cima do telhadoDeixe meu filho dormirSeu soninho sossegado.

    Dorme, menino!Que o Tutu vem te pegar.Papai foi pra roaMame foi passear.

    Tutu-maramb,no venha mais c,Que o pai do meninote manda matar!

    Boi, boi, boiBoi da cara pretaPega este meninoQue tem medo de careta

    Sem deixar de compreender as velhas cantigasde ninar como um contexto de nossa cultura, porque no inovar com belas canes da MsicaPopular Brasileira para crianas?

    Uni-duni-t, salam

    mingu, um sorvete color, o escolhido foivoc

    Voc sabia ?

    ??

    ??

    ???

    ?

    A criana ter ampla oportunidade pa-ra brincar e divertir-se, visando aos pro-psitos mesmos da sua educao; a socie-dade e as autoridades pblicas empenhar-se-o em promover o gozo deste direito.

    Declarao dos Direitos da Criana: Princpio 7

    Paulo Freire brincou muito nainfncia. Brincadeiras de rua,com os irmos e outros compa-nheiros, nas quais no existiambarreiras de classe social, etnia,cor ou credo no relacionamento dosbrincantes. Brincadeiras que vive-ram para sempre em sua memria.

    (a vida)

    (porque astro-no-mia)

    8 9

    Brincadeira de criana, como bom!Quem quer brincar comigo pe o dedo aqui... que j vai fechar...

    Desenvolvidas e divulgadas pela oralidade, as brincadeiras tradicionais da infncia per-

    manecem vivas de gerao em gerao; algumas vezes so recriadas e em outras ganham

    caractersticas da cultura local ou regional.

    Quem nunca empinou papagaio, mesmo que o chamasse de pipa? Quem nunca brincou

    de esconde-esconde, de seguir o mestre, de pular amarelinha, de roda?

  • EuniceVasconcelos (19091977)Jovenzinha de seus 16, 17 anos [...],

    ela me fez o primeiro chamamento com re-lao a uma indiscutvel amorosidade queeu tenho hoje, e desde h muito tempo, pe-los problemas da linguagem e, particular-mente, os da linguagem brasileira, a cha-mada lngua portuguesa do Brasil. Elacom certeza no me disse, mas como setivesse dito a mim, ainda criana pequena:Paulo, repara bem como bonita a ma-neira que a gente tem de falar!... [...]Hoje, a presena dela so saudades, solembranas vivas. Me faz at lembrar da-quela msica antiga, do Ataulfo Alves: Aique saudade da professorinha, que me en-sinou o b-a-b.

    (FREIRE, Paulo. Apud GADOTTI, Moacir (Org.)Paulo Freire: uma biobibliografia. So Paulo:Cortez, 1996, p. 31.)

    EDUCAR PARA TRANSFORMAR Paulo Freire

    Fui alfabetizado no cho do quintal de mi-nha casa, sombra das mangueiras, com pa-lavras do meu mundo, no do mundo maiordos meus pais. O cho foi o meu quadro-ne-gro; gravetos, o meu giz.

    (FREIRE, Paulo. A importncia do ato de ler: em trs ar-tigos que se completam. 21. ed. So Paulo: Cortez/ Auto-res Associados, 1988, p. 15.)

    A utilizao das palavras do universo pes-soal sempre essteve presente na proposta dePaulo Freire para o processo de alfabetizao.

    Paulo Freire EDUCAR PARA TRANSFORMAR

    conhecendo mais p

    Paulo Freire: Experincia pessoal de alfabetizao

    Eu daria tudo que eu tivessePra voltar aos dias de crianaEu no sei pra que que a gente cresceSe no sai da gente essa lembrana

    Aos domingos missa na matrizDa cidadezinha onde eu nasciAi, meu Deus, eu era to felizNo meu pequenino Mira

    Que saudade da professorinhaQue me ensinou o beabOnde andar MariazinhaMeu primeiro amor onde andar?

    Eu igual a toda meninadaQuanta travessura que eu faziaJogo de botes sobre a caladaEu era feliz e no sabia

    para rir:

    A professora d uma bronca no Juquinha por ter fal-tado aula.Ele diz que faltou por motivo de luto. Luto?!?! , professora, a senhora nem imagina o quanto euluto contra a preguia todo dia de manh...

    Ataulfo Alves (1909-MG,1969-RJ)

    Teve uma infncia pobre, mas tranqila e feliz, que registraria com emoo no seu samba MeusTempos de Criana, tambm conhecido como Meu Pequeno Mira e Saudades da Professorinha.

    Meus tempos de criana ( A T A U L F O A L V E S )

    A mudana para Jaboato

    Leitura do mundo A ECONOMIA BRASILEIRA E A CRISE DE 1929

    A partir do ano de 1861, o caf foi responsvel pela reintegrao da economia brasileira aos mercados interna-cionais. A superproduo do caf gerou grande oscilao em seu preo, na regio sudeste. Com a I Grande Guerra(1914-1918), o comrcio mundial entrou em processo de retrao severa, diminuindo muito devido s constantesdesvalorizaes, praticadas pelos diversos pases, para garantirem competitividade de seus produtos e protegeremsuas economias. O apogeu dessa crise foi a queda da Bolsa de Valores de Nova Iorque, em outubro de 1929. As ex-portaes de caf caram quase 70%, o que significou um desastre para o Brasil. Naquele momento, ocorreram mui-tas falncias e a perda de poder das oligarquias. Por outro lado, a crise de 1929 desencadeou mudanas fundamen-tais na atividade econmica brasileira. O mercado interno passou a ser o novo alvo de investimentos. Seu cresci-mento marcou nova fase para as relaes econmicas e sociais decorrentes da industrializao e da urbanizao.

    Jaboato dos GuararapesLocalizao: Litoral/Mata, a 18 km do Reciferea: 234 km2

    Populao: cerca de 560 mil hab. (2 maior de PE)Relevo: Forte ondulado e montanhoso Padroeiro: Santo AmaroHistria: Fundada em 1593, por Bento Luiz deFigueiroa, a partir do Engenho So Joo Batista. O nome Jaboato vem da palavra indgenaYapoatan, rvore comum na regio. Guararapessignifica tambores. A cidade tem grande impor-tncia histrica, por ter sido o local onde se tra-varam as Batalhas dos Guararapes, lutas decisi-vas na guerra de expulso dos holandeses dePernambuco, na metade do sculo XVII.

    conhecendo maisA Batalha dos Guararapes (1649)

    Foi uma aliana militar luso-brasileira nu-ma das batalhas mais importantes da guer-ra para expulso dos holandeses, que ocupa-ram Pernambuco, entre 1630 a 1654. O pe-rodo de maior prosperidade da colnia ho-landesa ocorreu no governo do prncipeMaurcio de Nassau (1637 a 1654). Os ho-landeses conquistaram o apoio no s demuitos senhores de engenho, mas tambmda populao pobre da regio. Aps a expul-so holandesa, a Vila de Recife entrou emrpida decadncia. Uma pergunta: foram osportugueses menos invasores do que os ho-landeses, sob o ponto de vista dos indgenas?

    Paulo e sua famlia moravam na casa de umtio, que era prspero comerciante. A crise de29, que paralisou parte do comrcio mundial,provocou a perda da casa. Sem recursos paraalugar casa em Recife, tiveram que mudar pa-ra Jaboato, cidade prxima capital, onde vi-veram momentos de grandes dificuldades.

    p

    Igreja N. S. dos Prazeres,edificada nos MontesGuararapes como agra-decimento pelo fim dodomnio holands.Localizado na RegioMetropolitana do Recife,o povoado de Prazeres atualmente um bairro domunicpio de Jaboatodos Guararapes.

    QUE LUGAR ESSE?

    10 11

    A primeira professora:

  • EDUCAR PARA TRANSFORMAR Paulo Freire

    Ainda em Jaboato...Paulo Freire, aos 13 anos, viveu a dor de

    perder seu pai e de interromper seus estudos.Mas, em Jaboato, Paulo Freire provou tam-bm algumas doces alegrias. Em suas recorda-es, l estavam o rio Jaboato, onde adoravanadar, a roda de amigos, vencida a timidez,a descoberta de sua paixo pelo futebol, pelasmoas e pelas sintaxes popular e erudita denossa lngua.

    Paulo gostava tanto de estudar, que seu fu-turo deveria ser nos estudos. Essa era a apos-ta da famlia. Por isso, o mais novo dos irmosfoi poupado de trabalhar para ajudar no sus-tento da casa, como o fizeram seus outros ir-mos, irm e me. Em Jaboato, s existiamescolas primrias. Seguir adiante significavater de ir para o Recife.

    O primeiro ano secundrio de Paulo Freirefoi cursado mediante o sacrifcio e a solidarie-dade dos irmos. Armando, irmo mais velho,conseguiu um trabalho na Prefeitura Muni-cipal do Recife, a irm Stela, com seu diplomade professora de primeiro grau, comeou a le-

    cionar, e seu irmo, Temstocles, andava o diainteiro no Recife fazendo entregas e pequenosservios para um escritrio comercial.

    Ainda assim, a renda familiar no era sufi-ciente para o sustento de todos e a permann-cia de Paulo Freire em escola particular. DonaEdeltrudes, persistente, conseguiu uma bolsade estudos para o filho, no Colgio OsvaldoCruz, tambm em Recife. A nica condiocolocada pelo dono do colgio, Aluzio Arajo,era que o jovem fosse estudioso. Isso ele era!

    Paulo Freire EDUCAR PARA TRANSFORMAR

    O Rio Jaboato e o ataque de tu-bares no litoral de Pernambuco

    Uma pesquisa da Universidade FederalRural de Pernambuco (UFRPE) apontaalguns dos motivos que podem estar le-vando tubares a permanecerem no litoralsul de Pernambuco. Desde 1992, um fri-gorfico lana substncias no rio Jaboatoque exercem forte poder de atrao sobreesses animais: sangue e vsceras. Outrastrs fontes de poluentes foram identifica-das: descargas de usinas de acar, esgo-tos domsticos e o chorume do lixo. Ovolume do material orgnico que o rioJaboato leva at o mar da ordem de345 mil litros/dia.

    Mais de 45 ataques de tubares foram registrados,desde 1992, no litoral doRecife.

    saber cuidar

    O planeta Terra formado por71% de gua.

    muita gua, mas...

    97,5% gua salgada e est nos mares eoceanos;2,493% gua doce, mas est em gelei-ras e regies subterrneas;0,007% gua doce de fcil acesso pa-ra o consumo humano, encontrada nos rios,lagos e na atmosfera.

    saber cuidar

    gua: seiva do planeta Terra

    Voc sabia ?

    ??

    ??

    ???

    ?

    A gua o principal componente do cor-po humano. O consumo mdio dirio mais ou me-nos 120 litros de gua por pessoa. Uma torneira pingando desperdia1.380 litros de gua por ms. Uma pessoa pode viver um ms sem co-mida, mas dificilmente sobreviver a trsdias sem gua. No Brasil a maior parte dos esgotos sodespejados em cursos dgua sem trata-mento.

    CISTERNA:experincia de sucessoO processo de reserva de gua em cisternas sim-ples: a gua coletada no telhado da casa e pormeio de uma calha vai para o reservatrio. O tra-balho feito em mutiro e a comunidade apren-de a filtrar, conservar e us-la adequadamente.Essa prtica tem sido aplicada em muitas regiesbrasileiras que sofrem com a seca.

    A gua no somente uma herana dos nossos pre-decessores, ela , sobretudo, um emprstimo aos nossossucessores. Sua proteo constitui uma necessidade vi-tal, assim como uma obrigao moral do Homem paraas geraes presentes e futuras.

    Declarao Universal dos direitos da gua ONU 1992.

    Proporo de gua

    Cinco minutos no chuveiro d para tomar um bom banho!

    Colgio Osvaldo Cruz, em Recife, onde Paulo Freire fez a escola secundria.

    zira

    ldo

    2 bilhes de pessoas enfrentam a faltade gua. 1,7 bilho no tm sistema de esgoto. guas poludas causam a morte de qua-tro milhes de crianas por ano.

    No Brasil...

    Que coincidncia!

    71% 71%

    12 13

  • EDUCAR PARA TRANSFORMAR Paulo Freire

    Os problemas ambientais so necessariamente

    sociais e polticos. A sustentabilidade implica refle-

    xes e decises de toda a sociedade. Organizaes

    ecolgicas contribuem para a mobilizao social em

    torno de grandes questes. Entre tantas outras

    preocupaes, destacam-se as florestas, os rios, la-

    gos e mares e muitas espcies vivas, ameaadas de

    extino. Em muitas regies, a espcie mais amea-

    ada o ser humano.

    Paulo Freire EDUCAR PARA TRANSFORMAR

    No incio dos anos 30, a dimenso am-biental comeou a despontar, no Brasil, co-mo preocupao. Diversas sociedades deproteo natureza surgiram naquele mo-mento, tais como a Sociedade de Amigosdas rvores, a Sociedade Geogrfica do Riode Janeiro, a Sociedade de Amigos da FloraBraslica, a Sociedade de Amigos de Alber-to Torres, entre outras. Essas organizaesassumiam uma postura bastante ativa emdefesa da natureza, propondo leis florestaise reformas na agricultura contra o desma-tamento e mau uso do solo. Alm de incen-tivarem o plantio de rvores, distribuamsementes, ministravam palestras e pressio-navam o poder pblico da poca. Tais mo-bilizaes no foram em vo. Em maio de1933, Getlio Vargas decretou o cdigoFlorestal e o das guas, e a Constituio,promulgada em 1934, estabeleceu que aproteo das belezas naturais e dos mo-numentos de valor histrico ou artstico se-ria competncia do Estado. No final da d-cada de 1930, foram criados os primeirosParques Nacionais.

    saber cuidar

    Voc sabia ?

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    Alberto Torres: pioneiro da ecologia brasileira

    Alberto Torres (1865-1917) dedicou-sea pensar a reorganizao da sociedade bra-sileira e o desenvolvimento do pas. Paraele, se o progresso fosse alcanado median-te formas desenfreadas de industrializao,os recursos naturais do planeta entrariamnum acelerado esgotamento. Acreditavaque a chave do desenvolvimento nacionalestaria na combinao entre explorao sis-temtica e racional da agricultura, investi-mento na populao e na preservao dosrecursos naturais do pas.

    Suas idias ecolgicas, consideravel-mente aguadas para o perodo histricoem que viveu, influen-ciaram fortemente agerao de 1930.

    Alberto Torres, nascido no Rio deJaneiro, bacharelou-se em CinciasJurdicas e Sociais, na mesmaFaculdade de Direito de Recife,onde estudou Paulo Freire.

    Por muito tempo, a questo do meio ambiente foiignorada pelos modelos e teorias econmicas.Atualmente, a relao entre meio ambiente e eco-nomia tem sido debatida em todo o mundo e oconceito de sustentabilidade socioambiental oque vem sendo mais explorado: um processo volta-do melhoria da qualidade de vida da populao,usando os recursos disponveis de forma que elessejam conservados e otimizados para o usufrutodesta e das geraes futuras.

    conhecendo maisp

    Assim como grande parte dos adolescen-tes, principalmente os mais pobres, Freire vi-veu a insegurana em relao auto-imagem,a ansiedade para ser aceito no grupo social:

    Estava sendo ento um adolescente inse-guro, vendo-me como um corpo anguloso efeio, percebendo-me menos capaz do que osoutros, fortemente incerto de minhas possibi-lidades. Era muito mais mal-humorado doque apaziguado com a vida. Facilmente meeriava. Qualquer considerao feita por umcolega rico da classe j me parecia o chama-mento ateno de minhas fragilidades, deminha insegurana.

    (FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. SoPaulo: Paz e Terra, 1996, p. 48.)

    De forma autntica e delicada, ele nos rela-ta a sua primeira iluminao:

    Em Jaboato experimentei o que a fomee compreendi a fome dos demais. Em Jaboa-

    A infncia roubada com o trabalho infantil

    Voc sabia ?

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    Assim como aconteceu com os irmos de Paulo Freire, muitas crianas e jovens esto fora da escola por es-tarem trabalhando.

    O relatrio do Fundo das Naes Unidas para a Infncia (Unicef), divulgado em fevereiro de 2005, revelou queuma a cada doze crianas do planeta enfrenta as piores formas de explorao no trabalho. No Brasil, o trabalhoinfantil proibido pelo Estatuto da Criana e do Adolescente:

    Art. 60. proibido qualquer trabalho a menores de quatorze anos de idade, salvo na condio de aprendiz.Apesar da legislao brasileira, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domiclio (PNAD-2003) detectou que 5,1

    milhes de crianas e adolescentes, entre 5 e 17 anos de idade, trabalham, tanto na cidade como no campo. Destes,209 mil tinham de 5 a 9 anos, 1,7 milho tinham de 10 a 14 anos e 3,2 milhes tinham de 15 a 17 anos.

    Paulo Freire fala sobre sua adolescncia

    to, criana ainda, converti-me em homemgraas dor e ao sofrimento que no me sub-mergiam nas sombras da desesperao. EmJaboato joguei bola com os meninos do povo.Nadei no rio e tive minha primeira ilumina-o: um dia contemplei uma moa despida.Ela me olhou e se ps a rir...

    (FREIRE, Paulo. Conscientizao: teoria e prtica dalibertao. So Paulo: Cortez & Moraes, 1979, p. 9.)

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    14 15

  • Estudante e ProfessorNo mesmo Colgio Osvaldo Cruz de Recife

    onde estudou, Paulo Freire foi professor deLngua Portuguesa, a partir de 1941.

    (...) Vivi um tempo intensamente dedica-do a leituras (...) de gramticos brasileiros eportugueses. Parte da parte que me cabia doque eu ganhava dedicava compra de livros ede velhas revistas especializadas. (...). No an-dava sujo, verdade, mas andava feiamentevestido. (FREIRE, Paulo. Cartas a Cristina.So Paulo: Paz e Terra, 1994, p. 103-4.)

    Interessado na rea de cincias humanas,cursou Direito na Faculdade do Recife.

    Voc conhece os projetos em prol dajuventude, em sua cidade?

    Projetos que possibilitam o ingresso dos jovens aosestudos e ao mercado de trabalho so caminhos quebuscam corrigir injustias sociais e abrir possibilida-des aos mais pobres. Mas todas essas medidas soapenas mnima parte da luta maior por uma socieda-de mais justa.

    Paulo Freire EDUCAR PARA TRANSFORMAR EDUCAR PARA TRANSFORMAR Paulo Freire

    ADOLESCENTES E JOVENS NO BRASIL

    O perodo da adolescncia de 10 aos 19 anos, segundo a Organizao Mundial da Sade. No Brasil cerca de 20% da populao adolescente. As pessoas passam pelas idades de forma diferenciada, conforme a poca, etnia, gnero e

    condio socioeconmica. Segundo pesquisa sobre o perfil de jovens brasileiros de 15 a 24 anos, divulgada pela

    Fundao Perseu Abramo, em 2003, 75% desses jovens esto trabalhando ou tentando traba-lhar; a educao fundamental para o futuro profissional, na opinio de 77% dos jovens pesqui-sados; a violncia e o desemprego so percebidos por esses jovens como os principais componen-tes negativos de sua condio juvenil.

    De acordo com o Ministrio do Trabalho e Emprego, em 2005, os brasileiros de 16 a 24 anosrepresentam quase o dobro da taxa de desemprego do pas.

    A participao relativa dos jovens na taxa nacional de homicdios atinge quase 40%. Diversas pesquisas mostram que, nos ltimos 15 anos, a idade em que meninas e meninos

    comeam a fumar est cada vez mais baixa. O Ministrio da Sade informa que o contgio de Aids cresceu 200% de 1990 a 1996, em

    adolescentes heterossexuais, e cerca de um milho de adolescentes ficaram grvidas em 1998.Somente 30% dos jovens usavam mtodos anticoncepcionais.

    Leitura do mundo

    Voc sabia ?

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    O Brasil um dos campees mundiais dadesigualdade social. Esta triste posios menor do que a de Serra Leoa, pasafricano.

    Informe do Instituto de Pesquisa EconmicaAplicada (Ipea), 1/6/2005.

    A primeira companheira

    Quando eu tinha vinte e dois anos en-contrei minha primeira mulher, Elza [...],uma grande educadora. [...]

    Elza vivia muito bem a tenso entre li-berdade e autoridade. Fui seu professorde sintaxe. Foi assim que a conheci.Teria ela de fazer um concurso de cujoresultado dependia um degrau a galgarem sua carreira profissional e me procu-rou para lhe dar umas aulas em tornoda matria.

    Por causa daquele curso de sintaxe eusou hoje av de oito netos...

    (FREIRE, Paulo. Educao na cidade. 5. ed.So Paulo: Cortez, 2001, p. 101-2.)

    Em 1944, Paulo Freire casou-se com Elza Maia Costa deOliveira, com quem teve cinco filhos: Maria Madalena,Maria Cristina, Maria de Ftima, Joaquim e Lutgardes.Elza, professora primria, foi a grande motivadora dePaulo Freire na educao, permanecendo, por toda a vida,ao lado dele, como um permanente estmulo.

    Ela exerceu papel fundamental na construo de suasidias e prticas. Foi uma espcie de mangueira frondosa,sob a qual Paulo iniciou um projeto educacional que sedesdobraria num precioso legado para a humanidade.

    -

    -

    Paulo Freire, emsua formatura emDireito, 1947.

    Elza Freire

    SUCESSO DE CAMPANHAS NA REDUO DA GRAVIDEZ NA ADOLESCNCIA

    As crescentes taxas de gravidez na adolescncia,no final dos anos 90, foram consideradas uma

    epidemia, mas desde 1999 essa taxa vem di-minuindo e, em 2003, cai 10,5%, embo-

    ra ainda continue muito mais alta doque a dos pases desenvolvidos.

    Dados do Censo de 2000 mostraramque a gravidez na adolescncia nove vezes maior entre as meninasde baixa escolaridade e baixa ren-da familiar.

    Motivos apontados para essa inversoda tendncia tem sido a ampliao de

    informao pela mdia e educao sexualnas escolas, alm de campanhas pblicas de

    preveno Aids e a doenas sexualmentetransmissveis, com distribuio de preservati-vos aos alunos de 13 a 24 anos.

    Cf. Folha de S. Paulo, Cotidiano, 19/6/2005.

    16 17

  • Paulo Freire: De Advogadoa Educador

    Paulo Freire rememorou um dos marcosdecisivos em sua vida. Foi quando decidiu nomais exercer a advocacia, mesmo consideran-do-a uma tarefa indispensvel que, tantoquanto outra qualquer, se deve fundar na ti-ca, na competncia, na seriedade, no respeitos gentes.1

    Em seu primeiro caso como advogado, de-veria defender os interesses de seu cliente con-tra um dentista recm-formado, que no con-seguira pagar a dvida contrada na compra deequipamentos. O dentista disse a Paulo Freireque levasse seus mveis a sala de jantar, a sa-la de visita, mas, se j estava difcil pagar suadvida trabalhando, sem seus instrumentos detrabalho seria impossvel sald-la.

    Freire desistiu da causa e da profisso deadvogado e aceitou o convite de um amigo pa-ra incorporar-se ao recm-criado Servio Socialda Indstria SESI, na Diviso de Educao eCultura, onde atuou de 1947 at 1957.

    Paulo Freire EDUCAR PARA TRANSFORMAR EDUCAR PARA TRANSFORMAR Paulo Freire

    EDUCAOE D U C A O B A N C R I A

    X

    E D U C A O P R O B L E M AT I Z A D O R A

    Na educao bancria, os alunos se tornam de-positrios dos contedos transmitidos a eles.

    Enquanto a prtica bancria, como enfatizamos,implica numa espcie de anestesia, inibindo o podercriador dos educandos, a educao problematizado-ra, de carter autenticamente reflexivo, implica numconstante ato de desvelamento da realidade.

    (FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro:Paz e Terra, 1987, p. 80.)

    A educao ser libertadora na medida em queincentivar a reflexo e a ao consciente e criativadas classes oprimidas em relao ao seu prprio pro-cesso de libertao.

    (FREIRE, Paulo. Educao: o sonho possvel. In: BRANDO, C.R. (org). Educador: vida e morte. Rio de Janeiro: Graal, 1986, p. 20.)

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    Existem microcrditos para quem est comeandoum trabalho autnomo. O Servio Brasileiro deApoio s Micro e Pequenas Empresas Sebrae po-de ajud-lo a saber mais sobre isso. O Sebrae pro-move cursos de capacitao, para que o futuro em-presrio conhea melhor o ramo de atividade e omercado em que pretende atuar, saiba fazer levan-tamento de dados para estabelecer os objetivos quepretende atingir e planejar o que vai ser colocadoem prtica por sua micro ou pequena empresa. Acapacitao do Sebrae pode facilitar aos pequenosempreendimentos acesso a crdito (microcrdito)e a capitais.

    Leitura do mundo Com a ampliao do uso da tecnologia nosetor produtivo e com a emergncia de no-vas exigncias da dinmica social nosgrandes centros urbanos, uma verdadeirarevoluo ocorreu no mundo do trabalho,no sculo XX. Paralelamente ao desem-prego, pela decadncia ou extino de pro-fisses, novas ocupaes foram criadas.Vejamos algumas delas:

    Profissionais e tcnicos ligados in-formtica e ao comrcio virtual: webmas-ter, programador, webdesigner, helpdesk, tcnicos em segurana para as ope-raes em rede.

    Profissionais do turismo, hotelaria,culinria, moda.

    Geritrico, gestor ambiental, segu-rana do trabalho.

    Administrador de viagens, motoboy etc.

    Leitura do mundo

    Educao: um dos indicadores do IDHA educao revalorizada a partir de 1990, com a primeira publicao do ndice de Desen-

    volvimento Humano (IDH).O IDH varia de (0-1), isto , de (0)-zero (nenhum desenvolvimento humano) a (1)-um (de-

    senvolvimento humano total) e foi criado para medir o nvel de desenvolvimento humano dospases, a partir de trs indicadores:

    educao (alfabetizao e taxa de matrcula); sade (longevidade esperana de vida ao nascer); renda (PIB per capita).Segundo o relatrio PNUD-2004, a Noruega apresentava o maior IDH e Serra Leoa, na frica,

    o mais baixo IDH.

    IDH NO BRASILPelo relatrio do PNUD-2004, o Brasil ocupava,

    nesse ano, a 72 posio, com um IDH de 0,775.Entre os municpios brasileiros, So Caetano (SP)

    a cidade com maior IDH (0,919) e Manari (PE) omunicpio com menor ndice (0,467).

    conhecendo maispO Programa das Naes Unidas para o

    Desenvolvimento (PNUD) tem como objeti-vo principal o combate pobreza.Pelo Relatrio PNUD (2004), o Brasil apre-sentava, naquele ano, uma taxa de alfabe-tizao de 86,4%.

    Paulo Freire discursa no SESI.

    Programa das Naes Unidas para o Desenvolvimento

    1 (FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperana: um reen-contro com a Pedagogia do oprimido. 11. ed. So Paulo:Paz e Terra, 2003, p. 17.)

    P A L A V R A G E R A D O R A

    18 19

  • Vou falar de uma vidaCom muita satisfaoNesse verso p quebradoMas que de coraoDa vida de Paulo FreireNa alfabetizao

    Quero homenagearEste ilustre cavalheiroQue veio revolucionarNosso ensino inteiroFazendo a gente ficarUm pouco mais brasileiro (...)(Francisco Ciro Fernandes)

    Paulo Freire e a Arte-educao

    Em Paulo Freire, a dimenso esttica sem-pre caminhou de mos dadas com a tica ecom a poltica.

    Ana Mae Barbosa, arte-educadora pernam-bucana, conhecida internacionalmente, quem relembra o que poucos sabem. PauloFreire esteve ligado arte-educao, desde oincio de seu envolvimento com a educao.Foi presidente da Escolinha de Arte do Recife(PE), nos anos 50, e sua primeira mulher,Elza Freire, foi uma das pioneiras na integra-o da Arte na Escola Pblica, enfatizando asprodutivas implicaes do fazer artstico noprocesso de alfabetizao.

    Paulo Freire e o teatro

    Com operrios do Recife, Paulo Freire eAriano Suassuna, em 1953, desenvolveramuma experincia pioneira no SESI: lanaramas bases para a prtica de um teatro popularautntico, participante e comunicativo.

    Teatro como canal de conscientizao, deleitura do mundo e comunicao entre palcoe platia, platia e palco, sob a mediao deum coordenador de debates, na figura de umpersonagem fantstico ou mtico, cuja fun-o seria a de precipitar comentrios e di-logos com a platia. Nessa experincia, oteatro foi linguagem artstica fundamental,aplicada educao.

    Paulo Freire EDUCAR PARA TRANSFORMAR EDUCAR PARA TRANSFORMAR Paulo Freire

    Voc sabia ?Suassuna, um grande

    nome da literatura nacional

    Autor de Auto daCompadecida, exibi-do em filme de GuelArraes, Ariano VilarSuassuna (Joo Pessoa PB: 1927) foi con-temporneo de PauloFreire no Colgio Os-valdo Cruz, onde estu-

    dou direito e literatura. Professor na Univer-sidade de Pernambuco, escreveu peas tea-

    trais, romances, crnicas, poe-sias, crtica de arte. Dou-tor Honoris Causa na Uni-versidade do Rio Grande doNorte e membro da Acade-

    mia Brasileira de Letras.

    conhecendo mais pCordelO poeta popular um representante do povo,

    o reprter dos acontecimentos da vida do Nor-deste do Brasil. Ele divulga fatos reais e de fic-o por meio de livretos de cordel ou do repen-te, um tipo de poesia cantada e improvisada.

    Essa tradio de origem europia e o nomeda publicao, cordel, vem da maneira comoeste vendido: dependurado emcordis emfeiras, pra-as e bancasde jornal. Opovo, no en-tanto, chama-o simplesmen-te de folheto.

    MamulengoOs mamulengos (mo molenga) so bonecos de pano e madeira que representam gente e bichos

    e participam de narrativas de interesse social ou de puro entretenimento.Esses bonecos falam, cantam e danam, interagindo com os espectadores e, no raro, tecem co-

    mentrios sobre fatos e personalidades locais. Para tal, os artistas chegam cidadezinha e conversamcom alguns de seus moradores antes de realizar a sua funo.

    O teatro de mamulengos tambm pode ser usado para difundir noes de sade e outros temas deutilidade pblica nas regies mais afastadas.

    Os mamulengos fascinam crianas de todas as idades e tambm os adultos, porque muitasvezes eles expressam o que ns desejaramos dizer.

    Paulo Freire retratado em xilogravura.

    O Teatro do oprimido de BoalAugusto Boal, um dos mais importantes direto-res de teatro da atualidade e criador do Teatrodo Oprimido (TO), conhecido e praticado emmais de 70 pases, seguindo Paulo Freire, pro-ps uma pedagogia cnica construda pelosoprimidos, e no para os oprimidos. Um M-todo Esttico que rene exerccios, jogos e tc-nicas teatrais pela desmecanizao fsica eintelectual dos que o praticam. Pelo TO, osoprimidos so incitados a lutarem pela sualibertao, com a apropriao dos meios deproduzir e democratizar o teatro, pela via deuma comunicao direta, ativa e propositivaentre espectadores e atores. Atualmente, entre

    outras coisas,Boal dedica-seao trabalho tea-tral numa sriede presdios emtodo o pas.

    Augusto Boal Ariano Suassuna

    20 21

  • 23

    EDUCAR PARA TRANSFORMAR Paulo Freire

    A leitura do mundo precede sempre aleitura da palavra e a leitura desta implicaa continuidade da leitura daquele.

    (FREIRE, Paulo. A importncia do ato de ler: emtrs artigos que se completam. 3. ed. So Paulo: Cor-tez/ Autores Associados, 1983, p. 22.)

    Comear do a-e-i-o-u e do

    ba-be-bi-bo-bu, para ler depois:

    A baba do boi?

    ou

    Partir da leitura do mundopara a leitura da palavra?

    No incio da dcada de 1960, Paulo Freireprope um novo mtodo de alfabetizao deadultos. Este marca uma significativa dife-rena em relao aos mtodos anteriores paraadultos, pautados em simples adaptaes dascartilhas para crianas, sendo assim bastanteinfantilizados.

    Ao invs de letras e palavras soltas, frag-mentadas e descontextualizadas da vida so-cial e da experincia pessoal dos alunos, numaprendizado mecnico do ba-be-bi-bo-buou de frases simplrias e alienantes, comoA baba do boi, Freire sugere partir dostemas geradores, ou temas sociais colhidosdo universo vocabular dos educandos, aber-tos discusso coletiva nos crculos de cul-tura e abertos anlise de questes regio-nais e nacionais.

    Por exemplo, a partir de uma imagem am-pliada na parede, pelo projetor de slides, queverse sobre o tema da construo civil, o edu-cando passa a falar da realidade do seu traba-

    lho de pedreiro, socializando o seu saber e ex-perincia. A discusso pode caminhar parauma ampliao desse conhecimento atual, isto, para estudos sobre questes do trabalho edireitos do trabalhador.

    A alfabetizao parte do texto-contextoou tema gerador. Este gera debates, pes-quisa, leitura e escritas de novos textos rela-cionados e atividades de outras reas do co-nhecimento. Do texto, so selecionadas aspalavras e estas analisadas em suas partesmenores. Leituras e escritas do mundo e dapalavra se sucedem.

    Nesse mtodo se fazem presentes a sincrese(viso inicial e atual do contexto), a anlise(estudo, discusso e detalhamento do tema) ea sntese (viso mais ampla, aprofundada ecrtica do tema).

    Enquanto se alfabetizam atravs do exerc-cio do dilogo dirigido de forma democrticae planificada pelo(a) educador(a), os educan-dos conhecem melhor o mundo e podem to-mar posio frente aos problemas sociais quevo se desvelando.

    Paulo Freire EDUCAR PARA TRANSFORMAR

    Meu primeiro mundo foi o quintal de casa,com suas mangueiras, cajueiros de fronde qua-se ajoelhando-se no cho sombreado, jaqueirase barrigudeiras. rvores, cheiros, frutas, que,atraindo passarinhos vrios, a eles se davamcomo espao para seus cantares.

    (FREIRE, Paulo. sombra desta mangueira. SoPaulo: Olho dgua, 1995, p. 24.)

    A biodiversidade das aves brasileiras

    No Brasil, encontram-se 1.677 espciesde aves, o terceiro lugar no mundo e podechegar a ser o primeiro, pois, continuamen-te, so descobertas novas espcies, quandoreas florestais isoladas vo sendo reconhe-cidas. Destas, 191 so espcies endmicas,isto , encontradas apenas no nosso pas.

    Calcula-se que 103 espcies de aves bra-sileiras esto ameaadas de extino, moti-vada pelo desmatamento, caa indiscrimi-nada e captura de animais para o trfico.Quanto mais raro o animal, maior a cota-o de preo no mercado. A extino com-promete o equilbrio ecolgico de uma ca-deia alimentar. As aves tambm so disse-minadoras de sementes, contribuindo paraa reproduo de espcies de plantas.

    saber cuidar

    Bicudinho do brejo uma ave recm-descoberta e a espcie j pode estarameaada de extino, pela degradao dos brejos.Ao adquirir uma ave e adot-la como um animal de estimao, podemos contribuirpara a extino de sua es-pcie. melhor deix-lano seu habitatou em reas protegidas.

    O mtodo Paulo Freire de alfabetizao de adultos

    Paulo Freire em Angicos, 1963.

    O gosto pela msicaPaulo Freire adora-

    va passarinhos. Ado-rava a palavra cer-teira, verdadeira,sensvel: a que tocae canta. Adorava msica brasileira, msicapopular brasileira, msica nordestina.

    Msica... Gostava de msica, poesia, litera-tura, das artes todas.

    E tinha o costume de assobiar. Podia ser umtrecho de Villa-Lobos, uma cano de Adoni-ram Barbosa, Chico Buarque, Milton Nasci-mento, Slvio Caldas, Carlos Galhardo, Gar-del, Orlando Silva... Assobiava e cantava paradesanuviar. Cantava baixinho para fazer ador-mecer seus filhos, quando crianas, assim co-mo fez seu pai, Temstocles.

    Apreciava msica clssica tanto quanto amsica da terra: violinos, piano, violo clssico,viola, sanfonas, flautas, pfanos e batuques.

    Sim, toda a boniteza era bem-vinda, fos-se seu criador artista consagrado ou annimo,da cultura popular ou erudita, fosse bonitezade uma obra exposta num museu, numa feirade artesanato ou a expressa por um gesto, poruma maneira especial de ser homem, mulherou grupo, quando as pessoas se colocam, rela-cionam-se umas com as outras.

    Ilustrao: Fabiano Silva

    22

  • 1960

    GLAUBER ROCHA (1939-1981)Maior expresso do Cinema No-vo, combativo, polmico, re-volucionou o cinema brasi-leiro e mundial, transfor-mando-o em instrumento deconhecimento e revelaoda realidade brasileira. Fazercinema era conscientizar.

    Nos anos 60, quase todos os pases do Oci-dente sofreram verdadeiras convulses sociais.O poder jovem, marcado pela participaoradical de estudantes em inmeras reas dacultura e da poltica (teatro, msica, movi-mento estudantil etc.), abalou os alicerces domundo adulto. A juventude resolveu no espe-rar o mundo do futuro, resolveu se assumirsujeito da histria no presente, na tentativa deconstruir projetos sociais nos quais as pessoaspudessem ser mais livres e mais felizes.

    Como os jovens brasileiros, Paulo Freire, jadulto, engajou-se profundamente no movi-mento transformador e participou da funda-o do Movimento de Cultura Popular (MCP),lanado pelas foras progressistas de Recife, ecoordenou, nessa ocasio, o Projeto de Edu-cao de Adultos.

    Impressionado com os resultados alcana-dos pelo Mtodo Paulo Freire, na alfabetiza-o de camponeses de Angicos (RN), o entoMinistro da Educao, Paulo de Tarso C.Santos, convida Paulo Freire, em junho de1963, para a coordenao do ProgramaNacional de Alfabetizao.

    As metas eram alfabetizar cinco milhesde brasileiros, em dois anos, e implantar, em

    1964, mais de vinte mil Crculos de Cultura.Mesmo que alguns governantes utilizassem a

    alfabetizao apenas com objetivos eleitorais (osanalfabetos no podiam votar), o Mtodo PauloFreire ia muito alm, buscando apoiar a trans-formao dos alfabetizandos em sujeitos de suaprpria aprendizagem, de seu prprio processode conscientizao, de seu protagonismo polti-co, de seu prprio projeto de vida. O golpe de1964 interromperia o Governo Joo Goulart etodas as suas propostas. O Programa Nacionalde Alfabetizao foi oficializado em 21 de ja-neiro de 1964 e extinto, pelo governo militar,em 14 de abril do mesmo ano.

    Paulo Freire EDUCAR PARA TRANSFORMAR EDUCAR PARA TRANSFORMAR Paulo Freire

    Uma dcada de profundas mudanas

    Leitura do mundo Efervescncia cultural e poltica: Brasil incio dos anos 60O Brasil viveu momentos de intensa mobilizao cultural e poltica, no final dos anos 50 e incio dos anos 60. Antes

    da represso militar, alm do Movimento de Cultura Popular (MCP), no qual atuou Freire, h que se ressaltar outros

    movimentos significativos, nessa frao da histria brasileira:

    A Unio Nacional dos Estudantes (UNE) discutia questes nacionais e as perspectivas de transformao que mo-

    bilizavam o pas. O Centro Popular de Cultura (CPC), ligado UNE, foi criado em 1961 e se espalhava pelo pas, travan-

    do contato com bases universitrias, operrias e camponesas. Seu ideal era a construo de uma cultura nacional, po-

    pular e democrtica, buscando atividade conscientizadora junto s classes populares, restituindo-lhe a conscincia de

    si mesma. O CPC utilizava recursos como shows de msica, teatro popular, cinema, produo de revistas e livros.

    Efervescncia cultural e poltica: Brasil incio dos anos 60 Surge o teatro de arena, com o palco em crculo e maior proximidade da platia. O Teatro Brasileiro de Comdias

    passou a ser criticado por utilizar peas teatrais e recursos cnicos, predominantemente importados, numa postura

    colonizada. Uma nova gerao de diretores e atores prefere, agora, textos nacionais e simples. Com Augusto Boal,

    Gianfrancesco Guarnieri, Oduvaldo Vianna Filho e outros, o teatro visto como ferramenta poltica, capaz de contri-

    buir para mudanas na realidade brasileira.

    O Cinema Novo brasileiro, no incio da dcada de 1960, critica o artificialismo, a simples diverso em cena. Jovens

    cineastas, como Glauber Rocha, propem um cinema com temtica e linguagem voltadas para a realidade nacional.

    No campo poltico, foras nacionalistas, sensveis s demandas populares, favoreciam a emergncia das esquer-

    das. O Partido Comunista tornou-se pea estratgica do jogo de alianas do perodo Goulart e, com seu iderio da re-

    voluo democrtica e antiimperialista, exercia influncia no meio sindical, estudantil e intelectual.

    A sindicalizao rural se expandia com as Ligas Camponesas. Em 1963, a Reforma Agrria tornou-se tema de

    debate poltico nacional.

    Trabalhadores urbanos uniam foras, articulando-se em novos pactos sindicais.

    Paulo Freire ( esquerda) e o Ministro da Educao Paulo de TarsoSantos visitam o Crculo de Cultura do Gama (DF), em 1963.

    CONSCIENTIZAOEm 1963, Freire publica, na revista Estudos Universi-

    trios (Recife, n 4, abril-jun.), um artigo intitulado Cons-cientizao e alfabetizao. Esse conceito, central nopensamento de Freire, foi melhor explicitado por ele apartir dos livros seguintes Educao como prtica da li-berdade. Freire passou, ento, a destacar a relao ne-cessria entre o conhecimento crtico e o compromisso deinterveno transformadora sobre a realidade.

    Compreender esse conceito supe, portanto, acompa-nhar a prxis freireana, estud-la, ao longo de sua obra.

    A conscientizao no pode parar na etapa do des-velamento da realidade. A sua autenticidade se dquando a prtica de desvelamento da realidade consti-tui uma unidade dinmica e dialtica com a prtica datransformao.

    (FREIRE, Paulo. Ao cultural para a liberdade. 5. ed. Rio deJaneiro: Paz e Terra, 1981, p. 117.)

    Contra toda a fora do discurso fatalista neoliberal,pragmtico e reacionrio, insisto, hoje, sem desviosidealistas, na necessidade da conscientizao. Insisto nasua atualizao.

    (FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. 2. ed. So Paulo.Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996, p. 60.)

    ADAPTAO EINSERO

    Freire distingue os conceitos de adaptao e deinsero:

    Adaptao implica o esforo do ser humano emmudar-se para viver no mundo como ele .

    Insero implica a interveno de homens e mu-lheres no mundo, para transform-lo.

    (Paulo Freire, in memoriam. PRIOLLI, Gabriel. So Paulo: TVPUC, 1997, sonoro, sem legenda, colorido.)

    Leitura do mundo

    P A L A V R A G E R A D O R A P A L A V R A G E R A D O R A

    24 25

  • Francisco Brennand ceramista, pintor, es-cultor, desenhista,tapeceiro e gra-vador.

    Freire conhe-ceu Brennand noColgio OsvaldoCruz, em Recife.

    Brennand pintou, aconvite de Paulo Freire, as dez situaes pa-ra o estudo do conceito de cultura utilizadaspor Freire nas suas primeiras experinciascom alfabetizao de adultos. Francisco dePaula Coimbra Brennand (Recife, PE: 1927)no completou o curso de direito e se dedicou pintura. Viajou da Frana a vrios outrospases aperfeioando a arte cermica.

    Todos os povos tm cultura, porque trabalham,porque transformam o mundo e, ao transform-lo,se transformam. A dana do povo cultura. A m-sica do povo cultura, como cultura tambm aforma como o povo cultiva a terra. Cultura tam-bm a maneira que o povo tem de andar, de sorrir,de falar, de cantar, enquanto trabalha (...) Culturaso os instrumentos que o povo usa para produzir.Cultura a forma como o povo entende e expressao seu mundo e como o povo se compreende nassuas relaes com o seu mundo. Cultura o tam-bor que soa pela noite adentro. Cultura o ritmodo tambor. Cultura a ginga dos corpos do povoao ritmo dos tambores.

    (FREIRE, Paulo. A importncia do ato de ler: em trsartigos que se completam. 45. ed. So Paulo: Cortez /Autores Associados, 2003, p. 75-6.)

    Paulo Freire EDUCAR PARA TRANSFORMAR

    Com as discusses sobre o conceito de cultura, o analfabeto descobriria que tanto cultura o boneco debarro feito pelos artistas, seus irmos do povo, como cultura tambm a obra de um grande escultor, de umgrande pintor, de um grande mstico, ou de um pensador. Cultura a poesia dos poetas letrados de seu pas,como tambm a poesia de seu cancioneiro popular. Cultura toda criao humana.

    (FREIRE, Paulo. Educao como prtica da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983, p. 109.)

    conhecendo maisDiferentes culturas, outras economiasA organizao econmica diferente nas diversasculturas. Entre os indgenas brasileiros que resistem lgica capitalista, essas diferenas so marcantes,principalmente nas sociedades mais tradicionais. Hum modo de vida mais simples, pois se produz para oconsumo e no para juntar riquezas. No existe ac-mulo de bens ou propriedade individual. A naturezapertence a todos e cada famlia retira dela o que ne-cessita para viver.H diviso de tarefas: homens preparam o terrenopara o plantio, se encarregam da caa e da pesca,defendem a aldeia de perigos. Mulheres cuidam dascrianas e da casa, do plantio, da colheita e prepa-ram o alimento.Entre os 17 povos do Parque do Xingu, existe o Moi-tar, comrcio anual de produtos, onde eles fazem atroca de bens produzidos durante o ano. Grupos co-mo os Munduruk, Bororo e Xavante organizam-seem cooperativas ou associaes.

    A difcil resistncia no ambiente adulteradoAlguns povos, como os Ianommi, cujas terras e cul-turas so violentadas pela presena de grandes em-presas capitalistas, sofrem doenas, fome e desnutri-o. Desequilbrios socioambientais, em razo deuma superexplorao irracional, dificultam a produ-o de subsistncia, diminuem suas terras frteis, di-zimando plantas e animais. Em situaes semelhan-tes, outros povos indgenas precisam comprar rou-pas, remdios e comida e at trabalhar como mo-de-obra assalariada. Povos como os Guarani, Terna,Pankararu e Patax tiveram suas terras invadidas ouocupadas, perderam espao para a agricultura e pre-cisaram se adaptar a esses novos tipos de economia.Esses e outros povos fornecem ouro, madeira, artesa-nato, farinha, banana, mel etc. ao mercado regional.

    (MUNDURUKU, Daniel. Coisas de ndio. So Paulo: Callis,2000, p. 54-6.)

    CULTURACultura, no seu sentido amplo, antropolgico,

    tudo o que o homem cria e recria.

    (FREIRE, Paulo. Educao e mudana.Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982, p. 56.)

    Uma das pinturas que Francisco Brennand produziu, a pedido dePaulo Freire, para as suas primeiras experincias com

    a alfabetizao de adultos.

    conhecendo mais p Francisco BrennandPrmio interamericano de cultura pelo conjuntode sua obra (1993: OEA EUA)

    EDUCAR PARA TRANSFORMAR Paulo Freire

    Obras de FranciscoBrennand, localizadasem sua oficina noRecife, PE.

    P A L A V R A G E R A D O R A

    Recife e vrias ci-dades do Brasil edos Estados Unidosexibem em edifciose prdios pblicosos seus painis, es-culturas e muraiscermicos.

    Seus pisos e ladri-lhos so feitos porum processo semi-artesanal, com rgidocontrole de qualida-de e pequena escala de produo.

    Ele expe no Brasil e no exterior.

    26 27

  • Paulo Freire EDUCAR PARA TRANSFORMAR

    Para a concepo crtica, o analfabetismo nem uma chaga, nem uma erva da-ninha a ser erradicada, nem tampouco uma enfermidade, mas uma das expresses con-cretas de uma realidade social injusta.

    (FREIRE, Paulo. Ao cultural para a liberdade. 5. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981,p. 15-6.)

    ANALFABETO

    Paulo Freire nos fala da posio astuta ou ing-nua que omite a causalidade poltica e deixa dedenunciar o discurso ideolgico que se refere aosanalfabetos como seres incapazes, indolentes epreguiosos.

    Ningum analfabeto por eleio, mas comoconseqncia das condies objetivas em que se en-contra. Em certas circunstncias, o analfabeto ohomem que no necessita ler, em outras, aqueleou aquela a quem foi negado o direito de ler.

    (FREIRE, Paulo. Ao cultural para a liberdade. 5. ed. Rio de

    Janeiro: Paz e Terra, 1981, p. 15.)

    Por que ainda o analfabetismo? Essas, entre outras, so causas responsveis pelo analfabetismo no Brasil: a ausncia de polticas pblicas consistentes

    de educao no campo, penalizando minorias tnicas, indgenas e quilombolas. O abandono das classes mais pobres na ci-dade. A oferta insuficiente de educao infantil. O baixo investimento na formao e valorizao de alfabetizadores. A po-breza que conduz milhes de crianas ao trabalho infantil.

    Leitura do mundo Mais da metade da populao brasileira era anal-fabeta em 1920. A taxa de analfabetismo diminuiugradativamente, mas o nmero absoluto de analfa-betos s comea a diminuir a partir de 1980. Em2003, a taxa era de 11,6% de analfabetos.

    MAPA DO ANALFABETISMO ( INEP )

    O pas ainda possua, em 2000, uma taxa de 13,6% de analfabetos (entendidos como pessoasde 15 anos ou mais que se declaram incapazes de ler e escrever um bilhete simples) e 27,3% deanalfabetos funcionais (pessoas de 15 anos ou mais, com menos de quatro sries concludas).

    Grande parte dos analfabetos iniciou e desistiu de continuar os estudos. 35% dos analfabe-tos brasileiros j freqentaram a escola, segundo dados do IBGE de 2001.

    A maior concentrao de analfabetos est na populao de 60 anos ou mais (34%). O analfabetismo maior nas regies norte e nordeste. Quanto mais baixa a renda familiar,

    maior o ndice de analfabetismo, que chega a ser 20 vezes maior entre os mais pobres. No meiorural brasileiro, a taxa de analfabetismo trs vezes superior da populao urbana, e o contras-te ainda maior na regio nordeste. A taxa de analfabetismo entre negros e pardos duas vezesmaior do que aquela obtida entre os brancos e amarelos.

    Seriam necessrios 200 mil alfabetizadores para zerar o ndice do analfabetismo brasileiro, emquatro anos.

    Que podem um trabalhador campons ou um trabalhador urbano retirar de positivo para seu que-fazerno mundo, para compreender, criticamente, a situao concreta de opresso em que se acham, atravs de umtrabalho de alfabetizao em que se lhes diz, adocicadamente, que a asa da ave ou Eva viu a uva?

    Mais que escrever e ler que a asa da ave, os alfabetizandos necessitam perceber a necessidade deum outro aprendizado: o de escrever a sua vida, o de ler a sua realidade, o que no ser possvel seno tomam a histria nas mos para, fazendo-a, por ela serem feitos e refeitos.

    (FREIRE, Paulo. Ao cultural para a liberdade. 5. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981, p. 11-2)

    CRCULO DE CULTURA

    Em suas primeiras experincias com educaode adultos, em Recife, Paulo Freire criou o crculode cultura em lugar da sala de aula tradicional.

    Em lugar das aulas exclusivamente expositivas,o dilogo. Em lugar do professor orador, o coorde-nador de debates e animador cultural.

    Em lugar de aluno, com tradies passivas, oparticipante de grupo.

    Em lugar dos contedos idealizadores da reali-dade, os temas geradores, a discusso crtico-cria-tiva da realidade.

    Em lugar de treinar pessoas para simplesmentese adaptarem, formar agentes sociais de mudana.

    (FREIRE, Paulo. Educao como prtica da liberdade.Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983, p. 103.)

    Acima: povo nmade do deserto do Qunia em Crculo de Cultura.

    Ao lado: artesanato, de Olinda, representa Paulo Freire em Crculo de Cultura.

    EDUCAR PARA TRANSFORMAR Paulo Freire

    Brasil Analfabetismo em pessoas de 15 anos ou mais

    Ano Nmero % sobre o total

    em milhes da populao

    1920 11,4 64,9

    1960 15,9 39,6

    2000 16,2 13,6

    ALFABETIZAOA alfabetizao um tema recorrente na obra de

    Paulo Freire. Mas sua principal contribuio como umdos mais conceituados educadores do nosso tempono apenas a criao de um mtodo de alfabetiza-o de adultos, no incio da dcada de 1960. O mto-do Paulo Freire de alfabetizao de adultos ainda nofoi suficiente e amplamente resgatado e recriado nasociedade brasileira e consiste numa parcela da tota-lidade do legado freireano. Freire deve ser entendidocomo um representante da concepo tico-poltico-pedaggica progressista que abrange a complexidadede uma prtica pensada da educao em sua relaocom a sociedade global brasileira e mundial.

    A alfabetizao implica no uma memorizaovisual e mecnica de sentenas, de palavras, de sla-bas, desgarradas de um universo existencial, mas uma atitude de criao e recriao. Implica umaautoformao de que possa resultar uma postura in-terferente sobre seu contexto.

    (FREIRE, Paulo. Educao como prtica da liber-dade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983, p. 111.)

    A alfabetizao de adultos era tratada e realiza-da de forma autoritria, centrada na compreensomgica da palavra, palavra doada pelo educador aosanalfabetos; se antes os textos geralmente ofereci-dos como leitura aos alunos escondiam muito maisdo que desvelavam a realidade, agora, pelo contrrio,a alfabetizao como ato de conhecimento, comoato criador e como ato poltico um esforo de lei-tura do mundo e da palavra.

    (FREIRE, Paulo. A importncia do ato de ler: em trs arti-gos que se completam. So Paulo: Cortez / AutoresAssociados, 1989, p. 18.)

    P A L A V R A G E R A D O R A

    P A L A V R A G E R A D O R A P A L A V R A G E R A D O R A

    Fonte: IPM (Instituto Paulo Montenegro)

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  • para rir :

    (...) Recife sempre.Teus homens do povoqueimados do solgritando nas ruas, ritmadamente:chora menino pra comprar pitombaeu tenho l de barriguda pra trabiceiro!Doce de banana e goiaba! (...)Continuava gritando,andando apressadosem olhar para trssem olhar para o ladoo nosso homem-brinquedo.

    Foi preciso que o tempo passasseque muitas chuvas chovessemque muito sol se pusesseque muitas mars subissem e baixassemque muitos meninos nascessemque muitos homens morressemque muitas madrugadas viessemque muitas rvores florescessemque muitas Marias amassemque muitos campos secassemque muita dor existisseque muitos olhos tristes eu vissepara que entendesseque aquele homem-brinquedoera o irmo esmagadoera o irmo exploradoera o irmo ofendidoo irmo oprimidoproibido de serera o irmo ofendidoo irmo oprimido proibido de ser.

    Recife, onde tive fome Recifeonde tive dorsem saber por queonde hoje aindatantos, terrivelmente tantos,sem saber por quetm a mesma fometm a mesma dor,raiva de ti no posso ter.Recife, onde um dia tardecom fome, sem saber por quepensei tantonos que no comiamnos que no vestiamnos que no sorriamnos que no sabiamo que fazer da vidaPensei tantonos deserdadosnos maltratadosnos que apenas se anunciavammas que no chegavamnos que chegavammas que no ficavamnos que ficavammas no podiam sernos meninosque j trabalhavamantes mesmo de nascer no ventre ainda, ajudando a mea pedir esmolasa receber migalhas tambm descaso de olhares frios Recife, raiva de ti no posso ter.

    Paulo Freire EDUCAR PARA TRANSFORMAR EDUCAR PARA TRANSFORMAR Paulo Freire

    O Golpe de Estado, instaurado no Brasil em 1 de abril de 1964, levou ao poder as ForasArmadas. Foi ento decretado o AI-1 (Ato Institucional 1), que cassou mandatos, suspendeu a imu-nidade parlamentar e os direitos polticos e acabou com as garantias de vitaliciedade dos magistra-dos e a estabilidade dos funcionrios pblicos. O Brasil, ento, passou a viver sob sria censura aosmeios de comunicao e aos chamados de esquerda, tidos como comunistas.

    Foi nesse contexto que o mtodo de alfabetizao de adultos, criado pelo educador Paulo Freire,foi considerado uma ameaa ao sistema, pois buscava a conscientizao, o protagonismo poltico ea transformao de cada alfabetizando em sujeito de sua prpria aprendizagem e de sua histria.Por isso, Paulo Freire foi preso no 14o Regimento de Infantaria em Recife, em 16 de junho, acusa-do de atividades subversivas.

    Um golpe, tantas perdas

    Lendo alguns trechos do poema RECIFE SEMPRE, escrito por Paulo Freire, em fevereiro de 1969,no Chile, podemos imaginar os sentimentos que ele experimentou na priso, em Recife (1964).

    Recife, cidade minha, j homem feito teus crceres experimentei. Um dois trs quatro quatro trs dois umpra frente pra trs apitos acerta paso soldado no pensa um dois trs quatro quatro trs dois um direita esquerda alto! esquerda direita soldado no pensa

    Recife, cidade minha, j homem feito teus crceres experimentei o que queria o que quero e quererei que homens todos os homenspossam comer possam vestirpossam calar possam criar e que os meninos no tenham fome no tenham dorpossam brincar possam sorrir possam cantar possam amar e amados possam ser. (...)

    Recife, cidade minha, proclamo alto: se algum me ama a ti te ama. Se algum me quer que a ti te queira. Se algum me busca que em ti me encontre: nas tuas noites, nos teus dias nas tuas ruas nos teus rios no teu mar no teu sol na tua gente no teu calor nos teus morros nos teus crregos na tua inquietao no teu silncio na amorosidade de quem lutou e de quem luta de quem se exps e de quem se expe de quem morreu e de quem pode morrerbuscando apenas, cada vez mais, que menos meninostenham fome e tenham dor sem saber por que (...)

    (In: FREIRE, Paulo e GUIMARES, Srgio. Aprendendo com o prpria histria. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, p. 155-60.)

    30 31

    Ilustrao: Julio Moreira

  • Painel de Santa BrbaraFoi concebido pela pintora Djanira

    da Motta e Silva, em 1964, e executado porAdolpho Soares, para homenagear os 18operrios que morreram num desabamentoquando construam o Tnel Santa Brbarano Rio de Janeiro.

    Santa Brbara padroeira dos mineiros ede trabalhadores em galerias subterrneas.

    O painel encontra-se hoje no MNBA Museu Nacional de Belas Artes RJ.

    Depois de 70 dias na priso, Paulo Freire conseguiu a li-berdade, mas no a segurana de poder continuar o seu trabalho de edu-cador e filsofo da educao sem ser novamente preso. Assim, contra asua vontade, em setembro de 1964, parte para o exlio.

    Um dia, proibido de ser, me vi longe de minha terra, disse PauloFreire.

    Saiu do Brasil com um contrato de assessoria para o Ministrio daEducao da Bolvia. Vitor Paz Estenssoro, o ento presidente, lder doMovimento Nacionalista Revolucionrio, que implantou o voto secreto,a reforma agrria e a nacionalizao das minas, foi solidrio aos brasi-leiros exilados. Mas acabou sendo deposto pelo general Barrientos, que imporia ao povo bolivianouma cruel ditadura. Pressionado pelas tenses polticas do golpe militar na Bolvia, onde per-maneceu em torno de um ms, Paulo Freire parte para Arica, no Chile.

    Paulo Freire EDUCAR PARA TRANSFORMAR EDUCAR PARA TRANSFORMAR Paulo Freire

    Repblica da Bolviarea: 1.098.581 km2

    Moeda: BolivianoLngua oficial: Espanhol,Quchua e AimarCapital: SucreSede do Governo: La PazA cultura boliviana apresenta influncias dos incase de povos indgenas na msica, vesturio e na re-ligio. O entretenimento mais comum o futebol ea festa mais popular El Carnaval de Oruro, consi-derada patrimnio cultural da UNESCO.A Bolvia no possui litoral, mas tem um grandelago que faz fronteira com o Peru: o Titicaca. Amaioria da populao vive no Altiplano, planaltocentral do pas, e no ocidente encontra-se o Salarde Uyuni, a maior plancie de sal do mundo.

    Doenas respiratrias como a bronquite, rinitee asma atingem milhes de pessoas em todo omundo e causam grande prejuzo econmico aossistemas de sade e ao mercado de trabalho. Omaior dos responsveis por isso a poluio do ar.

    O ar poludo principalmente pelas queima-das, atividade industrial, agropecuria, pulveriza-o de agrotxicos e veculos.

    Os danos no se restringem aos seres humanos todo o ambiente afetado. Os maiores impactosda toxidez do ar so a reduo da camada de oz-nio (que protege a Terra dos raios ultravioletas dosol), o efeito estufa (elevao da temperatura daTerra) e a chuva cida, que mata plantas e ani-mais, alm de causar danos ao patrimnio histri-co e artstico.

    saber cuidar

    Voc sabia ?

    ? ???

    ???

    ?

    Podemos contribuir para a melhoria do ar: Plantando rvores; Denunciando desmatamentos; Evitando queimadas; Mantendo os veculos regulados e usando-os squando estritamente necessrios.

    Para Paulo Freire foi difcil suportar a altitudede 3.600 m de La Paz. Nessa altitude, a rarefa-o do oxignio no ar provoca uma diminuioda resistncia ao esforo e mal-estar.

    conhecendo mais p Ainda em 1964 aconteciano Brasil e no mundo...

    Em 11 de dezembro de 1964, Ernesto Che Guevara

    oferece o apoio de Cuba para as lutas de liber-

    tao do Terceiro Mundo,

    em discurso antiimperialis-

    ta na ONU.

    Hay que endurecerse

    pero sin perder

    la ternura jams.

    Che Guevara (1928-1967)

    Anita Malfattifaleceu em 6 de novembro de 1964

    Sua exposio de 1917 foi marco da re-novao das artes no Brasil.

    A reao s severas crticas que recebeucausaram uma polmica que resultou emunio de idias, foras e aes que se tra-duziram num movimento que acabou porgerar a Semana de Arte Moderna de 1922.

    Olimpadas de Tquio 1964

    O Brasil participou dessesJogos Olmpicos com 70 atletas.

    O voleibol estria em Tquiocomo modalidade olmpica e oBrasil garantiu a 7 colocao.

    O basquete brasileiro ga-nhou medalha de bronze.

    Outros brasileiros fizerambonito: Nelson Pessoa Filho, no Hipismo, ficouem 5o lugar; Ada dos Santos em 4o lugar noSalto em altura e Joo Henrique da Silva clas-sificou-se em 5o lugar no Boxe.

    Paulo Freire, em 1964.

    C IDADO DO MUNDO

    O homem amarelo (1915-1916), de Anita Malfatti.leo sobre tela, 61x51 cm.

    QUE LUGAR ESSE?

    32 33

  • Cheguei ao Chile de corpo inteiro. Pai-xo, saudade, tristeza, esperana, desejo, so-nhos rasgados, mas no desfeitos, ofensas,saberes acumulados, nas tramas inmerasvividas, disponibilidade vida, temores, re-ceios, dvidas, vontade de viver e de amar.Esperana, sobretudo.

    (FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperana: um reen-contro com a Pedagogia do oprimido. So Paulo: Paz eTerra, 1992, p. 35.)

    No Chile, Paulo Freire foi convidado, porJacques Conchol, a integrar o Ministrio daReforma Agrria e coordenar a campanha dealfabetizao dos camponeses chilenos.

    Foi nesse pas que ele conseguiu pr emprtica as suas idias e onde experimentou asua metodologia em um ambiente diferentedaquele em que ela foi concebida.

    Freire reencontrou-se com sua esposa Elzae com seus filhos vindos do Brasil em janeirode 1965. Em Santiago retomaram o convviofamiliar, to importante para ele.

    Os permanentes dilogos e a convivnciaafetuosa os fizeram uma famlia feliz, aquem Paulo Freire, tantas vezes, dedicou osseus escritos.

    EDUCAR PARA TRANSFORMAR Paulo Freire

    Chile, 1964 a 1969 as idias em prtica

    Repblica do Chile

    rea: 756.950 km2

    Moeda: Peso chilenoLngua oficial:CastelhanoCapital: Santiago

    Santiago a capital do Chile. Com quase 5milhes de habitantes, est situada junto base da Cordilheira dos Andes e aproxi-madamente a 50 km do Oceano Pacfico. O clima do Chile varia de seco ao norte, nomais rido deserto do planeta, o deserto deAtacama, ao frio mido do sul, no pontomais prximo da Antrtida. No centro, umvale frtil possibilita a produo de frutase de vinho, os grandes produtos de expor-

    tao do pas.

    Thiago de Mello, poeta amazonense, em en-trevista ao jornal O Estado de So Paulo, em8/5/1999, conta que em seu exlio no Chile, on-de reencontrou Paulo Freire, dirigiu um peque-no coral onde cantava Pablo Neruda, um dosmais importantes poetas em lngua espanhola dosculo XX.

    ... o maior dos sofrimentos:no ter por quem sentir saudades, passar

    pela vida e no viver.(Pablo Neruda em Saudade.)

    Eita, Thiago velho de guerra, amigo-sempre,companheiro imenso. [...] Precisamos de voc, dasua f e coragem, do seu desprendimento, da suapoesia um grito de amor e de esperana, espe-rana na manh de um amanh de liberdade quehomens e mulheres, oprimidos hoje, teremos decriar. Poeta que prope aos oprimidos um discur-so diferente sua palavrao. Um discurso per-manente, que abalar vales e montanhas, rios emares e deixar atnitos e medrosos os atuais do-nos do mundo. [...] Agente o barco, queridoamigo! Muitas madrugadas, cheias de orvalhomacio, esperam por voc. Andarilho da liberda-de, voc tem ainda muitos trilhos a percorrer;seus braos longos, muitas crianas a abraar;suas mos, muitos poemas a escrever.

    (FREIRE, Paulo. Carta de Paulo Freire paraThiago de Mello [Genebra, 13 jan., 1974]. In:MELLO, T. de. Vento geral, 1951/1981: doze livros depoemas. 2. ed. 1987, p. 319.)

    Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)Thiago de Mello (Santiago do Chile, abril de 1964)

    Artigo I Fica decretado que agora vale a verdade. agora vale a vida, e de mos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira. (...) Artigo IV Fica decretado que o homem no precisar nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiar no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do cu. Pargrafo nico: O homem confiar no homem como um menino confia em outro menino. Artigo V Fica decretado que os homens esto livres do jugo da mentira. Nunca mais ser preciso usar a couraa do silncio nem a armadura de palavras. O homem se sentar mesa

    com seu olhar limpo porque a verdade passar a ser servida antes da sobremesa. (...) Artigo VII Por decreto irrevogvel fica estabelecido o reinado permanente da justia e da claridade, e aalegria ser uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.(...) Artigo IX Fica permitido que o po de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor daternura.(...) Artigo Final

    Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual ser suprimida dos dicionrios e do pntano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade ser algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada ser sempre o corao do homem.

    conhecendo mais

    Pablo Neruda (1904-1973) Thiago de Mello (1926- )

    Char

    ge d

    e Zi

    rald

    o

    Com outros exilados do Brasil, durante asua estada no Chile, Paulo Freire refletiasobre a realidade brasileira enquanto de-senvolvia suas experincias educativas.

    Paulo Freire EDUCAR PARA TRANSFORMAR

    QUE LUGAR ESSE?

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  • Educao como prtica da liberdade

    Escrito em 1967, uma reflexo sobre assuas experincias pedaggicas.Aqui Paulo Freire reafirma a sua concep-

    o de educao conscientizadora e seupotencial de fora demudana e libertao.O processo de educa-o no se completana etapa de desvela-mento de uma reali-dade, mas s com aprtica da trans-formao dessarealidade.

    Ao Cultural para a Liberdade

    Escrito em 1968, uma coletnea de tex-tos de reflexo sobre a alfabetizao.Prope um processo pedaggico que pos-sibilite ao alfabetizando a compreenso doato de ler, a partir de seu contexto social,por meio da prtica de dilogo conscien-

    tizador e gerador de umareflexo crtico-liberta-dora.

    Extenso ou Comunicao?

    Paulo Freire reflete sobre a questo da co-municao no meio rural, entre agrno-mos com formao acadmica e homenssimples, cuja experincia foi construda nocotidiano da lida com a terra. Discute oconceito de invaso cultural, de ex-tenso, revista em seusentido lingstico efilosfico, e a refor-ma agrria.

    Pedagogia do Oprimido

    Esses trs primeiros livros de Freire deramforma ao mtodo Paulo Freire, anuncia-do em sua obra prima: a Pedagogia doOprimido, cujos originais foram escritos noChile entre 1967 e 1968, mas publicadospela primeira vez, em ingls, nos EstadosUnidos em 1970. Considerada a mais radi-cal proposta pedaggica pensada a partir darealidade do Terceiro Mundo, Pedagogia doOprimido enfatiza as idias deque todo processo educativo um processo poltico. O dilo-go a essncia desse processoe o sentido que a ao educa-tiva deve ter igualmente paraeducador e educando.

    Hamilton Pereira da Silva, preso pela ditadura por 5 anos, escreveu inmeros poemas, fingindoserem de um tal poeta latino Pedro Tierra. Escrevia-os em papel de mao de cigarros e, para envi-los para fora da priso, enrolava-os dentro de uma caneta, que trocava com seu advogado. Assimnasceu seu livro Poemas do Povo da Noite, publicado em 1975, quando ainda estava preso.

    EDUCAR PARA TRANSFORMAR Paulo Freire

    Ditadura x PoesiaFui assassinado.Morri cem vezese cem vezes renascisob os golpes do aoite.

    [...] Fui poetacomo uma armapara sobrevivere sobrevivi.

    [...] Porque sou o poetados mortos assassinados

    dos eletrocutados, dos suicidas,dos enforcados e atropelados,dos que tentaram fugir,dos enlouquecidos.

    Sou o poetados torturados,dos desaparecidos,dos atirados ao mar,sou os olhos atentossobre o crime.

    [...] meu ofcio sobre a terra ressuscitar os mortose apontar a cara dos assassinos.

    [...] Venho falarpela boca de meus mortos.Sou poeta-testemunha,poeta da gerao de sonho esanguesobre as ruas de meu pas.

    Pedro Tierra Poema prlogo de Poemas do Povo da Noite

    conhecendo mais p

    Paulo Freire EDUCAR PARA TRANSFORMAR

    Pra no dizer que no falei de floresAssim que Geraldo Vandr apresentou esta cano no III Festival Internacional da

    Cano, em 1968, ela alcanou o corao do pas, tornando-se uma espcie de hinoestudantil, apesar de ter perdido para Sabi, sob ruidosos protestos da platia.

    Ele j havia vencido o II Festival de MPB da TV Excelsior com Porta Estan-darte, onde cantava: Levando pra quem me ouvir/ Certezas e esperanas pra tro-car / Por dores e tristezas que bem sei / Um dia ainda vo findar.

    Exilado, tornou-se smbolo de resistncia ditadura.

    No exlio, Paulo Freire escreveu seus primeiros livros

    ttr

    t

    UUU

    UCaminhando e cantando e seguindo a canoSomos todos iguais braos dados ou noNas escolas nas ruas, campos, contruesCaminhando e cantado e seguindo a cano

    Vem vamos embora que esperar no saberQuem sabe faz a hora no espera acontecer

    Pelos campos a fome em grandes plantaesPelas ruas marchando indecisos cordesAinda fazem da flor seu mais forte refroE acreditam nas flores vencendo o canho

    Vem vamos embora que esperar no saberQuem sabe faz a hora no espera acontecer

    H soldados armados, amados ou noQuase todos perdidos de armas na mo

    Nos quartis lhes ensinam antiga uma lioDe morrer pela ptria e viver sem razo

    Vem vamos embora que esperar no saberQuem sabe faz a hora no espera acontecer

    Nas escolas, nas ruas, campos, construesSomos todos soldados, armados ou noCaminhando e cantando e seguindo a canoSomos todos iguais, braos dados ou noOs amores na mente, as flores no choA certeza na frente, a histria na moCaminhando e cantando e seguindo a canoAprendendo e ensinando uma nova lio

    Vem vamos embora que esperar no saberQuem sabe faz a hora no espera acontecer r

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  • Voc sabia ??

    ??

    Em GenebraComo professor convidado, Freire esteve no

    Mxico em 1966 para conferncias e semin-rios e nos Estados Unidos em 1967, para on-de voltou de 1969 a 1970.

    Viveu, depois, por dez anos em Genebra(Sua), de 1970 a 1980, como consultor es-pecial no Departamento de Educao doConselho Mundial de Igrejas. Freire lecionouna Universidade de Genebra e, nessa funode consultor, viajou para sia, Oceania, Am-rica e para pases de lngua portuguesa nafrica (Cabo Verde, Angola, So Tom ePrncipe, Guin-Bissau).

    O IDACEm 1971, Paulo e Elza Freire, Claudius

    Ceccon, Miguel e Rosiska Darcy de Oliveira,brasileiros tambm exilados, criam o Institutode Ao Cultural, o IDAC. O grupo do IDACassessorou projetos de educao na frica, quese alongaram por cinco anos na Guin-Bissau.A sede do IDAC se transferiu para o Rio deJaneiro e So Paulo, por ocasio do regresso deFreire ao Brasil.

    Paulo Freire EDUCAR PARA TRANSFORMAR

    Leitura do mundo Paulo Freire x MOBRALO Movimento Brasileiro de Alfabetizao MOBRAL foi criado em 1969 para erradicar o analfabetismo do

    Brasil, em dez anos. Enquanto o objetivo do Programa Nacional de Alfabetizao, elaborado por Paulo Freire, em1963, era alfabetizar despertando no jovem e no adulto um processo de conscientizao sobre a realidade vivida,pela transformao dessa mesma realidade, o MOBRAL propunha um programa de alfabetizao funcional, visando aquisio de tcnicas de leitura, escrita e clculo.

    O mtodo de alfabetizao empregado pelo MOBRAL fez uso do Mtodo Paulo Freire, esvaziando seu teor poli-tizador. Palavras geradoras tambm estavam presentes nos procedimentos de alfabetizao do MOBRAL, mas nono sentido dado por Paulo Freire: palavras selecionadas dentre os vocbulos mais usados pela populao a ser alfa-betizada. O MOBRAL utilizava, contraditoriamente, palavras geradoras padronizadas para todo o Brasil, desconsi-derando as realidades locais. Foi extinto em 1985 com o fim do Regime Militar.

    Leitura do mundo Escolas Indgenas

    Somente h pouco tempo, e apenas em algumasregies do pas, escolas indgenas passaram a de-senvolver contedos curriculares e metodologiasde ensino e aprendizagem em correspondnciacom as necessidades e reivindicaes expressaslocalmente. So escolas cujo calendrio de aulasrespeita o calendrio social e ambiental do povoindgena, a fim de que alunos e alunas possamparticipar das atividades produtivas e culturaistradicionais de suas famlias e do processo deaprendizagem tradicional de seu grupo.

    Crianas na escola da Terra Indgena Mekragnoti, no sul do Par.

    Morena Tom

    ich

    ?

    Vivendo e Aprendendo. Experincias do IDAC emEducao Popular.Este o ttulo do livro publicado no Brasil, porPaulo Freire, em parceria com Claudius Ceccon,Rosiska e Miguel Darcy de Oliveira. (So Paulo:Brasiliense, 1980.)

    Acima: Paulo Freire ao lado do educador austraco Ivan Illicht, em Genebra, 1971.

    esquerda: Paulo Freire com Claudius Ceccom e Rosiska Darcy deOliveira, ao receber o ttulo de Doutor Honoris Causa da

    Universidade de Genebra, em 1979.

    Manuscrito do poema Cano bvia, escrito por Paulo Freire em Genebra, em maro de 1971. (Publicado no

    livro Pedagogia da indignao e outros escritos, p. 5.)

    No perodo militar, hou-ve expanso desordenadadas fronteiras da agricul-tura sobre reas de flores-tas nativas.

    Em 1971, o termo agro-txico foi cunhado pelo ambientalista JosLutzenberger, que denunciou a contaminao dosolo, das guas, dos alimentos, pessoas e animais,provocada por defensivos agrcolas.

    Em 1976, Chico Mendes, ambientalista as-sassinado em 1988, chamou a ateno da mdianacional e internacional para o desmatamentoda floresta amaznica. Liderou aes pacficascontra o desmatamento, reunindo um grandenmero de seringueiros, ndios, pescadores e tra-balhadores rurais que, de mos dadas, faziam oempate, cercos humanos nas florestas e mar-gens de rios ou abraavam-se s rvores, a fimde impedirem a sua derrubada por empregadosde fazendeiros e seringalistas, armados de foices,machados e moto-serras.

    Em 1985, Chico Mendes props as Reser-vas Extrativistas. Nelas, os povos da florestatraam um plano de uso sustentvel dos recur-sos naturais.

    Chico Mendes

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  • A dimenso do sagrado

    Em vrias oportunidades, nos seus livros, pales-tras ou em seus depoimentos gravados, Paulo Freirese posiciona como cristo e revolucionrio.

    Para alguns, no compreensvel essa dupla re-ferncia. Haveria compatibilidade em ser cristo eser, ao mesmo tempo, marxista?

    Freire nos fala que foi como camarada deCristo que ele se aproximou dos favelados, desdeos tempos de educador iniciante. E foi para melhorcompreender a situao de pobreza, desigualdadee injustia social que ele se aproximou do pensa-mento marxista.

    (PRIOLLI, Gabriel. In: Paulo Freire in memoriam. SoPaulo: TV PUC, 1997, sonoro, sem legenda, colorido.)

    A filosofia de Freire tem uma relao prximado pensamento catlico, principalmente com aTeologia da Libertao. Ela encontra grande resso-nncia entre educadores cristos e progressistas.

    Nos anos 70, enquanto Freire atuava como oprincipal consultor do Departamento de Educa-o, no Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra,a sua filosofia de educao problematizadora al-canou educadores progressistas da AmricaLatina, passando a ser adotada em projetos edu-cacionais regionais ou nacionais no Chile, Peru,Equador, Uruguai, Argentina e Mxico.

    Parceria Sua e Brasil

    Entre os dois pases h antigas e recentesrelaes comerciais, acordos e tratados:

    As empresas suas em nosso pas ge-ram cerca de 87 mil empregos.

    Verificou-se, em 2004, um ligeiro au-mento de 8% das importaes e as expor-taes brasileiras para a Sua cresceramem 13%.

    Em maio de 2004, autoridades suase brasileiras assinaram o Acordo deCooperao Jurdica em Matria Penal,um poderoso instrumento que facilita otrabalho conjunto dos dois pases na lutacontra o crime.

    J foram assinados tratados bilateraisem reas como a Aviao Civil, a Coope-rao Tcnica e Cientfica e a Promoo eProteo de Investimentos.

    Em 2004, a Sua colaborou com v-rios projetos no Brasil, entre eles:

    - Grupo Tortura Nunca Mais reade Sade e Direitos Humanos da rede p-blica RJ;

    - Direito Moradia s ComunidadesRemanescentes dos Quilombos;

    - Associao para o Eco-Desenvol-vimento s mulheres artess MG;

    - Associao Suo-Brasileira de Ajuda Criana capacitao profissional pa-ra jovens SP.

    Embaixada da Sua:http://www.eda.admin.ch/brasilia_emb/p/home/chandbr.html

    EDUCAR PARA TRANSFORMAR Paulo Freire

    SuaCapital: BernaLocalizao: Europa centralFronteiras: Frana, Alemanha,Itlia, ustria e LiechtensteinIdiomas nacionais: Alemo,francs, italiano e romanchePrincipais atividades: indstria e servio