CONSTITUCIONALISMO nome do fortalecimento dos direitos fundamentais. Nesse sentido, o Constitucionalismo

  • View
    0

  • Download
    0

Embed Size (px)

Text of CONSTITUCIONALISMO nome do fortalecimento dos direitos fundamentais. Nesse sentido, o...

  • 1

    DIREITO CONSTITUCIONAL PROF. PAULO ADIB CASSEB

    CONSTITUCIONALISMO Existem os sentidos tradicionais e também acepções contemporâneas de constitucionalismo. Os sentidos tradicionais são dois: I) Constitucionalismo designa uma teoria, que sustentou a limitação do poder político em

    nome do fortalecimento dos direitos fundamentais. Nesse sentido, o Constitucionalismo é uma teoria normativa da política.

    II) O outro sentido, mais conhecido, designa o movimento político e cultural desenvolvido nos séculos XVII e XVIII na América do Norte e na Europa ocidental, que defendeu a ideia de constituição como sendo a solução para a limitação do poder político. Foi na verdade uma vertente do Iluminismo, que no campo político opôs-se ao Estado Absolutista.

    Esse movimento, o constitucionalismo, defendia que seria possível, por meio da constituição, limitar o poder pela ideia de que cada Estado deveria ter uma constituição escrita, de origem popular e hierarquicamente superior a todo o ordenamento jurídico, e superior ao próprio poder. Portanto, que fosse obrigatória não apenas aos governados, mas também aos governantes. Seria esta a solução para o combate ao Estado Absolutista.

    Esse movimento conseguiu difundir amplamente essa ideia nos dois continentes, tendo grande aceitação a partir das Revoluções Liberais do final do século XVIII.

    As primeiras constituições escritas seguindo esse molde surgiram na América do Norte, com as ex-colônias inglesas que conseguiram a independência, e depois com a união desses Estados soberanos, com o surgimento dos EUA, e sua Constituição de 1787. Depois, como consequência da Revolução Francesa, também a França adotaria uma constituição nesses moldes.

    São esses os dois sentidos tradicionais de constitucionalismo: o termo empregado para designar o próprio movimento propulsor da ideia de constituição e para designar, como anota Canotilho, a própria teoria normativa da política, tão defendida por aquele movimento que acabou por permitir a instituição da figura da constituição.

    Além desses sentidos tradicionais, existem as acepções contemporâneas: I) Neoconstitucionalismo: é expressão usada por alguns autores europeus, enaltecida por

    alguns autores brasileiros, mas combatida por outros. É um termo que começou a ser utilizado para designar a nova dimensão da função jurisdicional contemporânea, que abandonou o modelo clássico, segundo o qual o juiz era um mero aplicador da lei aos casos concretos.

    No neoconstitucionalismo há uma nova dimensão da função jurisdicional, e o juiz, sobretudo, em sistemas normativos abertos (que contêm mais princípios do que regras), aplica diretamente a Constituição, sem ter a lei como intermediária.

    Na realidade, depara-se com verdadeira produção normativa supletiva pelo judiciário. É a consequência do que se chama ativismo judicial.

    Esse é um dos sentidos contemporâneos de constitucionalismo, que é na realidade uma etapa no desenvolvimento histórico do seu significado.

    II) Transconstitucionalismo: outra expressão atrelada ao constitucionalismo que merece

    referência. Diante da globalização que marca o mundo contemporâneo, é possível concluir que os Estados já não podem resolver as questões constitucionais isoladamente, apenas com os olhos

  • 2

    DIREITO CONSTITUCIONAL PROF. PAULO ADIB CASSEB

    voltados ao direito interno. Há necessidade de um diálogo entre os Estados. Antes de formar uma decisão, a corte constitucional deve observar também as soluções dadas em Estados estrangeiros e em cortes internacionais àquela mesma questão; observar os sistemas estrangeiros, o direito estrangeiro, as decisões de tribunais constitucionais de outros Estados, as decisões de cortes internacionais, antes de formar a sua convicção para resolver a questão interna. Esse é o chamado transconstitucionalismo.

    No Brasil, mesmo sem utilizar o termo, o STF já tem adotado essa postura. Exemplo: julgamento do STF do Recurso Extraordinário 511.961, que tratou do exercício da profissão de jornalista. Nesta decisão, reconheceu-se que para o exercício profissional da atividade de jornalista não há necessidade de diploma na área, entendendo que é uma profissão que tem suas características específicas marcadas por associar-se a liberdade de imprensa à liberdade de expressão, e a exigência de diploma na área implicaria verdadeira censura prévia. Na fundamentação central dessa decisão, o STF utilizou também, como motivação, a jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos.

    Estes são os principais sentidos de constitucionalismo que merecem referência. CONCEITOS DE CONSTITUIÇÃO O conceito de Constituição depende da evolução histórica desse documento. Por isso, não há

    como transmitir um conceito de constituição desprendido de sua evolução histórica. Constituição é tradicionalmente definida como sendo um conjunto de normas jurídicas sobre

    a organização fundamental do Estado. As normas constitucionais se diferenciam das demais normas por duas características. A primeira é a supralegalidade, a posição de superioridade sobre as demais normas jurídicas (leis, atos administrativos, costumes). Todas as normas devem observar a relação de compatibilidade vertical com as normas constitucionais, que por isso, são normas supremas. A outra característica é a rigidez, a dificuldade de alterá-las.

    No Brasil, qualquer norma inserida no texto constitucional, ainda que não se refira a poder (elementos orgânicos), ou a direitos humanos fundamentais (elementos limitativos), são normas dotadas de superioridade hierárquica e rigidez, que estão no topo da pirâmide jurídica, pois formalmente são normas constitucionais, embora não ostentem esta característica sobre o prisma da matéria, porquanto em sentido estrito, somente é matéria constitucional aquela que se relaciona com o Poder do Estado e direitos humanos fundamentais.

    I) Constituição liberal (constituição clássica,constituição garantia,constituição defensiva) Este modelo foi implementado no final do sec. XVIII, a partir das revoluções liberais

    (Revolução Americana de Independência das Colônias Inglesas e Revolução Francesa), e persistiu durante todo o período de domínio do Estado Liberal, do Estado não intervencionista, que tinha como papel central a manutenção da ordem e não a interferência em áreas como saúde, educação, previdência e trabalho, que ficavam com a iniciativa privada.

    Esse modelo constitucional nasceu com as primeiras constituições escritas (segundo a acepção contemporânea de constituição, pois tudo que existiu antes das constituições dos Estados americanos só podem ser consideradas como sementes, antecedentes de constituição – as primeiras constituições, segundo a acepção defendida pelo constitucionalismo, se devem a esse período, a essas revoluções).

    As constituições que surgiram e que prevaleceram durante o período do Estado Liberal tinham como finalidade central a limitação do poder político, a disciplina da organização do Estado,

  • 3

    DIREITO CONSTITUCIONAL PROF. PAULO ADIB CASSEB

    (para que isso não ficasse nas mãos dos governantes) e ainda o propósito de fortalecer os direitos individuais (a primeira dimensão de direitos fundamentais). Foi o primeiro modelo constitucional.

    Por isso o nome das constituições desse período: constituição liberal – retratava o papel do Estado Liberal (mínimo), limitava o poder. Constituição garantia/defensiva – porque o objetivo central da limitação do poder era o fortalecimento dos direitos individuais.

    A partir desse cenário é possível definir Constituição Garantia como um conjunto sistemático e racional de normas que dispõem sobre a organização do Estado, a organização do poder e direitos individuais.

    - Organização do Estado: refere-se à forma de governo (república ou monarquia), sistema de

    governo (presidencialismo, parlamentarismo ou semipresidencialismo), forma de Estado (federal ou unitário), os órgãos do Estado, suas competências, seus servidores, princípios da administração, abrangendo também a organização do Estado em seu sentido amplo, forças armadas, segurança pública, orçamento público e tributação.

    - Organização do poder: disciplina a titularidade do poder, seu exercício, a limitação do

    poder, os órgãos que traduzem os poderes do Estado, formas de composição, atribuições dos poderes do Estado, limitação desses poderes, sistema partidário, sistema eleitoral e direitos políticos.

    - Direitos individuais: a constituição estabelece a relação desses direitos e as garantias

    fundamentais.

    É o trio temático das constituições clássicas: organização do Estado, organização do poder e direitos individuais.

    II) Constituição Social Esse modelo implementou-se a partir da consolidação do chamado Estado Social, ou Estado

    Providência (Welfare State), o Estado do bem-estar social, Estado Intervencionista, que interfere na vida econômica e social, que disciplina a ordem econômica, que presta serviços nas áreas dos direitos sociais, como saúde, previdência, trabalho, educação, entre outros.

    Em razão dos acontecimentos sociais e econômicos da virada do século XIX para o século XX, (sobretudo alavancados pela Revolução Industrial e no início do