Carolina Aguiar dos Reis Mascarenhas 2020. 3. 26.¢  Carolina Aguiar dos Reis Mascarenhas Finalista na

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  • Análise do Conflito na Caxemira: da sua génese até à atualidade| Analysis

    of the Kashmir Conflict: from its origins to the present

    Carolina Aguiar dos Reis Mascarenhas

    Finalista na licenciatura em Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas,

    Universidade de Lisboa, Rua Almerindo Lessa, Pólo Universitário do Alto da Ajuda, 1300-663 Lisboa,

    carolina_mascarenhas99@hotmail.com.

    Resumo: O presente artigo analisa o conflito na Caxemira entre a Índia e o Paquistão do ponto desde da

    sua origem com a repartição do Império Britânico, em 1947, até aos dias de hoje, influenciado por diversas

    mudanças em termos conjunturais e estruturais não só nesta área da Ásia, mas por também por todo o

    continente e ainda pelo Mundo, de forma a demonstrar que a realidade desta disputa, apesar das várias

    oscilações de relações entre a Índia e o Paquistão, continua ainda bem assente e vincada nos conflitos do

    mundo atual. Assim, este artigo pretende essencialmente “olhar para o passado para compreender as

    modificações atuais”, nomeadamente aquelas que marcaram e ainda marcam o vale da Caxemira a partir

    dos anos 2000.

    Palavras-Chave: Conflito na Caxemira, Índia, Paquistão, Religião, Cultura, Influências,

    Interesses.

    Abstract: The following article analyses the conflict in Kashmir between India and Pakistan from the point

    of its origin with the breakdown of the British Empire, in 1947, to the present day, influenced by several

    changes in conjunctural and structural terms not only in this area of Asia, but by also across the continent

    and also around the world, in order to demonstrate that the reality of this dispute, despite the various

    oscillations in relations between India and Pakistan, is still well established and deep in the conflicts of the

    current world. Thus, this article essentially intends to “look to the past to understand the current changes”,

    namely those that have marked and still mark the Kashmir valley since the 2000s.

    Keywords: Conflict in Kashmir, India, Pakistan, Religion, Culture, Influences, Interests.

    mailto:carolina_mascarenhas99@hotmail.com

  • O domínio da região de Caxemira – Jammu & Kashmir –, por parte da Índia e do

    Paquistão, vem se perpetuando há já muito tempo, mas, principalmente, desde a

    descolonização por parte do antigo Império Britânico em 1947.

    Internacionalmente, a Caxemira é reconhecida como parte integrante da administração

    indiana. Porém, o governo do Paquistão posiciona-se contra este reconhecimento,

    defendendo que o estatuto da região ainda é incerto e que somente o povo pode decidir o

    posicionamento da mesma.

    A realidade do conflito sobre esta região tem resultado, até aos dias de hoje, em várias

    guerras e conflitos, em larga escala, que resultaram em diversas mortes, bem como a

    propagação do ódio entre as diversas comunidades religiosas ramificadas através do

    Islamismos e do Hinduísmo, e nos finais dos anos 90 para a frente com a introdução de uma

    nova e preocupante variável no quadro da disputa, as armas nucleares, juntamente com as

    também importantes as múltiplas linhas de falha em seu domínio interno adquiriram uma

    primazia.

    O conflito da Caxemira acabou por adquirir proporções para além das suas fronteiras,

    escalando para os radares de grandes potências externas, nomeadamente os EUA, a China, a

    Rússia, como não estatais como grupos fundamentalistas islâmicos, ou ainda

    intergovernamentais e as Nações Unidas.

    Figura 1. – Divisão da Caxemira – Diário de Notícias (2019).

  • A História do Conflito pela Caxemira: origens

    A Caxemira é um estado da Índia entre o Paquistão, Penjab, Afeganistão, Sinquião e

    Tibete, inserido no contexto da Ásia do Sul, mais especificamente localizado na região

    noroeste do subcontinente, fazendo fronteira com o Paquistão e com a China. Caracteriza-

    se por ser a base de gigantescos dobramentos que formam a cadeia do Himalaia, o que torna

    a Caxemira numa região de nascentes de rios caudalosos, inclusive o Rio Indo, e,

    consequentemente, numa região muito rica em recursos naturais e glaciares. É devido a este

    fator que a água tem sido um fator geopolítico de forte interesse entre a Índia e o Paquistão.

    Historicamente, o vale da Caxemira foi sempre um lugar de migrações importantes para o

    subcontinente indiano e de estabelecimento de diferentes grupos culturais. Politicamente, a

    Caxemira era um estado principesco governado pelo marajá Hari Singh. Portanto, pela sua

    formação geográfica e histórica, esta zona sempre foi um ponto de contacto entre interesses

    divergentes.

    O problema que envolve a Caxemira surgiu como uma consequência direta da partição

    e da independência do subcontinente indiano, pelo Reino Unido, em 1947. Os Hindus

    estavam concentrados no centro e no Sul da Índia, enquanto os indianos muçulmanos

    concentravam-se sobretudo em Bengala e no Noroeste. Uma comissão britânica dividiu o

    território entre a maioria do Paquistão muçulmano e a maioria da Índia hindu nos países que

    se seguiram divididos. Nestas circunstâncias, cerca de 15 milhões de pessoas fugiram para as

    novas fronteiras e 500 000 morreram em motins. Quatro regiões fronteiriças foram as piores,

    nomeadamente, Sindh, Bengala, Punjab e Jammu Kashmir.

    Como consequência da repartição, alguns reinos semiautónomos, como era o caso da

    Caxemira, tiveram a liberdade de escolher de que lado ficar. Todavia, entre os estados

    principescos da Índia, apenas Jammu e Caxemira tinha um marajá hindu, Hari Singh, à frente

    de uma população maioritariamente muçulmana o que complexificou a escolha do marajá,

    que estava indeciso entre optar pela Índia, pelo Paquistão ou até pela independência, pois em

    termos geográficos o marajá poderia aderir a um dos dois novos domínios. Como se recusava

    a dar a escolha à população, a Caxemira permaneceu dividida sobre o território, sendo que

    dois terços dela, que inclui Jammu, o Vale da Caxemira e a área escassamente povoada por

    budistas do Ladakh Oriental estão sob controle da Índia, e a terceira parte, que compreende

    uma estreita faixa de terra, a “Caxemira Livre” e zonas setentrionais, incluindo Gilgit,

    Baltistão e os antigos reinos de Hunza e Nagar, é administrada pelo Paquistão.

  • Esta indecisão desenvolveu a tensão de Caxemira, pois é o único Estado indiano com

    maioria islâmica. É neste contexto desenvolveu-se uma longa inimizade entre a Índia pós-

    colonial e o recém-criado Paquistão muçulmano, focada, essencialmente, em eventos

    históricos e religiosos e em filiações religiosas da região.

    Estas reivindicações sobre o vale da Caxemira têm feito com que, desde 1947, a região

    se tornasse palco de vários conflitos militares entre a Índia e o Paquistão, – 1947/48, 1965,

    1971 e 1999. Além disso, a partir dos finais dos anos 90 observa-se um escalar da tensão,

    bem como a preocupação da comunidade internacional principalmente no que toca à

    segurança e à paz, aquando da introdução de armas nucleares por ambos os países na sua

    política externa e de segurança A partir do século XXI, o conflito da Caxemira

    complexificou-se devido às mudanças no panorama internacional com a influência de atores

    não-estatais, nomeadamente de grupos fundamentalistas islâmicos e também pelo

    empoderamento do indivíduo pelas novas tecnologias de informação e de comunicação,

    trazendo este problema para a ribalta dos olhares públicos.

    Conflitos: de 1947 a 1999

    O conflito de 1947-1948 marca o início da primeira guerra entre a Índia e o Paquistão,

    quando, em outubro, guerrilheiros tribais pashtuns 1da província da fronteira noroeste do

    Paquistão invadiram a Caxemira com o apoio do governo paquistanês, com o intuito de

    anexar ao país. Nestas circunstâncias, o marajá deixou Srinagar e apelou ao governo indiano

    por assistência militar. Em troca, ele assinou o Instrumento de Adesão, cedendo a Caxemira

    à Índia, a 26 de outubro de 1947. Esta decisão foi bastante contestada pelo Paquistão que

    alegava que o marajá não tinha o direito de assinar um acordo com a Índia quando ainda

    estava em vigor um acordo de paralisação com o Paquistão. No dia a seguir à assinatura, as

    tropas indianas desembarcaram na Caxemira para combater as forças rebeldes, dando início

    à primeira guerra indo-paquistanesa. Simultaneamente, durante a guerra, o então primeiro-

    ministro da Índia, Jawaharlal Nehru, prometeu um referendo à população da Caxemira.

    Pouco tempo depois, de forma a resolver o conflito, a Índia levou a disputa às Nações

    Unidas. Uma resolução foi aprovada a 13 de agosto de 1948, pedindo às duas nações que

    retirassem as suas forças. Quando tal acontecesse, seria realizado o tal referendo, permitindo

    1 O povo Pashtun, conhecido como afegãos em persa e Pathans in Hindi-Urdu, é uma etnia indo-europeia do subgrupo de iranianos do Leste, com populações p