Brasil-África Subsaariana e a cooperação para segurança ...bdm.unb.br/bitstream/10483/19226/1/2017_

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  • Universidade de Braslia Instituto de Relaes Internacionais

    Programa de Ps-Graduao em Relaes Internacionais XIII Curso de Especializao em Relaes Internacionais

    Brasil-frica Subsaariana e a cooperao para segurana alimentar:

    o caso do Qunia

    Julia Nogara Marcon

    Artigo apresentado como requisito parcial para obteno do ttulo de

    Especialista em Relaes Internacionais

    Orientador: Professor Doutor Jos Flvio Sombra Saraiva

    Braslia

    2017

  • RESUMO

    As mudanas climticas bem como as crises econmica e alimentar nos

    ltimos anos, provocaram um agravamento da fome e desnutrio nos pases da

    frica Subsaariana, o que acabou se tornando uma situao crnica em muitos

    lugares. O Brasil atua ativamente como facilitador de cooperao para segurana

    alimentar, atravs da transferncia de conhecimentos e expertise resultados de sua

    experincia de sucesso. Buscando desenvolver uma estratgia nacional que fosse

    capaz de construir e fortalecer sua autossuficincia no combate a insegurana

    alimentar crnica, o Qunia lanou um programa nacional de alimentao escolar

    com base no modelo brasileiro. A implementao de programas a partir de polticas

    pblicas de xito podem ser de grande valia, mas no so suficientes para alcanar

    plenamente os objetivos a longo prazo. Uma srie de fatores deve ser levado em

    conta para que as aes se tornem de fato eficientes.

    Palavras-chave: cooperao sul-sul; segurana alimentar; Brasil; Qunia.

    ABSTRACT Climate change as well as the economic and food crises in recent years have led to a

    worsening of hunger and malnutrition in the countries of sub-Saharan Africa, which

    has become a chronic situation in many places. Brazil acts actively as a facilitator of

    cooperation in food security, through the transfer of knowledge and expertise results

    of its successful experience. Seeking to develop a national strategy able to build and

    strengthen its self-sufficiency in addressing chronic food insecurity, Kenya has

    launched a national school feeding program based on the Brazilian model.

    Implementing programs from successful public policies can be of great value, but

    they are not enough to fully achieve the long-term goals. A number of factors must

    be taken into account so that actions become truly efficient.

    Key words: south-south cooperation; food security; Brazil; Kenya.

  • INTRODUO: A CRISE ALIMENTAR NA FRICA SUBSAARIANA E A

    COOPERAO BRASILEIRA COMO FERRAMENTA DE APOIO

    Apesar do grande potencial agrcola da frica, muitas regies ainda sofrem

    com a fome. Estima-se que uma a cada quatro pessoas no tem acesso a alimentao

    e nutrio adequadas na frica subsaariana. As mudanas climticas assim como as

    crises econmica e alimentar nos ltimos anos, provocaram um agravamento da

    situao. Esta condio contnua aumentou a presso por uma resposta internacional

    mais eficiente e organizada crise, questionando o modo como a ajuda era at ento

    prestada.

    Segundo o Relatrio Indicadores de Desenvolvimento Global 2016 do Banco

    Mundial, a frica Subsaariana ao contrrio da maioria dos pases no apresentou

    reduo no nvel de pobreza entre os anos 1990 at 2002. O ndice de desnutrio

    ainda permanece prximo de 40% nos pases de baixa renda, o que mostra que a

    regio ainda sofre com graves problemas sociais. (IBRD-IDA, 2016)

    No obstante a luta contra a insegurana alimentar na regio j date quase

    meio sculo, uma srie de fatores externos agravaram a situao nos ltimos anos,

    fazendo da crise uma condio crnica em certas reas africanas. A segurana

    alimentar uma necessidade humana fundamental e um importante indicador de

    pobreza e bem estar de uma populao. Entende-se por segurana alimentar o acesso

    fsico, social e econmico ao alimento seguro, suficiente para suprir as necessidades

    nutricionais e suas preferncias alimentares para uma vida saudvel.I

    A segurana alimentar depende no s da disponibilidade e acesso aos

    alimentos, mas tambm da estabilidade dos seus recursos. Acreditava-se no incio

    que a crise alimentar fosse determinada pela questo da oferta. As concepes de que

    a escassez viria do fracasso dos governos locais em fornecer comida s suas

    populaes e da necessidade de investimentos para implementao de novas

    tecnologias para a agricultura e melhores sistemas de distribuio de alimentos,

    mostraram-se incapazes de explicar o insucesso da ajuda alimentar na luta contra a

    fome. As alteraes no clima e as crises econmicas trouxeram ao debate a

    necessidade de se pensar em novos mtodos de combate que pudessem se adequar

    I FAO- Cpula Mundial da Alimentao, 1996.

  • cada problema e necessidade local, como por exemplo, o desenvolvimento de

    tecnologias agrcolas para responder s mudanas climticas e cooperao entre

    grupos de atores para construo de novas polticas. (RADEMACHER, 2017)

    Nesse contexto, a cooperao sul-sul surge como uma ferramenta de apoio ao

    desenvolvimento dos pases africanos, promovendo uma srie de aes que visam

    mitigar problemas como esse. H um histrico de solidariedade entre os PEDII que

    vai alm dos interesses comerciais, estende-se vontade de coordenar polticas para

    propagar o desenvolvimento da regio sul como um todo. Embora as disparidades

    tenham aumentado na regio nos ltimos dez anos com o crescimento e

    desenvolvimento social e poltico de pases como a China, ndia e Brasil, a

    cooperao sul-sul ainda vem sendo uma janela de possibilidades para os pases mais

    pobres, por meio de parcerias comerciais e aumento da ajuda para o

    desenvolvimento. o caso da China e Brasil, que mesmo com uma participao

    menor na rea durante a ltima dcada, tem investido muito na implementao de

    polticas voltadas para as necessidades desses pases. (IPC-IG, 2010)

    A partir de experincias bem sucedidas no combate fome e pobreza, o

    Brasil tornou-se um grande aliado na disseminao de conhecimentos e na

    construo de polticas pblicas de proteo social, firmando parceria com a

    Organizao das Naes Unidas Para Alimentao e Agricultura (FAO). No ano de

    2008, o governo brasileiro e a organizao assinaram um acordo que estabeleceu um

    programa de cooperao internacional nas reas de desenvolvimento sustentvel,

    agricultura familiar e segurana alimentar nutricional. Desde ento, vrios projetos

    envolvendo esses temas foram desenvolvidos. (FAO, 2016)

    Em 2010 foi realizado em Braslia a cpula de alto nvel Dilogo Brasil-

    frica sobre Segurana Alimentar, Combate Fome e Desenvolvimento Rural, que

    resultou no PAAIII frica. O programa, originado a partir de um compromisso

    assumido pelo governo brasileiro para reforar sua parceria com os pases africanos,

    inspirado na experincia brasileira e tem como objetivo contribuir para a segurana

    alimentar e gerao de renda por meio de inciativas de assistncia alimentar a partir

    de alimentos locais adquiridos da agricultura familiar. (PAA, 2016)

    II Pases em desenvolvimento III Programa de Aquisio de Alimentos

  • O Programa Mais Alimentos frica outro exemplo de cooperao realizada

    a partir da adaptao de polticas brasileiras. Seu objetivo promover o aumento da

    segurana alimentar e produtividade agrcola na frica por meio de maiores acessos

    tecnologia. Conduzido pelo Ministrio do Desenvolvimento Agrrio (MDA), tem

    como principal atividade oferecer linhas de crdito para a aquisio de mquinas e

    equipamentos brasileiros dirigidos agricultura familiar de pases africanos. O

    programa ainda complementado com uma assistncia tcnica especializada aos

    receptores. (IPC-IG, 2012)

    Outra iniciativa brasileira que recebeu grande reconhecimento internacional e

    se tornou objeto de cooperao com a frica foi o Programa Nacional de

    Alimentao Escolar (PNAE). Iniciado em 1955, atualmente oferece alimentao

    escolar a todos os alunos da educao bsica matriculados em instituies

    conveniadas com o poder pblico. A parceria do PNAE com o PAA na incorporao

    de um modelo incentivo da aquisio de alimentos locais da agricultura familiar,

    tornou-se fonte de inspirao para naes africanas servindo de modelo para criao

    de polticas. (ACTIONAID, 2015)

    Os trs programas supracitados integram a Estratgia Fome Zero, uma

    evoluo do Programa Fome Zero, e buscam a partir de uma atuao conjunta uma

    maior sustentabilidade, eficcia e abrangncia s aes de combate fome. A

    cooperao do Brasil com os pases em desenvolvimento visa replicar essas

    iniciativas e fomentar programas nacionais de alimentao escolar a partir da

    aquisio local dos alimentos. (BOECHAT, 2016)

    Os pases do Sul compartilham algumas similaridades herdadas ainda no

    perodo em que foram colnias. Sociedades estratificadas, com alto grau de

    disparidades sociais e pobreza so alguns desafios dirios enfrentados por essas

    naes. O elevado nmero de pessoas cronicamente subnutridas nessas regies est

    intrinsicamente ligado a essas caractersticas histricas. Todavia, por trs dessas

    semelhanas est um cenrio muito mais complexo, com muitos fatores e causas, que

    exige mltiplas abordagens para a realidade de cada localidade. Pensar em replicar

    polticas sem antes analisar os elementos que compem cada ambiente receptor pode

    no trazer os mesmos resultados.

  • A cooperao, por ser